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Loucos um pelo Outro: traumas, amor e comunidade

Não é um bom dia. Está chovendo e tudo parece dar errado para o detetive No Whi-Oh (Jung Woo): seu guarda-chuva está quebrado, ele perde seu sapato na chuva e ainda tem que lidar com uma mulher que jura que ele está a seguindo — mesmo que ele estivesse andando o tempo todo na frente dela na rua.

Atenção: este texto contém spoilers!

Lee Min Kyung (Oh Yeon Seo) também não está em seus melhores dias. Ela esbarra com um homem ranzinza na rua, que insiste em abordá-la, mesmo quando ela claramente o evita, usando óculos escuros mesmo na chuva e sem nenhum tipo de contato visual. Tudo piora quando ela percebe que o mesmo homem aparentemente a segue até o consultório de sua psiquiatra, e destrói um guarda-chuva aos gritos sem nenhum motivo aparente.

Do consultório psiquiátrico para delegacia, Min Kyung acusa Whi-Oh de assédio, o que se revela um grande mal entendido. Ambos então percebem que são pacientes da mesma médica e, por isso, estavam no mesmo prédio. Mas essa não é a única coincidência: eles também são vizinhos de porta, no prédio para onde Min Kyung se mudou há pouco tempo. É neste cenário levemente caótico que a história de Loucos um pelo Outro começa. E, bom, gritos, surtos e viagem até a delegacia não configura bem um meet-cute, não é mesmo? Não é como se fosse um momento engraçadinho e fofo para iniciar uma história de amor. É tudo uma grande loucura, e os protagonistas veem um ao outro dessa forma: loucos.

Loucos um pelo Outro

Enquanto No Whi-Oh tenta lidar com seus ataques de raiva e reconquistar sua posição e prestígio na polícia da Coreia do Sul, Lee Min Kyung se esconde do mundo e de seu passado sofisticado por conta de seu estresse pós-traumático. Porém, a vida dos dois passa a ficar um pouco mais complicada, uma vez que eles, mesmo se odiando, se esbarram diariamente no prédio e na vizinhança onde vivem, despertando o que há de pior e de melhor um no outro.

Aprender a lidar com as próprias emoções e superar traumas do passado é o tema central de Loucos um pelo Outro, um k-dramas relativamente curto, com 13 episódios de cerca de 30 minutos cada. Esta é uma duração diferenciada, considerando que a maioria das séries coreanas possui episódios mais longos, com mais de uma hora. No entanto, mesmo neste curto período de tempo, o drama aborda temas profundos, como saúde mental, traumas, violência de gênero, preconceitos, diversidade, e a vida em comunidade, além de sentimentos como raiva, amor, repulsa, tristeza, alegria e felicidade.

Ao longo dos episódios, há diversos momentos em que Whi-Oh é obrigado a lidar com sua raiva, muitas vezes motivada pelo comportamento de Min Kyung, ou ainda pelo sentimento de impotência se ver distanciado de sua carreira na polícia. Já Min Kyung deve sair de sua zona de conforto e tem seus medos escancarados em diversos momentos, seja pelos fantasmas do passado, ou pela sua nova posição como voluntária na equipe de vigilância do bairro.

Como um bom romance, os protagonistas se aproximam a cada capítulo, descobrindo mais sobre o outro e sobre si mesmos. A relação de companheirismo estabelecida aos poucos entre Min Kyung e Whi-Oh destrava muito mais do que o romance entre eles, mas também a possibilidade de criar laços com as outras pessoas ao redor, fazendo amizade com vizinhos, participando mais da vida em comunidade, e construindo uma rede de apoio sólida, algo que ambos os protagonistas necessitam para reconquistarem seu bem-estar. Assim, o amor entre eles não é uma solução, mas um catalisador de mudanças indispensáveis para o processo de cura de cada um.

Loucos um pelo Outro

Loucos um pelo Outro nos ensina que o amor romântico não cura tudo. O processo de superação dos traumas é individual, claro, mas também tem sua faceta coletiva, que não depende apenas de um parceiro ou parceira de um relacionamento amoroso. É apenas criando novas relações, no plural, (re)aprendendo a confiar nos outros, na sua comunidade, doando e recebendo algo em troca que os protagonistas são capazes de usar sua raiva e mediar seus medos de forma saudável, contando com diferentes afetos, como novos amigos, pets, parentes, colegas de trabalho, vizinhos e apoio médico.

O elenco de apoio da série então é essencial para mostrar para os protagonistas e telespectadores que valores como amizade, respeito, companheirismo, confiança, sinceridade e cumplicidade são essenciais para se reerguer após as quedas da vida. Ao mesmo tempo em que nada é perfeito. Todas as personagens têm seus defeitos, exageros, preconceitos e excentricidades, que podem (ou não) ser superados durante a temporada, mas que deixam a história mais verossímil e cativante.

Loucos um pelo Outro faz com que torçamos para o bem-estar e a superação dos desafios de No Whi-Oh e Lee Min Kyung, bem como pelo relacionamento entre eles, comemorando cada aproximação. Mas também, almejamos a integração de cada um deles em sua nova vida, um novo que vai surgindo durante e após o processo de cura de cada um, marcado e celebrado por todas as novas conexões — entre eles e todos os moradores da vizinhança.

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