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Como Greta Gerwig reinventou Amy e Meg March

Jo March é uma heroína atemporal. Sua veracidade para buscar o que quer, lutar por um destino que não a limite a apenas uma coisa e sua jornada para encontrar sua voz dentro de um mundo comandado por homens é uma das histórias mais brilhantes já contadas na literatura — e nem é preciso reforçar que isso inspirou milhares de meninas que sonhavam e ousavam querer mais do que lhes era designado pelo destino ou pelo sexo. No filme de Greta Gerwig, que adapta mais uma vez o livro Mulherzinhas, é possível perceber um carinho especial pela personagem, e seu trabalho em conjunto com Saoirse Ronan elevou Jo, mais uma vez, a uma das personagens mais importantes criadas na literatura. Mas não foi só isso. Gerwig também reinventou personagens que não tinham o mesmo brilho de Jo e até mesmo foram odiadas durante séculos a fio por aqueles que são fãs do livro (ou de qualquer uma das adaptações anteriores). Estou falando, claro, de Amy e Meg March.

Parece esquisito falar que as pessoas odiavam Meg March porque ela é o famoso nem fede nem cheira. A mais velha das irmãs não poderia ser mais diferente da protagonista: Meg é mais conformada com as situações que a vida lhe apresenta, acaba se casando cedo e vive uma vida modesta com o marido. Com um talento natural para as artes cênicas, sua tendência inicial é bastante materialista e é comum vê-la reclamar sobre a situação financeira da família, que nunca foi das melhores. Na versão de Gerwig, quem vive a personagem é Emma Watson, atriz cujo engajamento com a causa feminista tornou-se amplamente conhecido. Apesar de muitas pessoas argumentarem que sua participação no longa é a mais fraca, me sinto na obrigação de defendê-la: é justo dizer que seu papel não se compara ao de Ronan ou até mesmo o de Florence Pugh (Amy), mas é possível traçar um bom desempenho de sua parte.

Atenção: este texto contém spoilers!

Gerwig divide a narrativa em dois momentos: o primeiro, quando as irmãs ainda são adolescente, e mais tarde, quando cada uma delas está lutando com os problemas da vida adulta. Durante a adolescência, Watson vive uma Meg que é leal a sua família, mas que não deixa de querer vestidos mais bonitos ou participar de bailes. É mais ou menos nessa época que ela conhece o professor de matemática John Brooke (James Norton), com quem mais tarde acaba se casando. Quando a narrativa corta para o futuro, Meg já é uma mulher mais velha, com dois filhos e morando em uma casinha pequena, esperando eternamente o marido chegar do trabalho. Aquela Meg radiante e jovem, a qual Emma dá vida antes, já não existe mais, e é possível ver em seus olhos a solidão e a tristeza que acompanha o fim da adolescência, uma época bem mais simples e onde as possibilidades eram infinitas.

Meg March

Essa característica que Watson dá a Meg faz dela uma personagem com mais nuances do que nunca, e fica mais fácil perdoar suas tendências materialistas. Afinal, é importante abordar o que acontece com uma mulher após o casamento, mesmo que seu sonho sempre tenha sido construir uma família. Os pequenos conflitos que acontecem entre Meg e seu marido também são resolvidos com delicadeza e cumplicidade, e mesmo que eles tenham problemas, são questões que acabam se resolvendo com sacrifícios de ambas as partes (o que é muito satisfatório de assistir).

Se Meg ganha uma face mais empática, não é nada comparado ao que Gerwig faz com Amy. Vivida por Florence Pugh, que parece estar na fase mais importante de sua carreira, com Midsommar e até mesmo o blockbuster Viúva Negra, Amy sempre foi a personagem mais odiada devido a sua história complicada com Jo e Laurie (Timothée Chalamet). Enquanto Pugh na adolescência faz uma Amy que é mimada e apronta algumas para se vingar de Jo, como queimar seu livro e supostamente roubar sua viagem para a França, na sua fase mais velha existe um amadurecimento impressionante na personagem.

A verdade é que Amy é tão ambiciosa e inteligente quanto Jo, ela só não lida com as coisas exatamente do mesmo jeito. Com uma aptidão para a pintura, mas com uma visão mais cínica da vida, a história explora um novo lado da personagem ao permiti-la falar mais sobre seus sentimentos, a pressão de ser uma jovem mulher na sociedade e como se sente em relação ao casamento. Durante uma cena ao lado de Laurie, Pugh tem a oportunidade de mostrar sua força como atriz. Na ocasião, ela explica para ele como sente que sua obrigação é se casar com um homem rico, já que nem ela nem suas irmãs poderiam herdar a casa do pai, não tendo nascido homens. Ela diz como o casamento é, na verdade, apenas uma transação, e que se ela não puder ser melhor na pintura, ela prefere não ser nada. Seus sentimentos, naquele momento, são tão palpáveis e profundos que é impossível não sentir empatia, torcer por Amy e entender os seus sentimentos, que sempre pareceram tão distantes do público em geral. E isso só foi possível graças ao trabalho em conjunto feito por Pugh e Gerwig.

Mais do que isso, essa foi a primeira vez que a decisão geral de deixar Amy com Laurie pareceu realmente funcionar. Chalamet e Pugh criam um romance que é mais pé no chão, gradual e adulto do que qualquer dinâmica que Laurie possuía com Jo. Não é um romance adolescente e urgente, mas construído em pequenos momentos em que Amy deixa transparecer vulnerabilidade e vice-versa.

Amy March

Também é injusto julgar Amy para sempre por decisões que ela tomou na adolescência: essa é a época da vida onde a emoção importa mais do que a razão, e tanto Amy e Meg quanto Jo tomam decisões e agem exatamente de acordo com seus sentimentos. Isso não justifica as várias ações bizarras que ela toma durante esse período e que prejudicam os outros ao seu redor. Mas elas tão são um exemplo do crescimento de Amy como pessoa, que deixa de lado as atitudes mesquinhas da adolescência para dar lugar a uma mulher mais consciente e sensata.

Greta Gerwig reinventa a história de Louisa May Alcott com uma força arrebatadora. Tudo ali parece estar em harmonia: o roteiro incrível, a direção orgânica, que mistura duas linhas do tempo com uma facilidade impressionante, as atuações, a trilha sonora, os figurinos. Durante uma entrevista para a imprensa norte-americana, a cineasta disse que gostaria de fazer filmes sobre mulheres grandes, com elenco maior ainda. Ao ver Adoráveis Mulheres, fica claro a importância de fazer histórias com essas características: criar nuances e complexidades para personagens que durante muito tempo foram limitadas, odiadas, ou, pior ainda, ignoradas pelo público.

Assim como na discussão levantadas pelas três irmãs no longa (Amy, Jo e Meg sobre as histórias que importam e porquê elas são contadas), ao apontar a caneta para mulheres diferentes, que lutam para encontrar sua voz na literatura, para manter seu casamento ou até mesmo para entender seu papel na sociedade, Gerwig fez com que elas importassem e que suas jornadas sejam tão épicas quanto qualquer trama com viés masculino.

Se na literatura clássica, no cinema ou até na TV, homens egoístas, complexos e ambíguos são amados e respeitados, é incômodo ver uma personagem feminina que não se encaixe no padrão pré-estabelecido. Reinventar e criar algo novo e atual com uma obra clássica e tão amada quanto Mulherzinhas parece pouca coisa, mas na verdade é um feito e tanto. Devemos agradecer Greta Gerwig — e que a partir do seu trabalho, a história das irmãs March alcance uma nova geração de mulherzinhas.


** A arte em destaque é de autoria da editora Ana Luíza. Para ver mais, clique aqui!

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1 comentário

  1. Olá Carol, que texto incrível! Você descreveu exatamente o que eu venho pensando sobre a Meg e a Amy de Gerwig, desde que assisti o filme. É impressionante a força que uma nova adaptação pode ter e a mudança de percepção provocada com a junção de um roteiro potente + atores que se preocupam em transmitir, ainda que de forma sutil, suas ideias pessoais a fim de provocar um novo olhar sobre suas narrativas. Mesmo que Jo tenha uma relevância maior no enredo (dado a sua importância e a sua influência na vida de praticamente todos), acredito que cada irmã apresenta um papel singular e de muita relevância, que me faz analisar um pouco melhor o mundo a minha volta. Louisa May Alcott criou uma obra magnífica capaz de tocar em muitos pontos necessários para a nossa sociedade até os dias de hoje. Fiquei pensando e, se pudesse me transportar para alguma ficção literária, gostaria de ser a quinta irmã March ~ dilemas de filha única ~ hahah. Lembro de sair da sala do cinema, lá em Janeiro de 2020, sem nem imaginar tudo o que aconteceria, com o coração quentinho. Obrigada por esse lindo texto sobre esse filme que tanto me encantou. Até adicionei a publicação nos meus favoritos para eu não perder! Beijos <3