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Os contos-poemas de Redemoinho em Dia Quente

Que potência tem a voz de Jarid Arraes. A autora me inspira e por isso foi tão difícil escrever este texto. Gostaria que fosse quase uma carta, uma revelação do meu amor pela sua escrita. Quando penso nela, penso também em Conceição Evaristo, outra autora brasileira de grandiosidade. Ambas me encantam, entristecem e compadecem na mesma forma. Evaristo traz em sua escrita o conceito de escrevivência: escrever com o que viveu, usar a literatura como forma de reivindicação da sua ancestralidade e do seu lugar como mulher negra. Não sei dizer se estou apta a me dirigir a duas autoras tão magistrais, mas vejo na obra de Arraes um reflexo de Evaristo. Pela forma com a qual descreve suas mulheres, fortes e singelas; pela forma com a qual ela retrata com carinho a região onde nasceu e cresceu, no Cariri. Arraes é um olhar de frescor na literatura brasileira contemporânea e por isso esse texto-declaração (como escreveria Conceição, unindo duas palavras com um hífen) é uma forma de enaltecer o seu trabalho.

Uma autora completa

Jarid Arraes nasceu em Juazeiro do Norte, região do Cariri. Além de escrever prosa, a cearense de 29 anos também é poeta e, acima de tudo, cordelista, tendo mais de 70 títulos de cordel publicados. A autora, que foi alfabetizada em casa pela mãe, aponta que sua influência na escrita veio de pai e avô, que também publicavam cordéis e que, quando criança, apaixonou-se por poesia na escola ao ouvir Manuel Bandeira. Depois vieram Drummond e Augusto dos Anjos, iniciando uma trajetória. De forma independente, lançou As Lendas de Dandara, sua primeira prosa, e Heroínas Negras Brasileiras em 15 Cordéis, sendo que o último recebeu uma nova edição pela Seguinte em setembro de 2020. Além dos dois títulos, Arraes ainda tem um livro de poesia chamado Um Buraco com Meu Nome, lançado em 2018, promovido pela própria na Feira Literária de Paraty (FLIP).

Foi na FLIP de 2019 que ocorreu o maior lançamento de Jarid até o momento: seu livro de contos, intitulado Redemoinho em Dia Quente. Publicado pela Alfaguara, selo da Companhia das Letras, o livro foi vencedor do prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) de literatura em sua categoria. O processo de escrita começou em 2014, quando Jarid mudou-se do Ceará para São Paulo e foi amadurecendo ao longo do tempo, principalmente durante a viagem que a escritora fez ao Cariri no final de 2018. Com base no registro fotográfico, Arraes compôs seus 30 contos que formam a obra, dividida em duas partes. A comparação com Conceição Evaristo não é em vão, assim como o projeto literário da autora mineira, a obra de Arraes é política, de tradição e sotaque e de mulheres diversas e singulares. Seus contos-poemas são uma jornada de descobrimento.

O fervor feminino de Redemoinho em Dia Quente

O fator de congruência entre as pequenas histórias de Jarid Arraes é sem dúvidas as personagens femininas. A autora faz questão que sejam mais diversas possíveis, mas é de prioridade dela que os contos sejam protagonizados pelas manifestações do feminino. Outros temas como o preconceito e a religião aparecem, além de brincar com as noções de realismo. Acontecimentos típicos do dia a dia da região de Juazeiro ganham um tom de fantasia nas palavras de Arraes. Em “Até ás nove”, por exemplo, a rotina de uma idosa que passa parte de seu dia na calçada de casa observando a rua ganha contornos de surrealismo. É com formato de conto e escrita poética que a escritora cria a sua versão do pedacinho de Brasil, recheado de figuras extraordinárias que passariam despercebidas por nossos olhares.

A devoção anda lado a lado com as personagens de Redemoinho em Dia Quente, manifestando-se em fala e em gesto. A religião é inseparável do cenário e perpassa as histórias de forma tão presente quanto o ar. No conto que abre a obra, “Sacola”, uma senhora muito religiosa encontra um saco plástico cheio de pílulas alucinógenas. Antes de devolver o achado, a mulher opta por ingerir um comprimido, o que causa visões de Padim Padre Cícero, figura religiosa muito presente no Cariri e de quem é devota. A temática religiosa também é utilizada por Arraes para tensionar outras problemáticas, como a violência doméstica em “Gesso” — um dos meus favoritos — e os limites entre fé e loucura em “Santa com base marcada”.

O protagonismo feminino é outro ponto de destaque. É partir dele que Arraes consegue esmiuçar o que é intrínseco à vivência da mulher comum: a misoginia, o racismo, a LGBTfobia. Seja em “Moto de mulher”, protagonizado por uma mototáxi, em “Voz”, cheio de referências a cultura dos anos 90 e com uma mulher transsexual na posição de destaque ou em “Marrom-escuro, marrom-claro”, que questiona vivências atravessadas por raça e classe pelo olhar de uma menina, a voz da autora traz visibilidades a essas mulheres multifacetadas, sábias e inquietas. Segundo a própria Jarid em entrevista ao Jornal Rascunho, todas são inspiradas em figuras e arquétipos que ela conheceu no sertão cearense e que foram importantes para a formação de sua maturidade. Sua escrita é uma forma de fazer ativismo, iluminando questões tão necessárias nos debates atuais, saindo de um lugar comum que normalmente é masculino, branco, cisgênero, heterossexual e sudestino.

Outros pontos que chamam a atenção nos contos de Redemoinho são a linguagem e a forma. Utilizando-se de muito sotaque e de uma prosa que remete ao falado, Arraes cria um ambiente sinestésico que remonta onde viveu, quase como se estivesse ao seu lado contando o último relato popular na região. No formato, faz questão de mesclar o conto mais “tradicional” com histórias compostas de diferentes maneiras, como por cartas, enviadas pela protagonista de “Bordado em branco” e definições de dicionário em “Boca do povo”, postado pela própria Jarid em sua conta no Twitter.

Mais iluminada que as outras

Revisitando Conceição Evaristo, a autora afirma — quando discorre sobre seu romance Ponciá Vicêncio — que “(..) o ato político de escrever vem acrescido do ato político de publicar (…)”. Mais uma vez, vejo a literatura de Evaristo e Arraes se atravessarem, principalmente quando a segunda fala abertamente sobre as dificuldades que teve para começar e publicar, sendo uma mulher racializada e de fora do eixo sul-sudeste. Redemoinho em Dia Quente é mais que a maturidade, é a consolidação de mais um nome na literatura brasileira, é um olhar sensível e crítico sobre mulheres mais que especiais. Mulheres essas diversas em raça, em sexualidade, em gosto, em credo, em forma. Jarid Arraes é espelho de um de seus contos-poemas mais belos, é mais iluminada que as outras.


** A arte em destaque é de autoria da editora Ana Luíza. Para ver mais, clique aqui!

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