Categorias: CINEMA, ESPORTE

Skate Kitchen: garotas, skate e amadurecimento

A cineasta Crystal Moselle estava no metrô, em Nova York, quando ouviu uma voz que lhe chamou atenção. Eram três garotas conversando, uma delas falava empolgada sobre algo e todas carregavam skates. Ao observar aquela interação, Moselle decidiu abordar as meninas para conversar. Resumidamente, foi assim que nasceu Skate Kitchen filme de 2018 inspirado, em partes, nas histórias reais das garotas integrantes do grupo de mesmo nome.

Antes, porém, veio uma campanha para a Miu Miu, dirigida por Crystal e protagonizada pelas skatistas do grupo. Só então, Skate Kitchen, o filme, tornou-se uma possibilidade. Essa também não foi a primeira vez que a diretora encontrou pelas ruas da cidade personagens para os seus projetos cinematográficos. The Wolfpack, documentário lançado em 2015, surgiu da mesma forma.

Skate Kitchen é um coming of age, gênero que abriga histórias que retratam os anos especialmente confusos em que não se é mais criança, muito menos adulto. Em um primeiro momento, somos apresentados a Camille (Rachelle Vindeberg), uma jovem introvertida e sem muitos amigos, que mora no subúrbio de Long Island com a mãe. Mas, a história só tem início de verdade quando Camille descobre um grupo de garotas skatistas no Instagram e resolver comparecer a um evento criado por elas em Nova York — rede social usada como estopim para o filme, e teve uma presença orgânica durante o restante do tempo, com menções sobre fotos postadas, troca de mensagens e até influenciando outras ações. É um detalhe simples que torna tudo um pouco mais próximo da realidade. Afinal, quem nunca usou a internet para encontrar e conhecer pessoas com interesses similares aos seus?

We can do it (nós podemos)

Não é difícil, hoje, ouvir que garotas podem fazer e ser o que quiserem. Barreiras e separações de gênero vêm sendo, aos poucos, apagadas ou ressignificadas em nossa cultura. Ver isso acontecer, no entanto, é outra história, e é somente a partir dessas referências que podemos, realmente, nos imaginar ali. Mesmo que seja algo aparentemente simples, como andar em cima de uma prancha com rodinhas. E é na representatividade que reside a força de Skate Kitchen.

Garotas e mulheres skatistas não incomuns: elas estão, principalmente, nos grandes centros urbanos, nas grandes cidades do Brasil e do mundo. Mas para quem mora em uma pequena cidade no interior, essa representação fica mais restrita e a referência pode passar despercebida. No filme, é a descoberta de Camille sobre o grupo de garotas que a leva a ter um contato mais abrangente com esse universo, mas como ela, é a partir de imagens e vídeos de estranhos na internet que muitas garotas encontram a possibilidade de encontrar seus pares, em estranhos que habitam a internet. Skate Kitchen personaliza essas pessoas estranhas, dando-lhes nuances e personalidades únicas, que te envolvem. Mesmo para quem não é um entusiasta do esporte, é impossível não se conectar com aquelas garotas e a energia que compartilham quando fazem, juntas, aquilo que gostam. É algo que transpassa a tela.

Boys will be boys (garotos serão garotos)

“Boys will be boys” (“garotos serão garotos”, em português) é uma frase utilizada principalmente para justificar comportamentos machistas por parte de garotos, como se a agressão ou a violação do direito alheio fossem características inatas ao gênero masculino e não aprendidas socialmente. É uma desculpa esfarrapada, que, de outra forma, também significa que existe apenas uma personalidade possível aos garotos: serem barulhentos, bagunceiros, briguentos — características que priorizam um único modelo de masculinidade e não aceita rapazes que demonstrem qualidades associadas ao feminino e, portanto, inferiores.

Essa é uma discussão complexa e não é o foco deste texto. O que de fato interessa nesse momento é a maneira como essas características e comportamentos são performadas em Skate Kitchen. Falar palavrão, não ter medo de cair com a cara no chão, brigar por seu espaço quando necessário ou por alguma bobagem: todas são ações praticadas tanto por garotas quanto pelos garotos skatistas com quem elas interagem. E assistir a essas garotas sendo imperfeitas e indisciplinadas faz perceber o quão pouco vemos mais personagens como elas naquilo que consumimos culturalmente. Como uma garota que gostava de fazer atividades pouco delicadas — subir em árvores, brincar de luta, para citar alguns exemplos — e com frequência voltava com um joelho ralado para casa, essas representações fazem ainda mais sentido, especialmente porque, à medida que crescemos, esses comportamentos vão sendo podados, transformados em algo menos “selvagem”, o que não acontece aos garotos.

Junto ao lado indisciplinado e voraz das garotas, também vemos no filme experiências que fazem parte do crescer sendo mulher: das conversas francas e sem pudores sobre absorventes, insegurança, sexo e até mesmo abuso, Skate Kitchen encontra espaço para abordar aquilo que torna nossas experiências tão únicas. Em uma cena memorável, as garotas estão espalhadas pelo quarto de Janay (Dede Lovelace) enquanto debatem sobre os prós e contras do absorvente interno. Outra, quando estão a caminho de uma festa, Indigo (Ajani Russell) compartilha uma situação confusa e abusiva por qual passou.

As cenas entre Camille e sua mãe — brigas e reconciliações — também estão entre os aspectos mais comoventes do filme. Elas têm uma relação de altos e baixos devido a separação de Renata (Elizabeth Rodriguez) do pai de Camille. A mãe tenta entender a filha, mas porque é de outra geração e possui outras vivências, a tarefa acaba por ser mais complicada para ela. Já Camille não sabe como se abrir e acaba sendo desrespeitosa. Elizabeth Rodriguez é quem acaba tendo o mérito ao encontrar um terreno em comum, conseguindo tirar o máximo em seus momentos ao lado de Rachelle Vindeberg (algumas falas, afinal, soam meio forçadas, o que é compreensível quando lembramos que mais da metade do elenco está atuando pela primeira vez).

Muitas dessas experiências já são suficientes por si mesmas e, por isso, todo o enredo envolvendo Devon (Jaden Smith) acaba deslocado, ocupando um espaço que poderia ser dedicado às histórias de outras garotas do grupo. A discussão que acontece após a aproximação entre Camille e Devon, ex de Janay, faz com que a protagonista se afaste das skatistas, que deixam de aparecer tanto em cena. A partir desse ponto, o filme perde muito do que até então o fizera tão cativante e diferente. Enquanto filmes como Mid 90’s, lançado no mesmo ano e dirigido por Jonah Hill, seguem uma temática similar, que envolve o coming of age ao cenário skatista, com protagonistas que têm problemas em casa e encontram na amizade um lugar de pertencimento, eles continuam a empolgar menos (ainda são garotos contando histórias de garotos) e por isso a presença feminina em Skate Kitchen é o que o torna tão singular.

Skate Kitchen não é o primeiro filme que traz mulheres em cenários que, por muito tempo, foram dominados pelo público masculino, e não será o último. Mas é um novo título para essa lista crescente e que, apesar dos deslizes, merece sua atenção.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *