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SOUR, Olivia Rodrigo e a influência de Taylor Swift nos sentimentos da Geração Z

Uma década atrás, o mundo estava em êxtase com a ascensão de Taylor Swift, que fazia sua transição do gênero country para o pop, mas seu caminho até o sucesso não foi de todo simples. Para se tornar uma das maiores artistas de sua geração, Taylor enfrentou uma indústria e mídia machistas, mas sempre conseguiu se manter fiel aos seus sentimentos e experiências. Olivia Rodrigo, lançando o seu primeiro álbum décadas depois do début de Taylor, é o exemplo perfeito de como a arte de Swift serviu de base para milhares de jovens que cresceram ouvindo suas composições e decidiram se permitir viver e sentir todos os sentimentos do mundo sem ter vergonha deles.

“drivers license” e “deja vu”

Protagonista de High School Musical: The Musical: The Series, da Disney, Olivia passou a ser sucesso nas paradas da Billboard da noite para o dia após lançar o seu primeiro single “drivers license”, que fala sobre as dores de um término e a nostalgia de algo que não existe mais, uma canção permeada pela dúvida a respeito do que seu relacionamento poderia ter sido se não tivesse chegado ao fim.

O sucesso da música poderia ser exclusivamente da sua composição, da melodia ou da voz de Olivia Rodrigo, que nos transporta para uma viagem de carro sem destino durante a madrugada enquanto cantamos com os vidros abertos; porém, ao se tratar do sucesso de uma jovem mulher, a mídia faz o que faz de melhor e tenta justificar o seu mérito inserindo um homem em sua narrativa, colocando-o como o motivo de tudo. Não importa se a música foi inspirada no romance de Olivia com seu co-protagonista na série, Joshua Bassett, ou se o novo relacionamento dele é mesmo com Sabrina Carpenter; o que importa é que “drivers license” extrai os sentimentos mais puros e sem filtro de sua compositora e nos envolve em uma balada melancólica que rasga o seu coração enquanto nos permite ver um fragmento de sua vida.

“Sidewalks we crossed
I still hear your voice in the traffic, we’re laughing
Over all the noise
God, I’m so blue, know we’re through
But I still fuckin’ love you, babe” 

“Calçadas que atravessamos
Eu ainda escuto sua voz no trânsito
Nós dois rindo por cima de todo aquele barulho
Deus, eu estou tão triste, sei que terminamos
Mas eu ainda te amo pra caralho, meu amor”

O segundo single, “deja vu”, nos leva por outro sentimento na mesma temática, refletindo sobre o padrão de comportamento do seu ex com relação à sua nova namorada. Agora, Olivia imprime certa raiva nos versos da canção, mas sem deixar a melancolia de lado quando pensa e relembra as coisas que ela e seu então namorado faziam juntos e que, agora, o destinatário da canção faz com seu novo amor.

“And I bet that she knows Billy Joel
’Cause you played her “Uptown Girl”
You’re singin’ it together
Now I bet you even tell her how you love her
In between the chorus and the verse”

“E aposto que ela conhece Billy Joel
Porque você tocou para ela Uptown Girl
Vocês estão cantando juntos
Agora eu aposto que você até diz para ela como você a ama
Entre o refrão e o verso”

Com a faixa, Olivia se prova uma garota da sua geração, inspirada por artistas e compositores como Lorde e seu Melodrama, em que os objetos de suas canções não importam tanto quanto o sentimento cuspido em palavras e o poder delas em sua voz. Apesar de estar sempre cantando sobre alguém ou uma situação, Olivia não está de fato cantando sobre aquela pessoa ou sobre aquele lugar, mas sim sobre os sentimentos e emoções vividas ao passar por algo e como isso constrói a mulher em que ela está se transformando.

Olivia Rodrigo, por meio de suas composições, prova que também está se tornando um dos maiores nomes de sua geração de artistas e não demorou, após o lançamento das duas canções, para que sua gravadora atualizasse o contrato com ela: apenas algumas semanas após o lançamento de “drivers license” e “deja vu”, SOUR, seu primeiro álbum completo, é anunciado para o mundo e para o deleite dos fãs.

SOUR e o pop rock indie pós-Lorde

O título do álbum e a primeira linha de “brutal” (“I want it to be, like, messy”, ou, em português, “eu quero que seja, tipo, bagunçado”), canção que abre o primeiro trabalho completo de Olivia, encapsula toda a temática de SOUR: uma onda de sentimentos amargos sobre o mundo a partir do fim de um relacionamento que deveria ser doce. E são esses sentimento que são despejados por Olivia em uma bandeja de experimentos musicais em gêneros diversos que acompanhamos ao longo das onze faixas do álbum.

Faixas como a já citada “brutal”, além de “good 4 you” e “jealousy, jealousy”, trazem outro lado de Olivia que ninguém esperava existir ao tomar como base seus dois primeiros singles. Essas canções capturam qualquer um que esteve presente no cenário pop rock dos anos 2000 com os melhores trabalhos de Paramore e Avril Lavigne. Na primeira faixa, “brutal”, Olivia canta sobre os enganos da juventude, sobre o sonho adolescente (“Where’s my fucking teenage dream?”, ou em bom português, “Onde está a porra do meu sonho de adolescente?”) e a promessa de que esses serão os melhores anos de sua vida apenas para ver tudo se transformar em uma série de corações partidos, traição e desapontamentos sobre os quais ninguém a preparou. Logo de cara, conseguimos sentir algo que destaca Olivia Rodrigo de outras artistas que já carregaram o título de estrelas da Disney: a sua liberdade e autonomia de escrever a sua própria história e dizer o que precisa ser dito sem tantas amarras ou a suposta pressão. Aos dezessete anos, Olivia canta sobre como é brutal ser uma jovem no mundo atual sem medo de contar a verdade a respeito do que está sentindo.

“And I’m so caught up in the news
Of who likes me and who hates you
And I’m so tired that I might
Quit my job, start a new life
And they’d all be so disappointed
‘Cause who am I if not exploited?
And I’m so sick of seventeen
Where’s my fucking teenage dream?”

“E estou tão envolvida nas notícias
De quem gosta de mim e de quem te odeia
E estou tão cansada que poderia
Sair do meu trabalho, começar uma nova vida
E todos eles ficariam tão decepcionados
Porque o que eu sou, se não explorada?
E eu estou tão cansada dos meus dezessete anos
Onde está a porra do meu sonho de adolescente?”

No mesmo caminho, a faixa “jealousy, jealousy” expõe os padrões irreais que a sociedade impõe em jovens garotas e as comparações que forçam uma nas outras. Olivia fala sobre o seu vício em redes sociais e como estar o tempo inteiro se comparando com outras pessoas pode afetar a sua autoestima e estimular uma rivalidade sem sentido entre meninas.

“I know their beauty’s not my lack
But it feels like that weight is on my back
And I can’t let it go”

“Eu sei que a beleza delas não falta em mim
Mas parece que esse peso está nas minhas costas
E eu não consigo esquecê-lo”

Já em “good 4 you”, Olivia se afasta um pouco das comparações com Taylor Swift e prova ser sua própria pessoa e artista. A canção carregada de sarcasmo nos leva para uma aventura em que o eu-lírico observa a rapidez com que seu ex seguiu em frente após o fim do relacionamento entre eles. O vídeo para a faixa é uma obra-prima e mostra Olivia Rodrigo incorporando uma líder de torcida que se vinga do ex-namorado ateando fogo no quarto dele, seguido por uma inundação. Ao final, a cantora ressurge em um lago com os olhos cheios de sangue, completando também suas homenagens aos anos 2000 com a estética de Mandy Moore em O Diário da Princesa e a alma vingativa de Megan Fox em Garota Infernal.

A influência de Taylor Swift nos sentimentos da Geração Z

Na faixa “1 step forward, 3 steps back”, Olivia utiliza um sample deNew Year’s Day, de Taylor Swift, para compor a atmosfera dos primeiros segundos de um relacionamento aparentemente feliz, porém logo entramos em uma realidade mais dolorosa, a de um relacionamento tóxico. A canção de Olivia lembra as dores sentidas e cantadas por Taylor em Speak Now, de 2010, muito mais do que a canção presente como faixa final de reputation, de 2017.

“And maybe in some masochistic way
I kind of find it all exciting
Like, which lover will I get today?”

“E talvez de alguma forma masoquista
Eu meio que acho tudo isso emocionante
Tipo, qual amante eu vou ter hoje?”

“You paint me a blue sky
Then go back and turn it to rain
And I lived in your chess game
But you changed the rules everyday
Wonderin’ which version of you I might get on the phone, tonight” — Taylor Swift, “Dear John”

“Você me pintou um céu azul
E voltou para transformá-lo em chuva
E eu vivia no seu jogo de xadrez
Mas você mudava as regras todo dia
Eu ficava imaginando com qual versão de você
Eu iria falar no telefone à noite”

Nas faixas seguintes, Olivia constrói a narrativa de um relacionamento pouco saudável, com a manipulação presente na faixa “traitor” (“Ain’t it funny? Remember I brought her up/ And you told me I was paranoid?” ou “E não é engraçado? Lembra que eu a citei/ E você me disse que eu era paranóica?”), a baixa autoestima de “enough for you” (“Tried so hard to be everything that you liked/ Just for you to say you’re not the compliment type” ou “Tentei tanto ser tudo que você gosta/ Só para você dizer que não é do tipo que elogia”), e a turbulência de sentimentos e questionamentos que passam pela nossa cabeça uma vez que esse relacionamento não existe mais e tentamos nos agarrar aos destroços como em “favorite crime” (“The things I did /Just so I could call you mine/ The things you did/ Well, I hope I was your favorite crime” ou “As coisas que eu fiz/ Só para eu poder te chamar de meu/ As coisas que você fez/ Bem, espero que eu tenha sido seu crime preferido”).

As páginas do seu diário transformadas em canções são a porta de entrada aos sentimentos e experiências que Olivia passou nos anos finais de sua adolescência. Não é difícil aceitar que nós não teríamos a experiência de ouvir Olivia despejando seus sentimentos sem vergonha nenhuma em melodias se não fosse pela influência de Taylor Swift na geração atual de compositores e artistas. Taylor não é a primeira compositora a criar músicas a partir de sua vivência, porém a forma como a cantora se manteve fiel e cuidou de sua carreira mesmo com as críticas, pressão e rumores criados por uma indústria machista e cruel, fez com que ela se tornasse inspiração para milhares de jovens que tem muito a dizer.

Olivia Rodrigo se torna parte de um legado de jovens que se inserem e tomam lugar na narrativa de se tornarem protagonistas de suas próprias histórias em um mundo em que a imagem de uma garota adolescente e seus sentimentos são demonizados e rejeitados; e amplia a voz de milhares de garotas que ainda estão no caminho de se encontrarem e criarem arte e dar poder aos que estão sentindo.

SOUR termina com “hope ur ok”, canção em que Olivia se afasta do papel de protagonista para dar voz a quem não tem um espaço. Sendo parte da Geração Z, que abraça a diversidade e quer ver uma mudança no mundo, Olivia se recorda de amigos com quem não tem mais contato e fragmentos de histórias que cresceu ouvindo, de um mundo intolerante e que preza mais por crenças do que pelo amor. A canção soa como um sopro de esperança, um abraço quentinho e um lembrete de que devemos estar orgulhosos de estarmos aqui e contando as nossas histórias — mesmo que, de alguma forma, ainda tentem nos derrubar.

sour

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2 comentários

  1. Texto perfeito, desde que o álbum saiu é impossível não pensar na relação entre as música das duas. Só sobre Good 4 u, talvez seja uma das composições em que ela mais me lembra a Taylor. Justamente pelo sarcasmo, me levou direto para Picture to Burn, Should’ve Said No, Forever and Always e por aí vai

  2. Cara, essa garota é MUITO BOA! As composições primorosas, os arranjos super ousados, vai ser impossível esquecer Olivia nos próximos anos.