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A (falta de) jornada das personagens femininas em Criminal Minds

Séries policiais estão consolidadas como um dos gêneros preferidos do público. Seja para aqueles que acompanham episódios sortidos, o que é possível dado à característica do gênero de desenvolver uma trama por episódio, como para a parcela do público que acompanha episódio a episódio a vida privada dos agentes envolvidos. Para aqueles que possuem TV por assinatura, existem até canais que exibem o gênero 24 horas por dia.

Entre as preferidas do público brasileiro, exibida diariamente pela emissora AXN, está Criminal Minds. Depois de acompanhar 15 temporadas da série, que exibiu seu último episódio este ano, não há como não notar a diferença no desenvolvimento que as personagens femininas possuem em relação aos seus colegas homens, mesmo com o passar dos anos e do aumento de discussões sobre igualdade de gênero e feminismo na esfera pública. Essa questão em séries do gênero é herança de muitas décadas.

Uma das personagens femininas pioneiras em séries policiais foi a Sargento Suzanne “Pepper” Anderson, protagonista da série Police Woman, produzida entre 1974 e 1978. Pepper, interpretada por Angie Dickinson, era parte de uma equipe com mais três personagens masculinos e quase sempre trabalhava disfarçada. No artigo “As representações de mulheres em Police Woman, CSI e depois”, Ivia Alves fala que “as escolhas dos disfarces mostram como esse personagem foi construído para a ‘delícia’ dos homens: travestida de stripper, de enfermeira ou de prostituta, sua principal função era atrair os contraventores pela sedução”.

Além disso, a autora destaca que a escolha de uma mulher na faixa dos 40 anos para interpretar Pepper tem como consequência afastar jovens de escolhas semelhantes de trabalho, porque a impressão que fica é que leva anos para alcançar estabilidade em um emprego como esse, e que não há espaço para uma vida afetivo-amorosa ou familiar nessa carreira. Alves lembra que foram necessárias quase duas décadas para que séries policiais voltassem a colocar mulheres em destaque, agora sob uma nova organização social na sociedade, e — como consequência — nos enredos. A partir de 1990, a trama passa a apresentar as mulheres como independentes e no controle de suas vidas privadas e profissionais. É nessa época que surge Law & Order, por exemplo.

Apesar disso, como aponta Alves, a partir de 2005, seguindo uma tendência midiática de apagamento do Feminismo, observamos um retrocesso nesse cenário, as personagens femininas voltam a ter dificuldade de encontrar espaços onde possam demonstrar sua capacidade, racionalidade e independência. Neste mesmo ano, Criminal Minds estreia. A série se destaca e ganha popularidade ao se concentrar no sujeito que realiza o crime, em vez de no crime em si. A Equipe de Análise Comportamental (UAC) do FBI tem a missão de fazer um perfil comportamental dos criminosos e prever seus movimentos para encontrá-los e evitar mais vítimas.

Imagem mostra Elle Greenaway (interpretada por Lola Glaudini) na série Criminal Minds
Elle Greenaway (Lola Glaudini)

A primeira perfiladora mulher a compor a equipe é Elle Greenaway (Lola Glaudini). Ela é filha de um policial estadunidense morto em serviço e de uma mãe cubana. Elle é inteligente, sexy e divertida, se aproximando e criando laços com os membros mais antigos da equipe com rapidez. Mas esses laços são corrompidos rapidamente quando Elle, que está passando por um quadro de estresse pós-traumático, mata um estuprador a sangue frio. Os colegas de Elle não percebem a dor que ela está carregando, e os que percebem não interferem adequadamente. Mulheres não podem demonstrar os traumas que carregam, mesmo que infelizmente eles façam parte de quem são, porque, se sem isso, já há dúvida sobre sua capacidade, com eles, essa dúvida aumenta ainda mais.

Elle age irracionalmente, contra todos os seus princípios, porque carregou uma dor por tempo demais. Mas sua personagem não tem chance de redenção. Excluída do resto da equipe, e sabendo que vai ser demitida, ela entrega arma e distintivo para Aaron Hotchner (Thomas Gibson), chefe da Unidade. O que Elle fez foi errado, mas o que a levou a fazer isso foi a ideia implantada na sociedade que mulheres são controladas pelo sentimento e não podem cometer erros. Vale lembrar que temporadas depois, o personagem David Rossi (Joe Mantegna) também matou um personagem a sangue frio, levado pela dor do luto, mas foi encoberto e acolhido pela equipe. Elle não é a única personagem que age movida por sentimentos. Jennifer Jareau (A. J. Cook), ou JJ, é apresentada inicialmente como a Relações Públicas da Unidade, seu trabalho é mais burocrático, ela é responsável por receber os casos e avaliar qual merece a atenção da equipe, além de lidar com a imprensa. Diversas vezes vemos ser reforçado pelos outros personagens o fato que JJ age mais com os sentimentos, principalmente na escolha dos casos. Ironicamente, é essa empatia que faz com que a personagem também se destaque e seja uma ótima mediadora, cobiçada por outros departamentos.

Após um tempo trabalhando no Departamento de Defesa, em uma missão especial no Afeganistão, JJ volta à UAC, agora como perfiladora. Depois desse retorno, há uma mudança no desenvolvimento da personagem. Ela se mostra mais confiante e forte, apesar de em alguns pontos ainda ser levada mais pelo emocional do que pelo racional. JJ também representa outra situação vivida pelas mulheres: a da dupla jornada. Ela não precisa ser só uma ótima agente, que muitas vezes viaja por dias para trabalhar em casos, mas também uma ótima esposa e mãe de dois garotos. São poucos os episódios em que Criminal Minds mostra o cansaço e o estresse causado por essa situação. Na maior parte do tempo, JJ é representada de uma forma idealizada como a mulher que consegue fazer tudo.

JJ esteve presente durante quase todas as temporadas, exceto na sexta, quando A. J. Cook foi de Criminal Minds cortada por falta de orçamento, junto com outra atriz, porque aparentemente as personagens femininas são mais descartáveis do que os masculinos. A única personagem que esteve mais presente na série foi Penelope Garcia (Kirsten Vangsness), a analista técnica da Unidade. No artigo “A Inclusão das ‘diferentes’ nas séries televisivas”, Ivia Alves aponta que Penélope segue o estereótipo do nerd nos anos 2005: fora dos padrões, usa óculos, tem um espaço próprio com seus equipamentos. Quando não está trabalhando, passa seu tempo online, muitas vezes é usada como alívio cômico e encontrou no mundo virtual um escape para os problemas pessoais. Mas o principal sobre Penélope é que sem ela, a equipe não funcionaria.

Imagem mostra Penelope Garcia (interpretada por Kirsten Vangsness) na série Criminal Minds
Penelope Garcia (Kirsten Vangsness)

Apesar de não ser uma perfiladora propriamente dita, ela é responsável por encontrar os dados decisivos para montar os perfis e resolver os casos. Ela é a melhor no que faz, mas como as outras personagens mulheres da equipe, também é mais sentimental do que racional. Tem dificuldades para ver cenas de crime e se envolve intimamente com cada caso e membro da equipe. O que o enredo demora para deixar explícito é que, apesar disso, Penélope encara as piores coisas quando está online, coisas que o resto da equipe nunca verá. Ao longo da temporada entendemos por que a personagem age como age e as dores que carrega. Ela se tornou tão querida pelo público e importante para a trama, que sua saída marca o final de Criminal Minds. Penélope segue em busca de trabalhar com o que realmente gosta, uma ONG.

JJ, Pénelope e Emily Prentiss (Paget Brewster) são as três personagens femininas mais desenvolvidas em Criminal Minds. Emily entrou para a Unidade após a saída de Elle, contra a vontade de parte da equipe. Ex-Interpol e filha de diplomatas, Emily representa uma dualidade herdada de séries como Police Woman. Se, por um lado, no trabalho ela é ágil, independente, inteligente, e líder, na sua vida pessoal ela é emocionalmente instável, seja pelos problemas com a mãe ou nas dificuldades de se relacionar com outras pessoas. Ao mesmo tempo que encara os piores criminosos no trabalho, seu relacionamento mais longo é com um gato. A marca dessa divisão é na décima segunda temporada, após a saída de Aaron da Unidade, quando ela é convidada a chefiar a equipe. Ela abre mão do relacionamento que estava constituindo em Londres — onde chefia uma Unidade da Interpol desde a oitava temporada — para voltar aos Estados Unidos.

Parece que nas temporadas finais a equipe de produção percebe que não é preciso abrir mão da carreira para ter uma vida pessoal, nem vice-versa. Emily havia começado um relacionamento com Andrew Mendoza (Stephen Bishop) quando ele decide se mudar para perto da filha em outro estado e convida Emily para ir com ele. Ela nega, por não querer abrir mão de seu cargo, e inicialmente se afasta dele. Mas, depois, percebe que o relacionamento pode funcionar à distância e paralelamente ao seu trabalho. A dualidade vida profissional versus vida particular também é usada com outras personagens. A fechada Dra. Alex Blake (Jeanne Tripplehorn), de quem conhecemos pouco nas duas temporadas —  oitava e nona — que participa, também é representada dessa maneira. Ela atua como agente no FBI e professora de linguística na Universidade, área em que possui PhD. Enquanto no trabalho ela é ótima no que faz, na vida pessoal carrega a dor da perda do filho e vive um relacionamento distante — não somente no sentido geográfico — com o marido.

Alex também precisa tomar uma decisão, ao ser convidada pelo marido para os dois viverem juntos e voltarem a lecionar em tempo integral. Em um primeiro momento, ela escolhe continuar no FBI e manter o relacionamento à distância, mas, uma temporada depois, deixa a equipe para lidar com os traumas do passado e viver com o marido, principalmente pela dor e medo que sentiu quando o Dr. Spencer Reid (Matthew Gray Gubler) quase foi morto em um caso. Para substituir Alex, Kate Callahan (Jennifer Love Hewitt) entra para a Unidade. Ela é a personagem que mais conhecemos em apenas uma única temporada. A personagem também vive uma dupla jornada com sua filha adotiva, filha biológica da irmã de Kate que morreu no 11 de setembro, e marido. A relação com sua filha é complicada quando a personagem descobre estar grávida. No final da nona temporada, após sua filha ser sequestrada por uma rede de tráfico humano, Kate resolve se afastar do FBI para estar com a família e com o novo bebê que iria nascer.

Imagem mostra Dra. Tara Lewis (interpretada por Aisha Tyler) na série Criminal Minds
Dra. Tara Lewis (Aisha Tyler)

Com isso, Dra. Tara Lewis (Aisha Tyler) se junta a equipe para cumprir a quota. Sempre é válido lembrar que questões de gênero também estão ligadas com outras, como a de raça. Tara é a segunda personagem mulher negra que compõe a equipe. A primeira foi a rápida participação de Jordan Todd (Meta Golding), que substitui JJ durante a primeira licença maternidade da atriz e deixa a equipe após não conseguir lidar com o estresse do trabalho. As duas personagens são as únicas que estão na equipe e não aparecem na abertura da série. Meta Golding na quarta temporada, e Aisha Tyler na décima primeira. Tara é parte da equipe durante quatro temporadas e, mesmo assim, conhecemos pouco sobre a personagem, mesmo que a décima quarta e quinta temporadas estejam centradas principalmente nas vidas pessoais da equipe. Sua trama pessoal está majoritariamente ligada a homens. O ex-namorado agressivo e o ex-namorado viciado, que Tara teve que encontrar uma força para deixar, e o irmão mais novo, com quem tem problemas pessoais. Mas não descobrimos muito mais sobre Tara além disso.

Não só em Criminal Minds, mas em várias séries do gênero, as personagens femininas são usadas constantemente como forma de renovar o elenco e trazer novas histórias, com uma rotatividade muito maior se comparado ao elenco masculino. A personagem que representa isso ao extremo é Ashley Seaver (Rachel Nichols), que entrou para a equipe na sexta temporada, quando A.J. Cook e Paget Brewster foram afastadas por corte de orçamento. Ashley não chega a participar de todos os episódios da temporada, e o que conhecemos sobre ela é o fato de ser filha de um serial killer que Ross prendeu no passado e estar se formando na academia do FBI. A personagem serviu com o único objetivo de diminuir o orçamento da série, por ser uma atriz nova, e tentar ocupar um espaço da equipe, sendo constantemente comparada à personagem JJ fisicamente e pela personalidade. A produção não achou que ela teve direito nem a uma saída digna, só uma citação rápida de que havia sido transferida para outra unidade.

Criminal Minds foi produzida e exibida durante 15 anos. Durante esse tempo, muita coisa mudou dentro e fora das telas. Em 2017, as atrizes A. J. Cook e Kirsten Vangsness falaram que só iriam retornar para a décima terceira temporada caso recebessem o mesmo salário que seus colegas homens. Enquanto isso, no enredo, suas personagens ganhavam mais destaque e deixavam de estar presas a alguns rótulos, com JJ ganhando mais confiança e chegando a comandar a Unidade por alguns episódios. Mas Criminal Minds não acompanhou todas essas transformações. Mesmo nas últimas temporadas, personagens femininas tiveram seus desenvolvimentos ligados somente a personagens masculinos e personalidades não desenvolvidas, além de carregar os mesmos estereótipos que personagens como Pepper já carregavam desde 1974.

Apesar de todos os problemas, cada personagem que passou pela UAC deixou sua marca. O que queremos agora é que séries policiais parem de usar personagens femininas como cota para renovações de temporada, desenvolvam suas histórias sem estar preso a tipos e estereótipos e que mulheres sejam maioria na equipe.


ALVES, Ivia. As Representações de Mulheres em Police Woman, CSI e depois. In: Mulheres em Seriados – Configurações. Salvador: EDUFBA/NEIM/CNPq, 2015. p. 51-64

ALVES, Ivia. A Inclusão das “diferentes nas séries televisivas”. In: Mulheres em Seriados – Configurações. Salvador: EDUFBA/NEIM/CNPq, 2015. p.65-80


** A arte do topo do texto é de autoria da editora Paloma.

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