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Frank e o Amor: uma história sobre amar e descobrir a si mesmo

Afinal, o que é o amor?

Eu, você e provavelmente, a maior parte dos seres humanos que habitam este planeta já se perguntaram isso alguma vez na vida, em menor ou maior escala. Vemos, falamos, ouvimos, cantamos e, por vezes, procuramos e desejamos o amor — mesmo que não tenhamos uma definição certa sobre isso. O dicionário da língua portuguesa deixa bem claro que a palavra é um substantivo masculino e nos dá uma série de significados, aplicáveis a diferentes contextos. Mas, no fim das contas, parece que o amor é menos sobre descrições absolutas e mais sobre sentir. Especificamente, sobre o que você, acima de tudo, sente e entende como amor.

Frank e Amor, livro de David Yoon com tradução de Lígia Azevedo, diz muito sobre isso. Mas, diferente da maior parte dos livros young adult que encontramos, nós temos esta perspectiva — de descobrir e vivenciar este amor, em suas mais variadas formas — por meio da vida de um adolescente asiático-americano de 16 anos, filho de sul-coreanos que imigraram para os EUA em busca de uma nova vida. O protagonista, Frank, é o caçula da família Li. Bom aluno, ele está no último ano do ensino médio e se tudo der certo, terá um futuro brilhante numa universidade norte-americana de renome. É este o desejo dos seus pais — e, se realizado, é um dos principais checks na escala de sucesso da vida de um filho de imigrantes. Ou, como o próprio garoto diz, “a prova viva de muito trabalho duro e sacrifício”.

Não é só na vida escolar que Frank precisa lidar com as expectativas dos pais. Na vida amorosa também existem certas regras do que seria a nora perfeita. A mais importante é que ela também tenha origem sul-coreana, assim como ele. Se não for assim, o garoto corre o risco de ter o mesmo destino de sua irmã mais velha, Hanna, que se apaixonou por um homem negro e desde então não convive mais com os pais. Se bem aprendemos com as músicas de amor, é que paixão não é algo que se controla nem se escolhe. E Frank acaba se apaixonando por Brit Means, uma garota perfeita a seus olhos, mas que os pais nunca aprovariam — afinal, ela é branca.

Escolher viver esse amor envolve não apenas enfrentar o conservadorismo dos pais, mas também encarar, de forma ainda mais profunda, as questões de identidade tão presentes na mente de Frank. Ninguém melhor para entendê-lo que Joy Song, filha de um casal amigo de seus pais. Também norte-americana e filha de sul-coreanos, da mesma idade que Frank, a garota namora Wu, um rapaz de ascendência chinesa. No entanto, como os pais também não aprovariam o relacionamento, pelas mesmas questões dos Li, a relação acontece às escondidas.

Frank, então, tem uma ideia que usa a expectativa dos pais contra eles próprios. Os Song e Li querem que seus filhos namorem alguém de origem sul-coreana, certo? E se Frank e Joy namorassem, não seriam um par perfeito? Os pais ficariam tão satisfeitos com a relação que não suspeitariam que o namoro, na verdade, é fruto de um plano muito bem orquestrado. Simples: Frank e Joy fingem que namoram, agradam os pais para, assim, poderem sair com quem de fato são apaixonados.

A ideia, aparentemente brilhante, seria perfeita se tudo ficasse apenas na ficção. Existe uma conexão entre Frank e Joy, pelas experiências que vivenciam, que os fazem se entender como Brit e Wu não conseguem. Eles se tornam mais próximos e aquilo que parecia apenas um namoro falso, sem sentimentos românticos reais, acaba crescendo além do que eles esperavam. Lembra das canções de amor? Em todos os idiomas, ritmos e rimas possíveis, elas já tinham alertado: não se controla por quem se apaixona. Hollywood e as comédias românticas engrossam o coro — às vezes, o melhor caminho para o amor é um bom namoro falso, com benefícios para ambas as partes

Frank e Amor já sairia na frente com esta premissa. David Yoon, no entanto, não limita sua história apenas a trope do namoro falso. Seu livro ganha força ao trabalhar a complexidade do que é ser asiático-americano com reflexões sobre raça, amadurecimento e o que é descobrir o amor — e a si mesmo — bem além do que se imaginara.

Atenção: este texto contém spoilers!

A vida como limbo

No livro, os Li se reúnem mensalmente com outros casais amigos, também de origem sul-coreana e que vivem na região. As Reuniões, como Frank chama os encontros, se estendem aos filhos adolescentes. Ele também os autointitula de Limbos, pois ambos vivem em uma identidade flutuante: muito coreanos para serem considerados norte-americanos; muito norte-americanos para serem coreanos. Esta, inclusive, é uma questão sobre a qual Frank sempre reflete ao longo do livro —  afinal, o que ele é? Seus pais se referem a ele como coreano, mas ele próprio não se denomina assim, do mesmo jeito que também não diz que é norte-americano. Quando se descreve, ele fala que é descendente de coreanos ou asiáticos, algo que ele se questiona.

“Os brancos podem se descrever como americanos apenas. Só quando questionados mencionam sua ascendência. Não parece justo que eu leve uma eternidade para explicar minha origem enquanto os brancos não precisam passar por isso.”

Pensar nessas questões levam a outra reflexão: de como o status quo é a cultura norte-americana. Quando a mãe de Frank organiza um churrasco em sua casa, ele reflete sobre o fato de Brit dizer que este será o primeiro churrasco coreano que ela irá frequentar. O denominador do diferente, em comparação ao status quo — o norte-americano — está sempre lá. Mas isto não é uma perspectiva só de Brit, mas também dele próprio. Frank percebe isso quando nota a forma como também faz essa especificação em outras situações, dizendo “música coreana”, “moda coreana”, “novela coreana”. Isso acontece porque apesar de ser filho de pais sul-coreanos, ele nasceu e foi criado nos Estados Unidos — logo, suas principais referências culturais são, também, as norte-americanas.

Frank leva essa discussão de modo mais aprofundado quando conversa com Q, seu melhor amigo, que é negro. Geralmente, o próprio garoto diz, essas conversas são feitas para tirar sarro de um conceito tão abstrato como raça. No entanto, há também espaço para um diálogo com um tom mais pessoal, que traz à tona os estereótipos e expectativas que se lançam aos dois.

Não são, necessariamente, questões que os dois garotos gostariam de sempre ter em mente, mas que a sociedade exige deles. Tentar desvendar o que é ser suficientemente coreano ainda sendo um jovem asiático-americano é uma questão com a qual Frank, inclusive, se pressiona. Ele não deveria saber falar coreano fluentemente? Estar familiarizado com a culinária e sua variedade de pratos? Ele, de todas as pessoas, não deveria ser expert na cultura? É um estresse e uma ansiedade que permeia, de formas diferentes, todas suas relações sociais, especialmente com quem ele ainda não está familiarizado.

Q e Frank poderiam ser apenas mais dois adolescentes vivendo os dramas mais clichês da juventude, como em uma comédia adolescente de John Hughes. Mas no baralho da vida, como Q gosta de falar, eles saíram com um jogo de cartas diferente. Não importa quantas conquistas tenham e quão multifacetados eles sejam — antes de tudo, o status do “diferente” os fazem ser sempre lembrados primeiramente por sua raça. É como Q diz:

“Gente branca pode ser o que quiser e ser branca por último, não antes de tudo”.

Mesmo que sua inserção na cultura coreana não seja a mesma de seus pais, nascidos e criados na Coreia do Sul, Frank também reconhece que ela é parte de seu mundo. Isto fica evidente quando ele, acompanhado de Joy, vai em um festival coreano em Los Angeles. Todos os elementos lhe são tão familiares que ele se sente em casa. Apesar desse sentimento, neste mesmo festival, Frank é criticado por uma senhora coreana quando, ao fazer um pedido em coreano, ele pronuncia, de forma errônea, uma palavra. A mulher o chama de kyopo, termo utilizado para se referir a coreanos que vivem no exterior. O momento deixa Frank tão constrangido que a sensação de pertencimento que ele teve há poucos minutos desaparece. Só fica o desconforto. O que lhe resta — uma eterna existência em limbo?

As tensões raciais

Em Frank e Amor, as tensões que existem nas relações inter-raciais são trabalhadas em três casais: com Hanna e Miles; Joy e Wu; e Frank e Brit. No livro, conhecemos Hanna pelo o que Frank nos apresenta dela. A irmã mais velha, segundo ele, seguiu todos os protocolos de filha modelo: cresceu saudavelmente, foi boa aluna, graduou-se e fez mestrado em Direito na Universidade de Harvard, conseguiu um bom emprego e vive de forma confortável, com um alto padrão de vida. Tudo estava indo perfeitamente bem até ela se apaixonar por Miles, um homem negro.

Diferentemente de Frank, que hesita em desafiar os pais, Hanna nunca se esquivou de discussões. Ela questionava suas falas e apontava seu preconceito e hipocrisia. Naturalmente, quando anunciou o namoro com Miles em uma das Reuniões, ela também não recuou. Ser a filha que fez tudo certo não impediu Hanna de ser rechaçada pela família — como se, ao apaixonar por um homem sem a mesma origem que ela, toda a sua história fosse invalidada. Como ficaria a família perfeitamente homogênea para as fotos de família? E a união sonhada de duas novas famílias coreanas? Se um bebê viesse no futuro, com traços diferentes, quais seriam os questionamentos e comentários que ele levantaria?

Com Joy e Wu, a tensão existe porque ela é descendente de coreanos enquanto ele é de chineses. Frank explica, de forma breve, que o relacionamento também não seria aprovado como reflexo das tensas relações entre China e Coreia do Sul, que existem também com outros países asiáticos. O casal consegue manter o namoro escondido por dois anos, apesar dos questionamentos de Wu. Quando os dois terminam, ela pergunta para Frank: será que nunca vai poder amar quem ela deseja?

Essas dinâmicas de relacionamento são compartilhadas por todos do Limbo. Por isso, quando Frank e Joy anunciam o namoro falso, não é preciso um longo discurso para explicar o porquê deles estarem fazendo isso — eles entendem, porque também possuem a mesma cobrança. Ella, uma das garotas do grupo, até chega a dizer: “A gente só quer amar quem a gente quiser.”

É possível vislumbrar as principais tensões de um relacionamento inter-racial com Frank e Brit. Ao longo do namoro, vemos que existem barreiras culturais entre os dois. Enquanto para Brit não parecer ser uma grande questão, Frank se lembra delas sempre — e não só porque os pais desaprovariam a relação. Ele reconhece que existe uma diferença fundamental entre os dois que, por vezes, não quer admitir. Exemplo disso é quando Frank comenta que vai ao casamento de Kyung Hee, irmã mais velha de Ella, e Brit responde que gostaria de ir numa festa chique com ele. Frank brinca e diz que seria “homogeneidade étnica demais”, já que Kyung Hee está casando com um homem coreano. Ela, por sua vez, responde que seria interessante participar da cerimônia, porque pela primeira vez na vida, se sentiria diferente.

É um comentário aparentemente inofensivo, mas que vem de um lugar de privilégio de Brit. Mesmo que o livro demonstre que ela tenha consciência racial, pelo modo como visualiza e critica os preconceitos de seus pais, ela ainda pertence a uma maioria branca e, querendo ou não, tem todos os privilégios que advêm disso. Frank sabe disso e mesmo incomodado com a fala dela, não comenta nada. O ser diferente, para Brit, seria algo momentâneo. Já para Frank, é um estado que não muda — ele é sempre o diferente e não tem o luxo de poder escolher não ser.

Outro momento no qual este privilégio de Brit é escancarado é quando ela, acompanhada de Frank, “arromba” carros de estranhos e redistribui os pertences que encontra entre os veículos. Para ela, é só uma brincadeira, um mínimo ato de rebelião para uma garota boa aluna e filha. No entanto, um ato que feito por ela é visto como bobo, se fosse realizado por Q, que é negro, não seria encarado da mesma forma — ainda mais em um bairro branco e de classe média alta, como ela vive. Existem pesos diferentes para as ações dos dois. Enquanto Q é completamente consciente disso — porque a sociedade sempre o lembra e ele vivencia o racismo todos os dias — para Brit essas duas medidas de tratamento existem muito mais num plano teórico, já que ela não sofre com essa violência. Em uma passagem do livro, Q vai encontrar Frank e Joy e, enquanto os espera, precisa se esconder atrás de um carro. Os dois perguntam o que ele está fazendo escondido, no que ele responde: no bairro que eles estão, a polícia atira nele ao vê-lo sozinho à noite.

Na hora em que está acompanhando Brit, nem Frank, que tem uma consciência maior sobre essas questões pela proximidade que tem com Q, encara a situação desta forma. Ele sabe que é errado mas, para ele, é só uma ação inconsequente, tipicamente juvenil. Não passa pela sua cabeça quais seriam as consequências, por exemplo, se os dois fossem pegos invadindo o carro. E se ele estivesse sozinho, sem Brit, qual tratamento receberia? Mesmo que não seja negro, seu status na hierarquia social norte-americana não é o mesmo de uma pessoa branca. Entretanto, como descendente de coreano, ele ainda possui seus privilégios em relação a outras minorias.

Por fim, o amor

David Yoon não se limita a falar de apenas um tipo de amor em seu livro. As multifaces da vivência de Frank como um Limbo abrem espaço para o autor discutir o que é amar as pessoas pelo que elas são, sem desejar que elas sejam diferentes.

Primeiramente, acompanhamos Frank em sua jornada pelo amor na adolescência. Começa com Brit, de forma gradual, entre trocas de olhares secretas durante as aulas e beijos escondidos na escola. O início, sob lentes coloridas, esconde as barreiras culturais entre os dois e o fato de que, a todo momento, a) Frank não está sendo completamente sincero com ela, por esconder o namoro e criar uma relação falsa com Joy e b) que ele está escondendo uma parte importante de sua vida dos pais e não obstante, os enganando com a ajuda de Joy. As mentiras, mesmo que bem intencionadas, não conseguem sustentar a relação e nem permitem que ela se desenvolva mais. Enquanto Brit se abre para Frank e quer conhecê-lo mais, ele vai para o caminho oposto e se fecha, seguindo no superficial.

Com Joy, o amor parece ter sempre estado ali. Até mesmo o “eu te amo” vem de forma natural, sem treino ou qualquer incerteza. Frank consegue ser ele mesmo, por inteiro, sem explicações e justificativas. A cumplicidade entre eles não existe apenas pelos anos que se conhecem, mas também por partilharem vivências próximas. Amar Joy é se entregar e estar presente, sem se prender ao porquê ou porém — simplesmente acontece.

Outro tipo de amor que David Yoon trabalhava no livro é o de Frank e seus pais. Por serem de gerações e backgrounds diferentes, o adolescente vive em constante conflito com eles, mesmo que não o externalize. Constantemente, ele compara a sua relação com a que Q e Brit estabelecem com seus pais, desde pequenos hábitos até mesmo à  dinâmica de cada lar. Para os outros, o olhar de Frank é muito mais generoso, enquanto para os seus, é mais crítico. A dificuldade na comunicação, presente por conta das barreiras do idioma (Frank não fala bem coreano e seus pais têm dificuldades com o inglês), também se manifesta em outros aspectos culturais, como na forma com que eles se expressam afetivamente. No início do livro, vemos que Frank sabe, na ponta da língua, quantas vezes seus pais lhe disseram “eu te amo”: a mãe, duas vezes, em situações extremas — quando a avó materna dele faleceu e ao falar seus resultados do SAT; o pai, nunca o fez.

Frank entende que essa é uma questão cultural, mas, ainda assim, vemos como isso o afeta. No entanto, ao longo do livro, vemos que esse amor, mesmo nem sempre seja dito com todas as letras, está sempre presente. Para os pais de Frank, essa afeição é menos sobre declarações ou gestos grandiosos e mais sobre o cuidado e zelo de todos os dias. É sobre deixar a luz dentro de casa ligada quando o filho volta tarde, ou mesmo sobre omitir uma notícia difícil, com medo de que possa atrapalhar os estudos do filho e prejudicar seu resultado em uma prova importante.

Imigrar para um outro país e trabalhar diariamente em um mercado, faça chuva ou faça sol, para prover uma vida melhor para os filhos talvez seja a maior prova desse amor. Mesmo com as incertezas, dificuldades e tudo aquilo que não é dito, em silêncios prolongados ou mensagens de textos não coesas, existe afeto. E Frank, a cada dia que passa, entende mais que não existe apenas um modo de amar.

O amor, ao fim, é como o próprio Yoon reflete ao fim do livro: ele não existe isolado em um vácuo. Assim como enxergamos o mundo por diferentes óticas, também experienciamos o amor em suas mais variadas formas, sempre aprendendo um pouco mais do que no dia anterior. E essa, afinal, não é a graça em amar? Não importa o quanto procuramos respostas ou fórmulas prontas — no final, a única certeza é que seguimos sendo seus reféns.


** A arte em destaque é de autoria da nossa colaboradora Carol Nazatto. Para conhecer melhor seu trabalho, clique aqui!

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