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Crítica: Uma Noite em Miami…

Na noite de 25 de fevereiro de 1964, o então lutador de boxe Cassius Clay (futuro Muhammad Ali) decidiu comemorar seu título mundial de campeão dos pesos pesados ao lado de três grandes amigos — o músico de soul Sam Cooke, o astro da NFL (Liga Nacional de Futebol Americano) Jim Brown, e o ativista dos direitos civis Malcolm X — em um quarto de hotel do Hampton House, em Miami. O que aconteceu por trás das paredes do quarto, até hoje ninguém sabe.

Recorrendo à ficção para preencher as lacunas deixadas naquela noite, o dramaturgo estadunidense Kemp Powers escreveu a peça Uma Noite em Miami…, encenada pela primeira vez em 2013. A peça foi então adaptada para o cinema e estreou no Brasil em 2021 pelo serviço de streaming Amazon Prime Video. O roteiro é assinado pelo próprio Powers, indicado ao Oscar por Melhor Roteiro Adaptado, e a direção é de Regina King, também lembrada no Oscar e no Globo de Ouro na categoria de Direção pela produção, e atriz de filmes como Os Donos da Rua (1991), Jerry Maguire (1996), Se a Rua Beale Falasse (2018, pelo qual recebeu seu primeiro Oscar como Melhor Atriz Coadjuvante), e séries como Watchmen (2019, que lhe rendeu seu quarto Emmy). Regina King também tem experiência na direção, tendo comandado episódios das séries Scandal, Shameless, This Is Us, entre outras, além dos filmes Let the Church Say Amen (2013) e The Finest (2018) e do  documentário Story of a Village (2014).

Apesar de a peça de teatro — e, por consequência, o filme de King — estar cheia de diálogos ficcionais especulativos, as quatro personalidades retratadas foram muito reais e significativas para os Estados Unidos dos anos 60. Não à toa, Powers imaginou uma discussão complexa entre os amigos sobre os rumos do país e o futuro da lutas pelos direitos civis dos negros.

De trajetórias completamente diferentes, Muhammad Ali, Malcolm X, Jim Brown e Sam Cooke tiveram grande relevância nos áreas em que atuaram e influenciaram diretamente em diversos avanços alcançados pela população negra estadunidense. No entanto, em Uma Noite em Miami…, Regina King opta por fazer um recorte da vida dos quatro e toma decisões para retratá-los em suas diferenças e similaridades, obtendo alguns resultados muito positivos e outros, questionáveis.

No filme, quem acaba ocupando a posição de maior destaque é Malcolm X, interpretado por Kingsley Ben-Adir, numa clara tentativa da diretora de desmistificar a figura do ativista. Vendido na mídia da época como um extremista que odiava brancos, Malcolm X ainda continua hoje sendo visto por muitos como um homem furioso, em contraponto ao pacifismo de Martin Luther King. Essa imagem foi de certa forma corroborada pela cinebiografia de 1992, dirigida por Spike Lee e protagonizada por Denzel Washington, que mostra um personagem austero e assertivo, orador de discursos incendiários. Em Uma Noite em Miami…, essa faceta de Malcolm está presente em alguns momentos, mas a diretora faz questão de exibir também um outro lado: um homem de família, espirituoso, destemido e, ao mesmo tempo, sensível e desconfiado, sempre em estado de alerta. Malcolm X foi assassinado no ano seguinte, em 21 de fevereiro.

Muito bem interpretado por Ben-Adir, que consegue entregar todas as nuances do personagem, Malcolm X atua como um conselheiro para os demais, sobretudo para Muhammad Ali (Eli Goree) que, apesar da pose de valentão nos ringues e diante da imprensa — papel que o lutador desempenhava na vida pública —, mostra um lado frágil e inseguro, quase infantil. O personagem entra em conflito quando o grande debate de Uma Noite em Miami…, envolvendo Malcolm X e Sam Cooke, se instaura. Imenso admirador do ativista que, inclusive, o introduziu à Nação do Islã, Ali chega a duvidar de seu mentor.

Comumente conhecido como Rei do Soul, Sam Cooke é um dos nomes mais influentes do gênero e fez história ao ter uma gravadora que produzia músicos negros. Com sucessos como “You Send Me” e “Cupid”, que agradavam tanto plateias de negros quanto de brancos, Cooke, interpretado pelo ator e cantor Leslie Odom Jr., tem seu posicionamento diante de questões raciais questionado por Malcolm X, que acredita que a voz do amigo está sendo desperdiçada em músicas que falam de amor.

Malcolm X: Você não está mal direcionado, tentando tocar a alma dos brancos?
Sam Cooke: Não estou, não. Se eu conquistá-los com nossa música, vou abrir portas para todos nós. Você vai ver. (…)
Malcolm X: Sam, você tem um dos veículos mais eficazes e lindos de todos nós, e não o está usando para ajudar a causa.
Sam Cooke: Você que acha! Eu tenho os masters das minhas gravações. Abri uma gravadora. Produzo vários artistas negros. Você não acha que eu ser o dono da minha criatividade e do meu destino é tão inspirador para as pessoas quanto você no púlpito irritando elas?

Estabelecendo Malcolm X como o líder e mais sábio dos quatro, Regina King coloca a figura de Sam Cooke em posição desfavorável, sobretudo se considerarmos tudo o que foi feito pela pessoa real por traz do personagem. É uma decisão artística, evidentemente, que deseja que Cooke de certa forma antagonize com Malcolm X, promovendo o debate entre os amigos sobre o que era ser negro nos Estados Unidos da década de 60, período marcado por diversos protestos contra o racismo e leis de segregação que ainda vigoravam em diversos estados, e sobre o dever de pessoas como eles, que alcançaram posições de destaque, poder e influência a que a maioria dos negros dos Estados Unidos jamais teve acesso.

Justamente por focar naquela noite de fevereiro, os telespectadores que conhecem apenas superficialmente a história das quatro personalidades retratadas em Uma Noite em Miami…, ou mesmo que não sabem uma linha a respeito de suas biografias, precisam recorrer a fontes externas se desejarem preencher essas lacunas. Há diversos documentos e produções a respeito de Malcolm X e Muhammad Ali, certamente as figuras mais conhecidas pelo público. Sobre o músico de soul, um dos nomes mais importantes da música estadunidense, fica a recomendação do documentário As Duas Mortes de Sam Cooke (2019), da série ReMastered, disponível na Netflix, que mostra sua influência no cenário musical, bem como seu combate à segregação racial, culminando na sua morte em dezembro de 1964 sob circunstâncias no mínimo estranhas. Já o jogador da NFL tem suas três facetas — de ativista, atleta e ator — retratadas no documentário Jim Brown: All-American (2002), do diretor Spike Lee, e uma rápida busca na internet mostra sua importância até os dias de hoje.

Apesar disso, Uma Noite em Miami… acerta naquilo que é o seu objetivo: fixar aquela noite como o ponto de virada na trajetória dos protagonistas. A partir das discussões travadas ali, não há como voltar atrás, e os personagens compreendem seus papéis fundamentais na política dos Estados Unidos. Isso fica mais evidente nas figuras de Muhammad Ali que, naquela mesma noite, informou a imprensa sua conversão ao islamismo e o abandono do seu nome de batismo, e Sam Cooke. Instigado por Malcolm X, o cantor compôs um dos seus maiores sucessos e um hino da luta dos direitos civis, “A Change is Gonna Come”. Esse fato nunca ocorreu na vida real, no entanto, pois Cooke já havia escrito a música antes do encontro no hotel. A canção foi em parte motivada por “Blowin’ in the Wind”, de Bob Dylan — como o próprio Sam Cooke haveria de admitir, a música do garoto branco de Minnesota deveria ter sido escrita por um artista negro como ele.

A figura que acaba por ser ofuscada no filme de Regina King é Jim Brown (Aldis Hodge). O recordista de jardas que abandonou a carreira de atleta para se tornar ator em Hollywood. Brown atuou no filme 100 Rifles (1969), polêmico na época por mostrar um casal interracial, mas age em boa parte da narrativa de Uma Noite em Miami… como um espectador nas discussões dos companheiros. Apenas a partir da metade do filme ele assume uma posição conciliadora e, para a surpresa do telespectador, que o via como uma figura distante dos demais, protagoniza uma interessante e provocativa discussão com Malcolm X sobre colorismo.

Lidando com temas profundos e difíceis, Regina King demonstra muita sensibilidade ao apresentar essas quatro figuras importantes, ícones da história, como pessoas complexas, com virtudes e defeitos, corajosas e vulneráveis e, acima de tudo, grandes amigos, mesmo diante de desavenças. A diretora também não fica tão presa ao teatro filmado e mostra cenas em outros cenários, como o prólogo que apresenta os quatro personagens em circunstâncias distintas, mas trazendo o racismo como ponto em comum e pontapé inicial do filme. Isso alivia a claustrofobia que o telespectador poderia ter ao dispor apenas de um único cenário — no caso, o quarto de hotel. A direção de King é propositalmente contida e sem malabarismos, permitindo que os atores e os diálogos sejam os protagonistas do filme.

As escolhas que a diretora faz para retratar as quatro personalidades não seguem os fatos históricos à risca — afinal de contas, não se trata de um documentário, e sim uma ficção inspirada em eventos reais, como indica a cena de abertura. Essa escolha, entretanto, pode acabar desagradando os mais puristas, como esta que escreve esse texto, sobretudo em relação a Sam Cooke. Ainda assim, tais decisões são coerentes com os propósitos narrativos e a mensagem que a diretora deseja passar. O embate entre Malcolm X e Sam Cooke é costurado para culminar com a poderosa canção do músico. A cena final do filme é gloriosa e emocionante, demonstrando todo o talento de Leslie Odom Jr., indicado ao Oscar como Melhor Ator Coadjuvante pelo papel. O ator interpreta todas as canções de Sam Cooke mostradas em Uma Noite em Miami… e também a música tema da obra, Speak Now“, que concorreu ao Oscar na categoria de Melhor Canção Original. “A Change is Gonna Come” encerra o filme de forma magistral, celebrando a amizade dos quatro e a luta de Sam Cooke, Jim Brown, Muhammad Ali e Malcolm X na busca por igualdade para o povo negro.

Uma noite em Miami - EUA - 2020 - Regina King - 4 estrelas

 

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