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Ancient Dreams in a Modern Land: emoções, problemas sociais e amor-próprio na nova era da Marina

Em seu primeiro álbum, The Family Jewels, lançado em 2010, Marina and the Diamonds canta que “sabe exatamente o que quer e quem quer ser”. Onze anos depois, a artista, que agora assina como Marina, mostra-se totalmente empoderada e nos presenteia com seu quinto álbum de estúdio, Ancient Dreams in a Modern Land. Nele, Marina não tem medo de dizer o que sente nem de falar sobre sonhos antigos de liberdade, igualdade e respeito que há muito importam, mas que ganham relevância nova em terras modernas.

“I did it my way”

Autenticidade, sinceridade e uma certa dose de crítica social são características da cantora desde o início de sua carreira. Agora, esses traços foram amplificados em letras que denunciam a situação sócio-política atual, assim como desvendam as emoções de sua compositora depois do término de seu último relacionamento, que já durava cinco anos.

Em Ancient Dreams in a Modern Land, Marina está totalmente segura de si e à vontade para se revelar. Este álbum é, até agora, o mais pessoal da artista. Além disso, sua voz única e melodias características só melhoraram com o seu amadurecimento tanto como pessoa quanto como profissional.

A pandemia foi plano de fundo durante todo o processo de composição do álbum. As preocupações e angústias do momento extrapolam para as músicas e a primeira parte do álbum traz uma explosão electro-pop de críticas sociais. Marina une com maestria seu ritmo dançante a alguns dos maiores problemas que a humanidade enfrenta hoje, como misoginia, racismo, homofobia e destruição do meio ambiente.

Ancient Dreams in a Modern Land

Em “Ancient Dreams in a Modern Land”, primeira das dez faixas do álbum, Marina se coloca como testemunha da vida e questiona o ouvinte sobre o seu propósito na Terra. A proposta dela é um deslocamento da posição de reação para um lugar de observação, a fim de melhor refletir sobre si mesma e o mundo e, dessa forma, questionar se o que ficou cristalizado como norma é, de fato, certo, desejável, bom. Ela abre o álbum lembrando a todos que somos únicos e temos força para começar uma revolução.

“You don’t have to be like everybody else
You don’t have to fit into the norm
You are not here to conform”

“Você não tem que ser como todo mundo 
Você não precisa se encaixar na norma
Você não está aqui para se conformar”

Os desafios de se manter fiel à própria verdade, de traçar um caminho autêntico e não apenas se conformar com os protocolos pré-estabelecidos pela sociedade continuam na segunda faixa da obra. Como um alento para os fãs ou um aviso para a crítica, Marina faz questão de dizer, em “Venus Fly Trap”, que fez do jeito dela (“I did it my way, baby, / nothing in this world / could change me” ou “Eu fiz do meu jeito, amor / nada nesse mundo / conseguiu me mudar”). Em um vídeo divertido — com direito ao Alien do filme Alien, O Oitavo Passageiro como fotógrafo da cantora —, Marina faz referência a filmes e ícones que marcaram a história hollywoodiana, para afirmar que, apesar das tentativas de transformá-la em uma artista genérica, a indústria não foi capaz de moldá-la.

“Man’s World”, o primeiro single lançado, já mostrava o quão engajada socialmente seria a nova era da cantora. Para a música, que ganhou um remix com Pabllo Vittar, Marina pediu a ajuda de um time totalmente feminino para contar uma história que, segundo ela mesma, “só pode ser contada por mulheres”. Corpos que são desvalorizados pela sociedade expõem toda sua beleza e poder em um clipe lindo esteticamente enquanto Marina fala sobre a existência de dois mundos: um experienciado por homens e um experienciado por mulheres e outros grupos minoritários.

“If you have a mother, daughter or a friend
Maybe it is time, time you comprehend
The world that you live in, ain’t the same one as them
So don’t punish me for not being a man”

“Se você tem uma mãe, filha ou uma amiga
Talvez esteja na hora, hora de você entender
Que o mundo que você vive, não é o mesmo delas
Então não me puna por não ser um homem”

É importante ressaltar que a crítica de Marina não é destinada aos homens em si, mas à valorização unicamente de características associadas ao gênero masculino, como disciplina, racionalidade e assertividade. Uma vez que, quando dissociadas de carinho, intuição e emoção, traços considerados femininos, são aquelas características que levam à destruição do planeta, à indiferença ao sofrimento do outro e ao desrespeito. O apelo de Marina (“I don’t wanna live in a man’s world anymore” ou “Eu não quero mais viver no mundo dos homens”) é pela igualdade e pela empatia.

Questões ambientais sempre foram preocupações da artista.  Em “Man’s World”, ela diz que a Mãe Natureza está morrendo e ninguém dá importância (“Mother Nature is dying / nobody is keeping score”, no original). Na música seguinte, “Purge the Poison”, Marina segue a mesma temática e empresta o microfone para a Mãe Terra, que tenta se regenerar de toda a maldade dos homens.

É a música que mais deixa transparecer o momento em que foi escrita, o marcante ano de 2020. O cenário é de uma humanidade forçada a encarar todos os problemas que criou e que vieram à tona. O tratamento cruel que a indústria do entretenimento destina às artistas, a dupla face do capitalismo que cria a riqueza e a pobreza ao mesmo tempo, a falta de mulheres no poder, as guerras, as queimadas, as doenças são alguns dos componentes do veneno do qual a Terra tenta se livrar e são trazidos pela faixa.

“Quarantined all alone, Mother Nature’s on the phone
‘What have you been doin’? Don’t forget, I am your home
Virus come, fires burn, until human beings learn
From every disaster, you are not my master'”

“Em quarentena sozinho, Mãe Natureza está ao telefone:
‘O que você está fazendo? Não esqueça que eu sou sua casa
Vírus vêm, o fogo queima, até que os homens aprendam 
De cada desastre, você não é meu mestre'”

Ancient Dreams in a Modern Land

Em um momento tão emocionalmente intenso quanto a pandemia, sentir e permitir-se sentir é a mensagem de “Highly Emotional People”. Delicada na voz e nas palavras, Marina cria uma atmosfera libertadora, pois para pôr fim a dores, muitas vezes, é preciso senti-las primeiro. A música encontra espaço para questionar padrões de gênero cristalizados no subconsciente social que impedem os homens de sentirem-se à vontade para expressar suas emoções (People say men don’t cry / It’s so much easier to just lie” ou “As pessoas dizem que os homens não choram / É tão mais fácil apenas mentir”).

A esperança de uma “New America” mais igualitária brilha em estrelas vermelhas e azuis com a liberdade que se aproxima na sexta faixa do álbum. Agora moradora dos EUA, Marina explora características sombrias da nação mais poderosa do mundo, como o roubo de terras indígenas, o racismo estrutural e o privilégio branco.

A cantora continua se equilibrando na tênue linha entre composições indie e grandes produções e Ancient Dreams in a Modern Land explora a capacidade da música pop de gerar debates e se engajar socialmente. Não é possível tratar de temas tão delicados e complexos com toda a profundidade que lhes é característica em músicas de aproximadamente três minutos, nem é obrigatório concordar com o que é dito, afinal são os pontos de vista de Marina. Contudo, é necessário reconhecer a coragem e a importância de propor essas conversas.

“Emotions are a part of our design”

A Marina segura de si está presente em todas as faixas, até mesmo nas canções mais melancólicas e pessoais, que marcam a segunda metade do álbum. “Pandora’s Box”, “I Love You But I Love Me More” e “Flowers” podem parecer as clássicas músicas de término, mas são, antes de tudo, odes à força de Marina.

Lidando com o término de um relacionamento que já durava cinco anos, “Pandora’s Box” dá um toque feminista ao mito grego da caixa de Pandora. Na mitologia, Pandora é culpada por libertar todos os males que assolam a humanidade. Na música, é o parceiro de Marina que liberta as dores e os pensamentos cruéis da cantora.

Ancient Dreams in a Modern Land

“I Love You But I Love Me More” [“Eu Amo Você Mas Eu Me Amo Mais”] junta-se à “Flowers” (“If you just brought me flowers / maybe I would’ve stayed” ou “Se você tivesse me trazido flores / talvez eu tivesse ficado”) para mostrar que Marina sabe seu valor, força e potência e não está mais disposta a escolher manter uma relação pelo preço de maltratar seu próprio coração.

Em “Goodbye” o sabor agridoce da melancolia predomina. A última música do álbum é o adeus de Marina para a menina que era, ao parceiro que chama de amigo e, de certa forma, também ao álbum.

“No matter what happens now
Nobody can take our love down
It’s safe inside our memories
And I won’t forget how you healed me”

“Não importa o que aconteça agora
Ninguém pode destruir o nosso amor 
Ele está seguro dentro de nossas memórias
E eu não vou esquecer como você me curou”

Seja com o engajamento social, seja com a introspecção do fim do namoro, Ancient Dreams in a Modern Land é um álbum que, antes de tudo, devolve ao poder feminino a sua força (“Owning female power/ taking back what’s ours”). Mas é também o álbum que mais revela Marina. Uma Marina real, que sente, que encontra sua própria força, uma mulher que diz o que pensa, que toma as rédeas da própria vida e da própria arte.

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