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Rupaul’s Drag Race: 13 temporadas de uma corrida longe de ter uma linha de chegada

Ao completar um ano de quarentena, vemos em perspectiva como nossos sentimentos, hábitos e gostos variaram durante os meses mais desafiadores da vida moderna. Durante essa análise, é impossível não observar como as séries e filmes que nos ajudaram a escapar da realidade foram mudando e se adaptando a cada fase do isolamento. Recentemente, honrando a mágica por trás dos artistas que dão vida a personagens que desestabilizaram o mainstream da TV americana e mundial na última década, um velho amor ressurgiu: RuPaul’s Drag Race, fazendo-me resgatar sonhos de uma eu de anos atrás, quando era altamente envolvida na série. O retorno que ninguém sabia que precisava me fez pensar: depois de 13 temporadas (só na versão norte-americana), por que RuPaul’s Drag Race continua sendo um fenômeno cultural?

Lembro-me de ver o programa pela primeira vez ao lado da minha vó, quando ele era transmitido na VH1 brasileira. Iluminada por algum tipo de esclarecimento desde que me lembro, nunca estranhei o reality show ter como participantes homens que se vestiam como personagens femininas enquanto enfrentavam desafios semanais envolvendo humor, cultura pop, e moda comandados pela lendária “supermodelo do mundo”, RuPaul. A moda, inclusive, foi minha primeira fascinação específica pelo programa, atenção que era dada também pela minha avó, uma talentosa costureira.

Após alguns anos, certamente influenciada pelas redes sociais, comecei a acompanhar a série novamente. A temporada era a quinta, e o ano, 2013. O foco, dessa vez, era um vínculo pessoal e uma palavra vital para a força do reality show durante todos esses anos: a representatividade. O sentimento de incompreensão e vulnerabilidade apresentado por Jinkx Monsoon fazia com que eu me emocionasse diversas vezes, vendo-me nela de certa forma, sendo excluída e subestimada por parecer mais vulnerável que as colegas, quadro potencializado pela artista ter narcolepsia, uma condição que faz a pessoa ter sono excessivo durante o dia ainda que tenha tido horas saudáveis de sono durante a noite. Jinkx, inclusive, foi a vencedora da temporada, lembrada como uma das mais disputadas da série, ao combater Alaska Thunderfuck, Roxxy Andrews, Detox, Alyssa Edwards entre outras grandes drag queens.

O amor e torcida por artistas rotuladas como “estranhas”, mesmo em um programa que enaltece o grupo dos tidos como “estranhos” perante a sociedade heteornormativa, foi reforçada durante a temporada 11, em 2019, com Yvie Oddly, que, como o nome já adianta, era uma esquisitona de primeira, com ossos elásticos e estética bizarra. Yvie fez sua apresentação na final da série render ligações para o porteiro do condomínio de meu amigo, afirmando que os gritos vindos do apartamento pareciam ser de dia de Copa do Mundo, e por um lado, sem dúvidas, ele não estava errado.

A partir dessa reintrodução, eu observava os enchimentos, “tucks“, maquiagens e figurinos se tornarem características das narrativas identitárias de artistas marginalizados, cada um à sua maneira, que encontravam no mundo drag uma chance de se tornarem mais do que suas fraquezas e traumas; sendo unidos pelo espectro da comunidade LGBTQIA+, na qual integro como uma mulher bissexual desde cedo, e permitindo que, pelo menos em algumas nuances, eu me visse toda semana naquele main stage.

Desde então, a febre sobre o reality só aumentou, incentivada por suas talentosas competidoras, brigas cinematográficas, e pelo poder do público se ver no horário comercial da televisão. Com isso, RuPaul’s Drag Race deixou de ser apenas um seriado estadunidense, para se tornar uma marca, com produtos, conferências, e spin-offs como RuPaul’s Drag Race All Stars, além de suas versões britânicas, canadenses, australianas e neozelandesas que chegaram ao mundo nos últimos anos.

Com a expansão do reality show, vieram a expansão de narrativas, com destaque para o incentivo e conscientização direta em relação ao voto durante os anos de eleição nos Estados Unidos e a denúncia da brutalidade policial contra a população negra que, infelizmente, foi tópico recorrente no ano de 2020. Apresentando um poderoso figurino na temporada 13, a brilhante Symone, diretamente do estado de Arkansas, compartilhou com o público, durante a série, sua experiência com o estigma de ser um homem preto homossexual que performa feminilidade, explorada coincidentemente na mesma época em que o rapper Lil Nas X combatia ondas de preconceito com o hit “Montero (Call Me By Your Name)”, que retrata sua homossexualidade como um rapper negro.

Na mesma época, mas com um mar separando-as, Bimini Bon Boulash e Ginny Lemon, participantes da segunda temporada de RuPaul’s Drag Race UK, tornavam-se as primeiras drag queens da franquia a compartilhar com o mundo que se identificavam como não-binárias, termo que até então nunca havia sido discutido durante as gravações, mesmo sendo adotado por diversas drag queens, como Adore Delano, Violet Chachki, Bob The Drag Queen e Aja, após as passagens delas pelo programa.

Retornando aos Estados Unidos, Gottmik fez história ao se tornar o primeiro homem transexual a integrar a competição, ultrapassando a responsabilidade de representar a comunidade trans no reality show e enfrentando inseguranças com seu corpo no início do programa para eventualmente entender sua própria narrativa e fazer seu melhor para ser presente e honrar sua história. Esta postura arrancou lágrimas e frases de orgulho de RuPaul inúmeras vezes durante o programa. A presença de participantes transexuais não é exclusiva da presença de Gottmik, tendo em vista que Gia Gunn, da sexta temporada da série original e da quarta temporada da versão All Stars, revelou ser uma mulher transexual durante as gravações. A evolução da conversa a respeito da transexualidade trouxe outras pequenas grandes mudanças na série, como, por exemplo, a mudança da clássica frase “E que a melhor mulher vença!”, dita por RuPaul no começo de todo desafio, para “E que a melhor drag queen vença!”.

É importante salientar que os avanços sobre a narrativa da comunidade trans, não binária e negra estão sendo construídas e discutidas há anos, só agora atingindo o mainstream que o reality show aborda, e com meu amadurecimento e imersão na comunidade, enxergar cada vez mais os nossos no reality show se tornou vital para o programa não se tornar uma caricatura ou até um desserviço para o público LGBTQIA+. Com isso, em tempos de “pink money” com artistas, programas e marcas se apropriando da luta da comunidade LGBTQIA+ em diversos casos, RuPaul’s Drag Race parece, apesar de sua popularidade e lucro, ainda ser feita por e para a comunidade e para aqueles que simpatizam com essas lutas.

Mais do que desafios de costura, lip syncs com revelações de figurino e peruca, e bebidas voando em brigas durante a deliberação dos jurados, RuPaul’s Drag Race continua se afirmando como um fenômeno cultural mais do que uma febre televisiva. E apesar de suas inúmeras temporadas e opiniões de que a série em diversos momentos parece estar desgastada, tentando repetir feitos e momentos icônicos, ela significa mais do que isso: é um palco para que vozes da minoria continuem a ecoar pelas TVs e redes sociais ao redor do mundo, a cada ano adicionando tópicos e narrativas antes não tão explorados pelo mainstream, mas que certamente tocam diversas pessoas mundialmente. Com isso, a corrida ultrapassa o entretenimento e reflete em uma eterna jornada por direitos e amplificação de vozes marginalizadas — estas com diversos avanços nos últimos tempos, mas longe de acabar.

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