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A luta pela sobrevivência e a vida real nas histórias de Pose

Ryan Murphy é um nome de peso no alto escalão de Hollywood. O escritor, diretor e produtor é o responsável por entregar inúmeros projetos de sucesso, como American Horror Story, Glee e The Politician. Seus programas de TV se destacam pela dramaticidade e histórias cativantes, além dos elaborados números musicais que são sua marca registrada, o que já lhe rendeu uma boa porção de prêmios para sua crescente coleção. O título que mais chamou atenção nos últimos tempos foi a série Pose, que caiu no gosto do público e da crítica graças à diversidade do elenco e da sensibilidade que leva sua narrativa.

Atenção: este texto contém spoilers!

Ryan Murphy vê beleza na realidade, e frequentemente assina produções baseadas em fatos. Feud, estrelado por Susan Sarandon e Jessica Lange, fala sobre a rixa de Bette Davis e Joan Crawford nos bastidores do filme O Que Terá Acontecido a Baby Jane?. American Crime Story é uma narrativa antológica que explora os maiores e mais famosos casos da Justiça norte-americana, como o julgamento de O.J. Simpson e o assassinato de Gianni Versace. Pose também conta histórias que aconteceram de verdade, mas trabalha com muito mais liberdade poética para tratar de um assunto não muito conhecido pelo grande público.

A série se passa na periferia de Nova York nos anos 1980 e 1990, quando os bailes LGBT+ estavam em seu ápice. A cultura de baile era a válvula de escape para pessoas da comunidade gay e trans, e serviam como ferramenta para fugir da realidade, seja ela de uma família intolerante ou simplesmente de uma sociedade opressora. Além de todos os obstáculos causados pela homofobia e transfobia, esta também foi uma época marcada pela crise da AIDS em todo o mundo.

O material base para a criação de Pose foi Paris is Burning, documentário de 1990 que retrata a rotina dos membros do ballroom. A diretora Jennie Livingston transitou pelas casas de bailes durante seis anos, coletando centenas de horas em material audiovisual para seu filme. O longa se tornou um sucesso de crítica, vencendo importantes premiações como o Festival Sundance e o New York Critics Circle Awards. Além do mais, falar dos bailes é sinônimo de falar sobre Paris is Burning, e falar sobre Paris is Burning é falar sobre a realidade, por mais desconhecida e negligenciada que ela seja. Assim, Ryan Murphy une sua experiência em drama com o maior elenco trans da história da TV e junta tudo isso a uma delicada narrativa e aos altos e baixos da vida real, contando histórias de pessoas que lutam todos os dias para sobreviver sob suas próprias condições e limitações.

Blanca Evangelista

Blanca (MJ Rodriguez) começa a série como membro da House of Abundance, mas logo se vê em um ponto de sua vida em que quer fazer as coisas do jeito que bem entende. Diagnosticada como portadora de HIV e cansada de seguir as atitudes absurdas de Elektra (Dominique Jackson), ela decide fundar sua própria casa e seguir seu desejo de cuidar de jovens abandonados que são amparados pelos bailes — assim como um dia ela já foi.

Com medo do que o vírus em seu corpo é capaz, Blanca quer fazer mais. Ela teme que a doença a leve antes que possa fazer algo verdadeiramente relevante com sua vida, então decide que quer ser a mãe da sua própria casa, com suas próprias crianças e suas próprias regras. Ela então cria a House of Evangelista, em homenagem à modelo canadense Linda Evangelista.

A grande característica de Blanca é o seu altruísmo. Mesmo doente e endividada, ela sempre deixa seus problemas de lado para cuidar daqueles que considera seus filhos. Esta é a essência das casas do ballroom traduzida em uma única personagem, que serve como um sistema de apoio a todos os jovens que foram renegados por seus parentes biológicos. Blanca faz tudo o que está em seu alcance para garantir o sucesso de seus protegidos, e o faz do jeito que pode, do jeito que acha necessário. Mostrar amor é enfrentar pessoas e complexos poderosos. Mostrar amor é acolher o filho em seus braços e não dizer mais nada. Mostrar amor é até mesmo impor regras rígidas e bradar palavras duras.

Pose

Ela luta constantemente por sua sobrevivência — a AIDS, seus medos e inseguranças, sua própria condição de mulher latina e transexual em um universo tão preconceituoso, o sonho de ser empresária —, mas também luta pela sobrevivência daqueles que ama. Ela assume o papel de matriarca da House of Evangelista e se recusa a se desfazer disso, cuidando ferozmente de quem é importante. “Uma casa é muito mais que uma casa. É uma família. E toda família precisa de uma mãe que seja afirmativa, atenciosa, leal e inspiradora”, é o que diz Pray Tell (Billy Porter) no último episódio da primeira temporada, “Mãe do Ano”.

Blanca é uma personagem crua e humana que pode ser vista na pele de tantas mulheres do mundo real. Ela é uma mãe, e mães devem proteger a sobrevivência de suas crias.

Elektra Abundance

Elektra é uma mulher complicada. Vaidosa e egocêntrica, gosta de ser o centro das atenções e não mede esforços para que isso aconteça. Entre atitudes altamente questionáveis e palavras ácidas, às vezes é difícil entender se a sua função é de antagonista ou mocinha. A verdade é que ela é as duas coisas, ao mesmo tempo em que não é nada disso. Ela só é uma pessoa como todas as outras, que busca enfrentar o que vem pela frente da maneira que sabe.

No começo da série, Elektra é fundadora e mãe da House of Abundance, a casa mais prestigiada e bem sucedida dos bailes. Ela é bonita, elegante e “passa” — ou seja, as pessoas dificilmente desconfiam que ela não é uma mulher cisgênero. Além disso, também tem o apoio financeiro de seu amante rico e casado, Dick Ford (Christopher Meloni), o que torna possível que ela mantenha um apartamento e guarda-roupa luxuosos. Mas apesar de ter tudo o que alguém de seu ciclo social poderia querer, ainda precisa de uma coisa: a cirurgia de redesignação sexual.

Quando finalmente consegue realizar o procedimento, ela está sozinha. Dick a abandonou por não aceitar a mudança — o que Elektra tomou como uma violência, já que percebeu que o ele que sentia por ela era pura fetichização de seu corpo —, sua casa está se despedaçando e agora ela já não tem mais o apoio financeiro de antes. Por isso, na segunda temporada, ela arruma um emprego de dominatrix e sodomiza homens ricos de Wall Street para ganhar a vida. Este é um aceno ao fato de que, muitas vezes, mulheres transexuais devem recorrer a trabalhos sexualizados — mesmo que ela de fato não tenha relações sexuais com nenhum de seus clientes.

Pose se encontra com a realidade ainda mais intensamente quando Elektra passa por uma situação semelhante a de Dorian Corey, drag queen que fez parte do elenco de Paris is Burning. Depois da morte de Corey, em agosto de 1993, um corpo mumificado foi encontrado em seus pertences. Os investigadores responsáveis pelo caso determinaram que o homem havia morrido 15 anos antes, e era, provavelmente, um ex-amante abusivo que ela havia matado em legítima defesa. Ele havia sido baleado na cabeça.

Na série, um dos clientes de Elektra acaba morrendo por causa de uma overdose. Desesperada e ciente de que as autoridades jamais acreditariam que ela, uma mulher transexual e negra, que trabalha em um clube de BDSM, não tinha responsabilidade nenhuma na morte do homem, decide mumificar o cadáver e enterrá-lo sob seu closet. Em junho de 2019, a produtora Janet Mock confirmou a inspiração para o enredo em seu perfil no Twitter.

Elektra busca por sua sobrevivência de diversas maneiras, por vários motivos. Para conseguir o corpo que a faz feliz, para conquistar a posição nos bailes que acha que merece, para garantir seu sustento, para se manter livre e viva. Deve confrontar até a si mesma, guerreando contra o próprio instinto áspero que a afasta dos outros. Ela não é perfeita, e certamente nunca será, mas seus esforços para se manter sempre por cima, mesmo quando o mundo tem todos os recursos para colocá-la para baixo, é a prova de como sua batalha é incansável.

Pray Tell

O papel de Pray Tell rendeu a Billy Porter o prêmio de Melhor Ator em Série Dramática no Emmy de 2019, o que também o fez o primeiro homem abertamente gay a receber este reconhecimento. A ousadia e autenticidade do personagem muito se refletem no ator. Quando Billy está no red carpet de alguma premiação hollywoodiana, usando vestidos, lantejoulas e todo o tipo de roupa que quebra padrões de gênero, não há quem não fique de queixo caído.

Com Pray Tell não é muito diferente. Ele é a estrela do show por onde passa. Principal host dos bailes, tem o importante papel de apresentar as categorias das competições e entreter a todos com seus comentários rápidos e hilariantes. A alegria do ballroom, porém, logo vai embora quando ele é diagnosticado com HIV. As coisas pioram quando seu namorado, Costas Perez (Johnny Sibilly), acaba falecendo por causa da AIDs.

O medo se torna uma rotina para Pray. Assombrado pela morte do homem que amava depois de assisti-lo definhar lentamente até à morte, ele teme que seu organismo entre em colapso a qualquer momento. Blanca é sua melhor amiga, e também é portadora do vírus. Ele se vê em um cenário onde tudo o lembra da AIDS, e o pavor de perder o que tem para uma doença tão avassaladora é sufocante.

No auge da epidemia, tanto na série quanto no mundo real, os órgãos governamentais da época não faziam muitos esforços para tratar pacientes com HIV, já que, além de uma condição incurável, acreditava-se que apenas homossexuais eram afetados. A teoria era de que esta era uma punição divina contra as supostas ações pecadoras dos gays. “O julgamento de Deus vai cair sobre a América, assim como em outras sociedades que permitiram que a homosexualidade se tornasse um estilo de vida protegido”, foi o que disse Bob Jones III, diretor da universidade evangélica Bob Jones University, na Carolina do Norte, em uma carta enviada ao presidente americano Jimmy Carter, em 1980. Ele fazia parte de um grupo cristão que pressionava o governo para abandonar o avanço nos direitos da comunidade LGBT+.

Apesar de tudo, Pray tenta seguir a vida do jeito que pode. Os bailes não são apenas o seu refúgio, mas também o de outras pessoas. Ele cumpre seu papel de anfitrião e faz o possível para manter o ballroom funcionando como sempre, além de ajudar Blanca e os filhos de sua casa, assumindo quase uma posição de pai e se tornando um membro não-oficial da House of Evangelista.

Na segunda temporada, Pray Tell descobre sua veia ativista. Incentivado por Judy Kubrak (Sandra Bernhard), sua amiga enfermeira que lida diretamente com pacientes portadores de HIV, ele se junta ao grupo ACT UP (AIDS Coalition to Unleash Power), uma organização que trabalha pelo bem-estar de soropositivos — e que existiu de verdade. É na forma de protestos, mobilizações e eventos de cunho social que ele encontra forças e esperança para continuar. A sobrevivência de seus irmãos e irmãs, que sofrem dos males da doença e do preconceito da sociedade, é seu novo motivo para lutar ainda mais ferozmente por sua própria vida.

Angel Evangelista

Quando criança, Angel (Indya Moore) ainda não havia se descoberto. Criada como um menino, ela não tinha certeza do porquê de ter se encantado tanto com um par de sapatos vermelhos que viu em uma loja. Mesmo assim, ela os roubou e os levou para casa. Na tentativa de tirá-los de baixo do casaco para esconder em seu quarto, ela os deixou cair. Implorando para que pudesse ficar com os saltos de couro, levou um tapa de seu pai. A relação em casa nunca mais foi a mesma até que um dia, já mais velha, foi embora sem olhar para trás.

A inspiração para Angel está em Octavia St. Laurent, mais uma participante do elenco de Paris is Burning. Assim como Octavia, o grande sonho de Angel é ser modelo. Bonita e charmosa, tudo o que mais quer é ter seu rosto estampado em capas de revistas e outdoors. Ela quer um apartamento grande e luxuoso no Upper East Side e usar as roupas e joias mais caras que o dinheiro pode comprar. “Eu quero ser alguém. Quer dizer, eu sou alguém. Eu só quero ser alguém rico”, é o que diz Octavia em uma cena do documentário.

Por ser uma mulher trans, entretanto, as chances de realizar seu sonho são escassas. Para se sustentar, Angel trabalha como garota de programa. Em uma noite, conhece Stan Bowes (Evan Peters), um rapaz casado que está no início de sua carreira no mundo dos negócios. Ele é diferente dos outros clientes. Gentil e de fala mansa, ele a trata com carinho e a faz de sentir confortável. Angel se apaixona, e o sentimento é recíproco.

Por mais doce que Stan possa ser, Angel ainda é tratada como seu segredinho sujo. Depois de subir de cargo na prestigiada Trump Tower, ele tem condições de enchê-la de presentes e até mesmo alugar um apartamento para ela, mas Angel não é sua prioridade. Stan é casado e pai de duas crianças, e não há espaço em sua vida para ela de verdade. Sua rotina é o típico sonho americano que em nada se relaciona às dificuldades que Angel tem que enfrentar o tempo todo. No final do dia, ele volta para sua esposa e filhas, e Angel é só um prazer escondido e sem qualquer comprometimento.

O relacionamento inevitavelmente chega ao fim e, na segunda temporada, depois de ter abandonado a prostituição, Angel volta às ruas, desgostosa e desesperançosa. Depois de conhecer Stan, tinha certeza de que sua vida iria mudar, mas acabou decepcionada quando percebeu que ele não era o homem que pensava. Blanca, convicta do potencial de sua filha, incentiva Angel a correr atrás do sonho de modelo. Mesmo receosa de ser reconhecida como trans, ela decide se arriscar e vai para um casting — assim como a própria Octavia St. Laurent em Paris is Burning.

Ao longo da temporada, Angel descobre que é mais forte e mais talentosa do que poderia imaginar. Depois de ser escolhida para fazer parte da Agência Ford, ela consegue dar os primeiros passos na carreira e estampar algumas campanhas. Além disso, depois do baque sofrido por seu relacionamento anterior, encontra em Lil Papi (Angel Bismark Curiel), também membro da House of Evangelista, um parceiro dedicado e amoroso, muito diferente de Stan, que não tinha coragem de assumi-la. Neste ponto da história, Angel está em sua melhor fase. Ela tem uma carreira que jamais achou que poderia conquistar, um namorado que tem orgulho do que ela é, e uma família que nunca sai de seu lado. Para Angel, o segredo de sua sobrevivência está nas pessoas que a cercam. Ela precisa de um sistema de apoio para guiá-la e incentivá-la, e tem em sua história o significado de como a comunhão é capaz de estimular alguém.

No final, Angel só precisa da força daqueles que ama para continuar a desbravar todas as provas que encontra pelo caminho.

Damon Evangelista

Depois de ser diagnosticada com HIV, Blanca estava decidida a formar sua própria casa para acolher jovens que precisavam de ajuda. Ela conhece Damon (Ryan Jamaal Swain) enquanto ele dançava no Washington Square Park para ganhar dinheiro. Expulso de casa por ser gay, dormiu em bancos de praças e vagou sem rumo pelas ruas.

O sonho de Damon é ser dançarino e performar sua arte pelo mundo. Para que isso acontecesse, porém, ele precisaria se especializar e ter o nome de uma boa escola em seu currículo. Ao perder o prazo de audições na The New School For Dance, Blanca faz o que pode para que ele tenha uma nova chance, inclusive importunar Helena St. Rogers (Charlayne Woodard), professora e reitora da instituição. Eventualmente, depois de longas conversas insistentes, ela permite que Damon faça o teste. Ele não decepciona, e surpreende os avaliadores.

Ao longo de sua jornada com a dança e também no ballroom, Damon conhece Ricky (Dyllon Burnside), um rapaz assumidamente gay que tem fama de conquistador nos bailes. Ainda jovem e até pouco tempo vivendo em uma casa religiosa e conservadora, nunca teve nenhum tipo de experiência romântica, principalmente com outro homem. Mas a atração e o sentimento falam mais alto e eles rapidamente começam um relacionamento.

A jornada de Damon é de alguém que precisou crescer cedo demais, mas que mesmo assim não perdeu a doçura ou se deixou levar pelas injustiças que já sofreu até mesmo por seu próprio sangue. Ele continua lutando por aquilo que ama de maneira incansável, mas não menos sensível. Dono de um talento nato, na segunda temporada ele se forma na escola de dança e começa a dar seus primeiros passos na carreira, como dar aula de vogue no começo dos anos 1990 quando o hit de Madonna estourou em todas as paradas da época, e ser dançarino oficial de Malcolm McLaren em uma tour pela Europa.

A grande força de Damon se encontra em dois aspectos: na dança e em sua família. Necessitado de orientação, ele tem em Blanca a tranquilidade de ser quem realmente é, algo que nunca foi capaz de demonstrar com seus pais biológicos. O respeito que demonstra por ela em diversos momentos é amor puro e, mesmo quando acabam entrando em conflito — como em qualquer relação fraternal —, o carinho e a gratidão que ele sente por ela são perceptíveis. O incentivo da mãe e dos irmãos para continuar dançando é o que o impulsiona a seguir em frente.

Damon tem sua sobrevivência no mesmo lugar que centenas de jovens LGBT+ da década de 1980 e 1990 encontraram: nas casas. Ele é a uma representação real do que acontecia com crianças abandonadas pelas famílias. Humilhado e abandonado, se depara com uma nova chance de recomeçar e de viver sob suas verdadeiras cores em um lugar de genuína união. O mundo não reserva um tratamento gentil para um rapaz gay, negro e afeminado, mas integrado em uma família com pessoas iguais a ele, Damon atravessa o oceano para viver seu sonho.

Found family, a família que se encontra

O plano original de Ryan Murphy era criar uma versão televisiva de Paris is Burning, mas teve medo de não fazer justiça ao elenco do documentário, como contou ao Deadline em 2018. O roteiro que deu origem a Pose foi escrito por Steve Canals, um estudante da Universidade da Califórnia em Los Angeles, em 2014, mas que passou longos anos sendo rejeitado por produtores que consideravam a história sobre a subcultura dos bailes algo muito nichado. Quando o script caiu nas mãos de Murphy, ele uniu a vida real à ficção e criou a série.

As histórias reais em Pose não ficam só nos personagens principais. O destino trágico de Candy Ferocity (Angelica Ross) é inspirado em Venus Xtravaganza, encontrada morta em um quarto de hotel no dia 25 de dezembro de 1988. A trama utiliza deste fato para denunciar a violência sofrida pela população trans, assim como a impunidade de um crime tão cruel. O caso de Venus nunca foi solucionado.

Pose retrata da força de pessoas rejeitadas. Mostra como todas essas pessoas tão hostilizadas por uma sociedade preconceituosa são obrigadas a serem vigorosas e destemidas. Ser forte o tempo todo, no entanto, é exaustivo. Blanca, Elektra, Pray Tell, Angel, Damon e todos os outros membros do ballroom devem lutar a todo momento para conquistar qualquer coisa, seja o direito de usar as roupas que preferem ou meramente viver. A luta pela sobrevivência é constante, mas não é justa. A todo momento, o enredo expõe as injustiças que os personagens sofrem pelo simples fato de ser — de ser negro, de ser gay, de ser trans, de ser pobre. Em um mundo ideal, ninguém passaria por isso porque ninguém simplesmente deveria passar por isso.

Mas é neste pensamento cruel e melancólico que a série traz cenários de esperança. A essência de Pose, na verdade, é o amor. Found family é o tropo conhecido em produções da TV e cinema que retratam a conexão de um grupo de pessoas que não têm quaisquer relações biológicas, mas que mesmo assim se entendem como uma família. A tal “família encontrada” ou “família escolhida” é o que fundamenta a série, e, consequentemente, a vida real de milhares de pessoas LGBT+ que encontraram em desconhecidos a segurança e o apoio que precisavam.

Com isso, sobreviver não é mais o bastante, e Pose mostra como, ao fim, é possível viver.

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4 comentários

  1. Nossa que texto excelente!!! Estava muito curiosa para saber quais coisas eram verdade na série e encontrei aqui todas as respostas!!! Parabéns!!!

  2. A primeira vez que eu assisti Pose foi como se fosse um sonho. Sempre fui fan dos artistas como Mandonna, Prince, Michel Jakson entre outros. E saber de onde a inspiração veio, onde tudo começou foi maravilhoso. É através desse seriado que a comunidade Lgbt precisa resgatar o compromisso de lutar por causas e respeito. Amo ser ativista e definitivamente esse seriado trás a carga emocional e sobretudo social para o debate.