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O que terá acontecido ao Oscar de 1963?

Desde sua primeira edição — no Hotel Roosevelt, em Hollywood, no já distante ano de 1929 —, a cerimônia de premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas tornou-se palco de acontecimentos memoráveis, fosse por importância histórica ou inegável controvérsia, que hoje habitam o imaginário popular. Para todos os efeitos, o Oscar continua a ser o prêmio mais famoso e tradicional do cinema norte-americano (ainda que não seja, necessariamente, o mais relevante), o que significa estar constantemente sob os holofotes. Em 2018, o que paira sobre a premiação são os casos de assédio sexual envolvendo o produtor Harvey Weinstein, cujas consequências vão desde o efeito dominó generalizado de denúncias envolvendo grandes nomes da indústria cinematográfica — o famigerado efeito Weinstein —, até uma surpreendente lista de indicados e o movimento Time’s Up, que nasceu como uma imensa rede de apoio às vítimas dos crimes.

Nenhuma cerimônia, no entanto, parece tão absurda quanto a de 1963. A edição apresentada por Frank Sinatra consagrou o filme Lawrence of Arabia, que venceu sete das dez categorias nas quais fora indicado, incluindo o combo de Melhor Filme e Direção, em que concorria com outro grande clássico do cinema norte-americano, To Kill a MockingbirdGregory Peck foi escolhido como Melhor Ator pelo seu papel como o advogado Atticus Finch, enquanto Patty Duke Ed Begley receberam a estatueta de Melhor Atriz e Ator Coadjuvante, respectivamente, pelos seus papéis em The Miracle Worker e Sweet Bird of Youth. Naquele ano, contudo, era sobre o prêmio de Melhor Atriz que detinha-se a maior curiosidade e expectativa do público, além do olhar atento da mídia. Katharine Hepburn, Bette DavisGeraldine PageLee Remick concorriam na categoria que, por fim, premiou Anne Bancroft por seu papel como Anne Sullivan, em The Miracle Worker, uma professora cujo maior objetivo é ajudar uma menina cega, surda e muda a adaptar-se em um mundo completamente despreparado para ela. Bancroft, no entanto, não recebeu a estatueta naquela noite. Foi Joan Crawford quem recebeu o prêmio em seu lugar, com seu longo vestido prateado e cabelos tingidos da mesma cor, após ser ela mesma esnobada pela premiação, em uma ironia fabricada por ela e para ela; um momento que transformou não apenas a imagem de Crawford de forma definitiva, mas também a narrativa midiática na qual estava inserida.

Essa narrativa é explorada em Feud: Bette and Joan, série de Ryan Murphy que vai destrinchar a conturbada relação entre Bette Davis (Susan Sarandon) e Joan Crawford (Jessica Lange), na tentativa de entender o por quê do ódio, em uma abordagem que não as encara como pessoas essencialmente ruins, tampouco enxerga suas atitudes como falha ou desvio de caráter. Bette Davis e Joan Crawford eram mulheres tão ferozes quanto talentosas, que conseguiram ascender em uma indústria machista e misógina, mas que, antes de mais nada, eram humanas — e é sobre essa humanidade que Murphy projeta seu foco. A série mergulha em angústias e sentimentos muito íntimos, e revela que mesmo talento, orgulho e ferocidade não foram suficientes para torná-las mais seguras de si ou blindá-las contra a força perversa dos grandes estúdios e da mídia.

Em 1962, quando What Ever Happened to Baby Jane? foi produzido, Crawford vivia um momento bastante delicado, tanto na esfera pública, quanto na privada. A morte de seu marido, Alfred Steele, em 1959, fez com que ela precisasse voltar ao trabalho, visto que não possuía dinheiro para manter a si mesma e aos filhos, muito embora papéis para mulheres da sua idade fossem coisa rara em Hollywood. Ela não era a única, no entanto. Em Nova York, Bette Davis tentava fazer carreira na Broadway sem, contudo, obter sucesso. O fato de ser uma artista premiada com dois Oscars não a fazia uma profissional de destaque, como também não fazia Joan, ela mesma dona de uma estatueta — o que ficava mais evidente à medida que envelheciam e as ofertas de trabalho diminuíam em proporção. Ninguém parecia nutrir qualquer interesse sobre a carreira dessas mulheres, não tanto quanto estavam interessados em escândalos e fofocas, ou em atrizes jovens e burras, como relata Joan Blondell (Kathy Bates) na série.

Não é difícil entender por que What Ever Happened to Baby Jane? lhes pareceu uma oportunidade tão única e preciosa. Mais do que a história de duas mulheres ou um thriller psicológico produzido justamente quando o gênero vivia uma ótima fase, What Ever Happened to Baby Jane? era a oportunidade que lhes faltava para retomar o controle de suas carreiras e estar novamente sob os holofotes, não como as coadjuvantes mães ou avós de alguém, mas em papéis mais complexos e interessantes. Fora uma ideia da própria Joan convidar Bette para interpretar a personagem-título, uma antiga artista mirim que, já idosa, decide voltar aos palcos a qualquer custo; uma estratégia tão ambiciosa quanto arriscada, que visava atrair o público e gerar publicidade para o projeto. A proposta deu tão certo que não demorou para que o filme se tornasse um fenômeno de bilheteria, sucesso de público e crítica, tendo sido, inclusive, indicado em diversas categorias de prêmios importantes do cinema norte-americano. A recepção positiva também alavancou as carreiras de Joan e Bette, ainda que momentaneamente, muito embora não tenha impedido que a relação entre elas se tornasse mais obscura.

oscar 1963
Bette Davis e Joan Crawford em What Ever Happened to Baby Jane?.

O que as colocariam em lados opostos de forma definitiva seria a indicação de Davis ao Oscar de Melhor Atriz. Na época, comentários ofensivos eram comuns e partiam de ambas as partes, que não se preocupavam em vê-los publicados abertamente nos jornais — o que, em consequência, iria alimentar a rivalidade entre elas, que perduraria até o fim de suas vidas. O fato de não ser reconhecida pela Academia, no entanto, foi o que impeliu Crawford a, de maneira paradoxal, manipular as chances de Davis — e ela consegue, o que Feud também vai explicitar. Em “And The Winner Is… (The Oscars of 1963)”, quinto e muito provavelmente o melhor episódio da temporada, Ryan Murphy explora as implicações da resposta de Crawford, tanto para Bette quanto para ela própria. Bette Davis foi indicada ao Oscar e Bette Davis não ganhou o Oscar, mas mais do que isso, Bette Davis e Joan Crawford precisavam da validação, amor e reconhecimento de um prêmio tão tradicional quanto Oscar, que comprovasse a qualidade inegável de seu trabalho diante do mundo e sua relevância em uma indústria sempre tão condescendente.

A pressão de Crawford sobre os membros votantes da Academia foi eficiente na medida que tirou o prêmio das mãos de Bette, a grande favorita da noite, impedindo-a de se tornar a primeira pessoa a possuir três estatuetas na história da Academia, e o concedeu à Anne Bancroft, que não estava presente na cerimônia. Dois momentos que antecederam a noite do Oscar, no entanto, são fundamentais para entender como, para começo de conversa, Joan Crawford estava lá e como, em uma grande reviravolta, terminou com a estatueta nas mãos. O primeiro é sua conversa com o presidente da Academia à época, Wendell Corey, para quem vai colocar-se a disposição para apresentar fosse a categoria de Melhor Filme, fosse a de Melhor Direção, ficando, por fim, com a segunda. O segundo é quando, em segredo, Crawford entra em contato com outras atrizes que concorriam ao prêmio naquele ano, sugerindo que ela as representasse durante a cerimônia. Mais tarde, em uma entrevista, Geraldine Page confirmaria o ocorrido:

“I received a lovely note of congratulations from Miss Crawford. And then she called me. I was tongue-tied, very intimidated in talking with her. To me she was the epitome of a movie star. I always loved her movies . . . All I could manage was, ‘Yes, Miss Crawford. No, Miss Crawford.’ When she mentioned about accepting the Oscar for me if I won, I said yes. Actually I was relieved. That meant I wouldn’t have to fly all the way to California, or spend a lot of time looking for a new dress to wear. I was happy and honored that Joan Crawford would be doing all of that for me.”

“Eu recebi um adorável bilhete de parabéns da senhorita Crawford. E depois ela me ligou. Eu estava sem palavras, muito intimidada por estar falando com ela. Para mim, ela era a epítome de uma estrela de cinema. Eu sempre amei seus filmes… Tudo que podia fazer era dizer ‘Sim, senhorita Crawford. Não, senhorita Crawford.’ Quando ela mencionou receber o Oscar por mim caso viesse a vencê-lo, eu disse sim. Na verdade, eu fiquei aliviada. Isso significava que eu não precisaria voar até a Califórnia, ou passar tanto tempo procurando um novo vestido para usar. Eu estava feliz e honrada que Joan Crawford faria tudo isso por mim.” (tradução livre)

O trecho faz parte do livro Bette and Joan: The Divine Feud, do escritor Shaun Considine, que vai se debruçar sobre a relação das duas atrizes, reforçando aquilo que é apresentado pela série. Além do relato de Page, o livro traz o ponto de vista de outros artistas da época, incluindo a própria Bette Davis, que revelou estar ciente dos planos de Crawford:

“When Miss Crawford wasn’t nominated, she immediately got herself booked on the Oscar show to present the best director award. Then she flew to New York and deliberately campaigned against me. She told people not to vote for me. She also called up the other nominees and told them she would accept their statue if they couldn’t show up at the ceremonies.”

“Quando a senhorita Crawford não foi indicada, ela imediatamente reservou seu lugar no Oscar como apresentadora do prêmio de Melhor Diretor. Depois ela voou para Nova York e deliberadamente fez campanha contra mim. Ela disse para as pessoas não votarem em mim. Ela também ligou para outras indicadas e disse a elas que iria receber a estatueta se elas não estivessem presentes na cerimônia.” (tradução livre)

oscar 1963
Bette Davis e Joan Crawford, interpretadas respectivamente por Susan Sarandon e Jessica Lange, em “Feud”.

Mas a ideia de Crawford não cobria apenas a apresentação do prêmio, tampouco a receber a estatueta no lugar de alguém, quem quer que fosse, exceto Davis. Desde o seu vestido, penteado e joias — todos, como já dito, prateados, em uma referência à sua não-indicação — até a festa promovida na coxia, cada um de seus passos fora previamente calculado. Hedda Hopper, temida jornalista da época, escreveria em sua coluna, no dia seguinte à premiação, que “quando se trata de dar ou roubar um show, ninguém é capaz de parar Joan Crawford”, e ninguém podia dizer que ela estava errada. O que vai saltar aos olhos em “And The Winner Is… (The Oscars of 1963)” e expandir a discussão sobre a fatídica noite, no entanto, é o que acontece depois da cerimônia, quando Joan e Bette estão em casa, um ambiente privado e seguro dos flashes. Não há registros da reação de Davis logo após o resultado (Richard Dunlap, que dirigia a cerimônia, alegou que seria cruel demais capturar um momento tão dramático), assim como registros do que aconteceu depois são escassos, pequenas anedotas contadas por pessoas que estiveram lá ou souberam por intermédio de terceiros, dando a Ryan Murphy uma liberdade moderada para trabalhar. É essa liberdade que cria cenas como aquela em que, depois de lamentar a perda (“Eu poderia ter feito história. Poderia, iria, deveria.”), Bette ouve de Olivia De Havilland (Catherine Zeta-Jones), sua amiga e também atriz, que ela “ainda pode” fazê-lo, ao que Bette vai responder, não sem alguma grosseria, “em que filme, em que papel?”, pedindo desculpas logo depois. É uma cena triste, mas poderosa, potencializada pela verdade inexorável de que, após 1963, Bette Davis jamais seria indicada ao Oscar outra vez.

Porque nada é fácil para uma mulher, alcançar seu objetivo naquela noite não fez as coisas mais simples para Joan tampouco. Para todos os efeitos, ela continuava a ser uma artista de prestígio, mas seu momento de glória duraria apenas o suficiente para suprir o interesse das colunas de fofoca, não sendo o bastante para reestruturar sua carreira de maneira sólida, que vai sobreviver com alguma dificuldade. Ela viria a trabalhar novamente, mas não teria mais o impacto ou a relevância de outrora — como muitas atrizes antes dela e tantas outras depois. O que esse capítulo — talvez o mais controverso da história do Oscar — vai indicar é que, muito mais do que uma mulher mesquinha, como muitos se apressaram em rotulá-la, Crawford foi a vítima de uma indústria milionária, que fez dinheiro em cima de suas dores e conflitos mais íntimos. Ela jamais seria suficiente, como Bette também não seria, porque isso significaria negar aquilo que eram em sua forma mais visceral: humanas. Como Ryan Murphy explica em entrevista à Vanity Fair, é preciso trazer à tona os motivos por trás dos acontecimentos daquela fatídica noite do dia 8 de abril de 1963, que não existiram de forma isolada, e seria ingenuidade acreditar que sim. Mais de 50 anos depois, somos finalmente capazes de compreendê-las.


** A arte em destaque é de autoria da editora Ana Luíza. Para ver mais, clique aqui!

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2 comentários

  1. Que post fantástico! Não sabia sobre esse background das duas porque, confesso, que nunca pesquisei ou assisti a Whatever happened to Baby Jane? Mas é muito importante resgatar histórias como essa, lembrando que acima de tudo as duas atrizes são humanas e mulheres em um mundo e uma indústria que usa isso contra elas. Ótimo texto!

  2. Procurando um artigo sobre Geraldine Page, uma das minhas “atrizes vintages” favoritas, acabei chegando aqui. Um inesperado e agradável encontro. Seu texto flui de um jeito gostoso. Uma delícia de leitura. Parabéns!