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The Last 8: a guerra dos mundos de Laura Pohl

Ou: “Every single person left on the planet is gay.”

(Cada pessoa que resta no planeta é gay, em tradução livre)

E se aliens existissem? E se eles invadissem a Terra e eliminassem toda a nossa população? É inegável que nós, seres humanos, somos atraídos pelo desconhecido e pelo estranho, sempre buscando e imaginando as possibilidades de não estarmos sozinhos no Universo, desde se há vida — ou algo — a estreita no centro da Terra ou algo — alguém — que nos observa das estrelas, aguardando o momento certo para vir e acabar com nossa existência. Afinal, é como dizem, a galáxia é muito vasta para sermos os únicos por aqui.

A ficção científica tem seu quinhão de responsabilidade em alimentar essa imaginação e curiosidade ao tentar responder as pergunta acima, nos apresentando diversas versões da mesma história: um dia a humanidade vê seu céu repleto de naves espaciais. Talvez a história mais famosa deste acontecimento seja o livro escrito por H. G. Wells, Guerra dos Mundos. Desde seu sucesso de vendas e recepção massiva, incontáveis adaptações para o cinema até o famoso acontecimento que aterrorizou centenas de pessoas por meio das ondas do rádio, a importância de apresentar uma narrativa da maneira instigante, de um jeito único e que deixe um marca na experiência do leitor, fica evidente.

E é tudo isso que o livro de The Last 8, da autora Laura Pohl, publicado pela Sourcebooks em 2019 pode se orgulhar em ter. Quem vai nos guiar em meio ao apocalipse é Clover, uma adolescente latina que foi criada pelos avós, ama voar e sonha em ir para Marte algum dia. No dia em que o mundo virou de cabeça para baixo tudo que ela queria era comparecer à feira de ciências de sua escola em paz, conseguir o reconhecimento de um dos olheiros de Harvard (o primeiro passo para sua carreira na NASA) e voltar para casa para continuar suas voltas no avião do seu avô. Ela até consegue fazer tudo isso, mas antes do fim do dia a Terra é atingida por uma chuva de naves espaciais, uma delas caindo, inclusive, próxima a fazenda de seus avós.

The Last 8

Os dias se arrastam sem informações concretas do que está acontecendo, se os recentes visitantes são perigosos ou qual o objetivo de sua vinda para o planeta. Tudo que Clover sabe é que precisa ficar em segurança dentro de casa. Até que seu ex-namorado, Noah, aparece e Clover decide ir até a cidade com ele. Quando chegam lá, eles encontram um cenário muito diferente do usual. Carros abandonados, casas vazias e nenhuma alma viva em lugar nenhum. Clover é uma pessoa prática, com raciocínio apurado e muito inteligente e percebe o que está acontecendo muito antes de Noah. Os aliens finalmente resolveram atacar e cumprir sua missão na Terra.

Antes de conseguirem fugir, os dois são encurralados por um grupo de aliens, monstros com rosto e tronco humanos e pernas metálicas parecidas com as de uma aranha. No momento em que Clover tem certeza que seu destino será a morte, os aliens simplesmente ignoram a sua existência. E isso continua se repetindo, eles nunca parecem vê-la, e após atravessar metade dos Estados Unidos e não encontrar mais ninguém, Clover tem a certeza que é a última sobrevivente do mundo.

É a partir daí que o livro nos prende. Temos uma breve visão da solidão de Clover e como é acreditar veementemente que se é o último ser humano do planeta por cerca de seis meses. O fardo, o luto, o isolamento e as consequências psicológicas e emocionais em se perder todos os que se ama ou que se parecem com você. Os dias da nossa heroína são levemente menos aterrorizantes e solitários graças a presença de Sputnik, cachorra adotada por Clover.

“I’ve learned that there’s a difference between being alone and being lonely.”

“Eu aprendi que há uma diferença entre estar sozinha e estar solitária.”

A salvação de Clover — e da Terra, de certo modo — vem na forma de uma mensagem transmitida via rádio. É a voz de Brooklyn, outra adolescente, que informa a protagonista que os aliens não foram capazes de apagar todos os seres humanos e que os Últimos Adolescentes da Terra estão escondidos na Área 51 (uma ótima referência, diga-se de passagem). Quando chega ao local, Clover encontra Violet, Adam, Brooklyn, Rayen, Flint, Avani e Andy, Os Últimos 8. Serão eles os responsáveis por chutar a bunda de alguns aliens e tentar retomar a Terra para a humanidade, custe o que custar, mesmo que a batalha comece, para Clover, em tentar convencer seus novos amigos a lutarem pela humanidade ao invés de apenas se esconderem.

Com um ritmo na medida certa, a narrativa de The Last 8 prende o leitor com mistério, humor, revelações de tirar o fôlego e com a dinâmica entre os oito personagens e na relação que estabelecem uns com os outros, seja fraterna ou romântica. O livro se constrói nos detalhes e no talento de Pohl em contar uma boa história. Todo ponto de vista é único e a roupagem e visão que a autora traz para sua versão de um apocalipse alienígena impressiona pela capacidade em nos fazer sentir e encontra seu brilhantismo nos momentos em que narra as desventuras de sua personagem de forma sensível, profunda e real. As referências a Star Wars são um bônus bem vindo.

“I don’t belong to the sky anymore. Hope is the thing that kills me in the end. Because it doesn’t take my body, but it takes my soul.”

“Eu não pertenço mais ao céu. Esperança é o que me mata no final. Porque não leva o meu corpo, mas leva a minha alma.”

Adiciona-se a isso o fato do livro abordar temas emergentes socialmente, com uma protagonista latina, bissexual arromântica, que sofre de depressão e luta com pensamentos suicidas, e um grupo de personagens quase que totalmente diverso, seja em raça ou sexualidade, e temos uma obra completa. Brooklyn sendo, dentre os personagens, a minha favorita.

“That’s reassuring,” Brooklyn mutters. “Nuclear weapons in the hands of teenagers.”

“Isso é reconfortante,“ Brooklyn murmura. “Armas nucleares nas mãos de adolescentes.”

É verdade que cada vez mais vemos personagens refletindo uma realidade diversa e não apenas reproduzindo uma história de um único padrão, mas ainda é necessário destacar com veemência o bom trabalho feito por escritores ao retratarem de forma tão genuína e assertiva a saúde mental, por exemplo. O tema ainda é tabu em alguns círculos e ter um livro de ficção científica para jovens adultos abordando isso de forma tão assertiva, nua e crua é incrível.

Já o fato de Clover estar dentro do espectro arromântico é importantíssimo, visto que o conceito ainda é pouco debatido, e as pessoas que se identificam como tal ainda são invisibilizadas, seja dentro ou fora do mundo ficcional. O livro de Pohl é meu segundo contato com uma história protagonizada por uma personagem arromântica, a primeira foi a da autora nacional Bárbara Morais, em sua trilogia distópica Anômalos, em que a protagonista Sybil é construída como assexual arromântica. Ambas as obras são ownvoices (vozes próprias, em tradução livre), um movimento importante dentro da literatura em que se prioriza a escrita e leitura de obras que reflitam a experiência e realidade de quem escreve quando se trata de histórias sobre grupos marginalizados ou minorias.

The Last 8 entrega tudo aquilo que promete, e o faz com uma ótima escrita, com personagens impossíveis de não amar e com uma narrativa envolvente e que nos ensina muito. A conclusão da duologia, The First 7, foi lançada em março e promete encerrar de forma épica o destino dos Últimos Adolescentes na Terra. Mal posso esperar para mais tiradas espertinhas de Brooklyn, momentos badass de Clover e Rayen, e para continuar percebendo o quão sortudo Flint foi por nunca ter assistido ao último filme de Star Wars.


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1 comentário

  1. Me parece que a autora bebeu da fonte de George R. Stewart, com a jornada da protagonista pelo país em busca de sobreviventes, tal como o protagonista de Só a Terra Permanece.