Categorias: CINEMA

O Canto do Cisne, Drive My Car e o sentido que está no meio

Indicado ao Oscar 2022 de Melhor Filme Estrangeiro, Drive My Car tem algo em comum com O Canto do Cisne, produção que chegou a render uma indicação de Melhor Ator a Mahershala Ali no Globo de Ouro, mas ficou de fora das indicações ao Oscar. As duas histórias são sobre a morte, a vida e o que há no meio das duas. Enquanto o longa japonês trás a perspectiva dos que ficam, o filme estadunidense é sobre quem se vai e tem chance de saber sobre própria morte.

Atenção: este texto contém spoilers!

O Canto do Cisne: a efemeridade da vida

Escrito e dirigido por Benjamin Cleary, O Canto do Cisne é uma ficção científica na qual temos o vislumbre de uma sociedade no futuro em que tecnologia e ciência se desenvolveram a tal ponto que é possível criar um clone cuja memória é abastecida com toda a história de vida da pessoa replicada. A técnica ainda não é difundida, mas ao descobrir uma doença terminal, o ilustrador Cameron Turner tem a chance de usá-la. A escolha é para poupar sua esposa grávida e o filho pequeno da dor de sua perda. A única condição para que Cameron seja substituído daquele ponto da vida em diante por uma cópia saudável é que seus familiares não saibam da troca.

Durante o processo para transferir uma cópia de suas memórias para seu clone e testar se elas estão alinhadas com o que de fato aconteceu no passado, Cameron revive sua trajetória de vida. É então que descobrimos que a principal motivação do desenhista para a decisão é o trauma de Poppy, a esposa vivida por Naomi Harris, com a morte do irmão gêmeo, Andre. Após um longo período de depressão e culpa, ela estava enfim recuperada e pronta para retomar a vida, então o marido decide realizar este último gesto de amor, ainda que longe do conhecimento dela. Ao mesmo tempo que revisitar as próprias vivências parece reforçar a escolha de poupar as pessoas amadas da dor de mais uma perda, essa rememoração desperta pouco a pouco algo que talvez o protagonista não esperasse que seria parte da experiência de ter consciência da morte.

Acompanhamos sua jornada de entendimento, que passa por outras situações do processo de preparação do clone. Uma outra parte do plano de substituição envolve Cameron assistindo sua cópia vivendo com sua família no lugar dele para verificar a verossimilhança desta. Testemunhamos, então, a angústia ao ver uma pessoa que, por mais que tecnicamente seja ele, exceto pela doença terminal geneticamente removida antes da clonagem, não é ele. Somos levados a refletir sobre a singularidade de cada indivíduo, já que outro corpo, mesmo que seja idêntico ao nosso e carregue inclusive as mesmas memórias que nós, não é exatamente o que somos. E talvez seja aí que Cameron se dá conta mais nitidamente que, com sua partida, ele ainda será perdido. Mesmo que seus familiares não saibam, ele — e tudo que só ele tem e é — deixará de existir.

Talvez por isso, despedidas na hora da morte sejam tão dolorosas para quem vai e para quem fica, mas são também muito importantes — quando se tem a chance de fazê-las. É a angústia de deixar de existir que confere importância a cada detalhe da vida dos indivíduos, e, talvez, ao se saber da própria morte é que se pode enfim compreender verdadeiramente essa importância, algo que Cameron parece ter compreendido durante o processo. Já para quem fica, a despedida também pode trazer o mesmo entendimento: todos nós temos consciência que o fim do corpo físico leva da Terra um ser único, e quando nos damos conta de que em breve ele não estará mais conosco, tudo se transforma: o que sentimos por aquela pessoa passa a ser entendido como consequência direta de suas existências únicas, com os defeitos e qualidades que só aquele indivíduo possui. E aí percebemos a verdadeira falta que uma pessoa fará.

Comprometido com o segredo da substituição, o protagonista tem a chance de ter sua despedida, mesmo que a família não saiba que será a última vez que aquele Cameron estará entre eles. No entanto, no momento em que chega em casa para seus últimos dias antes que a doença piore e sua morte próxima não possa mais ser escondida, Cameron tem uma convulsão e precisa ser internado. Ao acordar, sua cópia está vivendo sua vida em seu lugar, mas o ilustrador persiste na ideia de dar seu último adeus.

Por sorte, ou por carregar ainda a mesma consciência de seu original, o outro Cameron ajuda o original a ter sua despedida secreta antes da morte. Ao acompanhar aquela história, ficamos com ideia de que ir embora tendo consciência de que estamos partindo é uma oportunidade de dar significado à vida, que pode ser caótica e também generosa, mas é sempre aleatória, e só passa a ter sentido a partir do momento em que temos consciência que um dia morreremos. Ainda que saibamos que um dia deixaremos de existir, a morte vem como uma surpresa para a maioria das pessoas. As poucas pessoas que têm um prazo para sua partida tem a oportunidade de serem agentes criativos desse significado que só a vida humana tem.

Em inglês, a expressão que dá nome ao filme (“swan song”) define a última performance ou atividade de alguém antes que deixe de executar uma determinada função. Os flashbacks que acompanham a trama nos mostram como Cameron sempre foi um companheiro e pai amoroso e gentil, e a escolha de se replicar para poupar a família da dor é, portanto, um último ato. Como no teatro, este é o ato que conclui a história e a vida do protagonista. Ao escolhermos como se dará a conclusão de uma narrativa, damos significado a todos os fatos e reviravoltas dos atos anteriores, algo que Cameron só consegue graças à consciência da morte, mesmo que o tenha feito secretamente.

Se a despedida de quem vai ensina, aqueles que ficam também precisam aprender a encontrar significado na aleatoriedade da vida dos que foram, em especial, quando não há uma despedida.

Drive My Car: a vida não tem roteiro com começo, meio e fim

Dirigido por Ryusuke Hamagushi, Drive My Car é um filme com ritmo tão cadenciado quanto O Canto do Cisne. A adaptação cinematográfica do conto homônimo de Haruki Murakami começa mostrando a vida imperfeita de Oto Kafuku, vivida por Reika Kirishima, e seu marido, o ator de teatro Yusuke Kufuku, interpretado por Hidetoshi Nishijima. Nos vislumbres íntimos que temos da vida do casal, sabemos que os dois perderam uma filha quando esta era ainda criança e que a roteirista tem pelo menos um caso extra-conjugal, do qual o marido está ciente, embora não tenha confrontado a companheira por isto. Um dos últimos atos de Oto é apresentar Yusuke a um jovem ator com quem trabalha, e então, sabemos que ela deseja conversar com o marido sobre algo que aparenta ser importante. Yusuke, no entanto, nunca descobre o que ela queria conversar, pois ao chegar em casa naquela noite, encontra Oto desacordada. Depois da morte da esposa, temos um vislumbre de Yusuke vivendo seu luto e sua dor no palco, e então a trama dá um salto no tempo.

Nos reencontramos com Yusuke retomando seus projetos de teatro, alguns anos após a morte de Oto. Convidado para dirigir uma peça em um festival, o ator aclamado lida com atores de diferentes nacionalidades. Durante os ensaios do grupo de teatro, a organização do festival exige que os diretores sejam guiados por motoristas, já que houve problemas prévios com outros participantes que infringiram leis de trânsito. Yusuke, que tem um carro antigo e bem cuidado, está convivendo, durante todo o tempo desta segunda parte da trama, com Misaki Watari. A jovem motorista vai revelando, aos poucos, que também tem uma história de luto para superar.

Para surpresa do agora diretor, o jovem ator Koji Takatsuki, ao qual havia sido apresentado pouco antes do falecimento de Oto, é um dos candidatos a um papel que Yusuke havia interpretado anteriormente. Durante os ensaios do grupo, percebemos que a tensão entre os dois atores se relaciona também ao luto que ambos ainda carregam em si. Sem se despedir, Oto deixou ações, falas e gestos inacabados para ambos, e para eles ainda é difícil encontrar significado para o que não foi concluído.

Ainda que os dois se desentendam e o caráter de Takatsuki comece a ser questionado pelas ações fora da sala de ensaios — cenas que aparecem nos entornos da trama principal —, os dois chegam a ter uma conversa sobre a última história que Oto estava criando, compartilhada com ambos. O fato de que tanto um como outro sabem da trama inacabada fica registrado como uma confirmação de que Takatsuki era um dos amantes de Oto, já que, como demonstrado no primeiro ato do filme e explicado por Yusuke neste diálogo, a esposa costumava ter ideias para suas histórias durante e após o sexo, e as contava para que o outro se lembrasse dos detalhes que ela esqueceria no dia seguinte.

Após testemunhar, no banco da frente do carro, a conversa dos dois atores, Misaki ouve a confissão de culpa que Yusuke sentiu pela morte de Oto: com medo da conversa para a qual a esposa o havia convocado, ele se atrasou propositalmente, e em sua mente ainda paira a eterna dúvida se algo poderia ter mudado caso tivesse chegado em casa mais cedo. A culpa e a impossibilidade de fazer algo diferente fazem com que o viúvo repense seus sentimentos. Se antes o amor que Oto sempre fazia questão de confessar podia ser incerto, agora parecia ter se tornado uma certeza, tanto quanto o amor que ele próprio sentia por ela, apesar de saber de sua infidelidade.

O que Yusuke não esperava é que a jovem motorista fosse confessar que sentia algo parecido em relação à morte da mãe. Ela também se considerava assassina da mãe, porque não ofereceu a ajuda que teria salvo a mãe de uma avalanche. Se preservando, ela fugiu e se salvou, e agora também guarda sentimentos incertos que parecem ter ganhado outro sentido após o fim definitivo.

Compartilhando de seus lutos, os dois retornam ao vilarejo da jovem e, diante da casa soterrada pela neve, Misaki conta como sua mãe tinha uma personalidade dupla. Se, em alguns momentos ela batia na filha, em outros a tratava como uma amiga. Então, além do alívio, ficou também o peso da perda: apesar de não ter que lidar com as agressões,  também foi preciso recomeçar uma vida sozinha, sem ter mais ninguém no mundo e contando com poucos recursos. E aquilo também transformou a jovem motorista.

Talvez, o que una os dois personagens seja a dificuldade de encontrar significado nos gestos aleatórios e até mesmo contraditórios dos que se foram, em especial porque partiram de forma repentina e deixaram como legado dúvidas, questionamentos e histórias inacabadas. Todas as incertezas da vida, refletidas aqui nas personagens de Oto e da mãe de Misaki, que hora amavam, hora causavam dor, parecem se tornar definitivas demais, irreversíveis. E o fim desse movimento causa angústia por ser também um último ato que fecha a história e oferece uma conclusão num ponto em que não se esperava: sem que conflitos tivessem sido resolvidos, sem que contradições tivessem sido apaziguadas. A vida não é uma peça de teatro com começo, meio e fim.

Embora o ator e a motorista tenham encontrado na companhia um do outro menos solidão diante dessas dualidades de seus mortos, permanecem as dúvidas do que poderia ter acontecido caso tivessem agido diferente e o questionamento se teriam de fato feito algo, já que, além de amar, também tinham razões para odiar os falecidos. A vida é dúvida, a morte talvez seja uma resposta e a compreensão está no meio: entre viver e morrer. Por isso o ato final é tão importante, no teatro e na vida.


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