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O que a cultura pop nos ensina sobre luto (e como lidar com ele)

No piloto de The Leftovers, série criada por Damon Lindelof para a HBO, baseada no livro homônimo de Tom Perrotta, 2% da população do mundo simplesmente some. Não existe explicação para o que acontece e a produção nem sequer tenta achar um alternativa mirabolante para onde essa parcela de pessoas foram parar. Seu objetivo é, principalmente, explorar o luto dos humanos que ficaram para trás, que perderam família, amigos e amantes, e não sabem como seguir em frente. Mas essa não é uma história fácil de contar ou explorar. Seria muito mais divertido se Lindelof tivesse abordado, por exemplo, o lado da ficção-científica, se aprofundando em um fenômeno ou teorias que tivessem levado a tal acontecimento. Existe o suficiente de teorias loucas e cenários absurdos aplicados dentro do contexto da obra, muitos tirados da série mãe do criador, Lost, mas quanto mais acompanhava os episódios, mais percebia que no final todas as metáforas, alegorias e o cenário apocalíptico serviam para falar sobre outro assunto: perda, separação e, obviamente, amor.

The Leftovers, no entanto, não retrata apenas a perda em si. Durante suas três curtas temporadas a produção mostrou um tipo de separação que é a mais cruel de todas: aquela que chega de forma completamente inesperada, sobre circunstâncias extenuantes. Como você lida com o sumiço de 2% da população? Por que alguns ficaram, enquanto outras pessoas não estão mais aqui? Qual foi o critério para a escolha? A sensação de desespero, desolação e, claro, o luto, levam os personagens para caminhos diferentes. Nora (Carrie Coon), que perdeu os dois filhos e o marido de uma vez só, contrata prostitutas para dar um tiro nela enquanto usa um colete à prova de balas, tentando a qualquer custo entender o seu vazio, sentir outra vez. Kevin (Justin Theroux) se afasta da família e começa a ter “alucinações”, enquanto sua ex-mulher, Laurie (Amy Brenneman), deixa-os para se juntar ao grupo chamado de “Guilty Remnant” (ou os remanescentes culpados, em tradução literal) — pessoas que vestem branco, tomaram um voto de silêncio e saem por aí com o único propósito de não deixar com se esqueçam do que aconteceu.

É interessante perceber como aquele evento afetou os personagens, pessoas que vêm de um mesmo contexto social, de formas tão diferentes. Nora teve que lidar com a perda literal, seu problema é como uma ferida aberta: recente, doloroso e impossível saber se vai realmente se curar até o fim ou não. Já com Kevin e Laurie, o luto que eles compartilham foi engatilhado pelo desaparecimento das pessoas, claro, mas no processo abriu e expôs questões que eles não necessariamente sabiam que estavam ali, que foram escondidas pela rotina diária no ritmo constante da vida. E como o luto é algo solitário, onde cada um deles tem que achar a melhor forma de lidar com isso para que consigam superá-los, os dois acabam se afastando cada mais, ao mesmo tempo que Nora encontra em Kevin uma possibilidade de recomeço — mesmo que sua jornada para entender a perda seja a mais complexa e profunda da série.

Seis meses atrás, quando a OMS declarou que a situação do coronavírus já era uma pandemia, pensei muito em The Leftovers. Os noticiários eram dedicados às milhares de pessoas que morriam diariamente na Itália e só alguns meses depois o Brasil já estava em uma situação muito, muito pior. A sensação de desespero era real e palpável, e não tinha nada para fazer ou evitá-la. Parece um exagero falar dessa forma, mas é assim que as pessoas reagem ao desconhecido. Assim como 2% da população simplesmente desapareceu da Terra sem nenhuma explicação lógica dentro da série, aqui as pessoas estavam morrendo de forma constante e pouco natural. O motivo era, claro, a Covid-19. Mas os estudos eram (e ainda hoje são) pouco conclusivos sobre o vírus em si e na reação que ele causa nas pessoas. Assim como o seriado de Lindelof, milhares de pessoas estavam perdendo familiares, amigos e pessoas queridas sem a chance de dizer adeus. O funeral, que é um rito que varia de acordo com as culturas, mas na sua essência se mantém o mesmo, serve para colocar um ponto final na perda. Negação, raiva, negociação, depressão e finalmente o último passo, aceitação. E mesmo isso, a necessidade de reunir as pessoas que ficaram, e ainda carregam o amor pela pessoa que morreu como algo em comum, está sendo negado.

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Não existe um tempo conveniente para a morte, mas nessas circunstâncias as coisas ficam ainda mais difíceis e surreais de se processar, fazendo com que lidar com o luto se torne um verdadeiro desafio. Mesmo assim, a pandemia apenas reforçou um sentimento de luto que, de certa forma, já pairava nas pessoas, ainda que de forma superficial. O momento político conturbado, a ascensão do fascismo, o meio ambiente, a polarização, intolerância. Tudo isso sempre existiu no mundo mas parece estar mais urgente e constante de alguns anos para cá, como se o mundo estivesse para implodir. É lógico que essa percepção é inteiramente pessoal e provavelmente alguém vai ler esse texto e fundamentalmente discordar do que estou falando; mas lembro de sair do cinema depois de uma sessão de Infiltrado na Klan, do Spike Lee, e chorar meia hora no banheiro porque a sensação de perda, mudança e de que estamos presos em um mundo que se recusa a mudar e evoluir parece ser muito para aguentar.

É isso que, no final, faz com que The Leftovers seja uma fonte tão poderosa quando se trata de observar e explorar o luto. As reações dos personagens são complexas, diferentes e nem sempre fazem sentido. Algumas vezes, seus relatos são até mesmo pouco confiáveis, ambíguos. A jornada que eles traçam é tão poderosa e comovente, que uma história que se tem na essência temas como perda e luto, se torna sobre vida e amor. E sobre o ciclo que todos esses elementos completam. Em um artigo sobre a série, a crítica de TV Mo Ryan diz que o que os personagens da obra mais querem é “serem vistos.”

“A morte sempre está chegando, a separação está sempre à espreita. Tragédias repentinas acontecem todos os dias e se não se enveredamos, estamos desfeitos (…) nesse processo, fazemos piadas, nos abraçamos, às vezes até aprendemos algo. Choramos, bebemos, fazemos tatuagens nas costas. As respostas variam.”

As respostas variam, de fato. É por isso que Nora passou grande parte da sua trajetória na série tentando desesperadamente achar alguma sensação de normalidade, criar uma conexão com Kevin, contar para si mesma que podia seguir em frente; mesmo que eventualmente qualquer fio de junção com a realidade que estavam inseridos tenha se partido. E é por isso que Kevin mais de uma vez caiu em um estado profundo de negação, onde sua mente levava seu corpo para realidades alternativas e ilusórias onde tinha que fazer escolhas grandiosas sobre sua vida. O que restava para os dois além de tentar seguir em frente? Ou achar conforto um no outro?

Recentemente li e assisti o documentário Eu Terei Sumido na Escuridão. O livro, escrito por Michelle McNamara, narra sua obsessão em encontrar o serial killer que ficou conhecido como Golden State Killer/Original Night Stalker. Apesar da história ser basicamente sobre os casos e como ela foi desvendando-os aos poucos, as partes que mais valem a pena são aquelas recheadas com pequenos detalhes sobre si e sua família. Além de ser uma ótima investigadora/jornalista, McNamara é uma contadora de história convincente e sensível, e sem a carga dramática presente no livro, e a sensibilidade com que ela usa desses elementos, a obra com certeza não seria a mesma. O capítulo mais impactante é aquele onde a autora explora sua relação conturbada com a mãe, a forma como elas se relacionaram durante a vida inteira, chegando até o momento da sua morte. O jeito que ela conecta sua dinâmica complexa com a figura materna, o luto da sua perda com a narrativa da sua investigação obsessiva por assassinatos que aconteceram décadas atrás é brilhante, e mostra um nível enorme de autoconhecimento.

Infelizmente, McNamara morreu antes de conseguir concluir seu trabalho no livro, que foi finalizado com a ajuda da editora e mais tarde inspirou um documentário na HBO. Com oito episódios disponíveis, devido as circunstâncias extenuantes, a produção aborda muito a morte da autora e como isso afetou as pessoas ao seu redor, inclusive o seu marido, Patton Oswalt. Por causa da narrativa sensível já embutida na obra original, no entanto, tudo parece orgânico e se encaixa como uma luva na narrativa apresentada na série.

No mesmo capítulo sobre a morte da mãe, McNamara conta que ela, o pai e os irmãos estavam sentados na mesa de um restaurante rindo e contando histórias engraçadas sobre a mesma, logo depois da sua morte, quando uma senhora passou pelo lado deles e perguntou “qual era o segredo”. Todos eles olharam sem entender. Ela apenas responde: “para tamanha felicidade.” Para McNamara, e o resto da sua família naquele momento, não existia uma resposta possível. Eles não estavam felizes, tinham acabado de perder a mãe. Mas ainda assim, uma forma que eles encontram de passar por esse processo de luto foi sentar e jogar conversa fora, rir e falar sobre tempos melhores. Esse trecho em específico ficou muito comigo e penso nele constantemente, mesmo meses depois de terminar a leitura. Porque venho de uma família extensa e até certo ponto unida, a perda vem sendo um elemento constante no meu processo de crescimento (ainda que as vezes de forma indireta). Uma coisa que tenho na minha mente com clareza são reuniões onde essas pessoas, minha família, que carregam o luto como um fator em comum, o amor por alguém que já não está mais aqui, se reúnem apenas para fazer exatamente o que Michelle e seus irmãos faziam naquele momento. É sempre uma mistura de choro e risada, ao mesmo tempo que é catártico e cria conexões ao invés de rompê-las. É o sentimento humano de empatia e nostalgia que vai passar de uma geração para outra e, no futuro, se fizermos as coisas certo, outras pessoas é que vão estar sentadas, na mesma posição, em luto por nós.

A perda em si é algo que está tão entrelaçado com a existência humana, que existem pessoas que fazem de tudo para escapar a ela. Esse sentimento excruciante é  algo tão presente na nossa sociedade quanto o amor ou o oxigênio — e até mesmo o maior blockbuster de todos os tempos contém uma história que é, em sua essência, sobre isso. Vingadores: Ultimato é um longa absurdamente ambicioso: envolto de 10 anos de expectativas, seu principal objetivo é encerrar o arco de alguns dos personagens mais importantes da última década de cultura pop. A produção é recheada de problemas e mastiga mais do que consegue engolir nas suas três horas, acrescentando tramas de viagem no tempo, física quântica e talvez até mesmo realidades alternativas (afinal, quando eles mudaram os eventos de uma linha no tempo não criaram outra que se difere da mesma?). A premissa do filme, no entanto, mostra os heróis da Marvel tentando voltar para o passado para tentar desfazer o estalo do Thanos (Josh Brolin) em Guerra Infinita e trazer a metade da população que sumiu de volta. Mas o que vemos no começo da obra não são os mesmos começaram no MCU. Capitão América, Viúva Negra, Homem de Ferro e Thor não são mais apenas estereótipos e sombras do que eles deveriam ser, mas sim pessoas que falharam, e agora carregam a dor da perda em si.

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Quando Steve Rogers (Chris Evans) e Tony Stark (Robert Downey Jr.) são introduzidos na Marvel, os dois são o oposto completo: enquanto o primeiro vê o mundo como ele gostaria que fosse, e está disposto a se sacrificar para conseguir alcançar o seu ideal, o outro é um multimilionário com pose de playboy, visto geralmente como alguém arrogante e egoísta. Sem profundidade o suficiente para serem personagens interessantes, em Ultimato eles são colocados em posições onde têm que sair do status quo e se tornarem algo mais. Cinco anos após o estalo de Thanos, Rogers comanda um grupo de apoio onde ele incentiva as pessoas a continuarem lutando pelo o que é certo, enquanto Stark se recolheu com sua família no interior, sendo que tenta evitar entrar em contato com qualquer parte do seu luto. Natasha (Scarlett Johansson) lida com a perda se afundando cada vez mais no trabalho e tentando conter os danos colaterais que o dano causou no mundo, e Thor (Chris Hemsworth) nem sequer consegue passar os seus dias sem beber. Eles não são mais a equipe apresentada no filme de Joss Whedon de 2012, mas de alguma forma são mais reais e interessante por isso.

O fato de que Vingadores: Ultimato resolve mostrar a forma como eles lidam com as consequências do estalo, e como os heróis lidam com a perda e o luto, faz com que o filme em si seja muito mais interessante. É tão comum na cultura pop vermos destruição após destruição apenas na superfície, que assistir os protagonistas lidando com assuntos tão comuns quanto esses é um alívio, e faz com que eles se tornem mais humanos e identificáveis. É possível até mesmo ver um pouco da essência de The Leftovers presente ali e, ainda que o longa não tenha o mesmo nível de profundidade da série, é catártico ver personagens como Tony Stark voltando no tempo e conversando com seu falecido pai sobre a vida e o que realmente importa nela; ou Thor falar com a sua mãe, que morreu no segundo filme de sua franquia, e descobrir que mesmo que ele tenha falhado e o luto seja uma parte maior em sua vida do que gostaria de admitir, ele ainda é digno (diria que no caso de Thor, em específico, nem toda a trajetória é perfeita, já que resolveram usar o fato de que ele engordou como uma piada, mas estaria mentindo se dissesse que não gosto da mensagem no final e o pay off da trama).

Se o segundo e o terceiro ato de Vingadores: Ultimato são cheios de sequências de ação e tramas expositivas, o primeiro é apenas sobre reflexão e luto, algo que poucos blockbusters têm o costume de se permitir fazer. É sobre explorar a perda e achar uma forma de seguir em frente. Nesse caso, tentar reverter o que aconteceu no longa anterior. Sei que muitas pessoas preferem Guerra Infinita, porque no geral é difícil competir com uma produção com uma reviravolta como aquela, mas prefiro Ultimato pelo simples fato de que concluir arco de personagens em uma maneira satisfatória é muito mais difícil do que tentar subverter as expectativas. No processo de tentar encerrar a jornada de heróis muito queridos pelo público, o roteiro não só encerrou a jornada de alguns deles, como também deixou que eles pudessem entender a perda que sofreram, canalizar o seu luto e se reagrupar para dar os próximos passos. Mais de um ano depois da estreia do filme, aprecio muito essa decisão e a forma como ela envelheceu, se tornando algo atemporal e empático.

Quando tive a ideia de escrever esse texto, entrei em uma longa discussão comigo mesma sobre o modo certo de abordar esse tema: se o viés seria feito por meio de pesquisas, dados e opiniões de profissionais sobre o assunto, ou se ia explorar isso tudo isso por meio do meu ponto de vista pessoal como uma pessoa que, de certa forma, cresceu fascinada pela morte e o efeito que ela tem nas pessoas. Como venho de uma família que acredita em vida após a morte, algo que também aprendi a acreditar depois de um tempo, vejo a mesma não como um final definitivo, mas sim um passo adiante. Lembro de um dia estar sentada na cama vendo um filme de terror com duas amigas minhas. Quando aquela história ficou pesada demais para aguentar, de alguma forma o tom do filme fez com que começássemos a conversar sobre as perdas das nossas vidas. Na época, eu não devia ter mais de 12 ou 13 anos e hoje nem sequer lembro muito do que falamos ou porque choramos do que jeito que a memória está encravada na minha mente. Mas até hoje penso nesse dia porque a perda já tinha me afetado de muitas formas e eu nem sequer entendia isso direito. Anos mais tarde, conversando com uma outra amiga que tinha perdido um parente de forma abrupta, ela me disse que procurava constantemente por uma razão para aquilo ter acontecido. E simplesmente não conseguia encontrar.

A procura pela razão é algo comum dentro de um processo de luto. Muito como a conversa que tive com minhas amigas aos 13 anos, a primeira vez que vi o episódio “The Body”, de Buffy: A Caça Vampiros, também não consegui entender completamente todos os nuances presentes ali. Joyce Summers (Kristine Sutherland) nunca foi minha personagem preferida da série. Com aparições pontuais ao longo das cinco primeiras temporadas, Joyce tinha um único objetivo dentro da narrativa: ser a mãe de Buffy, nunca sendo desenvolvida além disso. Ao fazer a transição dos anos adolescentes da protagonista para sua vida como uma mulher adulta, a produção começou a abordar assuntos mais complicados e as tramas foram ficando mais difíceis, ambíguas e moralmente complexas. A morte de Joyce está no centro de tudo isso e representa um ponto de ruptura para Buffy.

Não é atoa que esse episódio é considerado o melhor da série. Não só é uma aula na forma como tratar o luto nas telas, como também é um retrato honesto e dolorosamente real sobre os momentos que seguem após a morte de alguém que você ama. No começo do episódio, a protagonista chega e encontra a mãe morta no sofá. Nos minutos seguintes, ela não consegue fazer muita coisa a não ser ligar para uma ambulância e vomitar no chão. Quando os paramédicos chegam e dizem que sua mãe está morta, ela imagina vários cenários onde as coisas tomaram um rumo diferente. De alguma forma os médicos conseguiram ressuscitá-la e salvá-la no hospital, onde ela, sua irmã e a mãe estão aliviadas. Mas não é isso que acontece.

Longe de Buffy, Willow (Alyson Hannigan) se prepara para ir até o hospital ajudar sua melhor amiga e troca de roupa constantemente porque nada parece apropriado. Anya, um ex-demônio de mil anos que de uma hora para outra virou humana e tem que se adaptar aos costumes dos mesmos, não consegue entender como aquilo aconteceu. “Não entendo porque temos que passar por isso. É estupido e mortal e ninguém quer me explicar porque isso acontece”, ela diz, em uma das cenas mais importantes do episódio. Nesse meio tempo, Xander (Nicholas Brendon) apenas procura por uma razão. Sugere que talvez tenha sido Glory (Clare Kramer), a grande vilã daquela temporada, que tenha matado Joyce. Ou que outro figurão do submundo tenha sido o responsável. Em um mundo como os que eles vivem, cheio de demônios e vampiros, é difícil acreditar que qualquer um desses elementos não tenham sido o motivo, a razão. Mas não foi, e assim como muitas coisas na vida, a morte de Joyce simplesmente aconteceu. Não teve significado ou motivo. Quando a cena termina, a câmera sai pela janela e foca em um guarda colocando uma multa no carro de Xander, porque ele estacionou em um lugar proibido — a prova de que a vida continua.

“The Body” é excelente pelo roteiro sensível e verdadeiro, mas também pela forma como Whedon usou do silêncio e da câmera para contar sua história. Além disso, a construção que acontece antes e depois da morte de Joyce é muito bem trabalhada e o luto toma cada vez mais parte da vida de Buffy. Ela não só sofre pela perda da mãe, mas também pela ruptura com a vida que tinha antes, o fato de que tem que abandonar sua faculdade, assumir a responsabilidade pela irmã mais nova e ao mesmo tempo lidar com os demônios e vampiros da Boca do Inferno. O fato de que Dawn (Michelle Trachtenberg) tenta trazer a mãe de volta ao usar magia e falha, prova que da morte, luto e perda não há como escapar, mesmo que se viva em mundo cheio de magia.

Foi “The Body” que me fez concluir que o viés certo para abordar no texto era uma análise mais pessoal. Como acredito que a morte não necessariamente é o fim, estou muito mais interessada, assim como The Leftovers, em entender os sentimentos das pessoas que ficam. E um dos grandes poderes da cultura pop é usar mundos fantásticos e realidades alternativas como metáforas para assuntos que importam, como no caso o luto e a perda. Eventualmente, essa reflexão sobre o assunto até mesmo me levou a pensar sobre a morte de figuras famosas como Chadwick Boseman e Naya Rivera. Ambos vieram de grandes e aclamadas produções (Pantera Negra e Glee, respectivamente) e morreram muito antes do tempo. As duas mortes tiveram um impacto muito grande no mundo não só porque eles eram jovens com uma carreira inteira pela frente, mas também porque estavam no imaginário de milhares de pessoas que, de uma forma ou de outra, adquiriram algum tipo de conforto ao vê-los atuando. Apesar do luto que você sente por uma celebridade ser totalmente diferente do de quando uma pessoa próxima a você morre (as memórias, por exemplo, não são as mesmas) e não se compara uma dor com a outra, perder uma figura que em um filme, série ou livro te trouxe alguma espécie de consolo em tempos difíceis, ou até mesmo te ajudaram a entender seus sentimentos complexos, é difícil. Eu mesma estou tendo grande dificuldade para conseguir me despedir de Bellamy Blake (Bob Morley) em The 100, um personagem que acompanhei durante anos e morreu de forma brutal algumas semanas atrás. Apesar de ser uma figura fictícia, o fato de que estamos vivendo um momento histórico e lidar com a morte e o luto é um exercício constante, cada pequena perda parece importar e doer um pouco mais.

Como apontado antes no texto, o luto e a perda são inevitáveis. E está tudo bem perder-se neles durante um tempo. Mas é importante sempre lembrar que existe uma saída, um próximo passo esperando para ser dado. Six Feet Under, série da HBO que ficou no ar durante cinco temporadas, acompanhava os Fisher, uma família dona de uma casa funerária. Todo episódio começava mostrando uma morte, o caso que eles iriam abordar.

No piloto, os protagonistas tem que lidar com a morte do próprio pai, e muito como os personagens de The Leftovers, as reações são diferentes e complexas, mesmo eles sendo da mesma família. Depois, é o irmão mais velho, Nate (Peter Krause), que morre, os deixando para lidar com as consequências. Sempre ouvi falar que a série era essencialmente sobre a morte, mas não poderia discordar mais. Apesar de ter a morte como o ponto central, Six Feet Under sempre foi sobre a vida e enfrentar os desafios da mesma, inclusive o luto constante dos próprios personagens que, em um espaço relativamente curto de tempo, perderam duas pessoas. Por isso nada parece mais justo que o último episódio do seriado começasse não mostrando uma morte, mas sim um nascimento. A perda e o luto existem, mas o ciclo está sempre ali e a vida sempre vai recomeçar. Algo que cada um deles tem que entender, no final, e nós, de certa maneira, também. Como disse Nate: “Você não pode tirar uma foto do que já se foi.” 


** A arte em destaque é de autoria da editora Ana C. Vieira.

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