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Judy Garland: Muito Além do Arco-Íris e os ecos da tragédia feminina

O signo, de acordo com Ferdinand Saussure, é formado por um significante e um significado. O significante é a própria palavra, como “Hollywood Clássica”, por exemplo. Já o significado, o que nos interessa neste texto, é toda a carga de ideias que associamos a essa palavra. O significado da palavra “Hollywood Clássica” está carregado de imagens glamourosas e que representam o que essa indústria foi: entretenimento. Pode ser Gene Kelly dançando no meio da chuva, os passos complicadíssimos da coreografia do número final de Melodia da Broadway, de 1938, ou o incêndio em Tara, de E o Vento Levou. São tantas imagens felizes, de uma beleza que não parece voltar mais, que é preciso fazer um esforço sobre-humano para nos lembrarmos do preço daqueles paetês em tela. A alegria em Hollywood custou a infelicidade das pessoas, principalmente de mulheres, que faziam a magia acontecer.

Judy Garland é o exemplo mais notório dessa outra acepção da palavra. Da ascensão meteórica ao fundo do poço, a trajetória de uma das maiores atrizes-cantoras do século XX confunde-se com muitas histórias que continuam estampando tabloides. Como Taylor Swift, Judy Garland sofreu pressões para se adequar ao que era esperado dela enquanto uma estrela: ser um modelo da juventude norte-americana. Jovens não têm opinião, acenam e concordam com tudo. Ao desafiar o rótulo que haviam colado em sua testa, Garland foi classificada como “uma estrela temperamental e birrenta”. Foi descartada pelo estúdio que a havia elevado ao estrelato, a MGM, quando se percebeu que sua rentabilidade não valia mais “apagar os incêndios” que eram sua vida pessoal.

Atualmente, estrelas continuam sendo descartadas, embora as cartas tenham mudado de mão e o tabuleiro do jogo tenha sido reestruturado. Por que fazer uma cinebiografia sobre Judy Garland em pleno 2019? Para redimir Hollywood? Quando a própria trajetória da protagonista de Judy: Muito Além do Arco-Íris, Renée Zellweger, aponta o mesmo comportamento abusivo da indústria cinematográfica, é porque esse assunto jamais parece se esgotar. Em certa medida, atrizes continuam entregando seus corpos e suas vidas aos estúdios, exatamente como suas antecessoras o fizeram com um século de distância.

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A escolha do recorte do filme

Judy: Muito Além do Arco-Íris é inspirado em uma peça de teatro End Of The Rainbow, escrita por Peter Quilter. O ano é 1968 e nele Judy Garland já não é a estrela mais rentável dos musicais. A Nova Hollywood já havia tomado de assalto a velha indústria que Garland representava. Além disso, Judy já havia deixado de fazer cinema há pelo menos quatro anos. Seu último filme fora Na Glória a Amargura, de 1963, uma espécie de história sobre a sua própria vida, da mesma forma que Nasce Uma Estrela contou a história da atriz-cantora por meio da vida e dos abusos de Vicky Lester.

Quando assisti a Judy: Muito Além do Arco-Íris pela primeira vez, a primeira pergunta que me fiz foi sobre a escolha do recorte do filme. Por que 1968, quando ela estava em Londres, praticamente sem dinheiro para se sustentar, em turnê? Por que o recorte se centra um ano antes de sua morte? Uma vez, aqui no Valkirias, escrevi um texto sobre a cantora Vanusa, relatando que havia uma espécie de desejo mórbido da sociedade em chafurdar na tragédia, replicá-la até não dar mais, especialmente quando há mulheres envolvidas nela. No caso de Judy Garland, podemos dizer que ela viveu como ninguém a glorificação do fracasso feminino. Vou além: ela é a personificação dessa ideia.

É difícil não retratá-la a partir do prisma do fracasso e do vício quando tudo o que temos é exatamente isso. Seus melhores filmes, como O Pirata e Casa, Comida e Carinho, foram rodados sob extrema pressão, mas nada disso transparece na tela. O que vemos é uma garota se divertindo e cantando. No entanto, não podemos ignorar o que havia por trás disso: uma mulher cansada, que mal teve tempo para sair da adolescência e entrar na fase adulta.

Os trunfos de Judy Garland lhe custaram a vida. O palco que ela tanto amava lhe custou a autoestima e anos preciosos. Hollywood carrega a culpa da morte de Judy Garland, pois a sétima arte praticamente a assassinou, assim como tantas outras atrizes, como Carole Landis e Marilyn Monroe. Antes de sua morte, diversos atores colaboraram para reforçar as tragédias de Judy. Quando ela se casou com o diretor Vincente Minnelli, os jornais foram os primeiros a levantar a suspeita de que ele era homossexual, exatamente como o pai de Garland. Dessa forma, Judy estaria repetindo padrões, sempre em busca de uma figura paterna.

A questão da aparência faz parte da glorificação dos fracassos de Judy Garland. Logo que saiu da MGM e foi para Londres, no começo dos anos 1950, a atriz-cantora enfrentou o seguinte tipo de crítica nos jornais, de acordo com David Shipman no livro Judy Garland: A Primeira Biografia:

“Grande demais para usar amarelo, com lantejoulas, e diamantes nas orelhas, pescoço, cintura e pulsos — confirmando sua reputação como a mulher com o pior gosto para se vestir no cinema. (…) É difícil reconhecer a menina elétrica naquela matrona alegre, com o corpo tão cheio quanto o de Deanna Durbin”. (p. 322)

Não seria a primeira e nem última vez que ela seria criticada pela aparência. Todos sabiam de seu vício em remédios, mas ninguém se perguntava o motivo. Dessa forma, Judy seria vista como mais uma estrela mimada, uma mulher ingrata por tudo o que a meca do cinema lhe oferecia. O vício em remédios era apenas um capricho dela.

Ao escolher o último ano de sua vida, inserindo pequenos flashbacks ao longo do filme, Judy: Muito Além do Arco-Íris não permite que nos envolvamos com a trajetória de Garland. É tudo muito picado, digamos assim. Se você conhece o funcionamento de Hollywood e atores com quem ela conviveu, como Mickey Rooney, fica fácil entender o enredo. Para plateias não familiarizadas com a atriz-cantora, talvez seja difícil criar uma conexão.

No entanto, há outro aspecto a se considerar sobre o recorte do filme. Particularmente, acho que a ideia central é fazer justiça à Judy Garland, ou seja, ter outro olhar sobre sua trajetória. Os problemas com remédios estão lá, mas há outro aspecto revelado: a Judy mãe, talvez o ponto de sua vida onde ela mais tenha sido feliz. Garland só aceita cantar em Londres porque deseja a guarda dos dois filhos, Lorna (Bella Ramsey) e Joey (Lewin Lloyd), coisa que não conseguiria sem ter um salário fixo.

Existe um deslocamento de “estrela porra-louca” para “mãe apaixonada pelos filhos”, e não sei até que ponto isso é bom. Judy Garland sempre foi uma mãezona, e ela realiza o sacrifício de se expor (embora ame o palco) em prol deles. Isso é bastante interessante, pois quebra justamente a ideia de que grandes estrelas não conseguiam exercer a maternidade de forma satisfatória. Apesar de seus vícios, Judy sempre esteve presente na vida dos três filhos.

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Para o bem ou para o mal, o movimento é o mesmo que Ryan Murphy executou ao retratar a atriz Joan Crawford na série Feud: Bette and Joan. Ao contrário de Judy, Crawford entrou para a história como uma mãe abusiva, principalmente após sua filha, Christina, escrever o livro Mamãezinha Querida. Durante a série, outras facetas de Joan são mostradas, dando ao espectador ferramentas para pensar além daquilo que os signos consagrados nos dizem sobre uma estrela. O mesmo acontece em Judy: Muito Além do Arco-Iris.

É Oscar Bait, e daí?

De todos os filmes indicados ao Oscar, podemos dizer que Judy: Muito Além do Arco-Íris é um dos que menos captou a atenção do público. Apesar de uma campanha extremamente forte para a categoria de Melhor Atriz, parece que o filme falhou com a audiência.

Um dos motivos para o filme ter falhado é que ele foi classificado como uma cinebiografia esquecível, daquelas que a Academia adora indicar todo ano. Já tivemos casos assim, como A Dama de Ferro, que contava a vida da primeira-ministra britânica Margaret Thatcher. São filmes que primam muito mais pela caracterização do ator do que pelo conteúdo em si. Infelizmente, Judy: Muito Além do Arco-Íris se encaixa neste grupo. Sim, a atuação de Renée Zellweger segura o filme, porque ela consegue ir além da mera caracterização. O mergulho da atriz em Judy Garland é digno de uma estatueta, muito porque a história de Garland é a da própria Renée. No quesito narrativo, o filme falha, embora eu ainda ache interessante o recorte escolhido. Porém, estamos em 2019, e talvez Judy Garland seja uma mulher muito longe da minha geração.

Apesar de todas as falhas, Judy: Muito Além do Arco-Íris é importante pelo resgate da vida de uma grande atriz-cantora, talvez o primeiro ícone pop que tivemos. Judy era tão popular quanto Taylor Swift é agora. Inclusive, quando vi o trailer de Miss Americana, documentário sobre cantora para a Netflix, foi impossível não tecer associações. É como se a história de mulheres controladas por homens, de mãos atadas em relação às suas carreiras e à imagem, fosse uma espécie de mito do eterno retorno.

Ao olharmos para a trajetória de Judy Garland, nos deparamos com a própria fragilidade do que é ser mulher dentro de qualquer indústria. Mulheres ainda ganham menos (e se fizermos o recorte de raça e classe, o buraco é ainda mais embaixo), e nem todo dinheiro do mundo consegue colocá-las em posição de igualdade em relação aos homens. Judy sempre ganhou fortunas, mas perdeu tudo para maridos interesseiros, como Sid Luft, pai de Lorna e Joey.

Além disso, Judy era um modelo de garota norte-americana. Ao contrário das mulheres sensuais vendidas pela MGM, ela era algo possível. Durante a Segunda Guerra Mundial, Judy foi cantar para os soldados, e eles queriam se casar com ela. As moças identificavam-se com ela por conta do jeito dócil, sempre disposta a ajudar, que suas personagens tinham. Da mesma forma que suas conterrâneas, Bette Davis e Joan Crawford, ela foi colocada em uma caixinha. Tentar sair da caixa foi um preço amargo que Judy pagou.

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Judy: Muito Além do Arco-Íris apresentou o lado amargo da fama a muita gente. Quando entrevistou Renée, a apresentadora Ellen Degeneres contou que Portia, sua esposa, não conhecia aquele recorte da vida de Garland. Isso porque a imagem que se cristalizou foi a doce Dorothy — e nada é mais poderoso do que um mito da garota boazinha.

Por isso, acredito na força do filme ao tentar romper com a barreira criada por Dorothy. É duro, mas precisamos entender que a força motriz da Hollywood Clássica, em muitos momentos, foi a infelicidade das mulheres que trabalhavam no cinema. Isso não nos impede de apreciar os filmes que elas fizeram, mas (re)construir um olhar sobre eles. É a partir de um olhar diferente sobre Judy Garland que poderemos pensar em uma nova forma de fazer cinema. Embora o cinema, como arte, tenha mudado, a forma como tratamos as mulheres permanece a mesma. O caso de Renée Zellweger é uma coincidência, um encontro entre ela e a personagem que retratou. Como Garland, ela teve uma ascensão meteórica na indústria. Em questão de três filmes, ela se consagrou como Bridget Jones, mas logo em seguida veio a rasteira: ela estava beirando os 40 anos e a indústria mudou a forma como a via.

Em 2014, uma aparição pública chocou o mundo, pois Renée parecia ter mudado totalmente o rosto. Mas ninguém se lembrava do seguinte comentário dito a ela no filme Eu, Eu Mesmo e Irene: “Você tem cara de quem chupou um limão”. Depois de tratar a depressão, ela voltou e rodou Judy: Muito Além do Arco-Íris. Foi um caso de identificação, mas não o único, pois Hollywood está cheia dessas histórias para contar.

Vejo no filme um pedido de desculpas público de Hollywood. Como se dissessem: “Bom, estamos dispostos a olhar para o passado e reavaliar nossos erros”. Na prática, sabemos que é mentira. Mulheres ainda ganham menos do que seus colegas atores, e esta reportagem do The Guardian manda a real:

“A diferença salarial persiste. Ela é quase a mesma diferença que observamos em 1980, mas estamos em 2015. Não há sinais de melhora.”

Para além do salário e muitas outras questões envolvendo classe e raça, o abuso persiste. Talvez de forma mais velada, mas rodar um filme sobre Judy Garland não muda o sistema. Um pedido de desculpas não apaga as desigualdades da indústria. Talvez ela seja uma constatação hipócrita de que a tragédia de uma mulher pode ser tão bem explorada que ela vale até a indicação a uma estatueta do Oscar.

Quando Renée estiver sentada, no dia do Oscar, aguardando a tão esperada hora do anúncio, vamos sentir os ecos de Vicky Lester, a famosa personagem de Judy Garland de Nasce Uma Estrela: a estrela que tinha mais fama do que muitos homens, com uma imagem manipulada por eles, do que é ser mulher e subserviente.

Judy: Muito Além do Arco-Íris recebeu 2 indicações ao Oscar nas categorias de Melhor Atriz (Renée Zellweger) e Melhor Maquiagem e Cabelo (Jeremy Woodhead).

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