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Entre Facas e Segredos: carta de amor ao whodunit

Um casarão meio sinistro, um cadáver ensanguentado encontrado no começo da manhã. A arma do crime é conhecida — uma faca —, o autor também: a polícia aponta se tratar de um suicídio. O cenário é digno de uma partida de Detetive, mas nem os investigadores nem a família da vítima enxergam o ocorrido como um mistério, e sim como uma tragédia familiar. Quando o investigador particular Benoit Blanc (Daniel Craig) aparece de surpresa na mansão do falecido Harlan Thrombey (Christopher Plummer) para olhar o caso mais a fundo, no entanto, tudo muda. De repente, a tese com que trabalham as autoridades já não parece tão sólida, e todos se tornam suspeitos. A arma do crime é conhecida; resta saber se alguém de fato foi o responsável e, em caso de resposta positiva, os famosos quem e por quê.

O primeiro trailer de Entre Facas e Segredos, dirigido e roteirizado por Rian Johnson, parece ter sido inteiramente construído sobre as conexões do longa com jogos de tabuleiro como Detetive (ou Clue, no original). É uma construção deliberada; como aponta o investigador Elliott (LaKeith Stanfield) em um diálogo do próprio filme, Harlan Thrombey vivia em uma propriedade que parece diretamente saída de Detetive — o que também não é coincidência, visto que Harlan é autor de uma série de mistérios literários muito bem-sucedidos e lucrativos, que possibilitam que ele viva em uma casa enorme e decorada com todo tipo de parafernália levemente macabra.

A primeira meia hora do filme parece estabelecer o que poderia muito bem ser um caso do jogo: somos introduzidos aos diversos membros da família, interrogados um a um, e às suas versões conflitantes dos eventos ocorridos na noite da morte, que reuniu toda a família no casarão para a comemoração dos 85 anos de Harlan. Não é difícil compreender as motivações em potencial de cada um para cometer o crime. Só que logo depois dessa meia hora inicial, com três quartos de filme pela frente, Entre Facas e Segredos apresenta o primeiro de seus muitos plot twists: se inicialmente temos todas as bases de um whodunit — ou quem matou? — no lugar, logo somos convidados a compartilhar a perspectiva do responsável pela morte, que tenta despistar os investigadores. Desnecessário dizer que a morte de Harlan Thrombey não foi de fato um suicídio, mas também é muito mais complicada do que um assassinato a sangue frio digno das narrativas simplistas dos jogos de tabuleiro.

Entre Facas e Segredos traz uma série de viradas muito bem ajambradas, num roteiro que, estruturalmente, funciona muitíssimo bem. Mas se ele é em parte um mistério com ares clássicos revirado do avesso e depois virado de novo, grande parte do motivo por que o filme funciona tão bem se sustenta sobre sua afiada veia satírica, que propõe, por meio da comédia, uma série de discussões extremamente atuais. Se o casarão de Harlan praticamente o isolava da vida lá fora, não é isso que faz o roteiro de Rian Johnson com a família Thrombey, que será completamente esmiuçada ao longo do filme.

Sua discussão mais central parecem ser os conflitos de classe. Recentemente Juliana Domingos de Lima, no Nexo, elaborou uma reportagem sobre as abordagens muito diversas do tema feitas por uma série de filmes de sucesso lançados no ano passado; o texto coloca Entre Facas e Segredos como um dos exemplos em que “o desfecho é favorável ao lado mais fraco, gerando uma espécie de catarse no espectador”. O filme não tem restrições quanto a tomar partido nesse conflito, abordando os muitos membros da família Thrombey de uma maneira muito diversa daquela como olha para Marta (Ana de Armas), enfermeira de Harlan e filha de mãe imigrante, cujo status de americana-claro-mas-não-completamente é lembrado o tempo inteiro nas falas dos filhos, netos e demais agregados de Harlan, supostamente muitíssimo bem-intencionados. Walt (Michael Shannon), um dos filhos, faz questão de lembrar a Marta que a família nunca a deixaria desamparada após a morte de Harlan (que ela considera um amigo, mas que também era, afinal de contas, seu empregador) e que todos apreciavam o que ela havia feito pelo pai deles. Fica evidente, no entanto, que todos realmente apreciavam Marta — desde que ela continuasse quieta em seu lugar correto, o de subalterna. A jovem universitária Meg (Katherine Langford), que nutre um desgosto evidente pela forma como Marta por vezes é tratada pelo restante de seus parentes, é quem a coloca como quase da família com mais força. Mas ela demonstra que não está tão distante assim da mentalidade do restante dos Thrombey no momento em que seus próprios interesses são postos em jogo: quase da família não significa da família, no fim das contas.

Não existe um único membro da família Thrombey que seja poupado. Como costuma acontecer em qualquer família, suas reuniões envolvem muitas discussões sobre política e outras questões urgentes, como imigração e construção de muros. Mas enquanto suas visões sobre o assunto variam de xenófobas mas sutis a teoricamente muito progressistas durante suas discussões acaloradas, mas abstratas, seu comportamento em relação a uma situação concreta, principalmente quando existe dinheiro na jogada, é exatamente igual.

Igualmente interessados no dinheiro da herança, por exemplo, estão Walt, que cuida diretamente dos negócios do pai no meio editorial, e Linda (Jamie Lee Curtis), supostamente uma self-made woman, uma vez que possui o próprio negócio bem-sucedido e lucrativo, separado dos interesses do pai. Quando Benoit Blanc sugere que Walt seria tão self-made quanto Linda, é fácil questionar o quão “self-made” de fato pode ser alguém que já nasceu em berço de ouro, com absolutamente todas as condições postas para ter sucesso. Coincidência ou não, isso acontece num ano em que muito se discutiu a mais nova bilionária “self-made” Kylie Jenner, filha de pais ricos, famosa por ser famosa desde criança. Também parece significativo que seja a filha de Harlan, e não o filho, a desempenhar esse papel. Não é difícil, por exemplo, encontrar quem celebre abertamente o bilhão de alguém como Kylie por ela ser mulher e jovem e, portanto, muito diferente da figura habitual do bilionário, como se isso de alguma maneira levasse adiante a causa das mulheres.

São discussões que Entre Facas e Segredos consegue propor enquanto se constrói como um mistério que funciona bem também enquanto entretenimento, e que tem levado muita gente aos cinemas há dois meses. No BuzzFeed, Anne Helen Petersen analisa o sucesso absoluto do longa como uma vingança do que chama de filme pretty good — um filme muito bom, que, como ela coloca, não é “um bom filme para um filme da Marvel”, “muito bom, vai ganhar muitos prêmios”, “podia ser mais curto, mas tem efeitos legais”, mas “bom daquela maneira que faz com que seja difícil parar de falar nele — geralmente resultado de um filme que supera nossas expectativas de alguma maneira frequentemente inefável. É isso que Entre Facas e Segredos é: um filme bastante bom que está superando as expectativas das pessoas porque sua expectativas em relação a filmes andam tão baixas.”

O filme não é uma tentativa de reinventar a roda (ou o cinema, ou os mistérios), e também não é um show de pirotecnia que demonstra tudo o que tecnologia pode fazer. É, acima de tudo, uma lembrança de quão fascinantes podem ser, por si só, histórias originais e bem contadas que fazem bom uso de um elenco talentoso. O que Rian Johnson faz aqui me lembra um pouco o que fez Greta Gerwig com seu Adoráveis Mulheres, a décima adaptação da obra de Louisa May Alcott para as telas, que é ao mesmo tempo um tributo a Alcott e seu legado e completamente transformada por um olhar que é de Greta, funcionando como sua própria entidade. Ambos os filmes, ainda que não sejam cinema independente, têm orçamentos bastante modestos se comparados às grandes franquias que vêm dominando as bilheterias e as salas de cinema, e seu sucesso de crítica, público e também comercial, vem contando uma história interessante.

O sucesso de Entre Facas e Segredos se torna ainda mais interessante, dependendo da perspectiva de quem olha, quando analisado em um cenário maior: lançado um mês antes da conclusão da mais recente trilogia Star Wars, vem concorrendo diretamente com ele pelo interesse do público desde dezembro (é evidente que Star Wars lucrou muito mais). Como já é caso notório, Rian Johnson foi responsável pelo filme mais divisivo de toda a franquia, celebrado pela crítica e por boa parte do público, odiado fervorosamente por outra parte dele. Pode não parecer à primeira vista, mas Entre Facas e Segredos faz um movimento muito parecido com o que fez Os Últimos Jedi. Rian Johnson explora a fundo a mitologia da saga de maneiras novas e inesperadas e se utiliza de uma fórmula já testada e aprovada para criar uma narrativa que ao mesmo tempo consegue inovar e manter vivo seu legado (o que fica evidente na cena que fecha o filme, numa bela celebração da Resistência). Com todas as polêmicas que o filme gerou, no entanto, o marketing de A Ascensão Skywalker, assim como seu roteiro, parece ter sido construído em primeiro lugar para fazer de conta que o filme anterior na verdade nunca existiu — um movimento de um cinismo impressionante, numa tentativa de agradar sabe-se lá quem que acabou não agradando ninguém.

Entre Facas e Segredos é, como Os Últimos Jedi, um filme que se utiliza de algo já testado e aprovado numa tentativa de levar aquilo adiante, tanto em termos de narrativa, ao fugir de um mistério cuja resolução é adiada até os últimos minutos, quanto ao reafirmar que um filme pode divertir, e muito, sem deixar de lado discussões importantes por medo de alienar parte do público. Quando o filme toma partido de Marta, consegue causar uma espécie de catarse no espectador, como afirma a jornalista do Nexo. Parte desse público pode até adotar uma retórica de “América para os americanos”, mas ao fim do dia provavelmente se parece muito mais com Marta do que com herdeiros milionários — “self-made” ou não — como os Thrombey, tornados, pelo menos no espaço do filme, motivo de riso e tratados com distanciamento. Para fazer isso, o quem e o por quê da morte de Harlan Thrombey não precisam perder espaço na narrativa, e as duas perguntas ganham diferentes respostas inesperadas ao longo das pouco mais de duas horas de duração do filme. Acima de tudo, Entre Facas e Segredos atualiza e subverte o whodunit para mantê-lo vivo, atual, novo e cheio de possibilidades. É uma bela carta de amor ao gênero.

Entre Facas e Segredos recebeu 1 indicação ao Oscar, na categoria de: Melhor Roteiro Original (Rian Johnson).

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