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#LegadoDaCopa: Qual a mágica de Megan Rapinoe?

Assim como todas as pessoas que odeiam e admiram ao mesmo tempo pessoas ou grupos que as inspiram, eu nunca gostei muito do futebol da Seleção Feminina dos Estados Unidos. Simplesmente porque elas são incríveis.

E não é de hoje. Elas já o são há muito tempo. Desde sua criação, no início dos anos 1980, a Seleção Americana já tem três títulos mundiais (incluindo o da primeira Copa realizada), e é a seleção mais bem sucedida entre as femininas, sempre figurando nos primeiros lugares do ranking da FIFA. Porém, esse ano, temos um motivo extra-especial para torcer pelos Estados Unidos nesse mundial: sua co-capitã e principal estrela do elenco ao lado de Alex Morgan: Megan Rapinoe.

Sabe o futebol-arte?

Megan tem.

Em 157 aparições pela Seleção principal de seu país, Rapinoe balançou as redes 49 vezes, com uma média de três gols por partida, o que para sua posição como atacante e às vezes meio-campista, não é nem um pouco incomum, mas não menos admirável.

Enquanto capitã e atacante, seu trabalho é não apenas manter a moral do time lá em cima, como também garantir que as jogadas sejam bem finalizadas e bem assistidas. Vê-la jogar é tão especial porque você nunca sabe onde a bola vai parar, e com quem, e isso é tão importante quanto marcar gols, pois pega qualquer linha de defesa de surpresa, por mais preparada que esteja.

Mas, como espero que a essa altura do campeonato (literalmente) todos já saibamos o quão incrível ela é em partidas, eu quero apresentar pra vocês a Megan fora de campo.

“Deusa lésbica de cabelo roxo”

Foi assim que o Deadspin descreveu Megan, na matéria sobre o jogo das quartas de final, contra as francesas, donas da casa. E é exatamente assim que ela figura em nossos corações. É também quando percebemos que, apesar de ser sem sombra de dúvidas uma jogadora excepcional, a mágica de Megan está especialmente fora de campo.

Muitos dos seus 33 anos de vida foram ocupados sendo uma grande aliada na luta contra o racismo, uma grande ativista pelos direitos LGBTQIA+ nos Estados Unidos e que fala muito sobre a luta das jogadoras americanas por salários iguais. Em muitos aspectos, ela realmente é a deusa lésbica que o mundo não merece, mas precisa. Numa entrevista à CNN, ela diz o quanto é importante ser gay e maravilhosa e jogar uma Copa do Mundo justamente em junho, o Mês do Orgulho:

Eu sou motivada pelas pessoas que gostam de mim e que são como eu, que estão lutando pelas mesmas coisas. Eu absorvo muito mais energia disso do que ficar tentando provar que as pessoas estão erradas sobre mim.

Uma de suas principais lutas é a de igualdade de pagamentos, o que parece simples, mas nos Estados Unidos (especialmente no futebol), é bastante ridículo. Megan protesta por igualdade quando poderia muito bem estar protestando para ganhar mais, já que a seleção masculina ganhou seis partidas em todas as Copas do Mundo da FIFA, enquanto, vocês lembram, a seleção feminina ganhou três títulos.

Apenas 93 dias antes da estreia da Copa do Mundo Feminina da FIFA, Megan Rapinoe, Carli Lloyd, Alex Morgan e todas as outras jogadoras, entraram com um processo contra a Federação Americana de Futebol por discriminação racial com 25 páginas explicando por que elas sentem que são tratadas injustamente em suas profissões por serem mulheres. Esse artigo do Washington Post (em inglês) explica exatamente como funciona todo o processo e seu raciocínio.

Megan também é considerada como um ponto de mudança no comportamento não só de atletas que lutam por igualdade no pagamento de salários, mas também atuando quase como uma porta-voz dos atletas brancos que conhecem sua posição de privilégio e acham que questões raciais deveriam ser pauta especialmente de pessoas brancas. Megan foi a primeira jogadora branca a manifestar apoio à Colin Kaepernick, astro da NFL que passou a se ajoelhar durante o hino americano em protesto contra a violência policial com relação aos negros, primeiro ajoelhando-se como ele, e agora ficando completamente em silêncio: “sendo uma americana gay, eu sei bem como é olhar para a bandeira e não sentir que ela protege todas as suas liberdades,” disse ela à TIME em 2016.

Por toda sua importância e voz em ativismo, esse artigo da NPR a chama de Muhammad Ali da nossa geração:

Ali sofreu de maneiras que Megan Rapinoe jamais sofrerá. Ele foi sentenciado à prisão. Ele colocou toda sua carreira em perigo pelas coisas nas quais ele acreditava. (…) O que eu quero dizer é que é extremamente raro que haja um atleta no topo de sua carreira e que também usa sua plataforma e sua voz pelo bem do sistema, e ela (Megan) faz isso de uma maneira bem ‘Ali-esca’.

O fato é que, seja por seu cabelo roxo em campo, seja por sua ferocidade fora dele em lutar pelas coisas que importa, Megan Rapinoe carrega consigo uma mágica só dela, e o mundo é certamente muito melhor com ela nele.


** A arte do texto é de autoria da editora Duds Saldanha

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