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Disque Amiga para Matar: um título horrível para uma série maravilhosa

Precisamos combinar que Disque Amiga para Matar, apesar de ter relação com a trama da série, é um dos títulos mais horríveis que poderia ter sido escolhido para designar uma produção tão maravilhosa, além de conter spoilers. Ainda assim, uma vez que você é forte o suficiente para ultrapassar essa barreira inicial e clicar no play, o título é o que menos importa. Desde a primeira cena, Judy (Linda Cardellini) e Jen (Christina Applegate) são tão maravilhosamente Judy e Jen que é difícil não assistir todos os dez episódios da primeira temporada em uma tacada só.

Atenção: o texto contém spoilers!

O marido de Jen, Ted, morre na beira de uma estrada após ser atropelado por um motorista que foge sem prestar socorro. Sozinha com dois filhos, a mulher começa a frequentar um grupo de ajuda para pessoas em luto, liderado pelo pastor Wayne (Keong Sim). Em sua primeira reunião, ela conhece Judy, que diz ter perdido o noivo e lhe oferece seu número de telefone e seu ombro amigo. É em suas noites de insônia e por telefone que começa a amizade entre Jen e Judy, mas muito rapidamente a relação das duas extrapola isso e se torna a relação maravilhosa que acompanhamos durante toda a temporada e (esperamos) nas temporadas que ainda estão por vir.

Não demora muito para percebermos que Judy esconde algo de sua nova amiga e de todos nós, e nos primeiros episódios o suspense da série é construído por meio de flashbacks nos quais vamos aos pouco descobrindo sua relação com a morte do marido da outra. Um aspecto genial da série é, inclusive, a forma como o suspense se desenvolve e se desloca lentamente ao longo dos episódios. No começo, quando ainda não conhecemos a personagem bem o suficiente, a tensão se constrói em torno de quais seriam suas intenções ao se aproximar da viúva. Mais pra frente, quando já começamos a conhecê-la bem o suficiente para confiar um pouco na sua índole, somos levadas a questionar a sanidade mental de Judy e temer o que ela pode fazer ao descobrir que a nova amiga procura compulsivamente pistas sobre quem matou o marido. No fim, o suspense acaba girando muito mais em torno do que vai acontecer com a relação entre as personagens e como Jen vai reagir quando finalmente descobrir a participação da amiga na morte de seu marido.

Duas mulheres à beira de um ataque de nervos?

A questão da possível loucura de Judy é um dos eixos centrais em torno dos quais brinca a trama de Disque Amiga para Matar e isso é feito de uma forma tão interessante que ficamos até quase o fim da temporada questionando se o que estamos vendo é uma crítica aos estereótipos ou mais uma representação machista de uma personagem feminina na televisão. O que vamos conhecendo da história de Judy é que ela é uma artista, que trabalha em uma casa de repouso, recentemente separada de um bonitão milionário, dono de uma galeria de arte, com o qual ela tenta há anos, sem sucesso, ter um filho. Logo de cara fica evidente que algo não cheira bem no relacionamento entre Judy e Steve (James Marsden), e com o passar dos episódios fica cada vez mais evidente a abusividade da relação. É Steve que faz questão de pintar a ex-mulher como louca e instável, e a si mesmo como vítima de sua volubilidade.

O sinal de alerta que vemos na relação entre os dois é, inicialmente, algo que se aproxima do gaslighting, mas que é usado não tanto como uma forma de abuso psicológico direto contra Judy, mas como forma de desacreditá-la e de manchar sua imagem em face de terceiros, especialmente de Jen. O objetivo dessa manobra fica óbvio quando descobrimos que o personagem também estava no carro quando Ted foi atropelado, e que foi ele a convencer Judy a não voltar e prestar socorro à vítima. Outro sintoma muito claro de quão abusivo é o relacionamento entre Judy e Steve é a forma como ele se aproveita dos sentimentos dela com relação a ele para controlar seus atos e impedir que ela assuma responsabilidade pelo crime que eles cometeram, coisa que ela quer fazer desde o começo. Para salvar a própria pele, Steve tenta de todas as formas possíveis afastar Jen e Judy, o que, felizmente, ele não consegue fazer.

Desde a antiguidade, a histeria é atribuída à mente feminina. Esse “transtorno” mental é tão associado à condição feminina que a própria expressão “histeria” deriva do termo grego que designa o útero. Desde Hipócrates até a atualidade, passando por Freud e pela psicanálise, esse tipo de “loucura”, marcado pela instabilidade e pelo comportamento errático e irracional, está atrelado à imagem da mulher no senso comum, e esse estereótipo é muito bem aproveitado e quebrado na trama da série.

Completando a dupla principal de Disque Amiga para Matar, temos Jen, uma recém viúva, mãe de dois filhos e corretora de imóveis, que precisa aprender a lidar com a raiva, o luto e a tristeza pela morte do marido e também por tudo o que descobre sobre ele e precisa aceitar sobre si mesma após essa morte. No quesito personalidade, as duas personagens dificilmente poderiam ser mais opostas. Enquanto Judy é solar, carinhosa, otimista, bem humorada e espontânea, Jen é fechada, durona, decidida, segura de si e até um pouco soturna. Talvez seja por isso que elas se complementem tão bem. O centro da amizade das duas não é nenhuma semelhança pessoal, mas um acontecimento que foi traumático para ambas, ainda que de formas diferentes, e o fato de estarem sempre dispostas a apoiar e defender uma a outra.

Dead to me - imagem

Um ponto marcante da trajetória de Jen é o fato de ela ter abandonado sua própria carreira artística para sustentar a casa e permitir que o marido seguisse com a dele, enquanto assume o papel de “dono de casa” e cuida dos dois filhos do casal. Essa dinâmica de inversão dos papéis tradicionais de gênero se soma com sua personalidade explosiva para fazer com que ela não corresponda ao comportamento tradicionalmente esperado de uma mulher. Como consequência, suas “deficiências” são constantemente jogadas em sua cara por todos à sua volta, desde a sogra narcisista até seu filho mais velho. A única que parece nunca julgar sua personalidade e lhe prestar apoio e afeta incondicionais é Judy. Em contrapartida, é bem possível que Jen resista tanto às tentativas de Steve de pintar a ex-mulher como louca e instável porque ela vê esse estereótipo sendo usado contra ela mesma com tanta frequência.

As maternidades em Disque Amiga para Matar

A questão da maternidade também é um tema que perpassa a série de forma geral. Judy é uma mulher de meia idade que sonha em ser mãe, já passou por diversos abortos espontâneos e, em determinado momento, precisa aceitar o fato de que está entrando precocemente na menopausa e dificilmente vai conseguir ter filhos biológicos. Jen é uma mãe que precisa reaprender a lidar com os filhos de uma forma diferente após a morte do marido. Ted era quem cuidava mais diretamente dos meninos enquanto a esposa trabalhava, e quem tinha uma relação mais próxima com eles. Após sua morte, todo o mundo e a dinâmica que tinham construído ao longo dos anos colapsa e ela precisa encontrar uma nova dinâmica, no meio de alguns erros e de um sentimento constante de fracasso.

Temos ainda um terceiro modelo materno que aparece na série: Lorna (Valerie Mahaffey), a mãe de Ted. Lorna demonstra em todas as suas aparições uma personalidade completamente narcisista e controladora. Ela faz questão de antagonizar com a nora sempre que possível, compete com ela pelo afeto e pela atenção do filho e demonstra, a princípio, apenas sua face mais afetada e desagradável. Com o passar do tempo, entretanto, começamos a ver o sofrimento real que existe por trás do sofrimento teatral.

Todas essas facetas da maternidade, assim como as dificuldades de conciliar uma personalidade própria e os próprios sentimentos e sofrimentos com a maternidade e a obrigação de cuidar de outros seres que também estão sofrendo é apresentada de forma delicada e que encoraja a empatia mesmo entre nós, que não somos mães e nunca vivemos nada parecido na própria pele. Ironicamente, entre todas essas personagens, a que mais incorpora o arquétipo da mãe é Judy, que está sempre buscando cuidar de todos à sua volta. Talvez seja justamente essa interiorização da maternidade compulsória que torne ainda maiores a frustração e o sentimento de fracasso ao se ver incapaz de realizar esse desejo tanto seu quanto do ex-marido. A impossibilidade de engravidar e levar a gravidez até o fim é, de alguma forma, segundo a mentalidade patriarcal que se insere em toda a sociedade, uma espécie de falha na própria condição de mulher, o fracasso em cumprir, nas palavras de Simone de Beauvoir, seu “destino biológico”.

A abordagem da maternidade a partir de diferentes perspectivas acaba ocupando uma posição central, ainda que não declarada, em Disque Amiga para Matar, e a forma como o tema é desenvolvido é um ponto muito interessante que merece ser ressaltado quando falamos dessa série.

Dead to me - imagem

Outras questões “femininas”

Não bastasse tudo isso, acho importante mencionar, ainda que de passagem, a forma como Disque Amiga para Matar aborda e lida com outras questões como a infidelidade e a culpa. No que diz respeito à infidelidade, é muito interessante observar a forma como a raiva e a frustração de Jen por descobrir ter sido traída por tanto tempo se mistura com o luto e a falta que sente do marido. Esse ponto traz uma camada maior de humanidade à personagem, uma janela de vulnerabilidade que é fundamental para que o público se conecte emocionalmente com a personagem de forma mais profunda.

A questão da culpa também é um ponto que perpassa toda a trama e parte não apenas de Judy, que carrega a culpa por ter matado uma pessoa, especialmente uma pessoa tão importante na vida de alguém que vem a ser sua melhor amiga. A intenção inicial da personagem ao se aproximar da família do falecido é claramente tentar, de alguma forma, compensar o estrago causado, e possivelmente “expiar” a própria culpa com algum sacrifício pessoal. Mas essa não é a única forma na qual a culpa aparece na narrativa. Com o passar dos capítulos, observamos que Jen também carrega no peito um grande sentimento de culpa, culpa por sua personalidade explosiva, por ser quem é, por ter brigado com o marido na noite em que ele morreu e “feito” com que ele saísse de casa no meio da madrugada. A culpa de Jen é muito menos óbvia, mas é muito presente e é algo que a personagem tenta esconder com mentiras que a princípio não fazem muito sentido, como a insistência na versão de que o marido saiu naquela noite para correr.

Apesar de ser construída a partir e de incorporar dezenas de questões muito interessantes, o ponto que mais me atraiu, me conquistou e me fez gostar tanto da série foi pura e simplesmente a amizade entre Judy e Jen, a forma como elas cuidam uma da outra, se apoiam, se amam e constroem uma relação tão sólida e tão saudável em tão pouco tempo. E é justamente essa relação sólida e saudável que possibilita que o final da temporada tenha sido como foi. Porque, apesar da mágoa e do sentimento de traição, Jen conhece Judy bem o suficiente para saber o que ela faria em uma situação como a que levou à morte de Ted. Ela tem plena consciência de que Judy errou naquela noite, e tem todo o direito de se sentir enganada pela aproximação da personagem e por ela ter mantido a verdade em segredo por tanto tempo, mas ela também sabe que a Judy que ela conheceu não foi uma mentira, e que ela era uma pessoa boa e que se importava de verdade com ela e com sua família.

Ficha técnica Disque amiga para matar - 5 estrelas

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