Categorias: COLABORAÇÃO, LITERATURA

Se eu fosse Vanessa Wye, conseguiria dizer não ao meu professor abusador?

Lembro-me do encanto ao fim da aula arrebatadora. O sinal indicara o fim, mas as dobras dos dedos se mantinham doídas, forçando a escrita dos detalhes, das datas, da lição de casa, do que veríamos na próxima semana. As sextas-feiras demoravam para chegar, e quem dera fosse pela ansiedade do fim de semana. Eu o admirava tanto. A inteligência! O humor, claro. A beleza um pouco descuidada, o jeito como se aproximava de alunos escolhidos, com papos divertidos sobre uma banda, o candidato daquelas eleições, o livro que vira em cima da mesa da minha colega. Se ele fosse Jacob Strane, eu seria Vanessa Wye.

Chego a essa conclusão com um enorme nó no peito. Se ele tentasse, se me tocasse, se me elogiasse, dissesse que eu era diferente, incomum, a coisa mais interessante da vida dele; se me fizesse jurar não contar para ninguém, será que eu conseguiria dizer não?

Vanessa Wye é a narradora do livro Minha Sombria Vanessa, estreia da autora norte-americana Kate Elizabeth Russell. A obra fez certo barulho lá fora e me apareceu numa indicação casual num site de compras, mas achei a capa feia. Sim, eu julgo o livro pela capa. Mas, ao fim da sinopse, congelei na cadeira e movi o cursor, sem pensar muito, para o carrinho de compras. É só uma ficção, pensei. Calma lá.

Vanessa Wye - Minha Sombria Vanessa

Li livros, reportagens e assisti documentários sobre os casos mais famosos de predadores sexuais que estouraram nos últimos anos. Em fevereiro, devorei Ela Disse, das jornalistas do New York Times Jodi Kantor e Megan Twohey, que derrubaram o império do produtor Harvey Weinstein, um abusador nojento de Hollywood. Lendo, pensava em quanto era difícil ter a coragem de apontar e dizer não aos acordos milionários ou à possibilidade única de trabalhar com um cara que colecionava Óscares. Também tive que pausar várias vezes a série Em Nome de Deus, da Rede Globo, quando me sentia nauseada pelos relatos das vítimas de João de Deus, um pervertido maldito, dizia eu à tela escura, como se xingá-lo em voz alta aliviasse os arrepios no corpo, os copos d’água tomados e algumas noites de sono perturbadas. Não dá pra dizer que o assunto não me vira do avesso, assim como deve virar muita gente.

Mas quando comecei a acompanhar a história de Vanessa Wye, me identifiquei com aquela menina solitária. Não que eu fosse acuada ou “sombria” (a descrição que Strane faz dela), porque tinha bons amigos na escola e só ouvia Evanescence por gostar da banda mesmo, mas a carga voltada ao medo de errar e parecer estúpida era uma xerox do que eu pensava de mim aos 15 anos. Meus pais nem podiam pagar aquela escola, e o que eu estava fazendo ali tirando 3 em matemática? Pelo menos nas outras matérias eu podia compensar em alguma coisa, pensava. Podia me destacar, ser mais um caso de aluno desajeitado com os números, mas bom em literatura, história, biologia, redação. A escola era competitiva e exaltava seus alunos como troféus. Eu queria ser outro na estante.

E ser um troféu dele foi a minha principal preocupação naquele ano. Passei a alugar livros na biblioteca e a tirá-los da mochila quando ele entrava na sala de aula também — essa frase tem tanto de realidade quanto de incredulidade e vergonha. Eu tinha alguns traços de autenticidade fora desse planejamento, pelo o que me lembre. Tentava formular perguntas inteligentes para que ele não me achasse uma aluna medíocre, mas ignorava essa baboseira quando tinha qualquer dúvida porque, no fim das contas, gostava da matéria. Soltava alguns comentários propositais na saída da aula, feliz quando ele notava e me acompanhava até o corredor, onde acenava discreto e ia para a sala dos professores. Obviamente, eu não era a única. Ele era assunto das conversas, das risadas furtivas no intervalo, das piadas grosseiras sobre sexo, algo ainda enigmático para algumas de nós naquela altura da vida.

“As desculpas que inventamos para os outros são absurdas, mas não são nada em comparação com as que criamos para nós mesmos.”

Mas, ao longo do outro ano, ele já não me era tão interessante. Quando falou mal da ex-namorada na sala de aula, me incomodei. Que otário. Também não me parecia mais tão absurdamente inteligente, já que as anotações de colegas dos anos passados eram idênticas às que fazia na época. Ele era experiente e preparado, só isso. Na viagem que a turma fez com os professores, o observei de perto e passei a ficar com vergonha de como o tinha colocado num pedestal inalcançável. Minhas amigas também passaram a dar de ombros, uma expressão perfeita para nosso desencantamento.

Então por que a história de uma menina de 15 anos que é abusada pelo professor me tocou tanto? Não dá para dizer que ela não tentou fugir, pois ela tentou. Narrava o nojo nas cenas sexuais, mas tinha pavor de responder a Strane de uma forma errada. Vanessa não queria magoá-lo. Ele era tão confuso, coitado, um cara de 42 anos “apaixonado” por uma jovem banal como ela. O que ele deveria sentir? Nos momentos do livro em que Vanessa já tem 32 anos, está lá, o trauma escancarado, a angústia das escolhas que ela faz para si. A vontade é de entrar no livro, falar para cada um dos que tentaram “ajudar” um “vai se foder, você entendeu tudo errado” e abraçá-la. Porque eu lembro como foi, Vanessa, quando minha amiga caiu aos prantos quando tudo acabou. Ou da outra que perambulou com as olheiras de choro pelos corredores porque tinha cruzado com ele no corredor e, na noite passada, ele dissera que um homem como ele não podia perder tempo com aquilo ao acabar com o envolvimento de alguns meses.

As histórias são tantas que tenho medo de ser traída pela minha própria memória, um fio enrolado em outro. Foi na escola, mas também no cursinho. Na faculdade, aconteceu de uma forma ainda pior, se é que tem alguma régua moral na qual nos amparamos para demitir um abusador ou torná-lo cada vez mais atuante no corpo discente. Olhei para os olhos da minha amiga que, ruborizada, tentava processar o lanche que tinha comprado naquele almoço. “Você gosta mesmo dele?”, perguntei. “Sim. Muito.”, disse emocionada. Meses depois, bolávamos planos, nós três, para que eles se vissem fora da sala de aula sem ninguém saber, um segredinho sórdido, um pequeno preço a se pagar para vê-la feliz, acreditava. Faltava pouco para que eles não tivessem mais a instituição pairando sobre suas escolhas. Só que, do jeito que desabou, a história foi quebrando sua confiança, o amor próprio, as perspectivas pro futuro. Os efeitos nela duraram muito tempo. Lembro que o confrontei. Queria ter as mensagens para sentir a raiva de novo. Quando o xinguei, ele disse que não queria brigar comigo também, que não queria me envolver, que aquilo já tinha ido longe demais e que ela sabia bem o que estava fazendo.

Ao longo do livro, Strane atribui a Vanessa uma força controladora que o faz “passar dos limites”. A ninfeta, sua própria Lolita particular, o pecado original ao qual ele tinha se entregado. Não tinha como ele ser um pedófilo, já que o corpo dela era tão “adulto”, “maleável” de se tocar, cheirar, fotografar. Se ela falasse algo, aquilo seria o fim dele. Ele andava na corda bamba, enquanto ela apenas se deliciava, imaginava Strane. Ela ia esquecer aquele “primeiro amor” e ter algo diferente de experiência para a vida. A personagem é tão consciente quanto manipulada. Vanessa oscila entre a certeza de que algo está errado e o sentimento de uma menina podada de perspectiva por conta de seu abuso, absolutamente sozinha e devastada.

“De algum modo, eu já sentia o que ia acontecer comigo. Mas, sério, que menina não sente? Isso paira sobre a gente, essa ameaça de violência. Eles enfiam o perigo na sua cabeça até ele começar a parecer inevitável. Você cresce pensando quando é que vai acontecer.” 

As palavras são poderosas e tenho cautela ao redor delas. Abuso. No mínimo, um abuso psicológico envolvendo aquela relação de poder, penso ao me lembrar de alguns exemplos. Ao mesmo tempo, um dos professores era até piada: “Você vai no plantão dele? Tenha certeza que vocês não ficarão sozinhos na sala”, repetiam os alunos às risadas despreocupadas, um dando de ombros que ignora mais um caso corriqueiro. No cursinho é diferente, né? É todo mundo maior de idade. Aparentemente, todo mundo sabe o que está fazendo. Na faculdade também. Isso significa um cheque em branco, uma aposta vazia de que casos de crises de pânico, faltas sistemáticas, medo de começar um projeto de pesquisa por ter que frequentar a mesma sala de quem te manda mensagens na madrugada irão continuar acontecendo mesmo, e cada um que se vire com isso.

De forma triste, desacreditei quando soube que o tal professor idealizado tinha transado como uma aluna do ensino médio tempos atrás. Pode ser fruto de boataria, repeti para mim. Muitos alunos e alunas dão em cima de professores deliberadamente, e isso é um fato que seria hipócrita de contestar. Eu gostaria de entender a lógica desse jogo, o prêmio que vem com o final dele, especialmente quando somos mais jovens, principalmente para quem se propõe a ser um educador. Será que eu diria não? Eu teria consciência plena do que estava fazendo, do que estava sentindo? O desinteresse póstumo me mostrou, da forma mais banal de se menosprezar os sentimentos de um adolescente, o que eu também acho péssimo, que era só uma fase. Poderia ser uma história de amor? Será que eu só tive exemplos muito, muito ruins e hoje olho para todos com desconfiança?

Não tenho intenção de buscar respostas simples, mas viro meu livro e leio, na contracapa, que “esta não é uma história de amor”. Minha Sombria Vanessa é uma ficção. Uma história que mexeu com como eu olho para pessoas que um dia adorei, mas que me decepcionaram e me fizeram aceitar, em determinada época, que acontece com frequência, uma merda mesmo, mas fazer o quê? Há um silêncio incômodo e verdadeiro dentro de mim que me dá a sensação de que, se não fui Vanessa Wye, convivi com Jacob Stranes. Tenho vontade de rasgar esse sentimento para fora, xingar uma tela preta para me sentir melhor. A raiva me aparece em uma frequência íntima e profunda. Ela me ajuda a equilibrar as emoções quando sou pega desprevenida.

“Às vezes tenho a sensação de que é só isso que eu estou fazendo sempre que entro em contato: tentando assombrá-lo, arrastá-lo de volta no tempo, pedindo a ele que me conte de novo como aconteceu. Para que eu entenda de uma vez por todas. Porque eu continuo presa lá. Não consigo seguir em frente”, diz Vanessa quando manda fotos dela, jovem e nua, para Strane, com quem manteve contato ao longo dos anos. Sinto mais um mal estar e fecho o livro. Eu não diria não. Não diria nada. Não sei se me sinto covarde ou amedrontada.

Giovanna Galvani é jornalista e gatista profissional. Defensora de YA’s e leitora de sci-fi existencialista. Escrevo sobre política, gênero, meio ambiente e tudo o que há de bom (ou não) na Carta Capital.


** A arte em destaque é de autoria da editora Thayrine Gualberto.

Participamos do Programa de Associados da Amazon, um serviço de intermediação entre a Amazon e os clientes, que remunera a inclusão de links para o site da Amazon e os sites afiliados.  Se interessou pelo livro? Clique aqui e compre direto pelo site da Amazon!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *