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Madame X: a celebração do lado camaleônico de Madonna

Uma das frases mais famosas da atriz Greta Garbo se tornaria uma profecia para o que aconteceria à ela nos anos 1940: “Eu quero ficar sozinha”. Quando a bailarina Grusinskaya, personagem de Garbo em Grande Hotel, diz essa frase, ela selou um mito. Alguns anos depois, Greta desapareceria dos holofotes, assim como Grusinskaya queria fazer no filme. Embora as razões de Garbo nunca tenham sido profundamente conhecidas, sabemos que seu envelhecimento foi uma grande influência para que ela ter tomado essa decisão.

Essa mesma atitude também pode ser observada em personagens icônicas do cinema como Norma Desmond, de Crepúsculo dos Deuses, filme de 1951. Ela não aguentou ser esquecida e decidiu isolar-se de tudo e de todos em uma mansão de Hollywood. Ao decidir voltar às telonas, passou por um duro processo de rejuvenescimento visto que ninguém poderia perceber as rugas de seu rosto. De Greta Garbo e Norma Desmond para cá, o mundo mudou bastante. Porém, uma coisa continua igual: o ódio a mulheres mais velhas. O etarismo manifesta-se de maneira sutil, ou não. Permanece uma ousadia uma mulher acima dos 50 anos que deseja sair daquilo que foi projetado para ela, ou seja, uma linda concha para que ela possa apodrecer esperando a morte

Quando falamos em mulheres famosas, o buraco é mais embaixo. E aí que entra a cantora Madonna. Ela completou 60 anos no ano passado e, agora, além de enfrentar o conservadorismo, precisa colocar-se em pé todos os dias e dizer: “Também mereço fazer música pop.” Não parece algo absurdo para a mulher que é a rainha do pop? Pois é. Nos últimos anos, mais do que nunca, Madonna vem enfrentando a ira das pessoas em qualquer coisa que faça. Não é à toa. Quando ela apareceu se divertindo em “Bitch I’m Madonna”, ao lado de grandes nomes da música pop atual, foi duramente criticada. O que ela fazia usando um short curtíssimo e beijando uma garota no videoclipe? Ela não vai parar nunca?

Além disso, Madonna também enfrenta a ira de pessoas da minha idade que a acham velha demais para ainda fazer música pop. Não é surpresa ver os comentários ácidos que circulam sobre ela no Twitter. Está na hora de ela ceder a coroa para as “novinhas”. Está na hora de ela deixar de fazer turnês grandiosas. Nesse redemoinho etarista, Madonna resiste e continua seu trabalho fantástico, tanto como cantora quanto ativista. No mês passado, ela lançou seu 14º álbum de estúdio, Madame X. O álbum é um encontro entre a cantora e Portugal, mas também com seu lado camaleônico, uma das coisas mais fantásticas de sua carreira.

As camadas de Madame X

Madame X é um trabalho que, como a própria Madonna declarou nesta entrevista, precisa ser apreciado com tempo. Não é um álbum em que você coloca e vai fazer algo. A mistura de ritmos, do fado ao reggaeton, instrumentos e distorções de voz é uma experiência que exige atenção. Algo de que Madonna havia se afastado um pouco, talvez desde que gravou American Life, em 2003. O novo trabalho da cantora nasceu, eu acredito, de um acaso. Ela não pretendia gravar outro álbum de estúdio tão cedo. Ao contrário de seus dois últimos álbuns de estúdio que demoraram menos tempo, Madame X foi gestado durante quatro longos anos. O tempo suficiente de a cantora apaixonar-se por Portugal e seus ritmos e querer gravar um álbum em homenagem a eles.

Antes de seus pés pisarem em um estúdio, Madonna pisou em solo português com os filhos, disposta a mudar de vida para realizar o sonho de um deles. David, seu filho, sonha em ser jogador de futebol profissional. Como as escolas nos Estados Unidos não são boas o suficiente para tanto, ela decidiu fazer as malas e ir para o país de Fátima, onde o futebol profissional é mais forte. Alguns lugares, como Barcelona, foram considerados antes da escolha final. Madonna queria que todos os filhos se sentissem à vontade com a mudança. Porém, um fator foi determinante para a escolha de Portugal: o passado e o som desse país. Madonna sempre foi encantada por fado, por exemplo. Sua irmã morou muitos anos em Portugal e apresentou o ritmo à cantora.

Martha Graham e o apelido Madame X

Madame X é uma expressão do inglês para alguém que muda de personalidade o tempo inteiro. Mais do que isso: foi o apelido que a rainha do pop recebeu de ninguém mais, ninguém menos do que Martha Graham. Muito antes de sonhar em ser cantora, Madonna estudou com Martha Graham, um dos maiores nomes da dança no século XX. Os tempos eram outros, a cantora havia saído do Michigan e chegado em Nova Ioque, mas já carregava aquilo que seria uma de suas qualidades mais admiradas: a capacidade de estar em constante mudança.

Ao começar suas aulas com Martha, Madonna já quebrou uma regra: foi sem uniforme. Neste vídeo promocional de Madame X, a cantora conta que, ao conversar com Graham, ela disse à professora:

“Se você não tivesse quebrado regras, não estaria aqui.”

O estilo de Graham influenciou muito a rainha do pop, especialmente por se centrar na figura feminina. Os movimentos de Martha contam uma história, e Madonna sabia como isso era importante. Sua obsessão pela dança é uma maneira de contar uma história para além de sua voz. Graham dançou na Casa Branca e ganhou a Medalha da Liberdade em 1976. Fundou a própria escola de dança em 1926. Porém, não é a primeira vez que a rainha do pop presta uma homenagem a ela. Em 1994, ela fez um ensaio para a revista Harper’s Bazaar encarnando esse grande nome da arte.

Como Madonna, Martha rebelou-se contra as regras vigentes, nesse caso, o lado duro do balé. Ela investiu pesado em um lado mais expressivo da dança, incorporando atividades cotidianas, como correr e saltar, em seus passos. Graham não queria movimentos sem vida, ela defendia uma dança extremamente ligada ao interior. Algo no nível do inconsciente, digamos assim, uma vez que Graham foi inspirada por Carl Jung. Na hora de dançar, Graham assumia muitas personas, algo que Madonna faz em Madame X. Madonna pode ser vulnerável em faixas como Crazy, mas mostrar sua voz política em “God Control”. Tudo isso continuando verdadeira ao que acredita. Martha e Madonna têm muitos pontos em comum. Ao escolher a alcunha de Madame X, Madonna faz, ao mesmo tempo, uma reverência ao seu passado e à figura de Martha. São dois movimentos diferentes que acabam se fundindo de uma maneira bastante interessante ao longo do tempo.

A homenagem de Madonna a Martha também passa pela estética. No primeiro videoclipe de Madame X, “Medellín”, ela está morena, com um visual bastante próximo ao a dançarina. Além disso, ela também aparece coordenando uma espécie de aula de dança logo no começo. Ela usa luvas pretas e compridas, as mesmas que tornaram Graham tão famosas. Coincidência? Com certeza, não. Muitos fãs têm a teoria de que Madonna muda o visual loiro sempre que pretende lançar algo icônico. Foi assim com Ray Of Light. Madame X parece seguir os mesmos passos.

A Madame X de Lana Turner

O cinema e Madonna são um caso antigo de amor. Quem não se lembra dos famosos versos de Vogue citando alguns dos maiores atores norte-americanos do cinema antigo? Também temos o videoclipe de The Power Of Goodbye, uma obra-prima em termos de referência cinematográfica. A cantora conseguiu unir o melodrama de Joan Crawford, através de cenas recriadas do filme Acordes do Coração, ao filme de espionagem, Crown, o Magnífico. Em Madame X, existe uma referência muito importante para entendermos o conceito do álbum, e ela reside em partes em um filme homônimo, estrelado por Lana Turner em 1966.

Antes de o álbum ser oficialmente lançado, a cantora deu algumas pistas sobre o conceito que ela criaria para o novo trabalho através de uma playlist no Spotify: Magic. As seis músicas da playlist, antigos singles de Madonna, formavam a palavra “Madame”. Além disso, quando o usuário dava play, um enorme X aparecia na tela. Existem dois filmes norte-americanos do cinema clássico com o título Madame X. O que mais se encaixa com a história do álbum é a versão de 1966. Nela, conhecemos a história de Holly (Lana Turner), uma garçonete que se casa com um rico diplomata. Como ele viaja muito, ela fica longos períodos sozinha com o filho deles.

Por conta de um mal-entendido, sua sogra acredita que ela está traindo o marido e acaba obrigando Holly se afastar da família, tornando-se uma pária pelo mundo. Holly viaja por vários lugares, procurando consolo por ter perdido a família que tanto amava, e acaba se envolvendo com homens de nacionalidades diferentes. México e Suíça são alguns países pelos quais ela passa. Embora a Madame X de Madonna seja uma agente secreta, podemos encontrar similaridades entre elas, principalmente no fato de que ambas viajam pelo mundo. Para mim, o álbum de Madonna simboliza uma viagem pelos diversos ritmos do mundo, como se a agente secreta estivesse visitando diversos países, mostrando um pouco de si em cada um deles. A personagem de Lana Turner também fez isso de certa forma. Ela começa vitoriosa na Suíça, mas termina simplesmente acabada no México, ao perceber que nunca mais poderá ter a vida de antes de volta. É um retrato muito sensível de vulnerabilidade e força, algo que perpassa Madame X.

Faixas que conversam entre si

Depois de declarar que Madame X é uma agente secreta, mas também uma filha, uma estudante e dona de casa, finalmente chegou a hora de vermos como o conceito criado por Madonna é posto no álbum.Analisamos algumas faixas que consideramos as mais importantes e significativas do álbum. Esta colaboradora passou dois meses ouvindo o álbum sem parar, e ela sabe que essa análise é de longe a menos elaborada que se poderia ter feito. Madame X é um álbum que cresce muito dentro de você a cada play.

“Medellín”

O disco abre com “Medellín”, parceria da cantora com Malluma. Muitas pessoas criticaram o fato de essa faixa, que parece tão genérica, ter sido escolhida para abrir o álbum, mas discordo. “Medellín”é o convite que Madonna nos faz para embarcamos em uma viagem de sons, ritmos e reflexões. A parceria dela com Malluma nasceu a partir do dia em que eles se conheceram nos bastidores do VMA de 2018. Em seguida, ele deu uma entrevista para a revista Forbes, dizendo que eles estavam trabalhando juntos e como aquilo era um grande passo para a cultura latina. Os dois tinham muitas coisas em comum, como o gosto por equitação, algo que aparece no videoclipe de “Medellín”.

Na primeira semana em que o single foi lançado, a rainha do pop quebrou o próprio recorde, ficando em primeiro lugar no topo da parada Dance Club Songs, da Billboard. Essa é a 47ª vez que a cantora consegue colocar um single em primeiro nessa parada. Medellín é a cidade de origem de Malluma, na Colômbia. Foi na América Latina que a cantora decidiu começar a viajar pelo mundo. Os versos da música corroboram a ideia de convite:

“Eu tomei um comprimido e tive um sonho
Voltei aos meus 17 anos
Me deixe ser ingênua
Ser alguém que nunca fui
Tomei um trago e tive um sonho
E acordei em Medellín
O sol acariciava a minha pele
Um outro eu pode começar”

Particularmente, gosto de o álbum começar com uma faixa como essa. À medida que o Madame X avança, ele vai se tornando mais sério, melancólico e difícil. Madonna faz o contraponto introduzindo músicas, como “Bitch I’m Loca” e “Faz Gostoso”, para não deixar a ouvinte no fundo do poço. É claro que não poderíamos deixar de comentar os videoclipes de Madame X. A sensação que tenho é de que Madonna está muito comprometida em transmitir sua ideia, por isso, ela gravou tantos videoclipes. Até o momento, temos cinco faixas que ganharam vídeos: “Medellín”, “Crave”, “God Control”, “Dark Ballet” e “Batuka”.

Em diversos momentos de Madame X, Madonna presta tributo a si mesma. Em “Medellín”, não poderia ser diferente. Para mim, é como se ela estivesse revivendo o videoclipe e aquela atmosfera latina que ela nos trouxe em “La Isla Bonita”, do álbum True Blue. Há um detalhe importante: as duas músicas falam sobre lugares diferentes. Em uma, Madonna fala sobre a Espanha; na outra, sobre a Colômbia. No entanto, há um ponto muito comum entre as músicas: ambas falam sobre um lugar idílico, uma espécie de paraíso. Exatamente como este trecho de “La Isla Bonita”:

“Eu quero estar onde o sol aquece o céu
Quando é hora da siesta, você pode assistir o pôr do sol
Rostos lindos, ninguém liga para nada
Onde uma garota ama um garoto, e um garoto ama uma garota”

Às vezes a visão de Madonna sobre os países latinos beira o romântico. Há uma sensação de que existe algo pulsante nesses países, talvez a receptividade das pessoas, que não há nos Estados Unidos. Fica o questionamento: que imagem Madonna exporta dos países latinos-americanos para o mundo? Outro elemento comum entre “La Isla Bonita” e “Medellín” é a religiosidade. No videoclipe de “Medellín”, a primeira cena que temos é Madonna rezando. A oração dela é muito importante para a ideia narrativa do videoclipe, porque ela está prestes a se casar. Ela diz a Deus que nunca será o que a sociedade espera dela, mas que ainda tem esperança nos seres humanos.

Existe uma espécie de contradição na oração e o que vem depois. Madonna diz: “Mas agora sou Madame X. E a Madame X adora dançar.” É como se houvessem dois eu neste clipe, o da mulher que deseja se casar e aceitar as regras e o da mulher que manda as regras para o espaço, simbolizada pela aparência física de Madonna, que lembra muito a de Martha Graham. Ao longo do videoclipe, a Madonna morena vai aparecendo menos e temos a loira tomando conta. Essa é a Madonna que vai se casar e, aparentemente, seguir as regras. Porém, uma análise apurada da cena do casamento em “Medellín” mostra que não é bem assim.

Para começar, os convidados do casamento não seguem as regras impostas pela sociedade em relação à aparência física. Algumas mulheres têm o cabelo raspado, temos homens que não performam a masculinidade como é esperado deles. Homens com maquiagem. Essa lista de convidados mostra que Madonna está tentando subverter (de novo!) as regras do matrimônio na igreja. A noiva sobe em cima da mesa, rebola e quebra um copo enquanto o noivo a observa passivamente. A posição de Maluma em “Medellín” também é muito interessante. Ele não interfere no que ela deseja fazer, é dominado por ela. Nesse casamento, não é o homem que toma a frente.

“Dark Ballet”

“Dark Ballet” é a segunda faixa de Madame X, e aqui começa o lado mais sombrio do álbum. Ela dá uma quebra muito forte em relação ao clima de diversão estabelecido por “Medellín”. Mais uma vez, Madonna está flertando com a igreja e a religiosidade, dessa vez usando a figura de Joana D’Arc — a guerreira francesa, acusada de bruxaria, é uma figura recorrente na discografia de Madonna. Ela apareceu no álbum anterior da cantora, Rebel Heart, com a faixa “Joan Of Arc”. Ao contrário de “Dark Ballet”, “Joan Of Arc” fala muito mais sobre a fama e ser afetada por ela:

“Toda vez que eles tiram uma foto
Eu perco um pedaço de mim, não posso voltar
Eu quero me esconder, esta é a parte em que eu me despedaço
Toda vez que eles escrevem palavras de ódio
Arrastando a minha alma na sujeira
Eu quero morrer
Mas não quero falar sobre isso agora
Não sou Joana D’Arc, ainda não
Mas estou na escuridão”

Por ser um álbum extremamente político, talvez não seja surpreendente que Madonna traga de volta os elementos religiosos para nos falar sobre os tempos em que vivemos. “Dark Ballet” é uma faixa sombria e perturbadora. Acho difícil ouvi-la e não ser transportada para uma atmosfera extremamente opressora. O próprio começo da letra da música já estabelece a opressão, pois Madonna diz que é um lindo dia, mas que não diz respeito a ela. Que é um lindo sonho, mas esse sonho já foi conquistado. É como se o eu-lírico de “Dark Ballet” estivesse desiludido com um mundo patriarcal, no qual não há espaço para ela. A falta de espaço em “Dark Ballet”t ganha voz através de Joana D’Arc, o eu-lírico da música. Falar como se fosse a própria Joana foi uma escolha consciente de Madonna, muito porque a história da guerreira ainda fala muito conosco em 2019.

Nascida na comuna de Domrémy-la-Pucelle, Joana foi acusada de bruxaria por um tribunal inglês e francês e condenada à fogueira. Antes disso, aos 13 anos, ela teve sua primeira visão: a de que deveria lutar por seu país na Guerra dos Cem Anos. Depois de muito insistir, ela conseguiu autorização para visitar o rei da França com um funcionário do reino francês, Robert de Baudricourt. Até hoje especula-se o que realmente aconteceu durante a visita de Joana ao rei, mas historiadores concordam que ela tinha uma influência muito positiva no exército francês. Por isso mesmo, o Rei Carlos VII lhe ofereceu armamento e soldados para que ela pudesse lutar pela França. Antes mesmo de ser capturada pelos ingleses, Joana já era tida como bruxa por eles. As vitórias do exército, somadas à influência de D’Arc, fizeram com que os ingleses acreditassem que isso só poderia ser obra do diabo.

Por que Joana foi queimada, afinal? Ela era bruxa mesmo? E o que é ser bruxa? Hoje, podemos dizer que as bruxas eram aquelas mulheres que não seguiam normas. Particularmente, acredito que D’Arc foi para a fogueira por não performar a feminilidade como esperavam dela, por ser uma mulher em uma posição de poder. A Igreja precisava deter ameaças como ela. Em muitas manifestações, costumo ver cartazes dizendo: “Nós somos as bruxas que não foram queimadas.” E é verdade. Ser bruxa, hoje em dia, continua sendo ir além das normas. No videoclipe de “Dark Ballet”, Joana é representada por Mykki Blanco, uma rapper negra, transgênero e soropositiva.

Vivemos em um momento muito duro socialmente. Mais do que nunca, o diferente é alvo de toda sorte de preconceitos. Com a ascensão de governos ultraconservadores, como Jair Bolsonaro e Donald Trump, abriu-se a Caixa de Pandora. Agora, tem-se licença para ser racista e LGBTfóbico, já que as maiores autoridades desses governos endossam esse tipo de pensamento. Dessa forma, quem sai do padrão hétero e branco está constantemente ameaçado. Nossas liberdades estão sendo violadas a cada dia que passa. Quando Joana D’Arc surge na figura de Mykki Blanco, é como se Madonna estivesse apontando quem são as vítimas das fogueiras modernas: negros, pobres e trans. Madonna mal aparece no videoclipe de “Dark Ballet”, e existe uma razão para isso: é como se ela fosse uma plataforma para apontar problemas sociais. Ela usa sua influência para deixar àqueles que foram historicamente silenciados poderem falar. Há muitas controversas sobre isso, inclusive, Bell Hooks tem um artigo fabuloso a respeito desse tema, presente no livro Olhares Negros, no qual ela discute sobre a inserção de um Jesus Cristo negro no videoclipe de Like a Prayer.

O arranjo de “Dark Ballet” é algo precioso. Quando fui a uma festa em comemoração ao lançamento de Madame X, muitas pessoas ficaram ofendidas com essa música. Com o quanto ela não é para dançar. Então por que a DJ a colocou para tocar? Mas a verdade é esta: é visceral ouvi-la em um alto-falante potente. A intenção de “Dark Ballet” não é ser agradável, mas nos dar um soco no estômago. Estamos dançando um balé macabro em todos os lugares do mundo, e é para isso que a faixa aponta. Enquanto os Estados Unidos criam campos de concentração para refugiados, nós, aqui no Brasil, vemos a Amazônia consumir-se em fogo. Todas nós estamos dançando o balé dos poderosos. Mas será que vamos acordar?

“Dark Ballet” usa trechos de O Quebra-Nozes, balé de Tchaikovski, para ilustrar a parte da faixa em que o eu-lírico está dançando a melodia macabra. Inclusive, é muito interessante pensar nos motivos de ela ter escolhido especificamente esse balé. Na história, um quebra-nozes ganha vida. Um boneco começa a viver como ser humano. Já na vida real, é como se fossemos bonecos, manipulados por outras pessoas. Há um momento da música em que, assim como no balé, existe uma libertação de quem ouve. Ela é ilustrada pela distorção de voz e pelos seguintes versos:

“Eles são tão ingênuos
Eles acham que não estamos cientes
Dos crimes deles
Nós estamos a par
Mas não estamos prontos para agir”

Com essa mensagem, Madonna é otimista de certa forma, acreditando que ainda não chegou a hora de as pessoas se levantarem e mudarem a situação vigente. “Dark Ballet” termina com sussurros, como se o eu-lírico estivesse sufocado e cansado, ou ainda amordaçado.

“God Control”

Depois de “Dark Ballet”, a faixa seguinte é “God Control”. É difícil falar sobre ela, há tanto a dizer, mas acho que podemos começar com os únicos fatos: os sentimentos. Quando o single “American Life” foi lançado, em 2003, estávamos em plena Guerra do Iraque. Era tudo muito fresco ainda, os atentados de onze de setembro mal havia acabado de acontecer, e nós vimos tudo isso televisionado. No entanto, eu ainda era adolescente, não entendia o mundo direito, então o poder dessa música da rainha do pop passou um pouco despercebida por mim.

Mas, agora, tenho 28 anos no lançamento de “God Control”. Vivo em um país que me odeia, porque sou mulher e lésbica. A sensação é totalmente diferente, e consigo entender por que as pessoas ficaram enlouquecidas em 2003 com a ousadia de “American Life”. Na versão censurada do clipe de “American Life”, Madonna aparecia em meio ao exército. Mas, agora, não existe censura. O videoclipe de “God Control” está disponível no Youtube e simula o ataque à boate LGBQT+ em Orlando. No meu país, o estatuto do desarmamento está sendo revisto. Em pouco tempo, posso morrer baleada simplesmente porque alguém me odeia o suficiente para querer me ver morta. Dói demais.

Por essas razões, o lançamento de “God Control” é tão visceral. Como em 2003, é uma tema que dialoga com nossa realidade. O controle de armas e a violência nunca estiveram tão em voga. O Brasil de 2019 é um pesadelo que nos violenta constantemente. Nossa nação mentiu, nós perdemos o respeito é um verso que nunca fez tanto sentido. Em “God Control”, Madonna propõe-se a falar sobre uma questão espinhosa, o controle de armas. Ao contrário do Brasil (pelo menos até o momento), os Estados Unidos são totalmente flexíveis com armamento. No documentário Tiros em Columbine, Michael Moore mostra que bancos oferecem armas como brinde, caso uma pessoa decida abrir uma conta. Qualquer pessoa pode ter uma arma. Na época do documentário, Moore percorreu os Estados Unidos tentando entender os motivos do massacre em Columbine, no Michigan. Ele chegou à conclusão de que era uma mistura de masculinidade e expectativas frustradas que levavam jovens a matarem outros em escolas. Jovens que se sentem deuses ao segurar uma arma. A faixa da rainha do pop começa com uma voz, a de Madonna, amordaçada. O monólogo do começo de “God Control” estabelece a atmosfera da faixa e a crítica social que ela carrega:

“Todo mundo sabe da merda da verdade
Nossa nação mentiu, nós perdemos o respeito
Quando acordarmos, o que podemos fazer?
Arrumamos os filhos, levamos-os à escola
Todo mundo sabe que eles não têm a oportunidade
De ter uma vida decente, de ter uma vida normal
Quando eles falam sobre reformas, dá vontade de rir
Eles fingem ajudar, dá vontade de rir”

Dessa forma, Madonna está mostrando a hipocrisia da sociedade norte-americana. A indústria de armas movimenta diversos setores, logo, não é do interesse dos poderosos de restringir o porte. E o mais importante: a indústria armamentista cria a cultura do medo. Cidadãos paranoicos e com medo são mais fáceis de ser manipulados. O medo interessa a quem? Como em “Dark Ballet”, a faixa estabelece uma atmosfera extremamente perturbadora. Depois da voz amordaçada, temos um coral cantando que perdemos o controle. Mas não acabou por aí: há a atmosfera disco. Muitos fãs estavam com saudades da era disco da cantora, evidenciada pelo álbum Confessions On a Dancefloor. Ela matou as saudades da forma mais macabra possível: inserindo uma batida disco em uma música sobre controle de armas. Mas por quê?

A minha teoria é de “God Control” faz você entrar em uma espiral, como se estivesse sonhando e precisasse acordar. Como se você tivesse que dançar até morrer, porque amanhã pode morrer baleada. Isso é evidenciado pelo videoclipe da faixa, inclusive, uma vez que ele passa em uma discoteca. Quando a música entra na batida disco, é como se estivéssemos sonhando. Madonna diz: “Acorde” enquanto as pessoas estão curtindo seus últimos segundos, sem imaginar que seriam baleadas na boate. Se a música por si só já é intensa, o videoclipe consegue ser transformar em narrativa o futuro sombrio para o qual estamos nos encaminhando. Nele, somos transportados para a história de um massacre uma boate. Pelo visual e pelo nome, The Globe, ela é inspirada no ambiente disco dos anos 70. Mais do que isso: ela remete à boate LGBT em Orlando, palco de um massacre em 2016. O massacre deixou 32 mortos e foi um dos piores ataques a tiro dos EUA.

O videoclipe mescla cenas de Madame X escrevendo uma história, a da realidade sombria da falta de controle de armas, com a cronologia do ataque. Vemos Madonna se arrumando para ir à boate e, em seguida, como tudo aconteceu. São duas narrativas que acabam convergindo, pois parece que Madame X está contando o que vemos na boate. As cenas do massacre são fortíssimas, como seria de se esperar. Acho que o mais interessante é pensar em todas as referências que estão no videoclipe, desde as fotografias de Angela Davis, Simone de Beauvoir e Martha Graham até o cartaz onde conseguimos ler: “Homens héteros e brancos comandam tudo ao meu redor.” Ao trazer as fotografias de pensadoras e transgressoras que acompanham a escrita de Madame X, Madonna parece estar chamando a atenção para o fato de que a trajetória daquelas mulheres foi permeada pelo combate à violência. Angela Davis opõe-se ativamente a uma política de encarceramento em massa, ao passo que Simone de Beauvoir lutou ativamente a favor da independência da Argélia nos anos 60.

No Brasil de 2019, “God Control” já é uma realidade. Quando Madonna diz “eles fingem se importar, me dá vontade de rir”, consigo projetar o governo do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, chegando ao local do sequestro do ônibus na Ponte-Rio Niterói, no Rio de Janeiro, como se houvesse algo a comemorar. Comemorando que a polícia carioca atirou em um sequestrador armado com uma arma de brinquedo. Mas não é só ele. O Brasil não é apenas Witzel. São os Bolsonaros, os Marchezans e Dórias. A violência é naturalizada, e estamos assistindo a um massacre. Pobres, negros, indígenas e LGBQT+ estão sendo vítimas de uma limpeza. Há licença para matar.

Não que não houvesse nada disso antes. O Brasil é uma terra manchada de sangue, desde o dia em que os portugueses tomaram o que era dos indígenas. No entanto, quando temos um presidente fascista e um congresso de maioria conservadora, tudo isso vira a norma. Todos os dias morremos um pouco. É difícil resistir. Apesar do cenário sombrio, fico feliz por uma artista de projeção internacional como Madonna chamar a atenção para essa questão. Ela sabe que o conservadorismo ascendeu em muitas partes do mundo, e nossa democracia está ameaçada. É importante que possamos falar sobre isso e saber que há artistas preocupados.

“Future”

Aparentemente um inocente reggae, “Future” é uma música mais leve, se comparada às suas anteriores, “Dark Ballet” e “God Control”. Porém, se analisarmos bem as letras, veremos que ela dialoga com a mensagem do álbum como um todo: o que estamos fazendo com o mundo? Não é de hoje que Madonna flerta com o reggae. Ela já tinha feito isso em Rebel Heart com a canção “Unapologetic Bitch”, que, infelizmente, não foi escolhida para ser single do álbum. Ao contrário da pegada de “Unapologetic Bitch”, Future fala sobre aprendermos com o passado e nossos erros. O refrão da música consiste na repetição das estrofes:

“Nem todos estão olhando para o futuro
Nem todos estão aprendendo com o passado”

Para essa faixa, a rainha do pop fez uma parceria com Quavo, rapper norte-americano e membro do grupo Migos. Madonna recebeu muitas críticas nos últimos anos por usar autotune e outras técnicas de distorção de voz. É uma crítica inválida na minha opinião. Vamos desqualificar Cher porque ela teve uma fase em sua carreira em que usou e abusou da distorção de voz. Não vamos, não é?

Voltando ao assunto, “Future” é uma faixa muito interessante, pois ela nos faz refletir sobre várias questões ligadas ao passado e à memória, embora Madonna não as evoque diretamente. A memória interessa a quem? Por que lembrar? Relembrar o quê? A falta de memória é um dos fatores que nos trouxeram até o momento em que estamos vivendo no Brasil. A memória é um campo de disputa. Não é à toa que, por exemplo, demoramos tanto tempo para termos uma Comissão da Verdade, algo que abrisse a Caixa de Pandora da ditadura civil-militar no Brasil. Tampouco é à toa que a nossa anistia perdoou torturadores. Não olharmos para o passado com o respeito e o medo que ele nos exige é o que nos fez relativizar a ditadura civil-militar.

Madonna, através de “Future”, nos convida a olhar a pensar em quem está pronto para o futuro. Não há futuro sem passado. Parece clichê, mas nunca essa mensagem foi tão importante. Talvez por ser clichê ninguém tenha prestado atenção a ela. Outro detalhe bacana em relação à Future é que Madonna faz uma referência a ela mesma usando estrofes de “Don’t Tell Me”, faixa do álbum Music, de 2000: “Não me diga para o sol parar de brilhar só porque você mandou” (“Don’t tell me the sun not to shine because you said so”). A autoreferência é uma espécie de reverência ao próprio passado da cantora em uma música que fala sobre o futuro. Não apenas em “Future”, mas ao longo de todo o Madame X, Madonna flerta com temas que fazem parte de seu passado, como a igreja, e o reinventa em sua nova fase.

“Batuka”

“Batuka” é de longe uma das melhores faixas de Madame X. Parceria entre Madonna e as batukadeiras de Cabo Verde, trata-se de uma faixa apaixonante, cheia de ressignificações e que dialoga com o percurso percorrido pela agente secreta pelo mundo. Assim como em “Dark Ballet”, Madonna usa a própria visibilidade para fazer com que todos conheçam a história do ritmo batuko. Música de resistência, feita por mulheres escravizadas, desprezada pela Igreja Católica por se tratar de uma expressão de revolta, o batuko faz parte do que é ser cabo-verdense.

Ao ler ou ouvir entrevistas de Madonna, podemos perceber o quanto ela se conectou à música de um jeito muito diferente em Portugal. Era como se, quando ela morava nos Estados Unidos, estivesse entorpecida, adormecida. Tanto é assim que, em um vídeo de promoção de Madame X, ela declarou que estava cansada da música pop. Em Portugal, a cantora conheceu muitas pessoas apaixonadas por música com a ajuda do produtor Dino D’Santiago. No país, as pessoas costumam se reunir na casa de outras para ouvir música. Foi assim que Madonna conheceu as batukadeiras de Cabo Verde. De acordo com o minidocumentário sobre Madame X, a cantora ficou encantada. “Elas têm muita energia, emanam muito poder feminino”, declarou.

“Batuka”, como é chamado para evitar a confusão semântica com batuque, carrega séculos de história. Hoje é patrimônio imaterial de Cabo Verde, mas nem sempre foi assim. A história desse ritmo perpassa todos os momentos de Cabo Verde, do período colonial até a independência. De acordo com a pesquisadora Gláucia Aparecida Nogueira, o primeiro registro que temos do batuko data do século XVIII, em pleno período colonial em Cabo Verde. Tal registro trata da proibição do ritmo, pois perturba a ordem e é escandaloso aos olhos de Deus:

“Com tantos excesso, que chega a ser por todos os fins escandalozos a Deus, e de perturbação às Leys, e ao sucego público, prencipalmente por effeito da intemperança dos que se deichão esquecer delles.”

Quem ousasse desobedecer a proibição estava sujeito a quatro meses de prisão. Além disso, o mesmo documento coloca nas entrelinhas quem são as pessoas que frequentam as sessões de batuko: escravizados e pessoas negras libertas que viviam à margem da sociedade. Não seria primeira vez que o batuko seria inferiorizado por conta das pessoas que praticavam. Muitas vezes foi definido como algo selvagem e lascivo, esvaziando, assim, todo seu conteúdo político. Além de documentos, o batuko também está presente na literatura de Cabo Verde. Escrito em 1856, o romance de José Evaristo de Almeida, O Escravo, podemos ler que o batuko era uma das poucas regalias concedidas aos escravizados. E ainda temos o folhetim Amores de Uma Crioula, de António Arteaga, que descreve uma sessão de batuko.

Infelizmente, o século virou e o batuko permaneceu mal visto. Em entrevista para a pesquisadora Glaúcia Aparecida Nogueira, a famosa batukadeira Nácia Gomi declarou que o ritmo era denunciado por catequistas. Os padres recusavam-se a casar quem participava dessas sessões. A partir da independência de Cabo Verde, de 1975 em diante, é que o batuko pôde assumir-se como um ritmo respeitado. Hoje muitos artistas contemporâneos do arquipélago, como Princezito e Mayra Andrade, tomam o ritmo original e adicionam outros instrumentos.

É dentro de todo esse contexto que se insere a “Batuka” de Madame X. O videoclipe da música funciona complemento visual, pois através dele podemos conhecer o que é uma sessão de batuke. A experiência de assistir a esse videoclipe é única, pois você enxerga o sentimento nos olhos e no que as batukadeiras estão cantando, e é impossível não se emocionar. Madame X é um álbum que me faz chorar do começo ao fim. O videoclipe começa com um grupo de mulheres negras se organizando para a sessão de batuke. Uma tempestade está vindo, como Madonna diz na faixa. Depois somos transportados para o mesmo grupo de mulheres sentado em um círculo, com instrumentos no meio das pernas. Elas batem palmas de acordo com o ritmo, e você vai percebendo que o ritmo começa a aumentar, até explodir no meio da faixa.

A sessão de batuko costuma ter uma solista, mas o videoclipe de “Batuka” dispensa esse costume. Todo o grupo de mulheres negras é protagonista daquele momento. “Batuka” é um videoclipe muito simples e poderoso ao mesmo tempo. Acredito que isso aconteça porque, como ouvinte, você consegue sentir a resistência através dos sons que aquelas mulheres produzem. Para deixar ainda mais evidente o caráter histórico do batuko, Madonna optou por inserir caravelas quase invisíveis indo embora da Praia de Julião, em Sintra, onde o videoclipe foi gravado. A câmera filma os rostos de algumas batukadeiras, visivelmente emocionadas. Como em “Dark Ballet”, Madonna mal aparece no próprio videoclipe. Particularmente, gosto de como ela faz esse movimento de afastar-se e permitir que algo dê a sua mensagem por si. Sem que Madonna precise apontar para si própria.

O que vem por aí?

Curiosamente, Madame X não foi lançado no Brasil e os fãs interessados em ter esse trabalho de Madonna em formato físico terão que encomendá-lo do exterior. Essa estratégia foi questionada por muitos, ainda mais porque o público de Madonna no Brasil é grande o suficiente para merecer uma tiragem generosa de cópias de Madame X. Os preparativos para a turnê de Madame X seguem a todo vapor, e todo dia podemos ver uma amostra do que Madonna está preparando no Instagram da cantora. Essa nova fase é tão especial que ela decidiu não se apresentar em estádios; mas sim em teatros. A ideia é que seja algo mais intimista, e talvez menos espalhafatoso, do que em turnês anteriores.

Alguns podem dizer que isso pode ser o prelúdio de uma fase mais “a ver com a sua idade”. Discordo. O fato de a turnê ser um teatro não diminui a grandeza do que vem por aí. Com 61 anos, Madonna pode se dar ao luxo de continuar política e grandiosa, mesmo se apresentando em lugares um pouco menores. Para terminar este texto, gostaria de propor uma provocação. Se já temos 81 datas da turnê de Madame X confirmadas e, sobretudo, um álbum para lá de político, por que não vejo o mesmo fervor que outras cantoras pop da atualidade causam quando Madonna lança um trabalho novo? É um fato: o etarismo que ela tem sofrido faz com que muitas pessoas escolham (uma escolha orientada, é claro) não prestar atenção ao que ela anda produzindo.

Acredito que não podemos esperar dez anos para enaltecer o valor de Madame X e o quanto ele dialoga com o momento em que estamos vivendo. O etarismo não pode nos cegar. Talvez Madonna tenha produzido um de seus álbuns mais importantes nos últimos tempos, e isso tudo se deve ao sentimento de ela ter se reencontrado com a música e com pessoas apaixonadas por ela. Que não nos lembremos de Madonna apenas quando ela cai mas simplesmente porque ela continua relevante. E mostrando que é possível estar em pé em uma indústria musical tão misógina e efêmera.

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