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Cher: o ícone pop que inventou a si mesma

Em maio de 2019 a cantora Cher completou mais uma volta ao redor do sol e motivos não faltam para exaltar um dos nomes que mais justificam o título de ícone pop, no sentido mais puro da expressão. Afinal, um dos significados do termo ícone remonta a algo ou alguém que se distingue ou simboliza uma época, cultura, área do conhecimento; imagem ou ídolo — portanto, a própria Cher em pessoa. Conhecida pela voz grave, figurinos extravagantes e aparência jovial, ela criou para si uma personalidade artística forte e ousada, servindo constantemente de referência para a cultura pop.

Nascida em 20 de maio de 1946, na Califórnia, Estados Unidos, Cherilyn Sarkisian sempre foi pioneira tanto no visual — como ser a primeira pessoa famosa a usar barriga de fora e minissaia — quanto nas atitudes, já que ela também foi a primeira artista a levantar 1 milhão de dólares para o tratamento e combate da AIDS infantil, no início dos anos 80. Quando começou a carreira musical, na década de 60, formando dupla com Sonny Bono, com quem casou e teve o primeiro filho, chegou a ser expulsa de hotéis, restaurantes e até sofrer agressões físicas simplesmente pelo modo extravagante de se vestir. Mesmo que o período em questão tenha sido marcado por propostas de mudanças de costumes, a exemplo do movimento hippie, o visual de Cher já era uma marca da sua identidade — e incomodava.

Ainda que, inicialmente, não fosse bem-vista por conta de seus figurinos, Cher já buscava — e ainda busca — agradar a si mesma, deixando de lado a ideia de agradar os holofotes. Por exemplo, temos o vestido usado por ela no Oscar de 1986, assinado por Bob Mackie, o vestido se tornou um marco no histórico de suas roupas, e foi um dos assuntos mais comentados daquela cerimônia por ser considerado ousado demais. Um entre tantos outros figurinos que, somados às inúmeras perucas, romances com homens mais jovens e tatuagens, categorizavam a artista como transgressora de inúmeras regras sociais.

Em entrevistas, Cher conta que a atriz e cantora alemã Marlene Dietrich, com trabalhos a partir dos anos 30, talvez tenha sido sua maior influência nesse sentido. Para Cher, ela ampliou as fronteiras na maneira como um artista se apresenta, na atitude, no modo de vestir, misturando roupas masculinas e femininas. E foi a partir de Marlene e de outras atrizes de Hollywood que a artistas começou a montar para si o seu próprio mundo de fantasia. Apesar de estar sempre mudando de visual, uma de suas características mais marcantes é justamente sua lealdade, de quase quarenta anos, a uma única peça de roupa: a sua famosa camiseta preta cravejada de strass com uma estampa de caveira pirata dizendo “Eat the Rich” [devore os ricos].

Infelizmente, a cantora perdeu a camiseta em março deste ano e contou no Twitter sobre a perda do item, quando então foi presenteada pela joalheria austríaca Swarovski com uma réplica personalizada da peça.

Da esquerda para a direita: Cher e a clássica camiseta preta em 2000; Cher no Oscar de 1986, vestindo Bob Mackie; e Cher com a mesma camiseta em 2016.

Com o tempo, felizmente, seu estilo excêntrico foi sendo mais aceito e Cher se tornou uma das artistas mais bem-sucedidas da história, com 25 álbuns lançados, ficando em primeiro lugar nas paradas da Billboard em cada uma das últimas seis décadas, além de colecionar atuações de destaque na TV e no cinema. Apesar de tudo isso, nem só de altos é feita a trajetória da artista. Os percalços pelos quais passou só mostram o quanto Cher também merece ser saudada pela sua capacidade de se reinventar — afinal, nenhum deles a impediu de ser seu próprio “rich man” [homem rico].

Sem medo de se reinventar

Com uma carreira tão longa, Cher passou por situações comuns a qualquer artista que tem que se adaptar a novos públicos e formatos e se adequar conforme o mercado cresce e se modifica. Na época em que formava dupla com Sonny, Cher cantava pop rock. Ao iniciar a carreira solo — paralelamente à dupla —, apostou no folk. Em seguida, entre o fim dos anos 1970 e início dos 1980, a cantora fez a transição da disco music para o rock. E quando sua carreira ia de mal a pior no fim dos anos 90, acabou migrando para a dance music — sendo esta mudança talvez a mais determinante de todas. Na época, abandonada pelo agente, despedida pela gravadora e sem propostas de trabalho, a carreira ia muito mal, mas tudo mudou quando o inglês Rob Dickins, um executivo de gravadora, a convidou para gravar um álbum em Londres. Cher aceitou e o álbum, titulado It’s A Man World, foi um fracasso em vendas. Apesar disso, Rob não desistiu e propôs que ela fizesse algo no gênero disco, e foi aí que veio a grande virada, pois entre as músicas do novo repertório estava “Believe“, uma de suas canções mais famosas até hoje, se não a mais famosa de todas, responsável por colocá-la de volta nas paradas de sucesso.

E se na música a artista conseguiu êxitos extraordinários, na carreira de atriz ela também não tem do que reclamar. Cher trocou a frustração de participar de filmes que tiveram mau desempenho de crítica e bilheteria no início da carreira, como Good Times e Chastity, por longas de sucesso a partir dos anos 1980. No currículo, contracenou como par romântico de Meryl Streep em Silkwood – O Retrato de uma Coragem (1983), que lhe rendeu a primeira indicação ao Oscar na categoria de melhor atriz coadjuvante. Em 1988, ela ganhou a estatueta de Melhor Atriz por Feitiço da Lua. Também bem-sucedidos foram os filmes Marcas do Destino (1985) e Minha Mãe É Uma Sereia (1990). Ela já venceu três Globos de Ouro, um Emmy e um prêmio de melhor atriz do Festival de Cannes.

“Digo que sou cantora porque adoro cantar. E sou atriz porque adoro estar diante de uma plateia. Se me perguntarem em que momento eu descobri que sou atriz, respondo que ainda não descobri. Mas sei que posso atuar”.

Cher para a revista Veja, em entrevista de 2015.

Cher e o ativismo político

Um dos motivos que fazem Cher ser esse furacão como artista vem também de seu posicionamento político, pois além da autenticidade no vestir, as opiniões da artista sempre a puseram em uma posição de destaque. Nesse sentido, podemos dizer que Cher está na vanguarda no showbusiness quando o assunto é igualdade de gênero. Exemplo disso é uma entrevista de 1996 concedida à jornalista Jane Pauley onde Cher é questionada sobre uma declaração dada anteriormente, na qual afirmava que “homem não é uma necessidade“. Sua resposta partiu em defesa da independência financeira, e ela o fez através de uma divertida comparação entre homens e sobremesas.

Jane: “Você disse: ‘Um homem não é uma necessidade. Um homem é uma luxúria’.”
Cher: “Como sobremesa, sim. Um homem não é absolutamente uma necessidade”.
Jane: “Você fala isso para parecer má e ácida?”
Cher: “Não, não mesmo. Eu adoro sobremesa e gosto de homens. Acho que homens são legais. Mas você não precisa deles para viver”.
A cantora finaliza em grande estilo: “Minha mãe me disse: ‘Sabe querida, um dia você vai sossegar e se casar com um homem rico. Eu disse: ‘Mãe, eu sou o homem rico.”

O trecho viralizou nas redes sociais brasileiras em 2016, ao ser repostado pela página Empodere Duas Mulheres, mas essa declaração não é um fato isolado e nem deveria ser vista como surpresa, tendo em vista que no próprio repertório Cher expõe pensamentos afins. Através de letras que retratam amores, medos, superação, autonomia, decepções e esperança, a exemplo de “Women’s World” e “Strong Enough“, o ponto de vista feminino é enaltecido. Para além disso, Cher é defensora da igualdade salarial entre mulheres e homens, bem como a favor da descriminalização do aborto.

Em discurso feito durante a Women’s March de 2018, manifestação feminista que eclodiu nos Estados Unidos em 2017, após a eleição de Donald Trump, Cher foi enfática ao dizer que vivemos “um dos piores momentos de nossa história” quando se trata de  direitos das mulheres. “E é justamente por isso que eu acredito que serão as mulheres as responsáveis por consertar isso”. Num misto de entusiasmo e denúncia completou, “E eu não estou de brincadeira… Se quiser um serviço bem feito, chame uma mulher”.

Cher nunca fez um show no Brasil e quando veio ao país receber um prêmio, confessou nunca ter incluído o país em suas turnês por achar que não teria um público fiel à sua espera. Mesmo assim, o motivo da sua vinda foi mais do que nobre: em 2015 Cher veio como convidada de honra da associação americana amfAR (Fundação para as Pesquisas da AIDS) e recebeu o prêmio Inspiration por seu engajamento na luta pelos direitos da comunidade LGBTQ+ e no combate a AIDS. Ainda que esteja envolvida com outras causas humanitárias, Cher sempre esteve ativamente ligada ao combate à AIDS, tanto em razão do seu público quanto pela morte de pessoas próximas em decorrência da síndrome, quando casos da doença começaram a surgir na década de 80. Além disso, o primeiro filho de Cher com Sonny é trans, Chaz Bono (nascido Chastity), um motivo a mais para o engajamento da cantora com a causa LGBTQ+.

Cher e o filho, Chaz Bono

Quando o assunto é religião, Cher também demonstra ser uma pessoa aberta e sem preconceito. Escolheu o caminho do budismo por se tratar de uma filosofia mais liberal, mais focada na espiritualidade do que na religiosidade.

“Acho um absurdo ter que discutir essas questões ainda hoje quando todos os cidadãos deveriam ter direitos e oportunidades iguais. Homens, mulheres, gays, negros, enfim todo mundo. Falo especificamente do meu país, mas vejo isso acontecendo em toda parte. Hoje mesmo conversava com amigos sobre essa intolerância religiosa monstruosa que estamos presenciando. Meu pai era descendente de armênios e este ano é o centenário do massacre dos armênios pelos turcos. Lembro de meu avô contando para a família essa história e eu querendo saber o porquê de tanta violência. Ele simplesmente me dizia que era uma luta religiosa: turcos muçulmanos de um lado e armênios cristãos do outro. Para mim isso não faz o menor sentido. É apenas uma insanidade do ser humano.”

Com mais de cinquenta anos de carreira, só nos resta enaltecer esse ícone vivo da música pop, exemplo de mulher que não pede passagem para ser ela mesma e que segue fazendo história e participando ativamente para que dias mais igualitários em direitos e deveres sejam construídos. Parabéns, Cher! O mundo já é seu!

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