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O Ano em que Morri em Nova York e o que vem depois da morte

É um fato amplamente reconhecido que, mesmo dentro de um grupo literário já invisibilizado, como é o caso da literatura LGBT, existem subgrupos com maior e menor visibilidade. Nos últimos tempos, a literatura gay vem ganhando cada vez mais corpo, e logo atrás nesse embalo vem a literatura feita por mulheres lésbicas. É nessa ala que se insere O Ano em que Morri em Nova York, romance autobiográfico da jornalista e escritora Milly Lacombe, publicado pela Editora Planeta, que vai ser adaptado para as telas com ninguém menos do que Nanda Costa no papel principal.

O Ano em que Morri em Nova York gira em torno do que sobra quando tudo que parecia compor uma vida acaba. A protagonista da história, uma versão ficcionalizada da própria Milly, é uma mulher de quarenta e poucos anos que vive em Nova York com a companheira de mais de dez anos quando, muito de repente, um punhado de coisas acontece e o relacionamento acaba. Com uma das melhores amigas diagnosticada com câncer de mama e a certeza de que foi traída, a personagem junta suas coisas e volta correndo (ou melhor, voando) para o Brasil, onde o que a espera é em grande medida o mesmo que ela deixou para trás: o nada e vários espaços vazios.

É muito difícil falar sobre algo que nos toca no fundo, e o livro em questão é um exemplo perfeito disso. O subtítulo da obra, “um romance sobre amar a si próprioa” (esse masculino universal tem que morrer), é um resumo perfeito do conteúdo da obra e diz tudo sobre ela, mas ao mesmo tempo diz muito pouco. Com um espírito extremamente similar ao do já clássico Comer, Rezar, Amar, da autora norte-americana Elizabeth Gilbert, as tramas se diferenciam na medida em que a Milly nos leva, primeiro, a assistir sua morte, para só depois nos conduzir pelo seu processo de renascimento em uma versão mais madura, feliz e estável de si mesma.

Esse mergulho na morte emocional e simbólica da protagonista não serve apenas ao fim narrativo de entreter. Muito pelo contrário: essa parte da história é fundamental para construir a empatia com a personagem e tornar mensurável e compreensível todo o sofrimento que vem depois. Só conhecendo seu histórico de emendar relacionamentos uns nos outros, suas perdas passadas e a sua reação a essas perdas, sua personalidade e a estrutura da relação que acaba de terminar, é que temos condições de entender e sentir junto com ela a súbita falta de referência que esse fim trouxe em si. O fim da maioria das relações é doloroso, mas o fim de uma relação de apego excessivo envolvendo a necessidade de validação da nossa existência pela outra pessoa é equivalente a uma morte em muitos níveis. A morte de tudo o que fomos ou achávamos que éramos. A protagonista de O Ano em que Morri em Nova York de fato morre em Nova York, ainda que permaneça viva para voltar ao Brasil.

Capa do livro / Foto da Milly Lacombe

A partir daí, a única coisa que ela pode fazer é se reconstruir a partir do nada, renascer em um parto difícil e solitário. E essa parte da trama começa de forma bem mística em um retiro espiritual no meio da Amazônia, com direito a um momento catártico jogado em nossas caras já nas primeiras páginas do livro, e explorado mais a fundo em momento posterior. Essa cena inicial é muito simbólica, impactante e marca um ponto crucial no processo de cura e redescoberta da personagem, além de apresentar uma simetria muito forte com a cena inicial de Comer, Rezar, Amar, na qual a Elizabeth chora no chão do banheiro logo antes do fim do casamento e do começo da sua jornada.

A protagonista de O Ano em que Morri em Nova York não está, tecnicamente, só. Ela tem família e amigos que a recebem de volta, e faz outros em seu percurso, mas é só quando ela aceita que o caminho para não se sentir só é aprender a estar na própria companhia, a estar consigo mesma, conhecer suas próprias verdades e se bastar que o processo de renascimento se consolida e o sol reaparece no céu. O famoso “amar a si mesma para só assim poder amar outra(s) pessoa(s)” é a premissa fundamental do livro (que eu chamo carinhosamente de “o livro da Milly”, apesar de a autora ter publicado outros). É sobre essa base que o livro se apoia para realizar uma, talvez sutil, desconstrução do ideal do amor romântico, deslocando-o do centro do palco para o canto, um elemento potencial da vida, mas não toda ela. É também de forma sutil que o livro rompe e questiona a ideia da monogamia e a idealização do amor e do ser amado que coloca sobre pessoas e relações o fardo tão pesado de suprir todas as necessidades de uma pessoa.

Nós, mulheres, somos condicionadas a vida toda a buscar nossa realização em um relacionamento romântico, e é indo contra essa imposição que histórias de autodescoberta e autoamor como a de O Ano em que Morri em Nova York assumem toda a sua importância. Se em relações heterossexuais a socialização feminina se manifesta na forma de dependência emocional muitas vezes unilateral, em relações entre mulheres isso com frequência se apresenta na forma de uma codependência profunda, também muito danosa e potencialmente tóxica para todas as envolvidas, ainda que de forma não intencional e inconsciente. Essa questão se mostra de forma muito clara nesse livro em vários aspectos, a começar pela relação entre a protagonista e Tereza, a companheira, que é em muitos sentidos cheia de conexão e amor genuíno, mas também de dependência mútua, que se apresenta com mais força pelo lado da narradora-personagem, que está em uma cidade estranha tendo poucas pessoas próximas além da Tereza, enquanto esta tem um trabalho fora de casa e um círculo de colegas e amigos maior por perto.

Apesar do tema central forte e constante, o livro traz também diversas passagens mais amplas da vida da protagonista, desde sua relação com os pais até questões profissionais, sempre de forma leve que transforma até situações tensas e tristes em passagens tragicômicas. O Ano em que Morri em Nova York se sai muito bem em conciliar profundidade e leveza, transitando facilmente por diversas emoções que tornam a experiência de leitura tão rica e tão prazerosa. É uma ótima leitura para se sentir compreendida e acolhida em momentos de término de relacionamento, mas também é uma leitura fantástica em qualquer situação.

Informações de publicação de O ano em que morri em Nova York - 4,5 estrelas


* A arte em destaque é de autoria da editora Paloma Engelke.

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