Categorias: CINEMA, LITERATURA

Os limites de ser uma Garota, Interrompida

Em 1967, Susanna Kaysen entrou num táxi rumo ao hospital psiquiátrico McLean, em Massachusetts, nos Estados Unidos. Seu psiquiatra disse que seria uma estadia de apenas de alguns dias, mas ela ficou internada por dezoito meses. O diagnóstico? Transtorno de Personalidade Borderline. Em 1993, ela publicou um livro de memórias sobre o tempo que passou na clínica, intitulado Garota, Interrompida, em referência ao quadro de Johannes Vermeer, Garota Interrompida em Sua Música. Em 1999, o livro foi adaptado para o cinema com direção e roteiro de James Mangold, e Winona Ryder interpretando Susanna. Em 2014, li o livro pela primeira vez. Em 2018, assisti ao filme pela primeira vez. E agora, estou pensando sobre a história de uma maneira que jamais tinha feito antes, porque trata-se de um ponto muito sensível.

Aviso de gatilho: este texto contém linguagem de suicídio e automutilação.

Não faz muito tempo que uma parcela da sociedade percebeu a necessidade de abrir e ampliar um espaço seguro para falar sobre e combater os estigmas a respeito de suicídio e transtornos psicológicos, então imagine como deve ter sido tomar a decisão de se expor desse modo para o mundo, por meio de uma autobiografia, há mais de meio século, quando qualquer traço de inconformidade na saúde mental era sinônimo de ser escondida debaixo dos lençóis, ter-se declarada como louca de uma maneira pejorativa e quiçá ser confinada a um lugar especializado em pessoas como você. Pode não parecer, mas as mudanças que tivemos nesse campo de lá para cá apontam um avanço notável nos estudos sobre a psique e a predisposição para considerarmos a psicologia uma área de importância fundamental. Não é à toa que a impressão que tive ao ler os registros de Susanna pela primeira vez era que seus relatos pareciam distantes demais, ainda que numa tentativa de ser intimista ao abordar fragmentos de um período da vida da autora em que sua percepção sobre si era tão conturbada. Somente hoje paro para pensar nos motivos, nas dificuldades, e na jornada dela até ter coragem para transformar um período tão marcante em palavras, e me pego pensando se seria capaz de fazer o mesmo, colocando-me naquela época e contexto.

Garota, Interrompida
A verdadeira Susanna Kaysen, 2014.

Vinte e cinco anos se passaram desde a internação de Susanna até a publicação das memórias Garota, Interrompida. Ela dá início às suas reminiscências no momento em que entra no táxi que a levaria para o Hospital Psiquiátrico McLean, em Massachusetts, saída direto da consulta com seu psiquiatra — a primeira consulta que teve após sua tentativa de suicídio por ingestão de aspirinas com vodca. O médico, que ela acabara de conhecer, chamou o táxi após uma análise de supostas três horas, com instruções expressas para que o motorista não fizesse paradas no caminho. Susanna foi persuadida a obedecer suas ordens, acreditando que estava indo para lá apenas para descansar por algumas semanas, sem saber que as semanas se transformariam em meses — porém meses transformadores, para o bem ou para o mal. Então somos apresentados às outras internas da ala feminina: Georgina foi engolida pela escuridão de uma hora para outra; Lisa, segundo ela mesma, era sociopata; Polly, por um motivo desconhecido, ateara fogo em si antes de ter idade para dirigir; e Daisy, uma paciente sazonal, era viciada em laxantes e frango, e implicitamente abusada pelo pai.

Ao contrário do que aparenta, se você tiver em mente o filme de 1999, essas quatro garotas não compartilham o protagonismo com Susanna, sequer atuam como personagens secundárias — nem mesmo Lisa, interpretada no longa por Angelina Jolie, que ganhou destaque no roteiro por sua personalidade sem freios e a amizade poética. Elas são pessoas cujos caminhos se cruzam na clínica que se unem pela convivência e pela empatia que tinham umas com as outras no entendimento, e até alguma extensão, de como foram parar ali.

Quando Susanna não escreve sobre si, sobre acontecimentos isolados sobre seu processo de terapia, fragmentos do antes e do depois, elucidações sobre sintomas e estigmas sociais, ela está atuando como observadora de suas colegas, o que ajuda a olhar de certa forma o que acontece consigo. Polly é uma das que mais lhe chama a atenção, pois o atentado que cometeu contra si quando ainda era adolescente é uma das formas mais doloridas de autodestruição, e o motivo que a levou a tomar tal decisão é uma eterna incógnita. Mas o que fica é o questionamento e o simbolismo das cicatrizes físicas que ficam marcadas na pele para sempre quando as cicatrizes emocionais são demais para suportar.

Algumas partes do texto são particularmente difíceis de ler pela crueza como foram escritas, em especial aquelas em que ela fala sobre o suicídio de uma de suas colegas, da própria tentativa de suicídio e o estigma que ela enfrentou durante e depois do período de internação, porque aqueles quase dois anos estariam marcados para sempre em sua vida. Mesmo que pareça existir um salto entre os capítulos, eles são diacrônicos no que diz respeito à evolução do tratamento de Susanna, com todas suas impressões sobre seu transtorno e sua relação com o mundo. Garota, Interrompida é um livro breve, desses que dá para ler em um único dia, e tem um formato interessante por incluir cópias de suas fichas e relatórios médicos, reunidos numa espécie de dossiê. Desde o começo sabemos por que Susanna foi internada, mas ela não partilhou dessas informações em detalhes até solicitá-las por meio de um advogado anos depois e fazer uma pesquisa por conta própria. E, em muitos casos, é natural que o médico prefira não discutir esses detalhes com o paciente para que isso não interfira no tratamento. Alguns diagnósticos são mais difíceis de encarar do que outros. Algumas pessoas são mais propensas a se autossabotar do que outras. Pelo menos, é o que eu acho.

Garota, Interrompida
Winona como Susanna, no filme homônimo de 1999

Em linhas gerais, diz-se que o Transtorno de Personalidade Borderline se trata de um “transtorno mental caracterizado por humor, comportamentos e relacionamentos instáveis”, mas segue uma longa lista de subtópicos discursivos em sintomas, causas e tratamentos, de acordo com o Manual de Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais. Com mais detalhes, as pessoas que têm esse transtorno de personalidade apresentam uma “acentuada e persistente disfunção de identidade, manifestada por meio de incertezas quanto a diversos aspectos da vida” e com frequência suas relações interpessoais são “instáveis e intensas e podem se caracterizar por uma alternância entre os extremos da superidealização e da desvalorização”, o que quer dizer a pessoa com esse transtorno pode enxergar pessoas próximas com extrema afetividade ou profundo desprezo dependendo das ações perante ela, muitas vezes podendo tornar-se cíclica. Outros sintomas incluem as atitudes impulsivas como sexo de risco, imprudência ao volante, abuso de substâncias e transtornos alimentares. A automutilação e as tendências suicidas também são comuns no transtorno, e frequentemente não são praticadas com a intenção de tirar a própria vida, mas para aliviar sentimentos angustiantes em meio a crises. A incidência do Transtorno de Personalidade Borderline é mais comum em mulheres.

Tendo esses dados em mãos, no capítulo intitulado “Meu Diagnóstico” Susanna afirma ou refuta os dados de acordo com seu caso. Existe uma resistência rebelde de sua parte quanto a alguns critérios que são determinados sintomas, uma vez que, em sua cabeça, seu comportamento não deveria ser justificado como uma disfunção. Por outro lado, também é muito provável que haja ressentimentos pelo tempo que esteve confinada, e com a dificuldade que teve com a readaptação social. A clínica era um local onde janelas tinham grades, as refeições eram feitas com talheres de plástico, e as saídas sempre contavam com um ou dois pacientes por enfermeira. Dentro dessa bolha, elas enxergavam com nitidez a maneira como eram vistas pelas pessoas do outro lado da sociedade: como loucas, possivelmente contagiosas ou alvos de um interesse invasivo sobre a experiência no hospício; um meio de os outros se certificarem de que não eram loucos também.

“Eu buscava explicações para minha situação. Minha situação era um sofrimento que ninguém percebia, que eu mesma tinha dificuldade em perceber. Era o que eu me dizia sem parar: ‘Você está sofrendo’. Essa era a única maneira de entrar em contato comigo mesma (neutralizar os sentimentos de ‘embotamento’). Eu demonstrava, de forma explícita e irrefutável, uma situação interna.”

Garota, Interrompida, reúne os lados mais extremos dos transtornos mentais, todos reunidos nessa clínica onde garotas ficam reclusas, enfrentando seus fantasmas e sendo constantemente observadas e privadas de qualquer coisa que possa oferecer risco para elas. Mas a verdade é que hoje em dia a incidência de muitos transtornos são relativamente comuns e existem formas menos drásticas de tratamento e táticas de enfrentamento que podem ser trabalhadas em um consultório. No fim, o prontuário de Susanna diz que ela estava recuperada, e ela saiu de McLean com um casamento em vista, apta a procurar um emprego, e escrever — algo que sempre pretendera fazer, mesmo antes de ser internada.

Diagnósticos são importantes, mas não te definem. Para a área da psiquiatria, nomear o que não sabemos (ou não queremos) nomear é o norte para dar o primeiro passo no processo de recuperação, mas o autoconhecimento e o exercício do controle são fundamentais. Antes de rotular os outros, ou a nós, como loucos em seu sentido pejorativo ou como uma potencial ameaça à sociedade, precisamos dar um passo atrás e lembrar que estamos numa época em que uma boa parcela da sociedade está mentalmente doente e o meio de prevenir que as estatísticas aumentem é tratá-la com empatia e encorajamento, trabalhando para derrubar estigmas e apontando maneiras para que todas as pessoas recebam um tratamento justo para o que sofrem. O filme, com seu objetivo de contar uma história cinematográfica, preenche as lacunas do livro com muita liberdade, inserindo significado onde antes não existia e criando algumas distorções sobre a realidade de garotas assombradas pelas suas próprias mentes tanto quanto tenta usar o meio para informar sobre transtornos mentais e passar uma mensagem sobre eles. A realidade transposta para a ficção pode facilmente nos fazer distorcer noções importantes sobre ela; a disseminação de informações e o desserviço é separada por uma linha muito tênue na indústria do entretenimento.

A pessoa que sofre com Transtorno de Personalidade Borderline pode ser difícil no trato com os outros em virtude do seu medo de rejeição e dos comportamentos instáveis; contudo, é uma garantia que o trato que ela tem consigo mesma é mais complexo e doloroso pela noção de que suas reações ultrapassam a fronteira do que seria considerado normal. Os limites de ser uma garota interrompida são como os fios de teia de aranha: eles se cruzam para formar uma armadilha, se rompem com muita facilidade, mas em terceira e mais primordial função esses fios são feitos para formar a casa que a natureza concedeu a essa aranha.


** A arte em destaque é de autoria da editora Ana Luíza. Para ver mais, clique aqui!

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3 comentários

  1. Olá, Yuu, muito seu texto. Acho que captou bem a essência do filme, fez com que a leitura fosse interessante e suave, apesar de apontar perfeitamente os erros e acertos da obra. Parabéns, continue assim. Gostaria de ler mais sobre o tema com sua escrita.

  2. A protagonista sofreu uma violência psiquiátrica e institucional da qual muito pouco se fala. Vale lembrar da reforma psiquiátrica, que atingiu muitos países no século passado incluindo o Brasil e ressignificou o sofrimento psíquico (por não se tratar de anatomopatologia, não se chama sofrimento psíquico de doença, e o uso da nomenclatura transtorno mental também tem sido diminuído). A reabilitação psicossocial é multiprofissional e não pode ser feita dentro de um hospital psiquiátrico, e dificilmente em apenas um consultório. Mais do que a valorização da psicologia, foi a reforma psiquiátrica criada por diversos profissionais de saúde mental, incluindo enfermeiras e terapeutas ocupacionais, que impulsionou a reflexão, reafirmação e restituição dos direitos da pessoa em sofrimento psíquico e a transformação dos tratamentos e reabilitações para participação social e autonomia em vez de confinamento, privações ocupacionais e violências disfarçadas de cuidado. Entretanto, obviamente, ainda há muito o que fazer.