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Everything Sucks!, um reinado nos anos 90

Com ar de comédia e estilo coming-of-age, Everything Sucks! é a nova série da Netflix, criada por Ben York Jones e Michael Mohan e lançada no último dia 16 pela plataforma de streaming. Assistindo ao trailer, sentimos que Everything Sucks! promete ocupar o vazio que Stranger Things deixa até a estreia de sua terceira temporada – não em razão do Mundo Invertido, das experiências esquisitas e da luta contra o mal presentes na sua irmã mais velha, mas por seu elenco majoritariamente adolescente, sua nostalgia declarada (agora nos anos 90), e a beleza e o horror que é ser jovem e se apaixonar.

Atenção: o texto contém spoilers!

Ambientada na cidade não fictícia (!) de Boring, Oregon, Everything Sucks! conta a história de Luke O’Neil (Jahi Di’Allo Winston), um calouro no ensino médio que, junto a seus amigos Tyler (Quinn Liebling) e McQuaid (Rio Mangini), tenta encontrar o seu lugar na escola. Apaixonados por audiovisual, os três amigos decidem entrar para o “Clube do Vídeo”, responsável pelo programa de notícias da Boring High School. Lá, de primeira e sem delongas, Luke se encanta por Kate Messner (Peyton Kennedy), a filha do diretor. Quase ao mesmo tempo, o viúvo diretor Ken Messner (Patch Darragh) demonstra um interesse – recíproco – por Sherry O’Neil (Claudine Mboligikpelani Nako), mãe de Luke que foi abandonada pelo marido. Muita coincidência e bad timing, mas a gente deixa passar.

Nos primeiros episódios, a série nos apresenta esses e alguns outros personagens, como Oliver Schermerhorn (Elijah Stevenson), ator do Clube de Teatro ao estilo bad boy que quer fugir para Nova Iorque, e Emaline Addario (Sydney Sweeney), namorada de Oliver, também atriz do Clube de Teatro e personificação da trope de loira malvada já muito conhecida; e é no decorrer de um desses episódios iniciais que assistimos a um embate no vestiário feminino: Emaline acusa Kate de pegar em seus peitos, o que culmina em boatos sobre a sexualidade de Kate, além de uma pichação clássica em seu armário escolar em que escrevem “dyke” (“sapatão”). Para abafar os rumores, Kate aceita sair com Luke, que fez um pedido piegas, mas de bom coração, embalado ao som de Oasis. A partir daí, começa a saga de um Luke apaixonado tentando se aproximar de Kate, ao mesmo tempo em que Kate, desconfortável com a situação, tenta evitar a aproximação do garoto.

Certo dia, passeando pelo auditório da escola, Luke, que já clamou seu lugar de namorado (da maneira bonitinha e fácil que são os relacionamentos dos jovens), tenta beijar Kate, mas ela aciona o alarme de incêndio para evitar que ele tenha sucesso. O resultado é um só: os dois saem correndo, o auditório é destruído junto com todo o cenário do Clube de Teatro, e a bagunça está feita. O Clube de Teatro declara guerra ao Clube do Vídeo; há ameaças, trotes, e brincadeiras de mau gosto no melhor estilo dos filmes de ensino médio. Luke, Tyler, McQuaid e Kate precisam, então, bolar um plano para que nada de mal ocorra, ninguém morra e tudo fique bem, motivo pelo qual Luke sugere que os dois clubes unam forças e façam um filme de ficção científica e romance sobre alienígenas e humanos – “eternizar algo é melhor do que assistir por uma única noite” é o argumento utilizado por Luke. A proposta é aceita e, daí para frente, a série começa a entrar nos trilhos.

Dividida em 10 episódios de 25 minutos cada, Everything Sucks! toma força na segunda metade. A aproximação dos dois clubes acrescenta mais à trama do que a birra entre eles. Passamos a conhecer um pouco melhor, e mais de perto, os personagens introduzidos de forma lenta até então. A maioria deles ainda é muito caricata e a atuação de muitos não convence, mas a relação que é construída entre certos personagens faz com que os defeitos sejam postos de lado. É o caso, por exemplo, de Luke e Kate: ainda na primeira metade da série, os dois clubes decidem brincar de “Sete Minutos no Paraíso”, e Luke dá o seu jeito para ficar a sós com Kate. Os dois trocam o tão aguardado beijo e Kate revela, de forma assustada, “que acha que é lésbica”. Ambos decidem pesquisar sobre sexualidade, ler livros sobre o assunto, e em um desses livros Luke até encontra um teste para ajudar Kate, em que o resultado marca “homossexual com tendências heterossexuais”.

Agarrado a isso, Luke sugere que eles continuem juntos, algo que deixaria a vida dos dois supostamente mais fáceis – ele, porque gosta da companhia da jovem; ela, porque não sabe muito bem o que fazer. No mesmo dia, Kate e Emaline – agora mais acessível – vão às compras para o figurino do filme. Há um momento de ternura entre as moças, com Emaline elogiando Kate e fazendo-a comprar um vestido bonito. A filha do diretor sai de lá deveras impactada. Mais tarde, Kate é presenteada por Luke com ingressos para um show, em uma cidade próxima, da cantora Tori Amos, por quem Kate é apaixonada. Lá, os dois discutem depois que Kate percebe que há um lugar para ela, uma estranha de carteirinha (“freak”, como ela diria), no mundo, e que Luke e Kate, juntos, é algo que jamais vai acontecer. Nem tudo são flores, mas enquanto os adolescentes brigam e se distanciam, seus pais se aproximam e passam a agir como adolescentes. A relação dos adultos floresce, e é impossível não achar tudo muito bonito, adorável e doce. O sorriso no rosto do espectador é inevitável.

Buscando o perdão de Luke, Kate resolve um perrengue do filme e consegue uma permissão para que todo o elenco e produção viajem para a Califórnia a fim de gravar uma cena. Eles vão, mas Oliver é deixado para trás: ele finalmente fugiu para Nova Iorque, deixando sua namorada sem resposta e o tão aguardado filme da Boring High sem protagonista. Para dar um jeito, alguns ajustes são feitos e McQuaid toma o lugar de Oliver – feliz da vida, pois ele terá a chance de beijar Emaline, por quem, de forma inusitada, passou a gostar. Acontece que Emaline, ao que tudo indica, não sente por McQuaid o que parece sentir por Kate. As moças trocam uma conversa íntima no quarto de noite e por questão de segundos não se beijam. Nada, porém, dá certo para ninguém. Durante a viagem ocorre todo o tipo de desencontro entre os personagens – o maior “quem eu quero, não me quer”, que, na cabeça deles, é óbvio. Kate decide levar Luke para conversar com o pai que o abandonou, o pai não reconhece o filho, Luke fica magoado com Kate. Emaline acredita que Kate quer Luke, e dá um fora em McQuaid. McQuaid, irritado, manda o amigo Tyler catar coquinho, que, por sua vez, triste, manda Leslie (Abi Brittle), também do Clube Audiovisual, para longe. O retorno a Boring é pesado e quieto.

Irritado mais uma vez, Luke retorna à casa e descobre que sua mãe e o diretor estão juntos, o que serve para colocar ainda mais lenha na fogueira de um adolescente já de mau humor. Tudo vai por água abaixo no relacionamento dos adultos, o que deixa Kate magoada, pois, pela primeira vez em dez anos, ela vê seu pai feliz, ainda que não saiba de quem se trata. Kate deixa tudo em pratos limpos quando conta a Luke que, dez anos atrás, sua mãe cometeu suicídio. É uma das cenas mais emocionais da primeira temporada, que mexe bem com o espectador.

Os episódios finais acabam sendo reservados para edição e exibição do filme. Luke, como diretor, decide de última hora modificar algumas cenas para declarar sua amizade a Kate, tanto quanto para reaproximar Sherry e o diretor Messner. Além disso, o melhor arco da série – o que envolve Kate e Emaline – também tem seu ápice quando as duas meninas trocam um primeiro beijo cheio de significado, importância, e que dá a Kate uma sensação de resolução muito grande, que fica estampado na cara da moça e faz com que nós, aqui de fora, sintamos o coração quentinho.

A trama de Everything Sucks! soa muito como a maioria dos filmes de ensino médio que conhecemos. Há o grupo que cria problema, o grupo dos excluídos que tentam se enturmar, e também um ou dois adultos que servem para quebrar o fluxo do drama adolescente. De pano de fundo, há algum clube que os une ou os distancia – às vezes, é o jornal e o esporte, a dança e clube de xadrez, mas, aqui, é ocupado pelos clubes de vídeo e teatro. Além disso, como bom entretenimento feito com adolescentes, eles, ou boa parte deles, também querem transgredir: eles bebem, tentam chapar. Beijam, falam de sexo, e aquela parafernália toda que nós já conhecemos porque também já vivemos. Até aí, tudo normal.

O que difere Everything Sucks! de outras comédias coming-of-age é, sem dúvidas, o foco dado à Kate e a descoberta de sua sexualidade. Entre os dilemas da personagem, é admirável a forma como decide lidar com eles (sozinha, com pouco acesso à informação, em uma realidade menos moderna que a nossa e consequentemente mais difícil, uma vez que no auge da aprovação da Defense of Marriage Act, que definia como casamento a união entre homem e mulher, permitindo que os estados dos EUA não reconhecessem a união entre duas pessoas do mesmo sexo). São poucas as séries e filmes que falam sobre homossexualidade por si só, menos ainda quando se tratam de adolescentes, a homossexualidade feminina, então, sofre ainda mais. Assistir à Kate, de maneira ambientada em décadas passadas, é reconfortante. Com dificuldade algo do gênero seria produzido naquela época, mas é muito respeitável e admirável poder assistir uma jovem descobrir a si mesma.

A jornada de Kate é sensível, definitivamente um dos grandes trunfos de Everything Sucks!, e pavimenta bem um caminho promissor para a próxima temporada. Além de Kate, é preciso estender as congratulações ao Luke e à jornada emocional entre ele e seu pai ausente. Por meio de fitas cassetes, Luke vislumbrou facetas do pai que nunca veio a conhecer. O encontro dos dois foi desastroso, mas culminou num cliffhanger que pede outra temporada: o retorno do pai para Boring, bem quando as duas famílias, O’Neil e Messner, estão juntos e mais felizes. O plot entre Luke e o pai não carrega o mesmo impacto emocional que o arco de Kate, mas cumpre bem seu papel. É inegável que são esses quatro personagens – Sherry, Luke, Kate e Ken – os responsáveis por tudo o que há de melhor na série, bem como são os mais íntegros quando se trata de atuação – Jahi e Peyton entregam um trabalho visivelmente superior aos seus colegas de cena.

Junto a isso, a série despeja, de maneira pouco sutil, um conteúdo nostálgico muito grande em cima do espectador. Talvez para conquistar ou arrebatar quem assiste, é mirando nos viventes dos anos 90 que Everything Sucks! se sustenta, ao menos inicialmente. Alanis Morissette, Tori Amos, Oasis, Offspring, Forrest Gump, calças de cintura alta, eletrônicos transparentes, “the net” e o início da internet, o medo dos novos filmes do Star Wars, etc. Está tudo ali, em doses pouco homeopáticas. É divertido, porém por vezes tenta um pouco demais criar uma atmosfera mais baseada em cultura pop datada do que na história em si, o que, no fim, torna-se perdoável, pois a série acaba encontrando seu ritmo e tudo se torna uma experiência leve e querida.

Everything Sucks! pode não conquistar seu público desde o seu episódio piloto (talvez o menos interessante da série), e definitivamente começa sua jornada aos tropeços. Contudo, ela consegue, sem muito pesar, definir bem o seu tom e entregar uma história competente, que envolve, encanta e abre muita possibilidade para uma segunda temporada superior. Os episódios finais da temporada deixam o espectador com o coração quentinho, alguns até entre lágrimas, o que facilita a simpatia pela série que tem enredo simples, mas muito, muito bonito e importante. Ficamos no aguardo de uma renovação, para Everything Sucks! continuar aquecendo corações.

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6 comentários

  1. Eu assisti ao primeiro ep e nossa… Achei realmente caricata, e atuações tão fracas que me deixou sem paciência, achei apenas pretensioso.
    Então, pela Kate eu fiquei “ora bolas de repente melhora”, daí vi o segundo ep. mas não tenho certeza se vou continuar, ainda não convenceu :/

    1. Eu achei a mesma coisa no começo! As atuações fracas, não convenceram muito. Aí foi melhorando no decorrer dos episódios. A segunda metade da temporada é bem superior!

  2. Eu assisti tudo bem rapidinho, porque adoro essas séries da Netflix que são mais rápidas e tem 10 eps (tipo Atypical). Com certeza a melhor parte da série é a descoberta da Kate sobre sua sexualidade e sua jornada, assim como a amizade dela com a Emeline. Foram as partes que mais me conquistaram!