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O booktube e a retomada da leitura na era digital

“Os livros são a prova de que seres humanos são capazes de exercer a magia no mundo.” Essa frase foi dita por Carl Sagan, um dos maiores astrofísicos e cientistas do século XX, cujo processo científico andava lado a lado com a cultura pop. Fazendo a ciência acessível por meio de programas de TV, livros com o vocabulário mais direito, e até mesmo poesia, Sagan entendia a importância do saber ser aliado da arte. Nesse contexto, a literatura sempre foi um elo direto entre o fazer artístico e o conhecimento, um verdadeiro objeto cultural que une o melhor dos dois mundos, nos entretendo da mesma maneira que nos faz pensar, seja sobre o universo, seja sobre nós mesmos.

A última década, contudo, trouxe um certo afastamento entre o público e os livros, em sua maioria o público jovem, em parte graças à difusão massiva do conteúdo visual, por vezes mais palatável, mais fácil de ser consumido do que a palavra escrita. Por muito tempo, também tive que lidar com isso, a substituição de um hobby de infância pela facilidade encontrada nas redes sociais e nos serviços de streaming, que, apesar de não oferecerem algo no mesmo patamar da leitura, também satisfaziam o consumo por novas histórias. Em 2020, com o privilégio de ter períodos prolongados de liberdade e quase nada a fazer, a leitura tornou-se novamente atraente, um passatempo antigo com o qual eu podia contar para me alegrar e acalmar em tempos turbulentos. Essa guinada pessoal, porém, só ocorreu graças a um buraco de minhoca com o qual me deparei um certo dia no YouTube: o booktube estadunidense.

Tsundoku é uma gíria que vem do japonês, e significa, literalmente, “o ato de comprar livros mas não lê-los, deixando que se amontoem na estante”. Por muitos anos, essa foi minha realidade: uma pilha cada vez maior de livros físicos na escrivaninha e ePUBs no celular sem nenhuma perspectiva de serem lidos, coletando poeira e sendo trocados por conteúdos que ofereciam uma gratificação mais instantânea, geralmente encontrados na Netflix ou em outras redes sociais. A ideia de substituir a leitura, atividade naturalmente mais longa, pelo ato de consumir narrativas de forma mais rápida por meio de séries e filmes, pode até ter parecido preocupante para mim num primeiro momento, mas a prática é tão envolvente que logo esquecemos qualquer angústia. A substituição não é exatamente equivalente, mas muito daquilo presente em livros também aparece nos conteúdos audiovisuais: personagens identificáveis, jornadas por respostas, conflitos, romances e sentimentos. A sensação que fica é que livros e TV até podem ser correspondentes, ainda que a gente saiba que não são.

Essa transição mais ou menos consciente para longe da palavra escrita continuou de forma crescente no nosso universo.  Com o passar do tempo, o conteúdo audiovisual passou a tomar ainda mais espaço em nossas vidas, e começamos a consumir mais as mídias do que nunca. Com serviços de streaming, podcasts, redes sociais, sites de notícias e YouTube na palma das nossas mãos a todo o momento, não é nenhuma surpresa que a ascensão das mídias digitais tenha significado o declínio da leitura, principalmente em jovens. O uso prolongado das redes diminui a capacidade de concentração, que é essencial para uma leitura prazerosa, prolongada e atenta, cujo conteúdo nos absorve e nos transporta para um outro mundo. Com tantos estímulos ao nosso redor, onde encontrar tempo, incentivo e perseverança para uma atividade muitas vezes tão quieta, pessoal e exigente quanto a leitura?

Quando as ordens de distanciamento social e isolamento por causa da pandemia chegaram ao Brasil, em março do ano passado, aqueles mais afortunados de poderem trabalhar em casa, sem a preocupação da exposição diária ao vírus e ao perigo do ar fora de sua residência, passaram a encarar esse período como uma maneira de colocar a vida no eixo novamente, apertar o botão reset e mudar a forma de viver. De repente, a ansiedade da vida e da morte estava presente na casa de todas as pessoas do mundo, e se deparar com a fragilidade da existência normalmente nos faz ver as coisas de uma forma diferente. Por todos os lados, listas de livros para ler durante a quarentena começaram a aparecer em todos os sites possíveis, um apelo para que tirássemos esse tempo para construir ou reconstruir um hábito de saudável, com alguns jornalistas participando de desafios como ler todos os livros na estante que nunca haviam tocado, e outros sites satirizando os tipos de leitores que poderiam surgir durante o período de isolamento.

Com o tempo, porém, a insurgência de listas como essas, do tipo que enumera uma série de maneiras para ser mais produtivo durante a pandemia, começou a diminuir. Não demorou para os meios de comunicação em geral perceberem que, ainda que ofereça uma oportunidade de reclusão privilegiada, a pandemia não é o ambiente ideal para cultivar o hábito da leitura, e que ler qualquer livro já bastava, se trouxesse conforto e uma válvula de escape para o leitor. Ainda que seja uma atividade que representa o ápice do distanciamento social, ao ser feita na maioria das vezes na proteção do lar, em silêncio e com pouca ou nenhuma interação entre pessoas, a leitura é quase impossível de ser realizada em condições de tanta ansiedade quanto uma pandemia.

Em entrevista para a Vox, o psicólogo e neurocientista da Universidade de Londres, Oliver J. Robinson, tentou explicar exatamente porquê a pandemia não cria condições favoráveis para a leitura. “Muitas pessoas me disseram que estão tendo problemas para ler ou engajar em outros hobbies que necessitam de concentração, e, aparentemente, essa inabilidade é decorrente da ansiedade sentida durante a pandemia”, ele relatou. “A pandemia é a situação de maior incerteza possível. Não sabemos quando vai acabar, não sabemos se vamos pegar [o vírus]. Não sabemos nem o que é, na verdade. De repente, tudo ao redor é perigoso. Maçanetas são perigosas, outras pessoas são perigosas. É algo completamente fora do nosso controle. [Essa ansiedade] pode afetar a memória de curto-prazo, o que, consequentemente, afeta a concentração.”

Especialmente para aqueles que estão doentes, que têm que trabalhar todos os dias, que estão de luto pela perda de um ente querido, que perderam o emprego durante a pandemia, ou que apenas abrigam, dentro de si, uma tendência à ansiedade, ler parece fora de cogitação. A leitura demanda mais do cérebro do que assistir à TV ou doomscrolling nas redes sociais. Na realidade, não é nenhuma surpresa que a tendência da pandemia é passar mais tempo nas redes sociais, ao invés de se conectar com o mundo real como havia sido falsamente promovido antes. Com medo e solitários, tentamos encontrar nas redes sociais um resquício de normalidade, uma conexão, ainda que ínfima, com pessoas que conhecemos e que amamos, e não é à toa que a pandemia mudou drasticamente a forma que consumimos a internet. Tentamos lembrar como o mundo normal funciona por meio de filmes e séries em que ninguém está usando máscaras o tempo todo,  nos conectamos com amigos e familiares por meio do Zoom e outras plataformas de chamadas de vídeo, acessamos sites de notícias religiosamente como se fosse haver alguma novidade desde que checamos 15 minutos antes, mesmo sabendo que não vai.

De vez em quando, o algoritmo do YouTube me recomendava algum vídeo com temática literária. Por ser um conteúdo que eu não consumia com frequência na plataforma, as indicações ficavam mais pra baixo do feed da página inicial, e, na maioria da vezes, eram compilados de TikToks da comunidade leitora dessa outra rede social, com jovens trajando roupas com aesthetic Dark Academia, um estilo que eu gosto muito e me atraía, me fazendo clicar nesses vídeos às vezes.

Lá para outubro, contudo, o YouTube me recomendou esse vídeo de um canal chamado paperbackdreams, e a thumbnail e o título eram tão cativantes que eu cliquei para assisti-lo imediatamente. O vídeo, de pouco mais de 20 minutos, documenta Kat, a dona do canal, durante uma semana da sua vida, registrando de forma bem caótica e divertida como ela consegue equilibrar os estudos para a faculdade com seu rápido consumo literário (mais tarde, fui descobrir que Kat regularmente lê mais de 100 livros por ano, uma quantidade que sempre me pareceu inalcançável), transformando toda a sua empreitada numa aventura fantástica ao som de diversas músicas clássicas e piadinhas aqui e ali. Toda a estética do canal é bastante millennial e divertida, e até um pouco vitoriana, como um comentário resumiu em outro vídeo, e Kat, com sua personalidade ora ansiosa, ora irônica, tem um charme relatable [relacionável] que é difícil de escapar.

Consumi rapidamente todos os vídeos do paperbackdreams, mergulhando na mitologia coletiva dos vídeos, que frequentemente envolvem participações especiais de Larry e Lauren, pai e irmã de Kat, leitores tão assíduos quanto a própria, além de diversas recomendações de livros de terror e mistério, seus gêneros preferidos. Uma autoproclamada connoisseur [conhecedora] do horror, Kat frequentemente diz que, para ela, o que a maioria acha assustador é fichinha, e quanto mais explícitos e cheios de gore, melhor são os livros. Até eu, que não consumo nada de terror, me vi adicionando alguns títulos recomendados por ela à minha lista, simplesmente porque o entusiasmo e o prazer com que ela fala sobre esses livros ultrapassam a barreira da tela. Enquanto assistia aos vídeos de Kat, percebi uma centelha similar em mim mesma, e de repente eu não queria mais só assistir aos seus vlogs de leitura, suas listas mensais de livros lidos ou suas recomendações que variavam de thrillers pesados à romances açucarados; eu precisava ler também.

O canal da Kat foi a minha porta de entrada para o mundo literário do YouTube, o booktube. Depois que consumi todo o seu conteúdo, outros canais começaram a aparecer em meus recomendados, e descobri youtubers cada vez mais engraçados e mais diversos, cuja filosofia era falar abertamente sobre livros, sobre suas preferências pessoais, seus processos de leitura, e as coisas positivas e as dificuldades que vem com ser um jovem-adulto falando sobre livros na internet. Esses youtubers, que não só se conhecem mas se referenciam o tempo todo nos vídeos, constantemente recomendando livros uns aos outros, foram preenchendo meus dias cada vez mais solitários, e aumentando consideravelmente minha lista de livros.

Passei a acompanhar alguns youtubers regularmente, comemorando a cada vídeo novo postado e criando minha própria comunidade, baseada nos criadores mais interessantes pra mim. Uma delas é a Cindy, que faz rant-reviews hilários dos péssimos livros que acabam viralizando na comunidade, mas que também oferece uma perspectiva importante como mulher asiática abandonando narrativas centradas em pessoas brancas para ler livros de minorias. Outra é a Noelle, fascinada por livros do Stephen King ao ponto de basear sua tese de mestrado no autor, e que defende o fim do estigma acerca dos leitores de livros de romance. Tem também aAriel, cujo conteúdo varia entre o booktube e o lifestyle, mas que também tem a leitura mais diversa entre todos os youtubers que já assisti, lendo livros por vezes desconhecidos e fora da bolha inevitável dos canais. Alguns outros que acompanho fervorosamente são o Joel, com sua leitura predominantemente de fantasia e autores negros do Reino Unido; a Chanelle, fã fervorosa de mangás que sempre tem indicações perfeitas de gêneros literários pouco conhecidos; o Ellias, cujo conteúdo mais aesthetic também é voltado para o gênero fantasia, assim como para livros escritos por autores vietnamitas e/ou gays; e o Cliff, cujo canal é mais “cult”, com livros adultos e mais underground, se afastando da estética jovem-adulta.

Consumir o conteúdo desses youtubers e estar imersa em suas comunidades online foi o que me fez voltar a ler, uma leitura por prazer que tem pouca relação com a que eu praticava antes, quase por obrigação. As indicações dos booktubers acima despertaram a minha curiosidade, e me vi lendo nos últimos seis meses livros que talvez não fosse conhecer se não fosse por esses canais. É irônico dizer que o que me motivou a ler outra vez foi a influência de criadores de conteúdo online, mas é verdade, e, além disso, esses youtubers me apresentaram livros mais diversificados, tanto em questão de gêneros literários quanto em questão de vozes.

Que a indústria literária é predominantemente branca, cis e hétero não é novidade pra ninguém: basta olhar para as listas de livros mais vendidos e para os autores mais populares. Apesar dessa predominância ainda se fazer presente mesmo nos livros lidos pelo booktube, os youtubers acima fazem questão de ter uma lista diversificada de livros e indicações, dedicando semanas do ano para leituras de livros apenas por autores negros, ou apenas por autores asiáticos, ou gays, trazendo perspectivas verdadeiras, próprias e pessoais para o universo literário. Suas indicações também são diversificadas em questão de gênero, e eu, que nunca me identifiquei com livros de fantasia ou de terror, por exemplo, me peguei adicionando tais livros à minha lista, cada vez maior.

O maior benefício do booktube, contudo, é inspirar um senso de comunidade entre aqueles que acompanham os youtubers. A leitura é uma atividade geralmente solitária e silenciosa, e, por isso, é mágico encontrar um lugar onde as pessoas se entusiasmam para falar dos livros que mais gostam, dos que as inspiram, e até mesmo daqueles que elas não gostam tanto assim. Os booktubers frequentemente interagem com sua comunidade nos comentários, e a grande maioria deles participa de clubes do livro coletivos, em que alguns booktubers se juntam em lives para conversar sobre um livro que leram simultaneamente (e encorajaram seus inscritos a ler), ao mesmo tempo que, por meio dos comentários, permitem que os fãs interajam com a leitura em conjunto.

É esse senso coletivo, essa ideia de que os youtubers são como amigos com gostos literários similares e uma paixão sobre o debate acerca da leitura, que incentiva tanto a comunidade do booktube a ler. Ainda que assistir vídeos sobre leitura ao invés de usar esse tempo para ler de fato pareça contraprodutivo, os booktubers encorajam sua audiência a deixar o YouTube de lado e começar a ler a maior quantidade de livros possível, na maior quantidade de gêneros que puderem. Alguns booktubers, por exemplo, usam projetos de maratonas de leitura para engajar seu seguidores. Nessas maratonas, o próprio youtuber, assim como seus inscritos, são encorajados a ler sem parar por 24 horas, ou a fazerem leituras tematizadas, como ler livros inspirados por álbuns da Taylor Swift, pelo enredo de Gilmore Girls, ou ler a maior quantidade de livros do Harry Potter possível em um dia. Além disso, outro conteúdo popular no booktube são os vlogs de leitura, em que os inscritos têm a possibilidade de acompanhar seu youtuber favorito durante uma semana de leitura, recebendo atualizações e críticas dos livros lidos quase em tempo real, mas também podendo dar uma espiadinha no dia a dia do seu criador preferido, aproximando ainda mais a comunidade de seus criadores de conteúdo.

O booktube pode atuar até mesmo de forma educacional, se estabelecendo como uma plataforma de discussão literária e incentivando os leitores a discutir e compartilhar as opiniões sobre os livros em grupo, seja nos comentários do vídeo ou simultaneamente em um livestream. Ao postar um vídeo e compartilhar suas opiniões e análises acerca de um livro, o youtuber recebe um feedback quase imediato, tanto de pessoas que concordam quanto que discordam, ambos os lados podendo acrescentar e expandir acerca dos pontos feitos previamente. O booktube tira as discussões literárias de um ambiente demasiado acadêmico, e trás para uma realidade mais acessível, mais diversa e cujas opiniões não estão presas a um cânone erudito.

Contudo, o booktube também está sujeito a críticas, principalmente no que diz respeito à promoção do consumismo desenfreado. Uma das categorias de vídeos mais populares no booktube são os “hauls”, em que os criadores mostram os livros que compraram nos últimos meses, acumulando, geralmente, uma pilha enorme de livros, atrativas o suficiente para agirem como clickbait nas thumbnails. É simples: quanto mais livros, mais visualizações esses vídeos têm. Na comunidade booktube, existe uma obsessão em ter os livros físicos, quase que imediatamente após sua publicação, e com a capa mais bonita possível. Quando um livro é lançado, a ideia implícita é fica é que se o booktuber não tiver esse livro imediatamente, a relevância da leitura expira, como uma data de validade que não deveria existir.

Essa atitude cria um panorama superficial do ato de ler e obter livros, fabricando um consumismo que simplesmente não é compatível com o leitor normal ou com a audiência dos canais, geralmente adolescentes de classe média ou baixa, que têm nas bibliotecas a principal forma de contato com os livros. Ironicamente, vídeos de “un-haul”, onde os youtubers jogam fora, doam ou fazem sorteio de seus livros físicos, são tão populares quanto os hauls, evidenciando o imediatismo da compra em detrimento da ponderação sobre o que está sendo comprado. A sensação persistente é que a quantidade é mais importante que a qualidade, e a discussão sobre o conteúdo dos livros sempre fica em segundo plano.

Outro ponto principal de crítica ao booktube vem do questionamento acerca da tendência da comunidade em tornar a leitura uma competição. São muito populares vídeos onde o youtuber compartilha todos os livros que leu em um certo período de tempo, os wrap-ups, e tais vídeos se tornam ainda mais virais caso a quantidade lida seja exorbitante. Nos comentários de tais vídeos, é comum ver espectadores compartilhando como a quantidade de livros que leu não se compara ao número lido pelo booktuber em questão (ainda que seja uma quantidade bastante acima da média). Já outros vídeos compartilham técnicas de leitura ou livros menores para ler mais rápido, e, assim, completar os desafios de leitura propostos em plataformas como o Goodreads. Claro, a quantidade de livros lida por alguém no período de um ano é completamente arbitrária, e é injusto querer que um youtuber leia menos ou não compartilhe seus resultados apenas porque sua audiência vai, inevitavelmente, se comparar de uma forma autodepreciativa. Contudo, ao colocar ênfase em tais estatísticas, maximizando a importância de definir ou completar desafios exorbitantes, a comunidade cria uma experiência de leitura que, mais uma vez, se baseia na quantidade, e não na qualidade dos livros lidos. Ariel Bisset, uma das mais famosas booktubers ainda em atividade, em um de seus vídeos sobre o assunto, fez questão de enfatizar que, como leitora há muito tempo, ela encontra mais prazer em reler seus livros antigos e queridos, ou demorar o tempo que for necessário numa leitura para torná-la especial, ao invés de acelerar o processo por estar 20 ou 30 livros atrasada em seu desafio. Outros booktubers nem sequer definem um desafio para si mesmos, ou colocam apenas um livro, para que a atividade da leitura e da compreensão possa ser priorizada ao invés da pressa ou da necessidade de ler mais livros que os companheiros.

Outra crítica pertinente é a falta de diversidade entre os criadores de conteúdo e entre os livros lidos pelo booktube. Um breve passeio dentro da comunidade revela que a maioria dos criadores de conteúdo são brancos, e que criadores de conteúdo negros ou asiáticos são difíceis de encontrar. Eles existem, mas muitos já discutiram como a exposição de criadores não-brancos é bem mais complicada e difícil do que a de criadores brancos. Em 2019, a NayaReadsAndSmiles gravou um vídeo fazendo um relato do porquê, exatamente, criadores de conteúdo negros têm canais com audiências menores e menos inscritos. Nesse vídeo, ela enfatiza a falta de oportunidades dada a booktubers negros. Por conta de um racismo enraizado na indústria literária, aqueles que fazem parte dessa comunidade mantêm um pensamento de que conteúdo feito por pessoas negras não vende, e, por causa disso, criadores de conteúdo negros não têm as mesmas chances que criadores brancos. À criadores de conteúdo negros são oferecidas menos oportunidades de parcerias com editoras, vídeos patrocinados e chances de participar de painéis literários e eventos da comunidade leitora. Como consequência da falta de exposição, tais booktubers acabam por ter menos inscritos e seguidores, e sua audiência, ainda que entusiasmada e pronta para absorver percepções diferenciadas sobre os livros lidos, não é tão grande quanto deveria ser.

“Eu sinto que na comunidade do YouTube, em geral, é difícil para qualquer pessoa não-branca crescer na mesma velocidade ou capacidade do que os nossos colegas brancos. Se você é um criador diversificado, precisa fazer um trabalho nível Beyoncé para conseguir os mesmos inscritos ou as mesmas visualizações [do que os criadores brancos]”, disse KaShawn Archer, dona do canal TheBookArcher, em uma entrevista sobre a visibilidade de criadores de conteúdo negros para o HuffPost. Mais do que isso, outros entrevistados falaram que sentem que os próprios participantes da comunidade booktube não promovem seus colegas não-brancos da forma que deveriam, e que a falta de apoio de booktubers brancos e mais populares afeta diretamente o alcance de canais diversos. Não há um movimento para promover esses criadores de conteúdo, da mesma forma que muitos criadores brancos também não leem livros com protagonistas negros ou escritos por autores negros. Dessa maneira, booktubers não-brancos não têm só que enfrentar o preconceito dos espectadores, um preconceito enraizado na tendência de não assistir a um booktuber que é diferente da ideia pré-determinada de como um youtuber literário deve parecer, mas também tem que lutar pelo reconhecimento entre aqueles com os mesmos interesses, e a mesma paixão pela leitura.

No início da quarentena, quando todos estavam fazendo planos para descansar e colocar em dia suas leituras, eu não conseguia. A ansiedade da incerteza me impossibilitava concentrar num livro, e eu me peguei escapando para entretenimentos em que eu não precisava pensar tanto — em três meses, terminei todas as temporadas de The Office. Eu nunca tive dificuldade pra ler: quando criança, devorava todos os livros que podia encontrar, e tinha uma coleção imensa de gibis da Turma da Mônica. Ao longo do tempo, contudo, a chegada de outras pressões sociais fez com que eu deixasse a leitura de lado, restrita a livros obrigatórios definidos pela escola e um ou outro best-seller. As últimas vezes que li pela alegria da leitura e o prazer de devorar palavras e mundos novos foi em 2015, no auge do Young Adult no Brasil, quando li em rápida sucessão todos os livros distópicos que fizeram sucesso na época, além dos cinco livros da saga Percy Jackson e os Olimpianos e todos os livros do John Green disponíveis. Mesmo assim, a leitura sempre esteve presente na minha vida, e era raro que eu não lesse pelo menos um livro por mês. Mesmo assim, durante aqueles primeiros meses de quarentena, não consegui.

Em um período bastante complicado da nossa relação, encontrar o booktube renovou minha paixão pela leitura, ainda que tenha consciência de suas tendências e falhas. Ultimamente, tenho lido livros numa quantidade e entusiasmo que há muito tempo não tinha, não só porque quero saber o que meus youtubers favoritos acham desse livro (na verdade, eles nem leem os livros que ando lendo), mas sim porque encontrei prazer e conforto nessa atividade outra vez. Agora, sinto uma sensação que não sentia há muito tempo: de que posso me apoiar na leitura, me distrair nela, e que não importa o que está acontecendo ao redor, sei que nos livros irei encontrar consolo, uma válvula de escape, um meio de aprendizado.

Se, antes, eu ficava ansiosa e triste por não ler muitos livros, agora a história mudou. Percebi a quantidade impossível de livros que existem, e essa nova ansiedade vem por saber que não vou conseguir ler todos os livros que existem, e que talvez eu perca a oportunidade de ler narrativas incríveis e que seriam minhas favoritas simplesmente pela falta de tempo. Atualmente, consumo livros três vezes mais rápido que eu costumava, para pelo menos tentar fazer um buraco na enorme camada de livros existentes. Essa ansiedade, contudo, é muito mais controlável, e que eu não deixo que me consuma a ponto de me paralisar: apesar de tudo, reconheço os limites próprios da natureza humana, e me alegro só de ler alguns bons livros todos os meses; além disso, já ando lendo mais livros em PDF ou ePUB do que li em todos os outros momentos da vida, consciente de que nem sempre é possível ter a cópia física. A experiência não é a mesma, mas ler um livro é gratificante mesmo assim.

Com a tentativa de voltar à normalidade que surge com a virada do ano, é de se pensar quais hábitos consolidados ou adquiridos durante esses meses de isolamento vamos manter no mundo pós-pandemia. Talvez cozinharemos mais, mantendo sempre guardada aquela receita de focaccia milagrosa com fermento natural; talvez façamos mais ligações para os nossos pais e amigos, reforçando os laços mesmo em momentos difíceis; talvez encontremos mais oportunidades em nossas agendas atarefadas para escapar para um bom livro, um isolamento agora que não é forçado, mas sim espontâneo, e até mesmo desejado. A pandemia, no auge da nossa saturação pela tecnologia, fez ressurgir hobbies analógicos, desprovidos de qualquer contato com as redes sociais; não só cozinhar e ler, mas também fazer yoga, se exercitar mais, montar quebra-cabeças, pintar e fazer crochê, entre outros. Ainda que, no fim das contas, voltemos às redes sociais para falar sobre esses hobbies, se manter desplugado para o bem das nossas cabeças foi uma das tendências que aconteceu durante a pandemia, cada um com sua atividade de preferência. Pra mim, foi a leitura, e agradeço ao booktube por me dar o empurrãozinho que bastava.

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