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O velho está morrendo, mas o novo pode nascer? A terceira temporada de My Brilliant Friend

Como a maioria dos leitores da Tetralogia Napolitana de Elena Ferrante, aguardo ansiosamente novas temporadas da adaptação feita pela HBO, My Brilliant Friend. Dentro das devidas proporções do audiovisual, que são diferentes das literárias, acredito que a série vem correspondendo às expectativas dos leitores, especialmente ao dar cor e som às paisagens italianas e ao dialeto napolitano.

A terceira temporada foi, no entanto, a que mais aguardei: além do atraso nas gravações devido à pandemia da Covid-19, durante meus cinco anos de leituras e releituras, o terceiro volume foi meu preferido por muito tempo. Isso porque é no terceiro livro da série, História de Quem Foge e de Quem Fica, que o mundo social e histórico da Itália se torna proeminente da narrativa e afeta diretamente a vida dos personagens. Nos volumes anteriores, os acontecimentos históricos servem muito mais como um pano de fundo para a trama que se desenvolvia, essencialmente, no pequeno bairro de origem de Lenu (Margherita Mazzucco) e Lila (Gaia Girace).

Atenção: este texto contém spoilers

My Brilliant Friend

No terceiro volume, retratado nos turbulentos anos 70 na Itália, a crise social e política é narrada com precisão por Lenu: os embates violentos entre comunistas e o fascismo em ascensão, as mulheres que se organizavam politicamente, o movimento estudantil mobilizando as universidades. Se antes Lenu não percebia como acontecimentos históricos podiam afetar seu cotidiano, agora eles passam a invadir sua casa sem pedir licença, como o casal revolucionário Pasquale (Eduardo Scarpetta) e Nádia (Giorgia Gargano) que vão tomar um banho, comer e zombar da nova vida abastada de Lenu em Florença. Além disso, Lenu vê seu marido, Pietro (Matteo Cecchi), ser ameaçado por um aluno armado em sala de aula e seu amigo e ex-namorado, Franco Mari (Bruno Orlando), ser brutalmente espancado pelos fascistas.

Para a direção da temporada, foi escolhido o famoso diretor italiano Daniele Luccheti que consegue captar a atmosfera revolucionária de lutas e reivindicações. Além de Luccheti, há outros nomes importantes do cinema italiano contemporâneo na produção da série, como Paolo Sorrentino. Assistimos à violentas brigas de rua entre fascistas e comunistas, a mobilização universitária, e a uma bela cena entre Lenu e as duas filhas pequenas durante uma manifestação de mulheres.

É nesse momento também que Lenu e Lila são finalmente adultas e responsáveis pelas suas vidas e de suas famílias. Fica evidente a diferença entre a vida das duas: enquanto Lenu está mais para uma Emma Bovary, entediada com seu casamento em sua bela casa em Florença, Lila trabalha de dia em péssimas condições em uma fábrica de embutidos e estuda programação à noite com seu companheiro, Enzo (Giovanni Buselli). É Mariarosa (Giulia Mazzarino), cunhada de Lenu, quem sugere que ela escreva sobre a condição feminina e as origens da vontade dos homens em moldar suas esposas. O que Lenu já sabia por sentir na pele é confirmado com suas leituras: não adiantava casar com um homem rico e culto se ele ainda concordava com a estrutura basilar do patriarcado de que o trabalho doméstico é único e exclusivamente da mulher. É assim que Lenu começa a sair do torpor e fazer malabarismos para conciliar a criação das duas filhas, as tarefas domésticas e a escrita sobre a origem da própria condição que estava vivendo.

My Brilliant Friend

É a partir das reflexões feministas de Lenu que são representados os dois grandes destaques masculinos da temporada: Pietro e Nino (Francesco Serpico). A escalada da relação dos dois é muito bem construída. Após uma breve aparição no primeiro episódio, Nino é convidado para um almoço na casa dos Airota-Greco por Pietro, que pretende fazer uma surpresa para a esposa ao levar seu amigo de infância para almoçar na casa deles. Vários almoços e jantares depois, Nino começa a destratar Pietro, deixando o passivo anfitrião humilhado e confuso. Admito que senti certa pena de Pietro, apesar de todo o seu machismo escancarado, pois a atuação de Matteo Cecchi foi capaz de humanizar um personagem que era apenas sem graça nos livros. (Admito também ter sido possivelmente influenciada pela extrema comoção que a maioria das mulheres do grupo do Facebook, My Brilliant Friends, do qual faço parte, sentiram pelo marido de Lenu.)

Apesar da má digestão de Pietro em sua própria casa, é o almoço na casa de Marcelo Solara (Elvis Esposito) e Elisa Greco (Francesca Montuori) que pode ser eleito como a Melhor Pior Refeição da temporada. Elisa Greco, irmã mais nova de Lenu e agora noiva de um dos Solara, reúne vários desafetos declarados e paixões proibidas desde a infância com um duplo objetivo: celebrar o seu noivado com Marcello e comemorar o aniversário de sua sogra, Manuela Solara, a dona do temido livro vermelho de devedores do bairro. Além disso, acontecem outras revelações no almoço que aumentam o clima constrangedor da cena, como o discurso apaixonado de Michelle Solara (Alessio Gallo) anunciando Lila como funcionária em seu novo empreendimento.

A cena é uma das melhores da adaptação, que mostra intrigas através de ditos e não ditos, de olhares e dos acessos de ciúmes justificados de Gigliola (Rosaria Langellotto) — tudo em um inofensivo almoço. Destaque para Enzo, que transparece a leveza de quem sabe que vale muito mais a pena curtir um bom almoço no final de semana e lavar a roupa suja em casa em outro momento. Pietro também se destaca ao interagir perfeitamente bem com os figurões da máfia e a plebe do bairro de Lenu, que os celebram com deferência como O Casal de Professores. Pietro representa  o que todo mero mortal já passou: a necessidade de ser agradável em um almoço de família que fomos obrigados a comparecer.

No final da temporada, Lenu resolve se colocar em primeiro lugar e fazer o que desejava desde o início: viver com seu primeiro amor de infância. Influenciada pela atmosfera da época, da quebra de paradigmas e reflexões feministas, Lenu toma uma decisão pouco condizente com sua fama de certinha, mas já esperada pelo telespectador ao longo dos episódios. A série termina em um cliffhanger, ou seja, a história é suspensa na importante decisão de Lenu e é preciso esperar a continuação na próxima temporada.

My Brilliant Friend

Uma amiga que só acompanha a série e adorou o final, achou que Lenu finalmente tomou uma atitude após vários episódios de passividade insuportável. Acredito que sua opinião ilustre algo com o qual concordo no texto da pesquisadora Natalia Timerman para o portal Universa sobre a temporada. A escolha da voz em off para a narração de Lenu, que dá acesso aos seus pensamentos e reflexões, acaba tornando a personagens muito mais passiva do que realmente é. Como se ela passasse mais tempo refletindo que de fato vivendo sua vida — ainda que essa seja, também, uma estratégia que já nos familiariza com a voz da atriz Alba Rohrwacher, escalada para viver a versão mais velha da personagem na próxima temporada.

A escolha pela voz em off enfatizada por Timerman deixa uma reflexão sobre adaptações de textos literários para o audiovisual: como representar da melhor forma uma narração tão essencial quanto a de Lenu? Ferrante sempre enfatiza em todas as suas entrevistas que suas narradoras estão narrando suas histórias por escrito. E por mais que o enredo da Tetralogia Napolitana seja cheio de reviravoltas, a questão central de Lenu ainda é a escrita como instrumento para dar forma à vida, que em si mesma não tem sentido algum. Daí surge sua eterna angústia ao lidar com a impossibilidade de escrever exatamente o que se viver e de aprisionar em suas palavras a sua amiga desaparecida.

A terceira temporada de My Brilliant Friend é muito bonita e levanta questões importantes que Ferrante traz em seu enredo construído na turbulenta Itália dos anos 1970. Dentro desse contexto, Luccheti adaptou muito bem o cenário político da época tanto quanto as complexidades das protagonistas, que começam a viver a vida de mulheres adultas, casadas, mães, e com seus respectivos trabalhos. Foi uma bela despedida das duas atrizes, Margherita Mazzucco e Gaia Girace, que representaram tão bem as mulheres dúbias de Ferrante e que serão substituídas por atrizes mais velhas na próxima temporada.

Comecei o texto escrevendo que a terceira temporada de My Brilliant Friend foi a que esperei mais ansiosamente, mas já me corrijo aqui mesmo: a ansiedade para a quarta temporada vai ser maior, pois ela traz consigo o peso da finalização dessa história genial.

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