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Buscando Um Lugar ao Sol aos 50 anos

Existem centenas de novelas protagonizadas por mulheres. Desde o surgimento do gênero telenovela na década de 1950 no Brasil, as protagonistas das tramas televisionadas são majoritariamente mulheres. Tanto que Janete Clair revolucionou a história da teledramaturgia ao escrever uma novela protagonizada por três irmãos homens, e assim expandiu o público do gênero ao inserir figuras masculinas de tanto destaque em Irmãos Coragem (1970). É fácil afirmar que as novelas, durante tantas décadas de história, foram feitas, e por muito ainda o são, pensando num público de espectadores de maioria feminino.

As mocinhas, porém, têm tradicionalmente uma tenra idade entre 20 a 30 e poucos anos, e se arriscam em aventuras amorosas, financeiras e profissionais em busca de sonhos que expressam essa juventude, adicionando a ela um olhar de descoberta do mundo, ao mesmo tempo que se permitem errar e acertar a seu bel prazer. Essas jovens protagonistas tem “o mundo em suas mãos”, histórias de vida inteiras pela frente, e muitas vezes iniciam as novelas em suas primeiras fases jovens demais para, então, nas fases seguintes, arcarem com as consequências de seus atos. Não são tantas as novelas que contam histórias de mulheres com vidas formadas. Manoel Carlos, o cronista do Leblon, é famoso justamente por escrever protagonistas mais maduras, com idades entre 40 e 50 anos.

Muito comparada com Maneco, Lícia Manzo compõe Um Lugar Ao Sol após vir de dois sucessos da faixa das 18h, considerada uma faixa com novelas mais românticas. Sua primeira novela solo, A Vida da Gente (2010) foi protagonizada por duas irmãs jovens, e a segunda, Sete Vidas (2015), divide o protagonismo entre uma moça jovem, Júlia (Isabelle Drummond), e Lígia (Débora Bloch), uma mulher nos seus 40 anos com uma carreira consolidada. Com sua primeira novela na faixa das 21, Lícia, ao invés de colocar uma mulher como protagonista, apostou em Christian (Cauã Reymond), que tem entre 20 e 30 anos dentro da trama. Todavia, o maior destaque de Um Lugar Ao Sol fica mesmo com suas personagens femininas. Não apenas as personagens femininas, mas as com mais de 40.

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Ao nascer no interior de Goiás, Christian foi preterido pelo gêmeo Christopher para ser adotado por uma rica família do Rio de Janeiro. Renomeado Renato (também Reymond), os dois irmãos tiveram vidas opostas: enquanto o segundo teve tudo, Christian cresceu em um abrigo para menores, numa vida classe média baixa. Ao ver a foto do gêmeo na torcida de um jogo de futebol em um jornal, Christian descobre o parentesco e parte para o Rio, arrastando em seguida seu irmão de criação Ravi (Juan Paiva, numa das melhores atuações da novela). Na metrópole ele conhece Lara (Andréia Horta), por quem se apaixona. Numa reviravolta, na mesma noite Christian e Renato se conhecem, Renato morre no lugar de Christian e o gêmeo assume o lugar do irmão rico. Lara, crendo que o amado faleceu, vai morar com sua avó Noca (Marieta Severo) em Minas Gerais.

Agora na pele de Renato, Christian assume a vida do irmão e as relações e relacionamentos que o jovem tinha: Elenice (Ana Beatriz Nogueira), a mãe adotiva sufocante que não o deixa em paz e a namorada vai-e-vem de Renato, Bárbara (Alinne Moraes), que agora é sua namorada. Elas não têm ideia da troca. Com Bárbara vem também sua família: o dono da cadeia de supermercados Redentor, Santiago (Zé de Abreu); a meia irmã mais velha Rebeca (Andréa Beltrão), uma modelo cinquentona em decadência; o marido mal caráter de Rebeca, Túlio (Daniel Dantas); e a irmã mais nova Nicole (Ana Baird), comediante sem sucesso cujo sonho é ser atriz.

Christian perde espaço na trama quando outros núcleos envolvendo Rebeca e Santiago são apresentados: o jovem com quem Rebeca se envolve, Felipe (Gabriel Leone), e a família dele, a avó Ana Virgínia (Regina Braga) e a mãe Júlia (Denise Fraga); a prima de Rebeca, Ilana (Mariana Lima), enredada numa gravidez tardia pelo marido Breno (Marco Rica); e a namorada de Santiago, Érica (Fernanda de Freitas), às voltas com o relacionamento abusivo da irmã Stephany (Renata Gaspar, incrível em cena). Lara, distante de Christian na pele de Renato, acaba por ficar obcecada com o destino do amado, mesmo casada com Matheus (Danton Mello). Ela então parte para o Rio de Janeiro com Noca, abrindo um restaurante na cidade.

Tantas personagens femininas se sobressaem ao drama de Christian, que leva capítulos demais para se sobressair. É Rebeca, com diversos núcleos atrelados a ela, com tramas tão relevantes atualmente, que é alçada a protagonista moral de Um Lugar Ao Sol. Rebeca também faz uma quebra constante da quarta parede durante toda a novela, levando uma cumplicidade ao público, que cria laços com a personagem que não existe com Christian. Apesar de classificado como anti-herói pela autora, Christian não tem o carisma ou o desenvolvimento necessário para responder pelo título quanto outros protagonistas amorais da teledramaturgia nacional como Carlão (Francisco Cuoco) de Pecado Capital (1976) ou Romero Rômulo (Alexandre Nero) de A Regra do Jogo (2015). Um Lugar Ao Sol fica, assim, sendo uma novela de ricas personagens femininas, e cenas referência nesse quesito.

A insegurança de Rebeca

A trama de Rebeca inicia no momento em que ela é desligada de ser a garota propaganda da marca que representava há décadas. Com a demissão vem a dificuldade em encontrar outros trabalhos como modelo, mesmo sendo um nome famoso na área. Rebeca “passou do prazo de validade”, acabou sua “vida útil” na profissão. Ao mesmo tempo, conhece Felipe, namorado da melhor amiga de sua filha. Com o casamento com Tulio por um fio, Rebeca vê em Felipe uma possibilidade de renovação da vida. Por não dar o braço a torcer em encerrar o casamento com Túlio, a única constante do passado que ainda existe em sua vida, Rebeca inicia um caso extraconjugal com Felipe. A “imoralidade” da traição da personagem não existe na trama e não passa pela cabeça do público. O relacionamento entre Rebeca e Felipe é romantizado, justamente pelo “fogo trocado” da traição de Túlio com Ruth (Pathy Dejesus) durante anos. Essa dinâmica da prisão num casamento falido é evidenciada pelo figurino: quando Rebeca está com Túlio, ela usa um colar de corrente, visível e exagerado, chegando a virar uma marca registrada da personagem. Quando começa a se envolver com Felipe, esconde o colar com lenços até parar de usá-lo completamente.

Ao longo da novela Rebeca fica num vai e vem entre o casamento com Túlio e o novo relacionamento com Felipe. Além das mudanças na carreira, no relacionamento com a filha e nos romances, Rebeca ainda lida com o Alzheimer da mãe (Débora Duarte), que a faz mais incerta em suas decisões. Em relação a Túlio, Rebeca tenta ao máximo salvar o casamento, inclusive se humilhando diversas vezes, chegando a ponto de colocar papel no sutiã para aumentar o volume da peça, enquanto Túlio sugere novas experiências sexuais (um swing com outro casal) que continuam essa humilhação ao usar a imagem pública dela como atrativo.

Em meio a tudo, Felipe, jovem, interessante e cheio de novas perspectivas, vem como projeção dos desejos de Rebeca: voltar a ser jovem, a ter atenções voltadas para ela, ser desejada sexualmente. A insegurança que Rebeca tem em não aceitar sua nova realidade faz com que ela se sinta indecisa entre Túlio e Felipe, um passado certo, mas que não serve mais, e um futuro que sabe não ser tão correto para ela, mas uma saída do afogamento do casamento. Ela usa Felipe para se sentir mais jovem, o procurando sempre após uma nova decepção ou briga com a filha.

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Já Felipe projeta em Rebeca uma figura materna mais sólida que a mãe, mas menos rígida que a avó. Felipe é imaturo, jovem, e age com a idade que tem, mas todos os outros personagens buscam nele uma maturidade que seria impossível ter aos 22 anos. Os dois vivem momentos diferentes da vida, Rebeca quer um romance sólido, Felipe quer viajar, conhecer lugares, estudar. Apenas Cecília e Ana veem essa diferença entre os dois, mas expõem suas opiniões de forma tão antagônica que o casal apenas percebe isso depois de muitas idas e vindas, por si mesmos.

O envolvimento com Felipe é um processo pelo qual os dois personagens devem passar para amadurecer. Com Felipe, Rebeca percebe a necessidade de se auto afirmar, e sua insegurança, muito marcada em diversos momentos (como no início da terapia com Ana Virginia em que ela pedia permissão para tudo: sentar, tomar café, até mesmo onde colocar a xícara, etc), vai suavizando aos poucos e culmina em assumir o romance com Felipe para a família no casamento de Érica e Santiago (o que gerou uma discussão sobre com quem mulheres mais velhas podem ou não se relacionar em relação a com quem homens mais velhos podem ou não, numa comparação entre Santiago e Erica e a própria Rebeca e Felipe, referenciando também a personagem de Susana Vieira em Mulheres Apaixonadas).

Cecília e Santiago são contra o relacionamento de Rebeca e Felipe, os dois por motivos diferentes: Santiago demonstra seu machismo em não ver as filhas como pessoas com o mesmo valor que homens, não apenas por não considerar nenhuma delas para sucedê-lo na empresa como em achar absurdo Rebeca se envolver com um moço mais jovem, enquanto se casa com uma garota muito mais jovem do que ele. O relacionamento entre Santiago e Érica teve um desenvolvimento natural que fez com que o público quisesse os dois juntos. Érica, como adulta com problemas de vida de adulto, não tem muitas diferenças de vida ou maturidade em relação a Santiago. E apesar de Rebeca e Felipe terem um relacionamento de projeções, bem diferente do de Érica e Santiago, não havia como o pai saber disso. Já Cecília antagoniza a mãe em todos os momentos possíveis, colocando-a como uma inimiga. A garota também se envolve com um homem mais velho, porém, diferente de Felipe e Rebeca que partilham de interesses em comum, Breno manipula Cecília emocionalmente e ela se torna um escape para o estresse do casamento falido dele, da gravidez complicada e da morte da filha.

Após o término com Felipe e a morte de Túlio, Rebeca se envolve com Edgar (Eduardo Moscovis), o pai de sua filha. Com alguém de sua idade, Rebeca finalmente começa a aceitar o presente, sem viver mais no passado. Ela não sente mais a necessidade de se colocar como mais nova e se incomoda com sugestões que deveria fazer plásticas (o que dialoga com And Just Like That, assim como quando vai em encontros mesmo sem se sentir “pronta”). Os monólogos de Rebeca revelam o deslocamento das mulheres com mais de 50 no mundo atual, que celebra e endeusa a juventude, mas deixa a experiência e maturidade de lado em prol de uma beleza fictícia, fabricada e irreal.

Com Rebeca, Lícia Manzo mostra que mulheres com mais de 50 anos também têm desejos e aspirações. Ao colocar sua personagem (moralmente) principal se masturbando no horário nobre, traz à tona assuntos tabus que deveriam ser mais naturalizados. A história de Rebeca é sobre fazer as pazes com a própria idade, deixar de projetar suas inseguranças nos outros ao seu redor, e finalmente encontrar um balanço com alguém que a entende e tem os mesmos objetivos que ela. Com Edgar, ela finalmente vê na maturidade a felicidade.

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A insegurança é também a característica mais presente nas outras irmãs Assunção, tanto em Bárbara, a do meio, quanto em Nicole, a caçula. Filhas de outra mãe, que cometeu suicídio quando elas ainda eram crianças, Bárbara e Nicole cresceram sem muita atenção paterna. Rebeca, já modelo, também se desloca das irmãs mais novas, que se unem no trauma da negligência de afeto. Bárbara se agarra em toda e qualquer migalha que Christian, fingindo ser Renato, joga para ela, e faz de tudo para que ele não a deixe, e até mesmo para que preste atenção nela. Ele usa isso como arma, constantemente fazendo um gaslighting com a falsa esposa, brincando com sua sanidade, principalmente em relação a filhos e paternidade, algo que Bárbara projeta e deseja pela falta do que teve na infância.

A resistência de Bárbara em relação ao tratamento psicológico vem do diagnóstico de bipolaridade de sua mãe. Essa seria a única saída para um desenvolvimento da personagem, onde ela trabalharia sua insegurança e perceberia o gaslighting de Christian, porém, sem esse desenvolvimento, Bárbara continua com sua complexidade de “pobre menina rica”, mas não dá um passo sequer para se transformar em algo a mais. Apesar da construção da personagem, em que texto e atuação fazem com que o público torça e deseje algo superior para ela, uma felicidade genuína, ela continua no mesmo ciclo vicioso.

O único momento de sensatez de Bárbara na trama foi devolver a bebê Ludmila para o orfanato. Apesar da dor da devolução de uma criança adotada, isso mostrou uma evolução mínima da personagem em saber que não poderia dar à criança o afeto necessário para que ela não criasse traumas. Sem conseguir criar laço nenhum com a bebê, e com Christian nem olhando para a criança, Bárbara vê um espelho em Ludmila do que ela mesmo passou na infância, e conclui que a bebê se tornaria parecida a ela mesma no futuro: uma pessoa que mendiga afetos, sem limites e completamente insegura.

Já Nicole, oscilou entre ser o alívio cômico e ser a personagem que fazia as outras tramas desenrolarem através da fofoca (lembrando a personagem de Maria Eduarda Carvalho em Sete Vidas, Laila). Nicole comentava o que comentavam com ela com outros personagens e assim gerava quase confrontos. Covarde e insegura, não aceitava bem seu próprio corpo gordo, mas também não queria assumir gostar de outro alguém gordo e ainda ficava em “cima do muro” em diversas questões na trama, como não assumir que gostava de Érica como namorada do pai. O desequilíbrio entre o que a autora quis trazer com Nicole e o que realmente mostrou em tela se exprimiu no figurino da personagem. Uma história de aceitação e empoderamento se esvaziou quando Nicole também não teve desenvolvimento algum. As roupas da personagem não condiziam com sua trajetória. O figurino valorizou a atriz do início da trama ao final, e não demonstrava o ódio internalizado que tinha de si mesma. Roteiro e figurino não se sintonizaram, suas roupas mostrando uma segurança que suas falas não exprimiam.

Dentro do núcleo de Nicole, um acerto, mesmo que tímido: a abordagem da autonomia de adultos e jovens adultos que apresentam a Síndrome de Down. Mel, filha de Paco (Otávio Müller), quer namorar, morar sozinha, ter uma vida independente, o que Nicole acaba ajudando a moça a conquistar, enquanto o pai e a mãe a superprotegem de forma exagerada. Com tom certo de comicidade e emoção, Samantha Quadrado dá vida a uma Mel divertida, sarcástica em momentos, que mostra o capacitismo presente em nossa sociedade, que pode estar atrelado a boas intenções. Mel, o oposto de Nicole e Bárbara, desenvolveu sua autoconfiança durante a trama melhor que as duas personagens juntas.

A descoberta de Ilana

A trama mais bem desenvolvida em Um Lugar Ao Sol foi a da prima e melhor amiga de Rebeca, Ilana. Andréa Beltrão e Mariana Lima, amigas próximas na vida real, deram intimidade e naturalidade ao relacionamento, ponto alto na tela e na novela. Ilana, casada com Breno, é pressionada a engravidar, tanto pela sociedade quanto pelo marido, para salvar seu casamento. Aos 45 anos, a gravidez de risco de Ilana abordou diversos assuntos pertinentes envolvendo maternidade compulsória. Ilana sente seu valor diminuído como mulher e pessoa sem um filho, ainda mais por ser casada. O marido insiste para que engravidem, pois para a criação tradicional e religiosa dele, o relacionamento não é válido sem filhos, mesmo estando juntos há 25 anos.

Enquanto o relacionamento entre Ilana e Breno desmorona, os dois veem a possibilidade de filhos como um bote salva vidas. Sem nem ser concebida ainda, a criança já vem com o peso da responsabilidade de salvar o casamento dos pais. Além da pressão por parte do marido, a gravidez de risco de Ilana traz um dilema para a sociedade conservadora: as duas gêmeas não sobreviveriam a uma gestação completa. Era preciso tomar uma decisão: salvar a gêmea “saudável” (termos do texto da novela) continuando a gravidez, ou fazer uma cesária e tirar as duas, correndo o risco de nenhuma delas sobreviver. O texto exime seus personagens de culpa de qualquer decisão ao fazer Ilana entrar em trabalho de parto prematuro, com a criança “saudável” sobrevivendo, enquanto a outra acaba por falecer.

Breno culpa Ilana e a médica Gabriela (Natália Lage), que ele acredita ter feito a cabeça da esposa para fazer um parto prematuro, pela morte de uma das filhas. O relacionamento que se sustentava por um fio acaba por se desmanchar quando Breno, com Ilana ainda no hospital se recuperando do parto prematuro e a filha na incubadora, consuma o caso emocional que vinha tendo com Cecília desde o início da trama em caso sexual. Além da culpa pelo falecimento da criança, Breno também ressente o fato de Ilana ganhar mais do que ele, ter um emprego mais estável e querer gastar mais dinheiro com a criança.

Breno começa a arranjar desculpas para terminar com Ilana mesmo antes das filhas nascerem. A principal forma é acusá-la de ter um caso com Gabriela, mesmo sabendo que nunca aconteceu nada entre elas. Nesse momento Ilana não consegue nem conceber um relacionamento com Gabriela pois, mesmo amigas, Ilana também vem de uma criação conservadora e moralista, a ponto de, no passado, ter cortado a amiga de sua vida completamente com apenas uma menção de romance. É por isso que Ilana demora tanto a aceitar que gosta de Gabriela, usando referências e ideias ultrapassadas, machistas e LGBTfóbicas sobre como uma família deve ser composta.

Apesar de reclamar constantemente sobre como “é difícil ser mulher” e estar marcada com um pessimismo etário, as dificuldades da vida de Rebeca e Ilana estão centradas nos relacionamentos amorosos e sexuais que têm com homens “errados” para elas. Quando descobrem pessoas que facilitam suas vidas e não as dificultam, percebem que a vida não é e não deve ser difícil.

Ao colocar o relacionamento entre Gabriela e Ilana com uma construção bem definida ao longo da trama, com um tempo de adaptação e sem relação com o relacionamento entre Ilana e Breno, Lícia Manzo consegue fazer com que o público torça para que as duas se “acertem” e terminem juntas. Ilana e Gabriela, ambas na casa dos 40 e tantos, profissionais consolidadas em seus campos e com personalidades definidas, não caem em estereótipos ou não dão margem para desculpas de que o relacionamento entre as duas não é tão “real” quanto dos outros casais da novela. Ao final, Ilana faz as pazes com a maternidade compulsória que ela mesma e o ex marido impuseram, faz também as pazes com ele e com si mesma. Com Gabriela, a trama de Ilana lembra que família são todos que estão dispostos a se amar.

A busca de Júlia

A mãe de Felipe aparece na trama já avançada, como alguém fora de controle. Uma alcoolista em recuperação, tem recaídas constantes e busca no filho um porto seguro, uma maturidade que ele não deveria ter, mas finge conter para não gerar mais turbulência na vida de Júlia. Ana Virginia, ao contrário, desconfia das atitudes da filha, já desgastada por anos de um comportamento que anda em círculos, sem evolução. Além do vício em álcool, Júlia é imatura, irresponsável e totalmente perdida, buscando um sonho de viver de música após ter perdido seu “momentum”. Assim como a trama da própria novela, a de Júlia também não evolui, com arcos que sempre voltam ao mesmo lugar em que iniciaram. Por diversas vezes a imaturidade de Júlia quase custou o emprego de Ana, e sua irresponsabilidade quase desgastou seu relacionamento com o filho.

Vendo uma figura paterna em Felipe, Júlia sempre espelhou no filho uma consciência moral que ela não tinha desenvolvido. Autocentrada, não consegue perceber que o moço ainda não é maduro o suficiente para desenvolver esse papel — e nem deveria. Pede dinheiro a ele, esconde o que fez do filho para que ele não fique desapontado com ela, e pede que ele a cubra no emprego. Júlia tem mais vivência que Felipe, mas depende dele de um jeito abusivo, exigindo uma maturidade que ele mesmo não percebe fingir ter.

Ela também nunca se arrependeu das imoralidades que cometeu para com a mãe, revelando sua falta de comprometimento em querer amadurecer, achando que tudo é sempre uma brincadeira. A personagem é uma espécie de “perdedora”, “loser”, alguém para quem nada dá certo na vida, mas é também alguém que não quer enxergar seus erros e nem pensa que mudar seus padrões de comportamento pode mudar também o resultado final; alguém que não se importa com as reações de suas ações. Júlia é, acima de tudo, autodestrutiva, e arrasta os outros que estão ao seu redor para essa autodestruição, acabando por ter um relacionamento de abuso e toxicidade com as pessoas que querem ajudá-la.

Quando finalmente resolve se tratar, Júlia coloca essa decisão nas costas de Felipe, afirmando que está na clínica pela fé que ele tem nela. Ela sabe que Felipe, sempre fiel no relacionamento abusivo com a mãe, estará ali caso ela tenha uma recaída. O filho nunca deixou de ser o porto seguro da mãe em momento algum. Júlia remete a alguns personagens alcoólatras de Manoel Carlos, mas principalmente Bira (Eduardo Lago) que tinha um relacionamento parecido com a filha Marina (Marjorie Estiano). Em Páginas da Vida (2006) sempre que ele tinha uma recaída ou fazia algo reprovável, ela estava presente para ajudar, amparar e desculpar o pai; até o momento em que não aguenta mais, e assim Bira percebe que ou se trata ou perde a filha para sempre. Em Um Lugar Ao Sol, Felipe, sempre maduro, correto, e o estandarte da moralidade na trama, não abandona a mãe em momento algum, sempre por perto para resolver os problemas de Júlia, fazendo com que ela não tenha progresso real.

É apenas quando o amigo Edgar volta a sua vida que Júlia começa a amadurecer. Ao ver a mudança na vida de Edgar, Júlia entende que ela também pode ter a chance de amadurecer, mudar, tomar atitudes diferentes do que vinha fazendo. O amigo é um espelho e uma esperança futura da recuperação e vida saudável de um ex-alcoolista vivendo em sociedade, o que dá a Júlia uma nova perspectiva. Ela não está programada para ser assim e pode ser melhor. Com a melhora de perspectiva, Júlia descobre novas possibilidades de vida e novas opções profissionais que não envolvam descartar completamente a música de sua vida. O esforço conjunto de Denise Fraga e o texto de Lícia Manzo destacam a jornada de Júlia numa busca individual pela própria maturidade, se relacionando melhor consigo mesma e com os outros ao seu redor.

A reconciliação de Noca

Dona Noca, a avó de Lara, tem idade suficiente para ser considerada idosa, mas não se sente assim. Com o núcleo de Noca, a autora traz para o horário nobre a discussão do lugar do idoso na sociedade brasileira. Relegados a um local de quase sigilo, sofrem com a falta de cuidados especializados e o controle da própria autonomia. A fase idosa, já complicada pelas condições naturais do envelhecimento, acaba por ficar numa obscuridade. A questão entre o indivíduo idosos e seus desejos e os limites impostos tanto pelo envelhecimento natural quanto pela marginalidade social são explorados pelo núcleo de Nora não só em embates entre ela e a neta, como também com outros personagens que ela conhece, como o namorado Aníbal (Reginaldo Faria).

Lara é uma personagem que vive no passado, tentando continuar a vida, mas sem conseguir esquecer a morte de Christian. Esse é o principal choque entre ela e a avó: Noca tem um passado obscuro e está sempre vivendo no presente, sem pensar muito em consequências. Tendo sido obrigada a abandonar o primeiro filho pequeno numa cidadezinha pelo marido ao qual ela foi vendida, Noca tenta deixar o passado no passado, trancado para que traumas não aflorem. A preocupação de Lara pela avó beira um tipo de controle que não condiz com as condições de Noca, mas que sim, revela a falta de metas e visão de futuro/presente da própria Lara. Já Noca não tem muito apego ao passado e assim pensa mais no presente e no futuro, sendo impulsiva na tomada de decisões, sem se importar muito se as coisas vão sair como planejado ou não, o oposto do controle da neta.

O desejo de Noca pela liberdade e autonomia é tanto que ela não permite nem mesmo pensar em momentos em que se sentiu presa. Por isso nunca fala do filho a ponto de Lara não saber nem que tinha um tio. Na verdade suas decisões são sempre tomadas pelo oposto do que ela acha que a levariam ao mesmo local novamente: não se prende a cidades, e muito menos a pessoas. O relacionamento com Aníbal acaba pela dificuldade dela entender que ele também tem seus desejos, que se afastam dos dela. Aníbal quer ser aposentado, descansar de tudo o que já viveu, ter uma existência tranquila. Por isso talvez os dois funcionem bem como casal, emocionando o público, mesmo com Reginaldo Faria aparecendo apenas na reta final da trama. A novela inova ao falar de sexo e relacionamento sexuais e amorosos na terceira idade.

Noca é, acima de tudo, uma feminista convicta, e tenta sempre passar o conhecimento que adquiriu na prática a duras penas para as outras mulheres mais jovens com as quais entra em contato. Para ela, sua autonomia, conseguir ser si mesma e não precisar de ninguém para isso é o mais importante. É por isso que Noca bate tanto na tecla do trabalho, de ter o próprio negócio. Isso a torna independente e traz um senso de segurança para a vida que ela criou para si.

“Qualquer lugar que te diminua, que te torne pequena, não é o seu lugar”, ela diz para Thaiane (Georgina Castro), a neta rejeitada pelo pai e criada como empregada da casa, que a procura em busca de alguém que a entenda. No fim essa é a maior lição que Noca precisava aprender para finalmente se perdoar pelas decisões que teve que tomar no passado, para se acertar com Aníbal e criar para si uma nova família. O passado também pode diminuir e moldar alguém se a pessoa continua vivendo com base nele, o repetindo ou tomando atitudes que façam fugir dele.  A autora mostra que não existe prazo de validade para se curar de traumas e não repeti-los. Noca para de fugir e de se definir por seu passado e assim consegue viver o presente em paz consigo mesma.

Um lugar ao sol para personagens femininas

Fica claro o domínio da trama de certos núcleos pela autora em detrimento de outros. São deles as tramas melhor desenvolvidas que ofuscam a história principal. As mulheres de “meia idade” sobre as quais Lícia Manzo escreve são complexas e completas, erram e acertam na mesma medida, tentando tirar o melhor da vida no processo de entender a si mesmas. Esse processo envolve traumas passados e relacionamentos entre pais e filhos, que podem também ter causado esses traumas; e os personagens conversarem sobre eles e os trazerem à tona é a única forma de os superarem e melhorarem como pessoa.

O texto sensível e importante de Lícia e como ela comunica os assuntos que quer ao público faz de Um Lugar Ao Sol um perfeito estudo de caso: texto e roteiro pouco ou quase nada tem a ver com trama e narrativa. Os diálogos e monólogos únicos e impactantes da novela contrastam com a trama torta, apresentando uma narrativa cheia de círculos, loopings, onde situações se repetem a cada tantos capítulos em todos os núcleos, empobrecendo a novela e fazendo com que a trama não se desenvolva. Apesar da leitura sobre círculos viciosos se encaixar na narrativa e ser pertinente para a vida real, na percepção do público a trama acaba cansativa e enfadonha.

A sutileza e sensibilidade presentes em Um Lugar Ao Sol, únicas em telenovelas hoje em dia, se perdem na falta de solidez da fraca história central. O ultra realismo apresentado pela autora surpreende com o não uso dos clichês de novela, principalmente os ganchos falsos e reviravoltas apoiadas em relações humanas, sem dramas absurdos. Ao mesmo tempo, essa insistência da autora em calcar as reações de seus personagens totalmente na realidade acaba por alienar levemente o público, que espera por embates e confrontações para sentir uma catarse. O público fica eternamente “esperando algo acontecer”, enquanto a autora faz questão de que nenhum de seus personagens “cheguem lá”: não virem criminosos irreparáveis ao cometer assassinatos, nem “barraqueiros” insanos ao confrontar ou brigar fisicamente uns com os outros. Apesar de mimetizar a realidade em suas falas, os personagens de Um Lugar Ao Sol parecem ser todos acima de sentimentos e atitudes verdadeiramente humanas, contidos e moralmente superiores, não perdendo as estribeiras, e os que perdem merecem a morte (como o marido de Stephany e Túlio). O público sai insatisfeito, parecendo que faltou algo.

Quanto ao tratamento dos personagens negros, apenas Ravi se destaca como personagem completo, os outros sendo relegados a papéis secundários de servitude e vilania. Com exceção de Ravi, esses personagens aparecem, servem ao propósito da trama dos personagens brancos e desaparecem em seguida, mesmo que tivessem boas promessas de embates (como Janine, a personagem de Indira Nascimento, carismática e interessante, apenas usada na trama de Bárbara em mais uma briga entre ela e Christian/Renato). E todos esses personagens — com exceção da vilã-amante Ruth — sofreram algum tipo de racismo na trama.

O início, o meio em looping e o final da novela não se encaixam. A narrativa em círculos de Um Luar Ao Sol não permitiu que a trama tivesse uma graduação natural, um crescendo que ligasse o que foi mostrado no início até final, que conectasse as duas pontas, ambas apressadas demais para um meio tão sem acontecimentos. Ao final, o que sobra da edição Frankenstein de Um Lugar Ao Sol são esquetes excelentes sobre a experiência feminina depois dos 40, 50 anos. Maternidade compulsória, gravidez “tardia”, descoberta da sexualidade, divórcio, masturbação, todos assuntos relevantes abordados de forma pontual durante a novela, e que no fim não tiveram continuidade nem resolução. Em questão das personagens femininas mais maduras, Um Lugar Ao Sol poderia ter sido uma obra pivotante em termos de representação, se tivesse passado dos esquetes e apresentado continuidade em suas tramas. Isoladas, as histórias de Rebeca, Ilana, Noca e Júlia são relevantes, mas se perdem e perdem sua importância dentro de outras tramas que não são nem tão importantes assim, nem tão carismáticas.

Um Lugar Ao Sol acaba por tratar suas personagens femininas da mesma forma que a própria novela tenta denunciar como as mulheres mais velhas são tratadas: como secundárias, deixadas de lado, a escanteio. O maior erro de Lícia Manzo foi justamente ter dado o protagonismo a um personagem masculino sem carisma, enquanto havia um rol de personagens femininas mais que interessantes que poderiam assumir seu lugar. O machismo e etarismo que a novela tenta denunciar foi justamente o que a fez fracassar.

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