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Guava Island e a arte como revolução

O poder transformador da arte é inquestionável. Independentemente da área a qual esteja ligada, através dela é possível mudar comportamentos, opiniões, alterar realidades e libertar. Além de contribuir na formação cidadã de uma pessoa, principalmente das crianças. Essa é uma das ideias apresentadas em Guava Island, longa de 55 minutos protagonizado por Donald Glover e Rihanna. Lançado em 11 de abril de 2019, no Festival Coachella, na Califórnia, o filme está disponível no serviço de streaming da Amazon, o Prime Video, e também conta com a participação de Letitia Wright (Shuri de Pantera Negra) e Nonso Anozie (Xaro Xhoan Daxos em Game of Thrones).

Guava Island tem direção de Hiro Murai — mesmo responsável por alguns clipes de Childish Gambino (alter ego de Glover enquanto músico) como o premiado “This is America” —, roteiro de Stephen Glover e direção de fotografia de Christian Sprenger, todos nomes envolvidos em Atlanta, aclamada série também protagonizada pelo ator. No longa, Glover é Deni Maroon, jovem músico da fictícia ilha caribenha, e namorado de Kofi, interpretada por Rihanna. O lugar é governado por Red (Anozie), um autoritário governante que vigia a ilha com capangas armados e emprega toda a população do lugar em sua linha de produção da seda azul, principal riqueza de exportação local.

Somos introduzidos na história com uma animação narrada por Kofi explicando as origens de Guava. Setes deuses antigos criaram a ilha como um lugar mágico longe dos pecados e da guerra da humanidade; até que a ganância da família Red tomou conta do lugar com um forte processo de industrialização. Guava Island é paradisíaca, com ares de lugar encantado e brinca com a atemporalidade e com as cores. A paleta carrega nos tons quentes, em especial no vermelho, diretamente conectado a Red (guerra), para definir o aspecto de perigo atribuído a ele. Em contraponto, há a constância do azul, representando amor, esperança e os sonhos de quem vive ali. O próprio mar que cerca a ilha pode ser considerado uma metáfora visual, pois este seria o único caminho possível para a liberdade. Outro exemplo desse paralelo feito pelas cores são os pássaros azuis presos em gaiolas, em analogia ao povo que não tem autonomia de ir e vir.

As críticas de Guava Island, ainda que sutis em determinados momentos, miram direto no mundo capitalista. Afinal, não é difícil pensar em outras tantas Guavas que têm a força de trabalho de seu povo explorado ao máximo, em prol de uma parcela menor detentora do poder. É com esse sistema que Deni entra em confronto e guia o espectador como espécie de bússola crítica e idealista. Ele é um sonhador, apaixonado pelos moradores da ilha, que vê na arte a possibilidade de escape da opressão sob a qual vivem. Para isso, decide criar um festival de música com o objetivo de libertar a população da Ilha de Guava, nem que seja por um único dia.

O youtuber Load fez um paralelo de Guava com a Jamaica de 1976, que na época era um lugar bem diferente da forma como é conhecido hoje. O país caribenho sofria forte influência da Guerra Fria (EUA x URSS), era dominado por traficantes e pistoleiros e tinha estruturas políticas fragilizadas. Em meio a esse ambiente de tensão, em pleno ano eleitoral, estava Bob Marley, já uma estrela da música mundial. Apesar de tentar manter neutralidade entre os extremos, o cantor era cobrado para tomar posição ainda que não fosse a favor de nenhum dos grupos políticos em questão.

“Não defendemos marxismo nem capitalismo. Nós somos apenas rastafári. Somos independentes. Não imploramos nada para os Estados Unidos nem imploramos nada para a Rússia. Preferimos olhar para nós mesmos… Que é rastafári, os direitos do povo negro”.

Na tentativa de apaziguar a situação que estava prestes a se tornar uma guerra civil, Bob Marley aceitou realizar um show gratuito pela paz e pela união da juventude, com apoio do primeiro-ministro Michael Manley. No entanto, dois dias antes do evento, a casa do cantor foi invadida por um grupo de pistoleiros defensores do candidato opositor a Michael. Eles atiraram contra Bob Marley, que foi ferido sem gravidade no peito e no braço. Outras pessoas também foram atingidas pelos disparos. Na ocasião, o empresário Don Taylor foi alvo de vários tiros, tendo que vir, mais tarde, a usar até cadeira de rodas, enquanto Rita Marley levou um tiro de raspão na cabeça.  Por “sorte”, ninguém morreu, mas o atentado deixou claro o objetivo de mostrar que a bandeira de paz levantada por Marley não era bem vista por todos. Todo o desenrolar dessa história pode ser conferido no documentário ReMastered: Who Shot the Sheriff?, disponível na Netflix.

Depois do ocorrido, Bob se mudou para Londres por questão de segurança até que recebeu uma nova proposta para fazer um show na Jamaica e mesmo com as constantes ameaças de morte que recebia, resolveu cantar em prol da união pacífica de seu povo. Em 22 de abril de 1978, Bob Marley & The Wailers se apresentaram no famoso One Love Peace Concert, evento que se tornou simbólico, pois Bob chamou ao palco os políticos rivais Michael Manley e Edward Seaga, líderes dos partidos de maior representatividade na Jamaica, para que ambos dessem as mãos e fizessem um juramento de paz. O ato resume a essência do legado deixado por Bob Marley através de suas letras, tanto para a música quando para a sociedade em geral, sendo uma mensagem de paz e união entre os povos (em especial o povo negro) que serve de exemplo até hoje e leva em consideração os impactos que a arte é capaz de deixar.

Assim como Bob Marley, outros tantos nomes da música, além de movimentos, desempenham esse papel de ser uma voz representativa das chamadas minorias refletindo sobre questões sociais. O Hip-Hop nasceu justamente da necessidade da periferia de se expressar, refletir sobre sua realidade e questionar os descasos do poder público — em especial através do Rap e do Grafite. Aqui no Brasil, por exemplo, o primeiro registro de pichação como arte é do emblemático escrito “Abaixo a Ditadura”, considerado o começo da street art brasileira. A pichação com cunho político nasceu no meio universitário, na década de 1960, com influência do movimento estudantil de Maio de 68 francês. As frases eram simples, não eram assinadas, pois era preciso fazê-las com agilidade para escapar da repressão policial.

Além deste, há vários outros exemplos na cultura brasileira cuja trajetória está relacionada à resistência popular, como é o caso da Capoeira, do Carnaval, do Samba e do Funk. E ainda que transformadas em festas, essas manifestações continuam com seu caráter genuíno de expressão de liberdade e luta. Afinal, dependendo das circunstâncias em que uma pessoa se encontra (origem, lugar, condição social, gênero etc) praticar qualquer tipo de arte, por si só, já é um ato revolucionário. Por isso, em Guava Island, quando da decisão de Deni em realizar um festival de música, apesar das ameaças de Red e dos poucos recursos disponíveis, serve de faísca para que o povo da ilha saia da inércia. Mesmo ciente das consequências, Deni faz o que acredita ser necessário para que o povo que tanto ama volte a ser livre. Nem que seja por um dia. Com isso, ele muda o curso da história passada de geração em geração e escreve uma nova linha na narrativa de Guava em que os sonhos voltam a ser possíveis.

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