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“Palavras na brisa noturna”: o jornalismo histórico de Xinran

Boa noite, amigos do rádio. Vocês estão ouvindo Palavras na Brisa Noturna. Meu nome é Xinran e estou discutindo ao vivo, com vocês, o mundo das mulheres. Das dez às doze, toda noite, vocês podem ouvir relatos de mulheres e ficar sabendo sobre a vida delas.” Por oito anos (1989-1997), a jornalista e escritora chinesa Xue Xinran iniciava seu programa de rádio, em Nanjing, com este discurso. Após décadas de silêncio, chinesas de diversas idades, do campo ou da cidade, encontram no programa um espaço de acolhimento para suas dores e refúgio para as violências diárias a que eram submetidas.

Xinran nasceu em 1958, em Pequim, enquanto a República Popular da China, comandada pelo então presidente Mao Tsé-Tung após os eventos da Revolução Chinesa (1949), se estabelecia como uma nova nação. Entre as décadas de 1950 e 1980, momento em que se abandonava um sistema de moldes feudalistas, o país se estruturava econômica, social e culturalmente a partir da ideologia política do comunismo. Desta forma, os grupos sociais que se associavam ao capitalismo e, por consequência, com o modo de vida do Ocidente, se tornaram o “mal” a ser combatido.

A família de Xinran fazia parte deste grupo, considerados contrarrevolucionários — principalmente em meio à campanha político-ideológica da Revolução Cultural Chinesa (1966-1976). O cenário conflitante fez com que Xinran crescesse lidando com a segregação social, recebendo os piores alimentos e vivenciando uma constante humilhação por sua descendência capitalista. Ela e o irmão chegaram a passar anos longe dos pais para serem educados em um quartel da Guarda Vermelha, exército militar formado por jovens ao comando de Mao Tsé-Tung que, infelizmente, aparece de forma constante nas histórias de ouvintes e da própria Xinran como uma amostra da violência sistemática contra as mulheres chinesas.

Segundo Prudente e Zanatta (2001, p. 8), as contradições entre o discurso e o comportamento do governo eram frequentes. Apesar de Mao Tsé-Tung se posicionar em defesa do papel ativo das mulheres na sociedade, permitindo que elas alcançassem posições militares que antes eram restritas aos homens, na prática, a ação visava incrementar mão de obra e apoio ao Partido Comunista. Desta forma, se fortalecia a compreensão de que as mulheres eram cidadãs de segunda classe no sistema chinês.

Mas com a reabertura da China, em 1983, Xinran, assim como muitas mulheres que vinham de famílias com níveis educacionais altos, foi para a universidade e se graduou em jornalismo. Trabalhando em uma rádio, ela se arriscou para realizar mudanças sutis na forma como as notícias eram apresentadas aos ouvintes quando colocou Palavras na Brisa Noturna no ar. Um programa que focava em questões pessoais das chinesas não era algo comum nas redes de comunicação do país que, mesmo com a reabertura, ainda apresentava variados graus de censura estatal.

“Eu tentava abrir uma janelinha, um buraco minúsculo, para que as pessoas pudessem desabafar e respirar, depois da atmosfera carregada de pólvora dos quarenta anos precedentes. O autor e filósofo chinês Lu Xun disse certa vez que ‘a primeira pessoa que experimentou um caranguejo deve ter provado uma aranha também, mas percebeu que não era boa para comer’. Esperando a reação dos ouvintes ao programa, eu me perguntava se iam considerá-lo um caranguejo ou uma aranha. O número de cartas entusiasmadas que se empilhavam na minha mesa me convenceu de que era um caranguejo” (Xinran, 2002. p. 9).

De acordo com Kanno (2010, p. 5), Xinran se tornou uma figura acessível para diversas mulheres que nunca tiveram com quem desabafar sobre seus sofrimentos sem que o medo da repressão dos maridos estivesse presente. “(…) Tornou-se uma figura na qual se poderia obter esclarecimentos a respeito de sentimentos ou até mesmo obter alguma ajuda para lidar com os problemas e dúvidas do cotidiano. Nos relatos do livro, submergem vozes antes silenciadas revelando suas provações, medos, e uma capacidade de resistência que as permitiu se reerguer e sonhar em meio ao sofrimento”.

É importante evidenciar que, apesar de ser jornalista, Xinran não se oculta em suas obras. A imparcialidade não é um mérito nos livros, mas sim a humanidade na forma como constrói as narrativas. Em As Boas Mulheres da China (2002), por exemplo, antes de nos levar até a história de alguma ouvinte, Xinran revela pedaços do seu cotidiano na rádio, a relação com os colegas e a opinião destes sobre as histórias que chegavam até ela. Andando de bicicleta por Nanjing, ela nos joga na vida das chinesas da mesma forma que ela também precisou se jogar. As descrições das localidades, dos sabores e objetos que cercam suas personagens são os elementos chave para mergulhar em cada livro.

“Ao longo do muro da estação de rádio havia uma fileira de barracos, feitos de sucata, pedaços de feltro para isolamento térmico de telhado e sacos de plástico. As mulheres que moravam ali sustentavam-se catando e vendendo lixo. Entre as cabanas, destacava-se a menor. Os materiais de que fora construída não eram diferentes, mas a habitação fora projetada com cuidado. As paredes de sucata tinham sido pintadas num tom forte de cor-de-rosa, e o feltro de telhado fora dobrado no formato de uma torrinha de castelo” (Xinran, 2002. p. 45).

Mães, filhas e a complexidade das mulheres chinesas

A inclusão de sua própria história nos livros não se torna um excesso, mas uma potência para o seu papel como narradora e mulher chinesa. Saber detalhes da trajetória de Xinran nos ajuda a entender as motivações por trás de seu trabalho. O Palavras na Brisa Noturna, além de acalento para diversas chinesas, ajuda a própria Xinran na compreensão sobre si ao revelar uma questão básica: quando um sistema define que a mulher é menos do que nada, seu corpo e sua vida se perdem para exploração de terceiros.

É no livro As Boas Mulheres da China que se encontra a maior parte dos relatos que chegaram através do programa de rádio. Na obra, Xinran revela como o contato com diversas mulheres chinesas, e as reflexões posteriores, lhe ajudou a compreender melhor sua mãe. Ela também é uma mulher que carrega as cicatrizes de um sistema que moldou suas relações e comportamentos.

Quando aborda a relação com a mãe, Xinran consegue expor as consequências do controle social em sua trajetória. “Tinha muita vontade de saber mais sobre a minha mãe, a mulher que me dera a vida e que me deixara com inúmeras perguntas sobre as mulheres”. O distanciamento que sente em relação à ela também se apresenta nas histórias de suas ouvintes. Mulheres que nunca se sentiram confortáveis para conversar sobre amor, sexualidade ou sobre si mesmas com a mulher que as colocou no mundo.

Em Mensagem de Uma Mãe Chinesa Desconhecida: Histórias de Perdas e Amores (2011) Xinran revela ainda mais o seu desejo de ser filha, no sentido máximo dessa palavra: Não sou uma mulher especialmente corajosa; sou apenas uma mulher que deseja sentir o abraço de uma mãe e aquela relação vitalícia de amor e dependência que há entre mãe e filha”. Neste livro, Xinran reúne histórias de mães chinesas em meio à  política do filho único e como a questão foi impactada pela desigualdade de gênero.

Os relatos são fortes. Desde meninas que eram “resolvidas”, ou seja, eram afogadas em baldes ou asfixiadas de outras formas para que o casal pudesse continuar a tentar ter um filho homem, quanto bebês do sexo feminino abandonadas pelas cidades sem receber qualquer tipo de ajuda. A partir destas histórias, Xinran apresenta a questão da adoção de crianças chinesas por estrangeiros, em maior parte meninas, realizadas de forma clandestina.

Tudo parece cruel e doloroso demais, mas Xinran narra cada história com delicadeza e sinceridade. Sem esconder seus próprios questionamentos em relação ao que ouve, ela dialoga com o leitor como se estivesse ao seu lado, falando aos poucos sobre as mulheres chinesas que não têm o direito de amar suas filhas. Xinran é uma voz constante em seus livros, mas a forma como conta cada narrativa nos permite ouvir as mulheres por trás destas dores.

“Desculpe, Xinran, só pensei em mim mesma, falando deste jeito. A sua máquina gravou tudo? Eu sei que mulher fala demais, mas eu raramente tenho oportunidade ou vontade de falar; vivo como um autômato. Finalmente consegui falar sem medo. Sinto-me mais leve. Obrigada. E obrigada à sua rádio e aos seus colegas também. Adeus…” (2002, p. 95).

As Filhas Sem Nome e o direito a própria história

A impossibilidade de construir uma rede de acolhimento no próprio seio familiar se perpetua entre gerações, sendo fortalecida pelo papel atribuído a existência feminina: a de cuidar do lar e produzir herdeiros homens. Muitas das mulheres que Xinran conheceu ao longo de sua carreira jornalística tinham poucos anos de estudo, uma vez que investir em filhas era considerado um desperdício de dinheiro. Em As Filhas Sem Nome (2010), Xinran utiliza as histórias de três mulheres camponesas para mostrar como as divisões de gênero marcam a vida feminina.

Colocadas como irmãs, as três meninas são palitinhos e, ao contrário de cumeeiras (homens), não poderiam sustentar uma casa. Assim, o pai não as nomeia propriamente, chamando cada uma pela ordem de nascimento. É desta forma que conhecemos Três, Cinco e Seis. O livro se diferencia dos demais por retratar o êxodo rural dos camponeses para a cidade e mostrar uma China já no século XXI. Na cidade, as meninas observam mulheres no comando negócios ou assumindo cargos relevantes, além de responderem aos homens como iguais quando questionadas. Uma mudança nas relações de submissão expostas nas obras anteriores.

Xinran mostra a força das mulheres-palitinhos que precisam aprender a sobreviver na cidade grande após deixarem a aldeia em que cresceram. O que mais se destaca na narrativa é a presença da mãe no pensamento das filhas. Elas guardam dinheiro para levar para ela e sempre que se deparam com a beleza e riqueza das mulheres da cidade grande pensam nas privações da mulher que se acostumou com as humilhações da aldeia por não ter gerado um filho homem.

“Cinco pensou sobre como o destino podia ser cruel para as mulheres e sobre quanto a própria mãe sofrera.” (2009, p. 196).

As obras de Xinran têm uma força descomunal ao mostrar uma China para além das reflexões puramente econômicas, mas sob o olhar de quem a viveu. A impossibilidade de publicar suas obras no país fez com que Xinran se mudasse para Londres com o filho, onde vivem até hoje. A mudança, contudo, a aproximou ainda mais das mulheres chinesas. Recém-chegada ao país estrangeiro, Xinran trabalhou como faxineira e garçonete por um curto período. “Os ocidentais olhavam através de mim como se eu fosse transparente, do mesmo modo como as pessoas da cidade olhavam através das moças ‘palitinhos’ na China, e pensei entender melhor como eram suas vidas” (p. 18). Xinran oferece a nós, ocidentais, um caminhos para entender as mulheres e a própria China.

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