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A Cidade de Bronze: cuidado com o que você deseja

A Cidade de Bronze é o primeiro livro da Trilogia Daevabad escrita por Shannon Chakraborty, ou como assina seus livros, S.A. Chakraborty. Publicado no Brasil no segundo semestre de 2018 pela Editora Morro Branco, A Cidade de Bronze é uma aventura épica que te fará mergulhar em um mundo de desertos escaldantes e magia onde nada é o que parece ser. Finalista de alguns dos prêmios literários mais importantes do gênero como o World Fantasy Award, British Fantasy Award e Locus Award, A Cidade de Bronze é o início eletrizante da jornada de Nahri em um mundo completamente novo e encantador na mesma medida em que pode ser perigoso e traiçoeiro.

Nahri é uma órfã que vive no Cairo, capital do Egito, em meados do século XVIII. É um período político conturbado para quem vive no Egito e precisa lidar com o exército francês tomando conta da cidade enquanto tenta avançar em direção à Índia para bater de frente com o domínio britânico naquela região. Para Nahri, no entanto, pouco importa o que está acontecendo na política mundial ou se Napoleão está dando passos maiores do que a própria perna: para ela, o que importa é continuar dando seus golpes para que possa sobreviver em uma cidade de sotaques, cores e culturas tão diversas. Para tal, ela se utiliza de um dom que a diferencia das outras pessoas: Nahri é capaz de curar e detectar doenças, o que, aliada às suas mãos leves de ladra, a faz passar por uma curandeira competente. Com pouco mais de vinte anos de idade, essa é toda a vida que Nahri conhece desde que se entende por gente — aplicar golpes, vender curas impossíveis e rituais em troca de qualquer moeda ou joia em que possa colocar as mãos. Ela é uma charlatã e uma golpista talentosa que, com sua habilidades, é capaz de entreter nobres Otomanos enquanto sobrevive nas ruas do Cairo.

Ainda que viva com base na fé das pessoas na magia que ela diz ter, Nahri não acredita em nada disso. Para ela, leituras de mãos, zars — tradicional cerimônia destinada a lidar com possessão — e curas são apenas truques com os quais Nahri precisa lidar para conseguir sobreviver. E é justamente durante um ritual em que Nahri encena seus poderes que ela entende, pela primeira vez, a real dimensão de sua capacidade. Embora sempre tenha convivido com seu dom de curar, e por conta disso tenha desejado estudar para se tornar médica, Nahri não tinha ideia do que era capaz de fazer até que, ao entoar uma canção apenas por brincadeira, ela consegue invocar um djinn. O djinn, uma entidade sobrenatural, acaba por salvá-la de um ifrit, um tipo de demônio, que a persegue a partir do ritual de faz-de-conta que ela encena, e é nesse momento que a vida de Nahri muda para sempre.

Sem muito tempo para pensar a respeito do que aconteceu ou de sua fuga do Cairo ao lado do djinn que a protegeu, Nahri precisa assimilar com rapidez sua nova situação, o uso de seus poderes e o que significa ser a portadora do dom de curar. Ao deixar toda sua vida no Cairo para trás, ela precisa confiar quase cegamente no djinn, um poderoso guerreiro ancestral chamado Dara, enquanto se direciona, fugindo nas areias escaldantes do deserto, para a lendária Cidade de Bronze. Escondida dos humanos por encantamentos e situada ao redor de areias quentes e rios repletos de criaturas de fogo e de água, a Cidade de Bronze parece ser a chave tanto para o passado quanto para o futuro de Nahri.

A Cidade de Bronze, o livro, tem mais de 600 páginas e pode parecer intimidador em um primeiro momento para quem não é tão fã dos calhamaços, mas a escrita de Shannon Chakraborty é tão rica e detalhada que esse receio logo vira cinzas diante das descrições feitas pela autora. Seu estilo de contar histórias é capaz de manter o leitor ávido por mais informações e por descobrir os segredos que suas páginas contêm — seja a respeito do passado de Nahri e sua família desconhecida, seja por conta das histórias sangrentas envolvendo Dara e sobre as quais ele prefere não lembrar. Chakraborty insere muitas tramas e subtramas em seus capítulos, mas nada é feito por acaso e todos os detalhes convergem para um final impactante, deixando seus leitores prontíssimos para a continuação que, infelizmente, ainda não chegou ao Brasil.

Além da narrativa inspirada da autora, A Cidade de Bronze merece o título de épico por trazer para suas páginas uma jornada instigante com descrições precisas e detalhadas de todo um universo singular. Mesmo que a história de Nahri tenha início no Cairo, uma cidade real em nosso mundo real, a narrativa logo começa a transitar por Daevastana, rios mágicos e montanhas imperscrutáveis, e é nesse momento que o talento de Chakraborty sobressai. A autora descreve um mundo rico em detalhes, cores, sons, texturas, sabores e aromas, e isso faz toda a diferença para colocar o leitor dentro da Cidade de Bronze e ao lado de Nahri e Dara. Com forte influência da cultura islâmica, aos poucos vamos nos familiarizando com os termos utilizados por Chakraborty durante a narrativa — se nos primeiros capítulos do livro é possível ficar até mesmo um pouco desnorteada por conta de tantas palavras que não usamos em nosso dia a dia, isso logo passa quando começamos a incorporar e associar seus significados durante a leitura. Não demora muito para que palavras como qaid, sheik e zulfiqar entrem para o vocabulário do leitor, mas se isso não acontecer, o glossário presente ao final do livro está aí pra ajudar.

Com relação aos personagens, S.A. Chakraborty faz um belo trabalho de construção de personalidades, anseios e motivações. O livro tem uma narrativa dividida entre os pontos de vista de Nahri, a jovem charlatã, e Alizayd, um príncipe idealista e exímio soldado da Cidade de Bronze. As narrativas, que acontecem intercaladas durante todo o livro, nos mostram duas perspectivas diferentes de um mesmo reino, e o que pode ser, em um primeiro momento, deslumbramento e encantamento para Nahri, nada mais é do que honra e dever para Alizayd. É por meio da alternância de pontos de vista que a trama de A Cidade de Bronze se desenrola, reunindo tensões políticas, histórias de guerras antigas e prenúncio do que ainda está por vir. Em Nahri temos uma protagonista destemida e corajosa que aprendeu a se virar sozinha desde muito cedo e, justamente por isso, não confia facilmente nas outras pessoas. Nahri sabe que muito está em jogo em sua vida, e os anos vivendo como ladra a ensinaram a sempre antever as jogadas de seus oponentes, mesmo que eles sejam muito mais experientes do que ela. Ainda assim, Nahri sofre pela inexperiência em outros assuntos, o que a deixará vulnerável ao chegar na Cidade de Bronze — mas não há nada que ela faça melhor do que aprender a se salvar.

Na figura de Dara, o poderoso guerreiro ancestral, temos um personagem orgulhoso e impetuoso com um passado sombrio e a respeito do qual não quer falar com Nahri. Mas os segredos que o guerreiro djinn mantém poderão ser sua ruína tanto quanto de Nahri. Alizayd, enquanto isso, poderia ser apenas mais um príncipe vivendo dos privilégios da corte na Cidade de Bronze, mas como segundo filho do rei e destinado a ser o qaid, chefe da guarda real e o mais alto oficial militar do exército de seu irmão, o futuro rei, ele entende que o mundo é muito maior do que os portões de bronze do lugar onde vive. Alizayd é leal, honesto e devoto, e seu coração bondoso será sua salvação, mas também o motivo de seu declínio.

Uma boa fantasia é capaz de fincar fundo seus alicerces no coração do leitor, e A Cidade de Bronze faz isso com maestria. Chakraborty nos encanta com seus personagens e é dificílimo para o leitor soltar o livro antes de virar a última página da mesma maneira que é impossível chegar ao final dessa jornada sem ter bolado mil teorias sobre o que realmente está acontecendo na Cidade de Bronze, o que acontecerá com Nahri, Dara e Alizayd e todas as tramas políticas que permeiam a narrativa. A Cidade de Bronze bebe da fonte dos grandes livros de fantasia, mas sua autora é capaz de criar algo totalmente único com seu livro de estreia: há magia, encantamentos, tapetes voadores e sedas multicoloridas em suas páginas, mas há também uma protagonista decidida, um príncipe leal e um guerreiro intempestivo. Na Cidade de Bronze nada é o que parece ser, e resta a nós mergulhar de cabeça na rica mitologia resgatada por Shannon Chakraborty diretamente das areias do Oriente Médio.

A Cidade de Bronze é parada obrigatória para os fãs de fantasia e a edição cuidadosa, e em capa dura brilhante, da Morro Branco, torna o livro imprescindível para quem gosta do gênero. Ainda que habite o reino do fantástico, a trama criada por Shannon Chakraborty é capaz, também, de ecoar questões do nosso mundo real como apenas os bons livros conseguem de fazer.

“Não existe magia, não existe djinn, nenhum espírito esperando para nos devorar.”

O exemplar foi cedido para resenha por meio de parceria com a Editora Morro Branco.


** A arte do topo do texto é de autoria da nossa colaboradora Carol Nazatto. Para conhecer melhor seu trabalho, clique aqui!

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