Categorias: CINEMA

Challengers: tênis, tensão e tesão

Anunciado em 2022, com previsão de estreia para 2023 e adiado para 2024 por conta da greve dos sindicatos WGA e SAG-AFTRA, o novo longa do diretor Luca Guadagnino chega aos cinemas trazendo Zendaya para o centro de uma partida de tênis, corações e egos entre Mike Faist e Josh O’Connor. Challengers (em português, e perdendo boa parte do significado, Rivais) apresenta a narrativa de dois meninos que brigam pela atenção de uma menina que nem se importa tanto assim com eles. E eles jogam tênis.

Com o roteiro de estreia de Justin Kuritzkes no cinema, o filme mergulha no ricocheteio intenso entre o presente e o passado de Art (Faist) e Patrick (O’Connor), amigos e inimigos, um de cada lado da quadra, com seus motivos para ganhar. No centro da arquibancada, encarando a rede fixamente, quase que se recusado a escolher um lado para acompanhar, Tisha, ex-jogadora, treinadora profissional, esposa de Art e ex-namorada de Patrick, ansiando pelo fim da partida.

Challengers

Treze anos antes da partida final, os dois jovens são amigos, companheiros de flertes, parceiros e oponentes de quadra, como uma boa partida de tênis a ser apreciada por Tisha. É através do esporte que ambos tentam se provar, seja para mostrar que a origem de família rica não importa, deixar a avó orgulhosa na casa de repouso, conseguir o telefone da menina bonita que é a primeira a apontar que essa relação não é uma simples amizade. Na presença de Tisha, a tensão e o tesão entre os dois personagens é latejante e os deixa vulneráveis sem que percebem, sendo apropriado para a personagem de Zendaya poder jogar o seu jogo de bater e rebater com os dois pela próxima década.

“Eu estou cuidando tão bem dos meus meninos brancos.”

Logo no primeiro encontro dos personagens, Tisha já escancara o que as próximas duas horas vão mostrar ao espectador: tênis não é um esporte, é uma relação. Diferente dos clássicos triângulos amorosos, não temos a angústia de saber quem ela vai escolher, afinal, em pouco tempo entendemos que nenhum dos dois jovens é capaz de satisfazê-la por completo, isso é uma tarefa para o esporte. Por isso, as alianças esportiva e matrimonial são feitas com Art, que sabe que partir do momento em que expressa não ter mais interesse no esporte, está a ponto de perdê-la. Assim como Patrick sabe que continuar jogando é o que pode reconquistá-la. Da mesma forma que Tisha não teria prazer por completo com qualquer um dos dois, o interesse de cada um não é por quem ela é, mas sim pela imagem que ela pode ter: Patrick a vê de forma sexual e intimidadora, enquanto Art a vê como promissora e inspiradora — ela pode até ser a junção de tudo isso e além, mas cada um se prende a imagem que criaram em um primeiro encontro quando tinham 18 anos.

“— Tashi, eu te amo.

— Eu sei.”

Challengers

Assim como no esporte é necessário pensar cada passo dado, cada ângulo e força para rebater, os três personagens calculam o seu movimento em relação ao outro para conseguir o que quer. Patrick logo desiste da promessa de deixar Art ganhar, enquanto Art os joga um contra o outro durante o namoro e Tisha sabe que tem controle sobre os dois desde o primeiro beijo.

Quando anunciado, Guadagnino já havia categorizado o filme como uma comédia dramática e erótica. Em tempos em que as redes sociais estão cheias de discussões sobre a necessidade de haver ou não cenas de sexo nos filmes, o diretor traz a sua assinatura erótica com sutilezas ensurdecedoras de toques, trocas de olhares, diálogos e até o compartilhar de uma refeição. A maestria do filme está na construção da tensão até a partida final, materializando a consumação da relação tridimensional dos personagens. A própria tensão inerente ao esporte, os gestos de Tisha na arquibancada, que vão desde sua expressão facial até o aperto das mãos, e a corporeidade de Art e Patrick enquanto jogam: os movimentos intensos de vai e vem na quadra, os gemidos quando acertam a bola, a troca de olhares — toda atuação bem construída com a cinematografia e a trilha sonora que colocam o espectador dentro da quadra.

Ao longo de duas horas Challengers navega por esse relacionamento até o match point. Resgatando mais de uma década de intrigas, Patrick, em um gesto simples e significativo, desestabiliza Art e o espectador atento aos detalhes entregues no início, enquanto Tisha não é capaz de entender o que trava o marido que, enfim, tem uma reação própria e voraz, existindo apenas os dois na quadra. Os torcedores não conseguem entender o que causa a mudança de jogo de última hora, tão intensa e latente, deixando Tisha sozinha para ver muito além do esporte. E isso não é tênis, é algo a mais.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *