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Go Fish: sobre cinema, sexualidade e visibilidade

A década de 1990 nos presenteou com várias pérolas no que se refere a filmes com personagens LGBT. Tanto obras que considero excepcionais, como Poison (1991), de Todd Haynes, e Go Fish (1994), de Rose Troche, ou dramas como When Night is Falling (1995), de Patrícia Rozema, e comédias como It’s In The Water (1997), de Kelli Herd. No caso deste último, há uma cena em especial que acho relevante para o que aqui me proponho a discutir. Uma das personagens principais, casada com um homem, começa a perceber sentimentos por uma amiga de infância, e devido a isso, ela vai à locadora e aluga vários filmes com personagens lésbicas/bissexuais para entender o seu próprio sentimento. Quando assisti a essa cena, tudo me pareceu muito familiar, exceto que ao invés de ir à locadora, eu procurava os filmes na internet.

Como alguém que passou boa parte da década de 1990 frequentando locadoras, me lembro de poucos filmes assistidos em VHS/DVD que tivessem personagens LGBT. Mesmo que ainda falte muito a ser conquistado, são indiscutíveis as mudanças nesse campo da representação e visibilidade, e isso me faz feliz e esperançosa. Acredito muito no poder das histórias em criar empatia, em colocar questões importantes sobre a humanidade/sociedade para a reflexão, e também de tornar a vida menos solitária. Para mim, certas histórias são como um lugar seguro, e um lugar ao qual posso sempre retornar.

Por isso, este texto é um convite para vocês me acompanharem num tour por uma Chicago filmada em preto e branco, traduzida pelo olhar de Rose Troche, e habitada pelas personagens criadas por ela e Guinevere Turner; trata-se do filme Go Fish.

O filme foi o primeiro da carreira de Rose Troche, uma diretora de origem latina. Segundo o IMDB, ela possui vários créditos como diretora de séries televisivas, como num episódio de South of Nowhere e doze episódios de The L Word, série na qual Guinevere Turner participou como atriz, assim como no roteiro de três episódios ao longo das seis temporadas. Embora todas as problematizações que possamos fazer sobre The L Word, a série criada por Ilene Chaiken teve uma grande participação de mulheres por detrás das câmeras, inclusive, algumas delas dirigiram filmes com personagens lésbicas/bissexuais, como Lisa Cholodenko, Jamie Babbitt e Angela Robinson.

Segundo relata a autora B. Ruby Rich, no livro New Queer Cinema, a ideia do filme Go Fish surgiu em 1991 com o nome Max and Ely, mas em 1992 já não havia mais dinheiro para continuar a produção. Devido a isso, Torche e Turner enviaram uma carta para a produtora lésbica Christine Vachon, figura importante para o cinema independente do início dos anos 1990 e que tem seu nome envolvido em vários filmes com personagens LGBT. Ela foi produtora de todos os longas-metragens de Todd Haynes, assim como Meninos Não Choram (1999), de Kimberly Pierce, e Hedwig and The Angry Inch (2001), de John Cameron Mitchell. Go Fish foi produzido por Vachon e por Tom Kalim, e lançado em janeiro de 1994 no Festival Sundance.

A primeira sequência do filme se passa em uma sala de aula, apresentando uma professora, a personagem Kia (T. Wendy McMillan), pedindo às alunas e alunos: “Vamos fazer uma lista de mulheres que vocês acham que são lésbicas ou que vocês sabem que são lésbicas, ao longo da História e nos tempos atuais”. Depois das respostas, uma aluna questiona a motivação de fazer tal lista, já que seria especulação, ao que a professora aponta para a relevância do questionamento, destacando a falta de evidências que temos sobre as vidas de mulheres lésbicas ao longo da História, o que demonstra um silenciamento sobre como elas viviam e se relacionavam.

Segundo o que a personagem diz, ao entendermos esse silenciamento, nasce o desejo de mudar a História. Entendo que esse desejo é algo poderoso no sentido mais positivo, pois nos insere em narrativas que antes não contemplavam a multiplicidade de sujeitos, viabilizando assim, uma reescrita de discursos considerados factuais e naturais sobre como viviam homens e mulheres no passado. Essa reescrita está presente em várias áreas, inclusive, no cinema, e um filme como Go Fish parece surgir dessa vontade de dar voz aos que antes eram silenciados.

O filme discute sobre a vida de um grupo de amigas que se relacionam com mulheres (e não considero correto supor que todas se identificam como lésbicas), moradoras da cidade de Chicago (EUA), focando na jornada da personagem Max West (Guinevere Turner). Logo após a primeira sequência, ela nos é apresentada escrevendo em seu apartamento, enquanto a voz dela em off nos relata suas divagações sobre possíveis encontros com uma mulher imaginária, alguém que ela deseja conhecer, mas que no momento só existe em sua imaginação.

Considero a montagem um dos aspectos mais interessantes do filme, pois articula um jogo de imagens que além de estabelecer relações sobre o que ocorre com Max, mantém a narrativa em um ritmo instigante. A passagem de tempo normalmente é apresentada intercalando imagens simbólicas do momento psicológico da protagonista e o desenvolvimento do relacionamento entre Max e Ely (V.S. Brodie). Como afirmado em uma entrevista, Rose Troche trabalhou com produções experimentais no período em que estava na faculdade, e trouxe esses referenciais para um filme narrativo como Go Fish.

Ao longo dessa cena narrada pela personagem, somos apresentadas aos demais personagens principais, o casal formado por Kia e Evy (Migdalia Melendez), que moram com Max, e as amigas Daria (Anastasia Sharp) e Ely, que dividem um apartamento. Na história que Max escreve em seu caderno, e que conhecemos através da narração, ela relata possíveis encontros, e motivos pelos quais os mesmos não aconteceram, simultaneamente são apresentadas cenas da vida das outras personagens mencionadas. Na cena, que dura em torno de três minutos, o filme é efetivo em apresentar um pouco da personalidade da protagonista e suas idealizações sobre relacionamentos, ao mesmo tempo em que questiona tais idealizações, contrastadas com imagens mais realistas.

Nesse quesito, Go Fish não é diferente de muitas comédias românticas, apresentando a personagem principal e seu desejo de conhecer alguém e ter uma namorada. Porém, o fato de a personagem principal ser lésbica já constitui uma diferença, assim como o filme coloca em questão a busca de uma pessoa/relacionamento ideal, o que normalmente é reafirmado em muitos filmes hollywoodianos. Ao longo da narrativa, as percepções idealizadas de Max sobre como será o encontro com sua possível/futura namorada, e como ela será, vão escapando diante da realidade vivenciada por ela. Na medida em que conhece uma pessoa com quem se identifica e consegue estabelecer uma conexão, seus pré-conceitos são colocados em questão, o que por si só já apresenta uma problematização importante, no que se refere a filmes focados em relacionamentos amorosos.

Go Fish sempre me pareceu um registro muito íntimo sobre um grupo de amigas, discutindo sobre identidades, relacionamentos e suas complexidades, e também sobre o que significa ser mulher na sociedade, as expectativas que recaem sobre nós, referindo-se a como agimos, nos vestimos, com quem nos relacionamos e os papéis que alguns acreditam que deveríamos cumprir. E sobre essa questão o filme tem um dos seus momentos altos, em uma cena também narrada por Max, sobre o que seria viver sua sexualidade em segredo, cumprindo o desejo da sociedade de se casar com um homem e ter filhos. São poucos minutos que nos apresentam aquele sentimento de infelicidade decorrente da negação de si mesmo, do quão difícil pode ser se libertar de certas amarras. No entanto, a cena finaliza com uma libertação dessas expectativas quando a protagonista afirma: “Nós não estamos esperando por um homem. Eu não estou esperando por um homem. E eu odeio esse sentimento sinistro de que um homem está esperando por mim”.

Após essa fala, a cena corta para Evy chegando à casa de sua mãe e sendo expulsa após esta descobrir que a filha se relaciona com mulheres, considerando assim, que o fato de “sair do armário” implica um contexto social que muitas vezes nos rejeita. A violência contra aquelas que subvertem essas expectativas perpassa todo o filme, desde o início com o debate sobre os silenciamentos, quando mostra uma cena de homofobia na rua, ou quando aborda essa não aceitação da personagem latina por parte de sua família. Entretanto, considero que o tom da obra é de esperança e celebração.

Segundo a autora Anat Pick, Go Fish abriu as portas para que mais filmes sobre mulheres que se relacionam com mulheres fossem feitos no contexto estadunidense, embora não seja o primeiro a tratar do tema. É possível citar, dentre outros, The Incredibly True Adventures of Two Girls in Love (1995), de Maria Maggenti, The Watermelon Woman (1996), de Cheryl Dunye, All Over Me (1997), de Alex Sichel, e High Art (1998), de Lisa Cholodenko. Importante notar que os filmes citados, assim como outros, são dirigidos por mulheres, e em época de campanhas como #52FilmsByWomen, é relevante que eles sejam (re)descobertos, e que continuemos a apoiar obras que são lançadas atualmente.

Em 2017, Alicia Malone lançou um livro abordando a presença de mulheres na indústria cinematográfica desde o começo do século XX, no contexto estadunidense, e afirmou que: “a falta de representação faz com que as pessoas se sintam invisíveis”.  Como mulher lésbica tenho consciência disso, assim como do poder e da importância que é “enxergar-se” na tela, mas é também fundamental ter a noção de que a maioria dos personagens LGBT, em filmes e séries, é representada por pessoas brancas e cisgêneros. Quando pedimos por mais diversidade nas histórias e personagens, é por que ainda existem muitas histórias que precisam ser contadas. E isso somente acontecerá se por detrás das câmeras também mudanças ocorrerem, viabilizando, assim, que mais vozes se expressem. Refiro-me a narrativas que alcancem pessoas diversas, que possam se identificar, se emocionar, e também questionar suas supostas certezas.

Minha intenção em abordar um filme como esse, relaciona-se ao quão especial ele é para mim, mas, também, porque o considero uma obra ímpar. Não somente pelos inúmeros debates instigados pela obra, mas pela maneira como eles são apresentados. Go Fish não se furta de discutir temas como a violência verbal perpetrada por mulheres lésbicas, em uma cena na qual uma personagem que se relacionou com um homem é questionada/contestada. O filme não encerra nenhum debate, como seria impossível fazê-lo, mas coloca questões importantes, ao mesmo tempo em que é uma história que sempre me faz sorrir.


Referências: MALONE, Alicia. Backward and in Heels. The Past, Present and Future of Women Working in Film. Miami: Mango Media Inc, 2017.

PICK, Anat. New Queer Cinema and Lesbian Films In AARON, Michele (Ed.) New Queer Cinema: A Critical Reader. New Jersey: Rutgers University Press, 2004.

RICH, B. Ruby. New Queer Cinema: The Director’s Cut. Dunham and London: Duke University Press, 2013.

Tatiana B. é historiadora, feminista, crazy cat lady e cinéfila. Nas horas vagas fala sozinha no Twitter sobre cinema e séries. 

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** A imagem em destaque é de autoria da editora Ana Luíza. Para ver mais, clique aqui

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