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Xinran: o registro da história chinesa que desconhecemos

Contar e registrar a história contemporânea chinesa tem sido o principal objetivo do trabalho de Xinran Xue nas últimas décadas. A vida da jornalista se mistura à recente história chinesa e as heranças centenárias do país. Xinran nasceu em 19 de julho de 1958, mesmo ano em que o então presidente Mao Tse-Tung anunciou o Grande Salto para Frente, uma política de reforma agrária e industrialização urbana da China que gerou uma crise econômica. Quando ela tinha sete anos, a Revolução Cultural Chinesa começou e com ela uma grande perseguição a opositores e qualquer pessoa que o governo classificasse como perigosa. No mesmo ano da morte de Mao Tse-Tung, em 1976, Xinran iniciou os estudos em Jornalismo.

Em 1989, tornou-se conhecida em todo o país pelo seu programa de rádio Palavras na Brisa Noturna em que recebia cartas de ouvintes que contavam suas histórias, desabafavam e pediam conselhos. Em 1997, enquanto a China vivia a abertura econômica e outros países conseguiam olhar para o país depois de anos, jornalistas locais sofriam censura e repressão. Foi nesse contexto que Xinran deixou o país e mudou-se para Londres. De lá para cá, a jornalista tem se dedicado a escrever sobre a vida chinesa, com sete livros já publicados no Brasil pela Companhia das Letras.

“Por que até agora não prestamos a devida atenção a essa história tão próxima de nós, que está desaparecendo à medida que nossas vidas e mesmo nossas ruas se transformam diante de nossos olhos?” (Testemunhas da China, pág. 444)

A infância de Xinran foi relativamente calma: ela pertencia a classe média alta chinesa, vivia em Pequim e adorava as tranças que sua avó, com quem vivia, fazia sempre em seus cabelos com fitas coloridas. Foi aos sete anos que tudo mudou. Duas semanas após ir morar com os pais em uma base militar perto da Grande Muralha, guardas vermelhos, como eram conhecidos os soldados ligados ao governo chinês, invadiram sua casa e levaram seu pai preso, acusado de ser inimigo do Estado, atuando como “autoridade técnica reacionária”. O motivo era seu pai ser membro da Associação Chinesa de Engenheiros Mecânicos e filho de um funcionário de alto escalão de uma empresa britânica. Os guardas também queimaram livros, móveis que eram heranças da família e brinquedos, segundo eles, símbolos do feudalismo, capitalismo e revisionismo. Ao mesmo tempo, uma garota da vizinhança cortou as tranças da pequena Xinran, pelo penteado ser considerado imperialista e representante da classe burguesa.

Depois da prisão do pai, a mãe de Xinran precisou se dobrar para cuidar dos dois filhos e a vida da família mudou radicalmente, com as refeições diárias restritas a nabos e repolhos cozidos. Como a família estava marcada como “sob investigação” pelo Estado, amigos e vizinhos os ignoravam, e até atendimento médico foi negado a eles. Um tempo depois, sua mãe também foi presa e Xinran e seu irmão foram mandados para um abrigo para crianças cujos pais haviam sido presos, no qual não estavam sob o cuidado de nenhum adulto responsável. A nova escola era formada tanto por filhos de pessoas ligadas à revolução e ao partido, como por crianças de pais considerados inimigos do estado. O último grupo era proibido de participar de atividades extracurriculares por serem considerados “poluídos pelos ideais burgueses” e eram obrigados a assistir aulas de estudos políticos para aprenderem os ideais da Revolução.

Apesar do ambiente hostil, foi nessa mesma escola que um professor mostrou a Xinran uma cabana que guardava uma biblioteca secreta, em que ela passava horas lendo escondida, uma vez que não podia participar de outras atividades com as crianças. Os livros, então, se tornaram seu refúgio, onde ela podia esquecer os insultos e a vida fora da cabana enquanto se concentrava em histórias centenárias. Foi por conta desses dias que, anos depois, Xinran escolheu seguir a carreira de jornalista.

Já adulta, Xinran ganhou destaque no país através do programa Palavras na Brisa Noturna, destinado às mulheres e que foi ao ar pela primeira vez em 1989. No começo, ela trazia debates através de suas próprias vivências, mas poucos meses após o início do programa, começou a receber cartas de mulheres chinesas que contavam suas histórias e desabafavam sobre sua vida de forma anônima. Com o sucesso de Palavras na Brisa Noturna e o crescimento na pirâmide hierárquica, Xinran também começou a fazer pesquisas próprias. Porém, todo o programa acontecia sob a lógica da censura estatal, então nem todas as histórias eram contadas e nem todas as opiniões expressas.

As histórias dos anos em que produziu Palavras na Brisa Noturna, e também de outros momentos, deram origem ao primeiro livro de Xinran, As Boas Mulheres da China. Nele, a jornalista debate a posição da mulher chinesa, em especial aquelas que viveram a Revolução Cultural, através de 15 histórias e realidades diferentes que acontecem em um mesmo contexto histórico e social. Ao longo da história chinesa, as mulheres tiveram a autonomia tirada delas. Antes da revolução, a vida social e política do país funcionava sob influência da filosofia de Confúcio, que colocava a mulher como dependente de um homem; seja do pai, marido ou filho. As únicas funções femininas eram as domésticas e de reprodução, preferencialmente gerando um descendente homem. Apesar da Revolução Cultural ter prometido uma igualdade de gênero e permitido pequenos avanços, como permissão para falar para um público, como exposto pela pesquisadora Samantha Montiel no artigo “Reconocimiento de feminismos periféricos: Interpretando la línea oficial del feminismo en China“, a situação das mulheres não teve uma grande mudança no país. Xinran relata sobre isso em seu livro, contando a história de mulheres que tiveram casamentos arranjados pela revolução com líderes do movimento, foram estupradas em grupos de estudo por membros da Guarda Vermelha e ficaram à margem da sociedade.

“O fogo consumiu tudo: a casa que fazia pouco tempo eu chamava de minha, minha infância até então feliz, minhas esperanças e o orgulho da minha família com sua cultura e seus bens. Deixou-me mágoas ardentes que levarei comigo até a morte.” (As Boas Mulheres da China, pág. 205)

Xinran viveu na China até 1997, quando mudou-se para Londres para fugir da censura do governo e com o desejo de contar a história das mulheres chinesas. Porém, o livro só foi lançado em 2002, após o incentivo de colegas da School Of Oriental and African Studies da Universidade de Londres — na qual é professora — e de outros conhecidos. Mais do que tudo, o que Xinran deseja é registar a história chinesa. Para ela, é de extrema importância que as futuras gerações de descendentes chineses, assim como o mundo ocidental, conheçam a história do país, principalmente aquelas que o governo e a censura tentaram apagar. Foi com esse motivo que a autora escreveu e lançou outros livros, entre eles, Testemunhas da China: Vozes de Uma Geração Silenciosa, de 2008. Nesse livro, Xinran conta a história da geração que viveu a “Era da China Vermelha”, como é conhecido no exterior, ou “Era da Liderança do Partido”, como é chamada dentro do país.

Durante o processo de produção de Testemunhas da China, Xinran entendeu que apesar dos anos e mudanças políticas, os chineses não tinham perdido o medo herdado das opressões e censuras do imperialismo e totalitarismo, e por esse motivo ainda era muito difícil contar suas histórias e vivências até mesmo para seus familiares. Como resultado, a geração mais jovem não conhecia a própria história para além daquilo que foi registrado pelos governos. Por meio da história de pessoas que viveram acontecimentos históricos e que no momento da produção do livro já estavam em uma idade avançada, Xinran registra como a história chinesa não foi apenas formada por líderes do governo, mas em grande parte por pessoas comuns que nunca receberam o reconhecimento ou tiveram suas histórias contadas. Além disso, a jornalista buscou entender como esses acontecimentos históricos afetaram — e afetam — suas vidas particulares, e em como essas pessoas vivenciaram diferentes mudanças políticas e sociais: a queda do imperialismo, a guerra civil, a Revolução Cultural, a abertura chinesa, entre outros.

O mesmo objetivo de contar as histórias que por décadas permaneceram escondidas orientam os outros trabalhos de Xinran. O Que os Chineses Não Comem reúne crônicas publicadas no jornal The Guardian com curiosidades sobre o cotidiano chinês. Em Mensagem de Uma Mãe Chinesa, a jornalista debate a política do filho único, conta a história de tentativas de burlar a lei e de relações interrompidas bruscamente entre mães e filhos. Compre-me o Céu relata a consequência dessa política para as pessoas que nasceram sob esse regime e cresceram em um período de mudanças, quando o capitalismo adentrava no país. Enterro Celestial narra a história de um casal separado pela guerra quando o marido foi enviado à Batalha do Chamado, ou Invasão Chinesa ao Tibete. As Filhas Sem Nome conta a trajetória de três irmãs nascidas em uma pequena aldeia e que se mudam para Nanjing, um centro urbano, em busca de oportunidades. O que todas as histórias têm em comum é apresentar uma China não tão conhecida, formada por pessoas comuns que vivem suas vidas enquanto perpassam diferentes transformações e precisam se adaptar constantemente.

“Se esses testemunhos sobre a dignidade na China moderna forem capazes de fazer com que alguns chineses das gerações mais velhas sinta que suas vidas não foram desperdiçadas, e que as gerações mais jovens sejam convencidas de que os atraentes horizontes e possibilidades da China contemporânea apenas se tornaram possíveis pelos sacrifícios e lutas de seus antepassados, saberei ter feito algo por meu filho e meus futuros netos.” (Testemunhas da China, pág. 25)

Uma das principais referências na área, o pesquisador Nelson Traquina, fala que o jornalismo é o campo em que os acontecimentos são reconhecidos e repercutidos, mas que isso acontece de acordo com as regras da realidade em que o profissional está inserido. Durante os anos que atuou como jornalista na China, Xinran deu espaço e voz para as mulheres no seu programa de rádio, mas não conseguia atuar na totalidade por conta da censura estatal. Quando mudou de país, a jornalista teve a oportunidade de recuperar histórias guardadas, apurar mais informações e contar histórias por muito tempo escondidas. O trabalho de Xinran se mistura e é afetado pela sua vida pessoal, o que em alguns momentos pode afetar os ideais de objetividade do jornalismo, mas soma a pessoalidade e a humanização das histórias contadas. A sua maior contribuição é registrar as memórias de uma geração silenciosa e relatos que, se não arquivados, podem desaparecer junto com as pessoas que viveram períodos de transformações extremas e que marcaram a história. Xinran reconhece essa necessidade e marca sua identidade: tanto como jornalista, quanto como mulher chinesa.

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1 comentário

  1. Só algumas correções. A Xinran mesmo diz que resolveu ir para Londres pois queria “mudar de vida” e saber se conseguiria realizar-se mesmo sem ter um nome de família importante ou sendo famosa. E o primeiro livro dela foi publicado na China (assim como outros) um ano após a publicação inglesa então creio que a censura não teve nada a ver com isso. Ela mesmo diz no “Boas mulheres da China” que teve a ideia de escrever o livro ao lidar com a ignorância dos britânicos (ou ocidentais em geral) ao se referirem às mulheres chinesas.