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Rose Tico merecia mais

Quando Rose Tico eletrocutou Finn, seu herói, para impedi-lo de desertar da nave condenada da resistência no início de Star Wars: Os Últimos Jedi, eu soube que tinha presenciado o nascimento de uma das melhores personagens do universo Star Wars. O amor só cresceu à medida que a ótima construção da personagem pelas mãos do diretor Rian Johnson foi adicionando camadas aos questionamentos do filme e nos mostrou um lado tão falado e relevante para a Resistência, mas que nunca havia de fato sido explorado pelos longas anteriores. Quem assistiu ao segundo filme da nova trilogia do fenômeno idealizado por George Lucas sabe que estou falando da sequência de Canto Bight.

Outro destaque da personagem na telona é o seu último ato no filme: salvar Finn da missão suicida de tentar acabar com uma arma poderosa da Primeira Ordem. A justificativa? “Nós vamos vencer salvando aquilo que amamos, não destruindo aquilo que odiamos”. No mundo mergulhado em ódio que vivemos, se essa não se tornou uma das suas filosofias favoritas do universo Star Wars, sinto-lhe informar que não podemos ser amigos.

Mas também sinto informar que este texto, infelizmente, não vem para exaltar algo que amo (contraditório, eu sei). Eu deveria ter escrito sobre Rose Tico e tudo de bom que ela representa para mim e para milhares de garotas lá fora há muito tempo atrás, mas não o fiz. E agora estou aqui para falar sobre a continuação do desenvolvimento da personagem pelas mãos de J.J. Abrams no filme que fecha não apenas a nova trilogia, mas toda a jornada da família Skywalker, A Ascensão Skywalker, pois acredito que, assim como bater em nazistas, é válido, vez ou outra, falar sobre aquilo que odiamos e que nos causa extrema dor e desapontamento.

Kelly Marie Tran, o racismo e misoginia na internet

O caso de personagens que não só moldam seus atores mas são moldados por eles são um dos meus favoritos em acompanhar histórias. Existe algo de especial em saber que a pessoa está dando muito mais do que seu talento em atuar e seu esforço, que está compartilhando conosco uma energia e espírito que não veríamos em outras situações. Rose Tico nasceu como uma personagem desconfiada de Finn, meio rabugenta e não tão carismática. A escolha da atriz iniciante Kelly Marie Tran para o papel mudou tudo, segundo Rian Johnson, o que o fez decidir fazer alterações na personagem para ficar mais parecida com a sua intérprete.

Rose Tico representa a todos nós, os sem-nomes, com seu entusiasmo e veneração pelos heróis da causa a qual dedica sua vida, o fato de ser uma “ninguém” dentro do movimento, mas ainda assim uma peça essencial não reconhecida para que as engrenagens da revolução continuem rodando. Sua trama é essencial para a convergência de tramas que passam a mensagem central de Os Últimos Jedi: você não precisa ter um sobrenome poderoso ou um legado de apoio para ser alguém e realizar coisas grandiosas. O fato de tudo o que a personagem representa vir com o acréscimo de Kelly ser a primeira atriz não-branca a atuar em um papel de destaque na saga trouxe um novo peso para a franquia e passa uma mensagem poderosa. Seja para o bem ou para o mal.

É preciso ter em mente que Kelly é Rose e Rose é Kelly, muito além do sentindo óbvio e prático desta afirmação. Então quando o ódio, assédio moral e bullying contra ambas, personagem e atriz, começou a invadir as redes sociais e fóruns online após o lançamento do filme porque uma parcela dos fãs viram a decisão de colocar uma mulher vietnamita como protagonista como uma forma de estragar suas infâncias e, ao odiar uma personagem que representa um ideal pregado desde o início pelos mesmos filmes que eles alegam ter passado anos assistindo, ficou muito claro que os ditos fãs andam lado a lado com os mesmos de X-Men: sequer entenderam a verdadeira mensagem daquilo que tanto dizem amar.

Os repetidos ataques continuam até hoje, se estendem também às decisões criativas e rumos tomados por Johnson em seu filme, e apesar da tentativa de criar um local seguro, vulnerável e onde pudesse ser ela mesma em seu Instagram, após receber enxurrada e mais enxurrada de comentários horríveis e até ameaças de morte não demorou muito para que Kelly desativasse sua conta e deixasse a rede social.

Na época, apenas o diretor do filme e Mark Hamill, nosso eterno Luke Skywalker, saíram em defesa publicamente de Kelly. Mais recentemente, durante a turnê de divulgação de A Ascensão Skywalker o ator John Boyega fez um comentário infeliz (pelo qual se desculpou dizendo que havia sido mal interpretado) sobre como algumas pessoas são fracas em se deixar afetar por “comentários negativos” por não serem mentalmente fortes. Junto com as declarações de outros membros do elenco de como ter o diretor do primeiro filme, O Despertar da Força, de volta para dirigir a conclusão os havia feito chorar de alívio, a Disney estava preparando o terreno para o que viria a seguir, o que não deveria ter me surpreendido.

O que algumas pessoas ainda parecem não compreender é que existe um diferença nada sutil entre desgostar e criticar algo e cometer repetidos ataques cheios de ódio contra algo ou alguém. Está tudo bem em não gostar de determinado personagem ou de cada decisão já tomada pelos roteiristas. Não é nada ok, no entanto, invadir as redes sociais destas pessoas para destilar um discurso que fere, prejudica e causa sérias consequências emocionais e psicológicas, além de reforçar estereótipos eurocêntricos, sexistas e de que na cultura pop não há lugar para qualquer tipo de minoria.

Em entrevistas, Kelly tem sido muito aberta sobre os efeitos que o discurso de ódio teve em sua vida e em sua pessoa. Um tempo depois de desativar seu Instagram a atriz escreveu um artigo poderoso para o The New York Times, onde compartilhou as dificuldades de ser uma mulher com descendência asiática em um país como os Estados Unidos.

“It wasn’t their words, it’s that I started to believe them. (…) I believed those words, those stories, carefully crafted by a society that was built to uphold the power of one type of person — one sex, one skin tone, one existence”.

“Não foram suas palavras, é que eu comecei a acreditar neles. (…) Eu acreditei nessas palavras, nessas histórias, cuidadosamente elaboradas por uma sociedade que foi construída para manter o poder de um tipo de pessoa — um sexo, um tom de pele, uma existência. 

Atenção: o texto a seguir contém spoilers de Star Wars: A Ascensão Skywalker.

A ascensão do ódio: como falhar com uma personagem

E é tudo isto que nos traz para o motivo deste texto: as decisões tomadas para contar o último capítulo da saga Skywalker não incluíram dar continuidade à trama de Rose Tico ou de sequer dignar um tempo de tela maior do que de meros figurantes para a personagem. Conforme a revista online norte-americanda Slate, a personagem de Tran conta com um tempo de tela equivalente a 1 minuto e 16 segundos, se incluirmos suas aparições como mero pano de fundo e não apenas as cenas em que ela tem falas. Após reduzir a quase zero a presença dela do material de divulgação (todos os trailers e comerciais de TV mostraram repetidamente a mesma cena), e supostamente removê-la de materiais promocionais como camisetas, mochilas e afins, durante o filme o espectador é levado a se lembrar mais da presença do personagem novato do ator Dominic Monaghan, Beaumont Kin, que ganhou seu papel no filme graças a uma aposta com J.J. Abrams (sim, é isso mesmo) do que de Rose Tico.

A confirmação de que a atriz participaria do longa veio como uma vitória para aqueles que se viram horrorizados com o que ela precisou enfrentar. A expectativa era de que, pelo menos, a personagem recebesse uma trama durante o filme. Aparentemente nossas expectativas eram muito altas. Porque é isso que acontece: Rose Tico sequer tem uma trama dentro da história. Sequer foi lhe dada a oportunidade de ter uma história que pudesse ser falha, mal escrita ou apenas ruim. Se você piscar pode perder as aparições dela ao fundo e suas cinco falas. Nada justifica tal tratamento. Se o problema era encontrar espaço para dar destaque à personagem em meio a tantas outras tramas e amarração de pontas soltas, dou uma solução para os roteiristas: ao negar o convite de Finn para viajar com ele, Rey (Daisy Ridley) e Poe (Oscar Isaac) em busca de um artefato com a desculpa (esfarrapada) de que Leia (Carrie Fisher) gostaria que ela estudasse as novas naves da Primeira Ordem/Império e encontrasse suas fraquezas, não seria adequado reservar o momento, mais a frente no filme, em que a Resistência debate como destruir tais naves para que Rose apresentasse sua solução e fosse um pivô central para ajudar na batalha final? Ainda não seria o tratamento ideal para uma personagem que foi colocada em lugar de destaque anteriormente, mas seria muito melhor do que aquilo que foi apresentado.

Também é por meio das informações liberadas pela Disney que ficamos sabendo que agora Rose é líder do setor de Engenharia Mecânica da Resistência. Sua evolução dentro da Resistência não parece ser digna de menção, e o roteiro faz um esforço enorme para nos fazer esquecer todo o trabalho que ela desempenhou durante o último filme, seja para renovar a esperança da revolução ou mostrar para Finn o que verdadeiramente significa ser um rebelde. Além disso, aonde foram parar as interações entre Rey e Rose que Daisy Ridley e Tran estavam tão animadas para que víssemos? Que fim levou a trama de “melhores amigas” entre as duas?

“(…)  I existed only in the background of their stories, doing their nails, diagnosing their illnesses, supporting their love interests — and perhaps the most damaging — waiting for them to rescue me”.

“(…) Eu existia apenas no fundo de suas histórias, fazendo suas unhas, diagnosticando suas doenças, apoiando seus interesses amorosos — e talvez o mais prejudicial — esperando por eles me resgatarem”.

De quem veio a decisão que levou a esta covardia (sim, o que fizeram com Rose e Kelly foi covarde) provavelmente nunca saberemos, mas precisamos estar cientes de qual mensagem está sendo transmitida com isto.

Quando se trata de trolls e nerds escondidos pela privacidade de um computador sabemos que eles podem não ser muitos, mas são muito altos em seus discursos e podem contaminar as coisas a ponto de ter todo o destino de uma personagem modificado para agradá-los e evitar que “suas infâncias sejam destruídas”. Ao dar ouvidos a esta parcela odiosa do fandom, a Disney valida todo o seu ódio e preconceito, além de passar um recado perturbante em pleno 2019, ano de lançamento de A Ascensão Skywalker: a experiência e representatividade das mulheres, especialmente das não-brancas, é menos importante que o ego, as lágrimas masculinas e a sua preciosa bilheteria.

Não sou ingênua a ponto de achar que a conversa sobre diversidade tenha alcançado um ponto em que se torna mais relevante que a conversa sobre lucros e vendas. Não quando se trata de uma empresa como a Disney, uma das maiores do mundo e que emplacou mais de três filmes com as maiores bilheterias de 2019. Ainda assim, a indignação com tal traição e a mensagem que deixa para as futuras gerações de meninas é uma só.

No fim do dia, eles não escutaram a própria mensagem dos filmes que produzem — exatamente como os ditos fãs — e isto não é só triste como preocupante. Todas as facetas da esperança, o esforço para não deixar a opressão fascista e a raiva vencer, o triunfo do amor sobre o ódio deixados de lado, esquecidos ao fundo, assim como Rose Tico e boa parte dos personagens asiáticos no entretenimento.

Ainda assim, podemos tirar algo positivo desta situação: tratem as pessoas com gentileza, falem mais alto sobre aquilo que amam do que sobre o que odeiam e nunca esqueçam a mensagem de Star Wars: rebeliões são construídas com esperança, e amor. Persistiremos.


** A arte em destaque é de autoria da editora Ana Luíza. Para ver mais, clique aqui!

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2 comentários

  1. Ai, cara, como meu coração ficou partido com esse artigo. Quanto mais a gente lê sobre o desastre que foi esse filme, mais a gente se decepciona. Primeiro, com a jornada da Rey, que estava se tornando independente e no final orbita inteiramente ao redor dos Skywalkers. E, agora, com essas infos adicionais sobre cenas que foram filmadas com a Kelly… Só posso dizer que o meu ranço pelo JJ triplicou. O que eles fizeram com as personagens femininas em prol dos infância perdida foi covarde, mas não é surpreendente vindo de homens brancos do grande império de Hollywood.

  2. Saudações!
    Só posso concordar com seu artigo e também ficar P* da vida com o desenvolver das personagens femininas nos últimos dois filmes. Rose, Rey, Zorii Bliss surgem como uma esperança de força feminina ao lado de Leia Organa, mas são “nubladas” pela insistência em renomear Darth Sidious como o “Grande Vilão de Star Wars”. Até mesmo Leia parece enfraquecida numa trama que não redime a família Skywalker, mas dá um placebo no lugar da cura de todas as mazelas sofridas e causadas por eles.
    Quando li sobre as mensagens de ódio contra a atriz Kelly, fiquei ainda mais decepcionada sobre os rumos da nova trilogia e sua repercussão aqui fora. As pessoas estão se levando muito a sério. Estão falhando em sua missão de vida e misturando suas fantasias com o mundo real, crendo que palavras de cunho sexista, racista, homofóbico, xenofóbico vão ser a solução para o equilíbrio que buscam.
    Todos são iguais sob o sol, mas existem alguns que são mais que os outros.
    A milionária indústria do cinema é malvadamente seletiva quanto às estrelas que ela quer ver brilhar em seu firmamento e tem um bom número de pessoas apoiando essa ideia.