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Eu sou Stela do Patrocínio, muito bem patrocinada

Reino dos Bichos e dos Animais é o Meu Nome, única obra publicada de Stela do Patrocínio, foi finalista do prêmio Jabuti em 2002, mas hoje faz parte dos vários livros que, apesar de sua qualidade e importância, estão na lista dos esgotados. Entretanto, um de seus poemas foi objeto de análise de uma das questões do Enem de 2018, fazendo com que seu nome, mesmo de forma tímida, voltasse a circular.

Praticamente tudo o que se sabe sobre a poeta é fruto de suposições. Nascida em 9 de janeiro de 1941, ela dizia ser solteira, doméstica por profissão, com instrução secundária e, mais importante, apaixonada por leite condensado, Coca-Cola, biscoito de chocolate, caixa de fósforo e óculos escuros. Aos 21 anos foi internada no centro psiquiátrico Pedro II, no Rio de Janeiro, diagnosticada com personalidade psicótica e esquizofrenia; em 1966 é transferida para a Colônia Juliano Moreira, onde vive por 30 anos. Passou grande parte de sua vida isolada, sem que qualquer pessoa a procurasse, sem receber qualquer visita, e morreu em 1992, com uma perna amputada e sem vontade de falar ou de comer.

“As pessoas ficam reduzidas a um amontoado, sem formas e sem rosto. O uniforme é apenas um símbolo da real uniformização da impessoalidade. O tempo é o tempo da morte. O tratamento dito científico se reduz ao controle dos corpos e ao enquadramento, pela violência, daqueles que ousam desafiar a ordem destas estruturas que se assemelham aos campos de concentração nazistas. A antiga Colônia chegou a ter 7.700 pacientes amontoados.” (p. 14)

Os poemas de Stela chegaram até nós através de gravações que mais tarde foram transformadas no curta Stela do Patrocínio: A Mulher Que Falava Coisas, produzido e dirigido por Marcio de Andrade, vencedor do prêmio de Melhor Documentário no Festival de Cinema de Pernambuco e na mostra Curta Santos. Porém sua letra e seus escritos, que tiveram papelões como morada, se perderam ao longo do tempo e por causa da falta de olhar.

A poeta viveu e escreveu sobre a dor, sobre ser adoecida, sobre o gozo, os animais, que também são ela, e sobre as contradições da sociedade. Suas experiências estão presentes em todas as páginas; seja de forma mais subjetiva, como quando diz que “lugar de cabeça é na cabeça” ou quando transforma o tédio em “todo dia dá segunda terça quarta quinta sexta sábado domingo”, como de forma mais objetiva, quando nos conta do dia a dia no hospital, sobre a solidão, sobre aquilo que escuta de médicos e enfermeiros, quando fala sobre os procedimentos a que foi submetida.

“Estar internada é ficar o dia todo presa
Eu não posso sair, não deixam eu passar pelo portão
Maria do Socorro não deixa eu passar pelo portão
Seu Nelson também não deixa eu passar lá no portão
Estou aqui há vinte e cinco anos ou mais” (p.55)

Organizado por Viviane Mosé e lançado em 2001 através de uma parceria da Azougue Editorial e do Museu Bispo do Rosário, Reino dos Bichos e dos Animais é o Meu Nome consiste na transposição da voz de Stela; seu falatório é transformado em livro que, estruturado por repetições, sejam elas temáticas e/ou literais, adquire oito partes.

“Eu gosto mesmo é de escrever
De fazer número
Em papelão
Continuar repetindo o que eu acabei de fazer no dia
Quando eu tô com vontade de falar
Tenho muito assunto muito falatório
Não encontro ninguém pra quem eu possa conversar
Quando não tenho uma voz mais
Não tenho um falatório
Uma voz mais
Vocês me aparecem
E querem conversar conversar conversar” (p.139)

Segundo Mosé, a primeira parte, intitulada “Um Homem Chamado Cavalo é o Meu Nome”, é dedicada a sua situação no hospital, “é onde se depara, enxerga, localiza o hospital, sua doença, sua prisão, sua condição: ficar pastando” (p.29), aqui seus poemas registram um lugar e uma condição. Na segunda parte, “Eu sou Stela do Patrocínio”, muito bem patrocinada, a poeta adquire nome, individualidade e começa a nos contar a sua história; o que continua fazendo na quinta parte, “A Parede Ainda Não Era Pintada de Tinta Azul”, quando acrescenta o sexo, a violência e a maternidade. As partes III e IV concentram os textos mais significativos de sua poética; em “Nos Gases Eu Me Formei e Tomei Cor” ela fala sobre a vida e a existência, já em “Eu Enxergo o Mundo” ela retoma o assunto, mas abordando mais profundamente a questão social. Na parte sexta parte, “Reino dos Bichos e dos Animais é o Meu Nome”, Stela fala sobre a sua condição usando a metáfora dos bichos, se dá um novo nome, discorre sobre a liberdade e volta a tratar da vida no hospital. A sétima parte, “Botando o Mundo Inteiro pra Gozar e Sem Gozo Nenhum”,  tem como temas a família e o isolamento que nem a palavra consegue tirar. Já o objeto da última parte, “Procurando Falatório”, é a própria palavra, é sua própria voz.

Stela produzia uma espécie de dobra sobre si, ela falava de sua condição como quem se vê de fora, como quem assiste, como quem é espectadora de sua prisão e, exatamente por isso, parece entender a importância de seu relato. Ela era sua própria alteridade diferente, ela olhava para si e para o mundo com perplexidade. Ela fala de um corpo que é mais do que o físico, ele é, em sua obra e em sua vida, limitador; ele molda o “pertencimento”, esse tal encaixe na sociedade, ele determina a forma como alguém é visto, ele dita o que é ou não permitido. Assim, o corpo, seja por doença, por condição social, por raça ou por gênero, também é prisão, também é portão, também sufoca.

Stela questiona a razão, os lugares comuns e as ordens que recebe. Ela percebe que não há lugar para todos, que a família vai muito além do amor e do sangue, ela aponta a parte que a política, os títulos e a violência tem na formação desse núcleo que se diz tão sagrado.

“Eu sobrevivi do nada, do nada
Eu não existia
Não tinha uma existência
Não tinha uma matéria
Comecei a existir com quinhentos milhões de anos e quinhentos mil anos
Logo de uma vez, já velha
Eu não nasci criança, nasci já velha
Depois é que eu virei criança
E agora continuei velha
Me transformei novamente numa velha
Voltei ao que eu era, uma velha” (p.80)

A repetição, seja de temas, seja de palavras ou até frases completas, enfatizam aquilo que ela quer seja lembrado. As palavras de Stela jorram, seus versos são livres, seu falatório é pesado. O leitor encontra nessa recorrência o desconforto de uma realidade à margem, de uma crítica à razão, de uma arte que encontra seu sentido na falta dele, que encontra sua inspiração naquilo que a sociedade costuma excluir. Nas palavras de Stela o leitor percebe uma vida que não quer e não pode ser esquecida, ele encara uma existência que, assim como tantas outras, luta para ser percebida apesar do muro.

“O que a razão quer é, desde o seu nascimento platônico, rejeitar uma parte da vida, a que muda, a que delira, a que morre. O que a razão quer é produzir um mundo de identidades e verdades, um mundo previsível e claro. Em consequência, tudo é escuro, imprevisto, móvel, múltiplo, é excluído, transposto para o lugar do erro, da ilusão, do mal. É nesse espaço que se insere a loucura. E muitas vezes a arte.” (p. 22)

Ler sua poesia é entrar em contato com a subjetividade de tudo aquilo que temos como verdade, é também olhar e ouvir muitas outras vidas e realidades. É encarar o que os muros tentam esconder e o que a névoa da nostalgia tenta anular. É enfrentar o desconforto e se encantar com o que muitas vezes escapa do entendimento e da razão, mas que atinge profundamente a parte de nós que é puro sentimento.


** A arte em destaque é de autoria da editora Ana Luíza. Para ver mais, clique aqui!

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