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Sunmi: o florescer de uma “nova” carreira no K-Pop

Visuais chamativos, músicas cativantes e coreografias bem elaboradas são alguns dos elementos que se destacam quando falamos em K-Pop. Esse estilo musical, que já possui status de subcultura, tem origem sul-coreana e começou a ganhar evidência internacional a partir do final da década de 1990. No entanto, por trás do glamour e do mundo mágico que essa indústria parece vender, há também uma série de controvérsias envolvendo contratos excessivamente rígidos, exploração física e emocional de artistas, liberdade criativa limitada, etc.

Porém, vale ressaltar que esse tipo de situação está longe de ser uma exclusividade da música pop sul-coreana. Em 2016, o grupo estadunidense Fifth Harmony chamou a atenção após um vazamento de áudio no qual a integrante Lauren Jauregui comenta que a gravadora tomava decisões que as tornavam “literalmente escravas”. Em 2013, Minami Minegishi do grupo japonês AKB48 levantou sérias questões sobre a rigidez das gravadoras de seu país, após raspar o próprio cabelo como forma de punição por namorar. Nesse sentido, destacamos que embora a música sul-coreana esteja longe de ser perfeita, muitas de suas problemáticas são comuns a outras indústrias de entretenimento.

Por mais que as questões acima já não sejam um grande segredo, sabemos que são poucos os artistas capazes de se posicionar de maneira crítica quanto ao meio que estão inseridos. Até mesmo por questões contratuais, não é sempre que vemos artistas explorando as problemáticas associadas à vida como celebridade ou outros tópicos sensíveis da indústria. No K-Pop, essa posição delicada e difícil tem sido conquistada pouco a pouco por Sunmi.

Lee Sun-mi (이선미) iniciou sua carreira no K-Pop em 2006 como parte do grupo Wonder Girls. O grupo era administrado pela JYP Entertainment, até então uma das três maiores empresas do K-Pop. Enquanto parte do grupo, Sunmi logo alcançou o sucesso com singles comoTell Me, So Hot e Nobody“, sua estreia como artista solo aconteceu apenas em 2013 com a canção 24 Hours. Nessa época, Sunmi ainda fazia parte do grupo Wonder Girls e seguia gerenciada pela JYP.

A grande reviravolta na carreira da cantora veio em 2017 quando ela optou por não renovar com a JYP e assinou contrato com a MakeUs Entertainment, uma empresa bem menor e que até então não gerenciava nenhum artista de grande sucesso. A princípio, a decisão soou controversa já que para muitos fãs era difícil imaginar Sunmi fora da JYP ou com êxitos em uma empresa tão pequena. No K-Pop, o porte da empresa que gerencia um artista tem grande influência sobre seu sucesso. Grupos como BTS, por exemplo, que mesmo vindo de uma empresa pequena obtiveram bons resultados, são uma exceção. O fato é que após assinar com a MakeUs Entertainment, Sunmi passou a compor suas músicas, definir os conceitos de cada clipe e tomar decisões importantes sobre sua própria carreira.

“Gashina”

Sunmi

Quando o retorno de Sunmi foi anunciado com a faixa Gashina (가시나), muito se questionou a respeito dessa escolha. Em coreano, o significado mais popular de gashina é como gíria levemente depreciativa para se referir a uma garota. Em Kyeongsangdo e Busan, partes da Coreia do Sul na quais essa gíria surgiu, o termo não é considerado ofensivo. No entanto, na medida em que gashina se espalhou por outras partes do país, a gíria ganhou novos sentidos e pode ser vista como algo ofensivo, principalmente na capital Seul. A sul-coreana Ashley do canal Joy Entertainment chegou a explicar em um vídeo que gashina não chega a ser tão ofensiva quanto o termo bitch do inglês, mas possui conotações negativas e parece uma escolha estranha para a música de uma artista pop como Sunmi. Entretanto, quando Gashina foi finalmente lançada aprendemos uma importante lição sobre tudo que envolve Sunmi: há sempre várias camadas de sentido e nada é o que parece à primeira vista.

Sunmi explorou a junção de gada (가다) + shina (시나), deixando o seu gashina soando como “você está indo?”. Ao longo da música, Sunmi segue construindo outras relações de sentido, de modo que também podemos entender “Gashina” como os espinhos de uma flor, algo reforçado pelo clipe e a coreografia do single.

Na música, a cantora diz:

“Você murchou, eu floresci
E acabou
Mesmo se você quiser voltar
Parece que você vai ficar bem sem mim agora
Mas não importa o quanto eu pense sobre isso
Tem certeza que você não é louco?”

É quase como se Sunmi não entendesse porque está sendo deixada, ao mesmo tempo em que diz aceitar essa situação. No clipe, para cada visual utilizado Sunmi nos mostra uma emoção diferente. Assim, assistimos um mistura de alívio, confusão, tristeza e até alegria após o fim de um relacionamento. Muitos fãs questionaram se “Gashina” não seria a forma de Sunmi dar adeus para a sua longínqua relação com a JYP. Entretanto, independentemente de qual seja a sua interpretação para a música, “Gashina” representou o início de uma nova era para Sunmi e talvez até mesmo para solistas no K-Pop.

“Heroine”

Sunmi

O segundo lançamento de Sunmi trouxe mais uma faceta da cantora e revelou que estávamos acompanhando a construção de algo maior. Divulgado em janeiro de 2018, Heroine é na verdade um prequel, ou seja, uma história que antecede “Gashina”. Na música, Sunmi fala sobre o homem que a desapontou, mas sem que isso soe como um lamento. Nas palavras de Sunmi não há nenhum pedido de reconciliação ou mudança, a heroína nesta música apenas aceita o final triste e segue adiante:

“Faça o que você quiser
Mesmo se você for ruim
E me deixar triste
Você precisa ser você mesmo
Mesmo que eu não esteja me sentindo bem
E que seja um final triste
O show deve continuar”

Durante uma entrevista para a revista Elle, Sunmi contou que começou a escrever a música após assistir o filme 9 ½ Semanas de Amor (1986) do diretor Adrian Lyne. Na mesma entrevista, Sunmi ainda contou que foi influenciada pelo comentário de um fã que após o lançamento de “Gashina” disse: “acho que existe um gênero (musical) Sunmi”. A cantora relatou que essa frase penetrou fundo em seu coração, se constituindo como um foco para sua carreira daí em diante.

No clipe de “Heroine”, vemos Sunmi saindo do mesmo carro que partiu sem ela em “Gashina” e vivendo uma relação conturbada com um rapaz. A cantora segue nos contando essa história e se esforçando nisso mesmo quando não há audiência, aspecto evidenciado com Sunmi cantando para salas vazias. Porém, a cena mais interessante de “Heroine” é provavelmente quando Sunmi parece se preparar para dar a volta por cima, mas acaba rolando pelo chão. Esse mesmo movimento estava presente em “Gashina”, quando vemos Sunmi rolando de um cenário ao outro.

Essas cenas acabaram se tornando momentos inusitados, afinal, não é todo dia que vemos estrelas da música caindo e rolando em seus próprios clipes. Entretanto, esses momentos também foram convertidos em marcas importantes do trabalho de Sunmi, como se ela escolhesse continuar mesmo quando as coisas não vão bem. Nesse sentido, Sunmi já começava a se estabelecer na contramão de algumas das convenções mais comuns ao universo da música e relacionamentos. Em “Heroine”, temos uma mulher que está acompanhada e inserida numa relação afetiva, mas esse momento é retratado numa atmosfera mais fria e com uma letra mais triste do que a maioria das canções de amor. Ao passo que em “Gashina”, vemos essa mulher ser deixada para trás, mas ao invés da tristeza ou da fragilidade que costumamos ver retratadas em canções de término, Sunmi nos dá uma explosão de cores e força.

“Siren”

Sunmi

Em Setembro de 2018, Sunmi encerra sua primeira trilogia de clipes com o lançamento do single Siren e o mini-álbum WARNING. A música novamente trás pelo menos dois significados no título: sirene como instrumento utilizado para alarme e sirene da mitologia grega. O primeiro sentido é reforçado com o uso de sirenes no clipe, enquanto que o segundo sentido vai além do apelo visual e conta com o apoio do estilo dos vocais de Sunmi.

Na mitologia grega, as sirenes originalmente pareciam uma mistura de mulher com pássaro, porém essas características foram minimizadas até que chegássemos numa forma que se parece mais com o que chamamos de sereia (mito da Idade Média). Nas histórias gregas as sirenes costumam ser retratadas como criaturas sedutoras e perigosas, que usavam seu canto para atrair as embarcações até as rochas. Nesse sentido, o canto de uma sirene representava um mal presságio, uma fantasia sedutora, mas fatal. No single, a cantora se apropria do imaginário das sirenes para nos alertar que a bela Sunmi de nossas fantasias não existe:

“Você sabe
Que eu vou te machucar
O lindo eu de suas fantasias não existe
(Não consegue ver garoto?)

Suma da minha frente
Não se aproxime, garoto
(Mesmo que eu esteja triste, não vou chorar)”

No início do clipe, vemos Sunmi se arrumando e prestes a espirrar. Após o espirro, Sunmi olha para uma janela (que neste caso é também a câmera) e ouvimos a primeira sirene do clipe. A música começa e vemos uma versão diferente de Sunmi sair de uma banheira cantando. Durante todo o clipe, a primeira Sunmi que vimos parece tentar escapar de versões mais idols de si mesma. O termo idol é utilizado em diversos países da Ásia para descrever cantores que foram “fabricados” por uma empresa. No K-Pop, o idol muitas vezes representa uma fantasia criada para vender música. Não por acaso, o termo costuma ser estigmatizado como o oposto do que seria um artista.

Sabemos que há muito criticismo infundado, desconsiderando a existência de idols que produzem e possuem comprometimento artístico com o trabalho que realizam. Ainda assim, o idol representa um ideal de perfeição inalcançável e sujeito a frequentes cobranças cada vez que aquela figura pública se afasta da fantasia vendida. Sunmi é uma artista que está há 13 anos em uma indústria na qual o prazo de validade, especialmente para mulheres, não costuma nem chegar a uma década. Quando levamos esses fatores em consideração, “Siren” que inicialmente parecia uma canção de término, na qual a mulher assume toda a culpa pela situação, começa a soar como um alerta de Sunmi para si mesma sobre os perigos de se agarrar à fantasia de um idol.

O clipe é repleto de belos momentos que se analisados com calma podem não parecer tão belos assim. Um exemplo disso é a relação que a cantora constrói com flores, símbolo usado desde “Gashina” para se referir a própria Sunmi. No clipe, vemos esses elementos presos em gaiolas. Sunmi segue visualmente impecável, mas há claros indícios de que ela parece se sentir aprisionada de algum modo. É possível fazer diversas leituras de todos os elementos que Sunmi usa ao longo da trilogia, mas o que fica de mais marcante é como Sunmi se mostra atenta com relação a indústria em que está inserida.

“Noir”

Sunmi

Em 2019, o retorno de Sunmi foi anunciado com o apoio de um verbete de dicionário para o termo noir:

  1. Palavra em francês que significa preto
  2. Uma série representando mistério, violência e perigo. Também sobre cinismo e fatalismo. Em relação às pessoas, isso significa perigosamente sexy, misterioso, sombrio, ilusório e sedutor.

A partir daí, Sunmi iniciou a divulgação de uma série de imagens emolduradas como postagens do Instagram. Nas fotos, Sunmi sempre aparecia com visuais deslumbrantes, porém, quando o clipe foi finalmente lançado o que vimos foi um mergulho crítico no que havia por trás daquelas fotos.

O início do vídeo é marcado por Sunmi inerte enquanto um bolo de aniversário queima na sua frente. Ao invés de apagar o fogo, se afastar ou ter qualquer outra atitude condizente com a situação, Sunmi pega o celular e inicia uma live para compartilhar o acontecimento. Esse tipo de comportamento persiste por todo o clipe enquanto Sunmi parece obcecada em produzir conteúdo para as redes sociais e comer pequenos doces em formato de coração.

Musicalmente, “Noir” é um synthpop levemente sombrio. A letra é ambígua o suficiente para que não sejamos capazes de dizer de que tipo de relacionamento Sunmi está falando. Você pode interpretar “Noir” como uma música de término, mas há também quem acredite que Sunmi está cantando para si mesma.

Outro ponto importante é o fato de que, em seus lançamentos anteriores, uma das marcas registradas de Sunmi eram seus momentos de explosão com muitas emoções sendo transmitidas através de danças livres ou coreografias bem elaboradas. No entanto, a Sunmi de “Noir” não parece sentir nada.

A cantora tira foto com flores, embora pareça ser alérgica a elas; finge ter um namorado e fazer viagens interessantes; faz o desafio da faca entre os dedos que dominou as redes sociais há alguns anos atrás e até mesmo finge uma tentativa de suicídio. Em meio a tudo isso a única coisa que parece atrair o interesse da artista são os doces com formato de coração, mas mesmo cercada de doces Sunmi segue apática enquanto prepara uma nova situação de risco para expor em suas redes sociais.

Sunmi explicou que estava curiosa para saber como o noir se aplica em nossa vida cotidiana. Em entrevista para a Billboard a cantora explicou que:

“Dizem que há mais e mais mortes a cada ano com pessoas tirando fotos e gravando vídeos em locais perigosos, a fim de obter mais ‘curtidas’ e ‘inscritos’. Para mim, isso é ‘noir’. Embora noir seja um gênero de filmes, eu não queria definir essa palavra numa categoria. Eu queria mostrar que os problemas mencionados acima também poderiam ser considerados noir.”

“Noir” é diferente de tudo que Sunmi já havia feito em sua carreira, mas também o que já se esperava da cantora: ambiguidade, muitas interpretações possíveis, estética impecável e um trabalho audiovisual que os fãs podem descobrir diferentes nuances a cada vez que assistem.

“Lalalay”

Sunmi

Lançada em 27 de agosto, Lalalay é o trabalho mais recente de Sunmi. O nome da música é na verdade uma estilização de Nalari (날라리), gíria coreana geralmente utilizada para se referir a um tipo de pessoa que vive em festas, não leva nada a sério e pode ser visto como uma ofensa em determinados contextos. Como já se esperava da cantora, Sunmi deu novos sentidos para esse termo. Ao longo da faixa, Sunmi diz que:

“Porque se o clima está bom, eu estou bem
Se eu sou criticada até desmoronar em pó, eu estou bem
E daí? Não importa o que você esteja fazendo
Você sabe que eu estou bem
Você sabe que eu sou malcriada
mas eu não sou uma lalalay
E se eu sou, o que é que você vai fazer sobre isso?”

O primeiro duplo sentido podemos perceber ainda no instrumental tocado no início da faixa. A base de “Lalalay” é feita ao som de um taepyeongso (태평소), um instrumento de sopro da música tradicional coreana, introduzido no país durante o período da Dinastia Goryeo (918-1392). Sua presença na música não é apenas uma questão som e ritmo, o taepyeongso reforça o título da canção, uma vez que, o instrumento também é popularmente conhecido como nallari.

Ao final da canção, no entanto, Sunmi faz uma separação silábica que nos permite entender “Lalalay” de uma outra forma:

“Vou te levar para o alto, alto, mais alto
Não precisa apertar o cinto
Se nos pegarem
Então podemos apenas nalla-lay”

Ao enfatizar a separação dessas sílabas, Sunmi faz o termo soar como o verbo nalla (날라) que significa voar. Essa associação é reforçada em todo o clipe com o uso de borboletas, a coreografia e algumas cenas que se passam num avião. No vídeo, vemos também um grupo de pessoas que acompanham e analisam cada passo de Sunmi, seja para criticá-la ou para copiar as ações da cantora.

Em meio a tudo isso há ainda um debate levantado pelo clipe que não sabemos ao certo se fazia parte dos planos da cantora. No clipe, vemos diversas bonecas em tamanho real sendo dispostas em contraposição à própria Sunmi. Alguns coreanos acharam que Sunmi poderia também estar deixando suas próprias críticas com relação a polêmica liberação de importação de bonecas sexuais para a Coreia do Sul. Atualmente, há uma petição com mais de 4 milhões de assinaturas pedindo que o governo sul-coreano reveja a decisão de junho que permite a importação das bonecas. Para algumas pessoas, Sunmi, intencionalmente ou não, corrobora com a tese de que esses produtos poderiam ser usados por criminosos para produzir bonecas com o rosto de celebridades ou parentes próximos, além do fato de que não há nenhum indício que a venda desses produtos pode reduzir os crimes sexuais como seus defensores alegam.

Seja como for, Sunmi atingiu um status no qual todos os seus lançamentos produzem debates intensos sobre sua estética e comentários implícitos sobre temas que poucas vezes vemos no K-Pop. Além disso, esses debates tem se tornado cada vez mais interessante se levarmos em conta que Sunmi incentiva tais conversas, sem subestimar o seu público ou limitar suas análises. Sunmi até dá algumas dicas, comenta inspirações, mas a verdade é que nunca vemos ela validando determinada interpretação como única ou correta.

Recentemente, Sunmi comentou em entrevista para a Billboard que seu grande sonho é estabelecer o gênero musical Sunmi. A cantora admite que é um sonho a longo prazo, mas que espera um dia ser capaz de inspirar as pessoas e estabelecer um estilo com canções que assim que tocadas as pessoas pensem: “Isso é música Sunmi”. Analisando o que foi feito até aqui, Sunmi claramente ainda tem um longo caminho para percorrer, mas já se sobressai como alguém que cresceu no mundo idol, experimentando de perto todas as suas controvérsias e dificuldades, e de algum modo aprendeu a tirar desses mesmos problemas seu material criativo.


** As imagens que ilustram o texto são de autoria da colaboradora Natália Dias

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7 comentários

  1. AMEI!
    Q post maravilhoso, eu curto kpop e mt coisa foge de mim pq n conheço a cultura, sentia no fundo a beleza desses trabalhos dela mas agora tenho propriedade pra falar. Mt Obrigada