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BTS: 3 mixtapes para conhecer os rappers do grupo

No universo do k-pop, a canção costuma ser apenas um dos elementos desta forma de arte audiovisual. Conciliando música, visual e coreografia, as performances trabalham sobre um conceito que une essas áreas para gerar um produto no qual, mesmo que os elementos sejam compreensíveis e completos por si só, quando unidos, passam a fazer mais sentido. A coerência entre os elementos faz com que eles sejam ressaltados individualmente, quando há coesão e o trabalho é bem executado, claro. Por ser tão complexa, normalmente a produção artística envolve conceitos para fazer a liga entre música, visual e coreografia, comumente guiados pelas empresas que gerenciam os grupos.

Embora hoje seja cada vez mais comum que os grupos de garotos ou garotas tenham uma participação mais ativa na composição, produção e letras das músicas dos grupos, ainda é raro que idols — o tipo de grupo que normalmente conhecemos como k-pop — tenham total independência na produção de seus álbuns em grupo. Até mesmo nos trabalhos solo essas interferências podem acontecer — em especial quando o objetivo dessa arte é comercializar a música juntamente com vídeos e performá-la em programas de competição musical.

Mesmo que essas características recorrentes da indústria coreana não diminuam o valor artístico de suas produções, o que acaba acontecendo é que os álbuns — mesmo os de artistas solo — costumam se render ao que o gênero pede: coreografia, vídeos musicais e performance. Então, o trabalho se torna, de certa forma, resultado de um esforço coletivo no qual o próprio cantor ou rapper, a empresa, coreógrafos, produtores de vídeo, diretores artísticos e toda uma grande equipe se envolvem diretamente para que a visibilidade do produto seja garantida.

BTS

BTS, o grupo que vem quebrando paradigmas, recordes e barreiras e tornando a música coreana ainda mais popular pelo mundo, foi originalmente estruturado para ser porta-voz da juventude. Desde o começo da carreira, em 2013, o grupo vem falando abertamente sobre dilemas muito caros à juventude: o sistema de ensino, as dificuldades e contradições da nova geração, as expectativas das diferentes gerações sobre o futuro dos jovens, a própria relação com o futuro e claro, aquela coisa humana chamada amor, que costuma ser recorrente em qualquer gênero de música, sobretudo no pop. O BTS também foi um dos pioneiros em ter, desde o princípio, seus integrantes ativamente envolvidos em grande parte produção, composição e letras das músicas. E grande parte do sucesso do grupo nessa empreitada se deve não só ao talento e ao esforço coletivo de todos, mas também à experiência anterior de alguns dos membros no cenário do hip-hop.

Para os pouco familiarizados com o pop coreano, é bom lembrar que o gênero k-pop, em especial nos grupos idol, também se caracteriza por incluir entre seus membros artistas que assumem o cargo de rappers para acrescentar camadas de variedade musical e performática nos atos.

Anteriormente ao seu ingresso no grupo, Min Yoongi, conhecido no BTS como Suga, performava na cena underground como o rapper Gloss, e Kim Namjoon, hoje RM, respondia pelo nome de Runch Runda (entre outros nomes artísticos) e já era um prodígio do rap. Neste cenário, os dois se envolviam com a produção de suas músicas, composição das melodias, escolha dos beats e, claro, com a criação das letras. Afinal, a sigla R.A.P. representa ritmo e poesia, e bons rappers buscam se desenvolver em ambas as habilidades. Mais tarde, Jung Hoseok, recrutado para o grupo como o dançarino principal, acabou acumulando a função de rapper. Mesmo não tendo a experiência dos outros rappers, j-hope, como hoje é chamado, trouxe seu contato com os clássicos do hip-hop, que eram plano de fundo para sua dança, como base da música que viria a criar juntamente com o BTS.

Depois de dois anos na ativa com o grupo e voltando suas forças criativas para o esforço coletivo de compor e produzir dentro do conceito proposto para o grupo, RM, ainda respondendo pelo nome de Rap Monster, lançou sua primeira mixtape, dando início a uma sequência de trabalhos solo dos outros membros do grupo.

BTS

Quando se pensa no mundo do rap, as mixtapes são um formato bastante comum que destoa da lógica de produção artística mais tradicional do k-pop. E, no entanto, ela ainda encontra espaço entre artistas deste nicho, sobretudo entre os que têm uma origem ou conexão forte com o mundo do hip-hop, como é o caso dos rappers do BTS. Embora o formato das mixtapes esteja cada vez mais comum nas carreiras solos de rappers de outros grupos, o próprio funcionamento do gênero raramente permite — por uma questão de agenda, contratos ou desejo individual do artista — que os cantores e rappers produzam tão ativamente suas próprias obras e as divulguem entre os fãs sem uma intenção comercial. Então, quando uma mixtape surge entre os idols coreanos, geralmente não temos uma produção tão elaborada e conceitual e, mesmo quando temos, ela é geralmente curada e mais artesanalmente trabalhada pelo próprio artista.

O formato de mixtape, mesmo não tendo tanto compromisso com a coerência conceitual de um álbum, acaba sendo, no cenário do k-pop, uma possibilidade para expressão mais livre. Uma vez que aqui a responsabilidade final pelo produto se põe na mão dos rappers, existe ao mesmo tempo uma maior liberdade de temas e também abertura para mais experimentações. Normalmente, mixtapes são uma forma de autocuradoria também, na qual os músicos selecionam quais aspectos de si desejam exibir, como numa galeria de arte, já que geralmente servem também como um portfólio musical para promover o artista.

Nas primeiras mixtapes desses três rappersRM, Agust D e Hope World —  vemos uma exibição de reverência e referência tanto à cultura hip-hop clássica dos EUA — país de origem dessa forma de expressão — quanto ao cenário do rap coreano. Variando em ritmos e formas de se mostrar o potencial de rimar e fazer trocadilhos com as palavras, os rappers mostram seu talento, mas também mostram a si mesmos: também encontramos em comum entre os três temáticas voltadas à realidade dos artistas: fama, solidão, inquietações mentais e o constante contraste entre a realidade e o que eles mesmos e os meios aos quais pertencem esperam — musical, visual e individualmente. Nos compilados musicais, a curadoria dos próprios artistas exibe facetas diferentes das que vemos no BTS, complementando ainda mais a visão da identidade deles. Ao mesmo tempo que conhecemos mais a fundo cada um desses três integrantes, podemos observar também como eles se enxergam e querem se mostrar diante do mundo.

Embora RM tenha uma segunda mixtape (nomeada na realidade de playlist, numa subversão do próprio formato escolhido para lançar suas músicas), chamada mono e Suga tenha voltado a usar a voz de Agust D na mixtape chamada D-2, a ideia é entendermos estes trabalhos como obras de caráter introdutório — não só por serem os primeiros trabalhos individuais oficiais, mas também porque cada faixa pode ser vista como um estabelecimento de si e uma apresentação de cada um dos rappers.

RM (2015)

Lançada quando tinha apenas 20 anos, RM foi a primeira mixtape de um dos integrantes da rapline — o conjunto de rappers de cada grupo idol recebe esse nome — a ser oficialmente liberada para os fãs, gratuitamente no SoundCloud. O rapper, atualmente conhecido como RM, ainda se apresentava sob o nome Rap Monster, e o lançamento de 2015 expõe tanto as habilidades com ritmo e poesia do gênero quanto a monstruosidade que ostentava em seu nome. O contraste abre as portas para o que há de mais humano na trajetória de um garoto do interior da Coreia do Sul que se apaixona pela poesia e pela música e decide se tornar um rapper, mas no meio do caminho precisa se adaptar e acaba se tornando líder de um grupo idol. A identidade de um cantor de k-pop, aparentemente, vai na contramão da independência e da espontaneidade do rap, e algumas das faixas se debruçarem sobre esse conflito.

Apesar da pouca idade, Kim Namjoon — nome verdadeiro do rapper — reconta a própria trajetória musical e pessoal com reflexões profundas e complexas, e demonstra muita maturidade ao encarar o mundo de forma crítica mas trazendo também um tom de aceitação. Além de nos mostrar muitas referências dentro do universo hip hop, RM é uma mixtape com uma ampla variedade rítmica, navegando por batidas de R&B, guitarras do rock, elementos eletrônicos e trazendo ritmos mais clássicos do rap. Em faixas que misturam coreano e inglês, o sul-coreano fluente em ambas brinca com as duas línguas, com sons e significados para falar não só de si e de sua música, mas também para expor suas impressões, crenças e conclusões diante do que já experienciou do mundo.

Depois de apresentar sua história de amor proibido e complicado pela música em “Voices”, as faixas “Do You” e “Awakening” são uma afirmação de sua identidade diante dos julgamentos que recebe por transitar entre dois mundos: o do hip hop underground — onde o cantor se firmou ainda na adolescência, sem muito consentimento dos pai — e o mundo idol — onde estava, na época, começando a se consolidar na liderança do BTS. Parte de sua afirmação pessoal passa por se mostrar como o monstro do rap ao qual seu nome fazia referência. Em “Monster”, RM fala sobre o crescimento do seu poder e como o sucesso que vinha obtendo até aquele momento se baseava em seu talento. Mais adiante, em “Throw Away”, Namjoon anuncia o que vem na próxima faixa: a força e a disposição de sua juventude e referências tradicionais do hip hop — algo que ele constantemente reafirma que possui, já que seu pertencimento à essa cena musical chega a ser contestado quando ele se tornar parte do BTS. “Joke”, segundo o próprio rapper, foi escrita num fluxo de consciência em um tempo relativamente curto e é exatamente o que seu nome sugere: uma piada, uma brincadeira com as palavras. A faixa exibe o talento dele com ritmo, trazendo flows que se aceleram cada vez mais à medida que a música se aproxima do final. Além disso, em “Joke” ele também prova que sabe brincar com sons e significados, mostrando que a poesia da sigla R.A.P. também é dominada por ele, mesmo que tenha sido questionado em relação a suas habilidades.

“God Rap” inicia uma sequência mais introspectiva, que se volta para a suavidade musical e letras mais reflexivas, embora não deixe de trazer cuidado com a linguagem ou o ritmo já demonstrados anteriormente. É aqui também que começamos a ver um pouco mais do Namjoon e um pouco menos da persona que adotava na época. A autoafirmação como Rap Monster começa a dar lugar às opiniões e crenças pessoais do cantor. Na canção em questão, além de contar como perdeu a fé em quem admirava no cenário do rap, — os deuses que idolatrava — o eu-lírico conta sobre como começou a ter fé em si mesmo e em seu poder pessoal e por isso acabou se tornando também um deus do rap — numa possível referência à “Rap God”, do estadunidense Eminem, de quem sempre foi fã.

Mas ele não crê em deuses e nem acredita que sua capacidade seja algo divino. Pelo contrário, ele tem fé que seu poder, ou sua habilidade é bem humana e que poderia estar em qualquer pessoa, e a partir do momento em que cada um vê em si esse poder de Deus, Allah ou Maria, — referências plurais que busca trazer à letra — então ela se torna a dona do próprio destino. Esse pensamento Nietzschiano de matar Deus e tomar as rédeas do próprio destino retorna mais tarde, no encerramento do álbum. Na sequência, temos “Rush”. A única colaboração do álbum, com o rapper Krizzy Kaliko fala sobre a pressa que tem pela fama, mas não pelos motivos de autoafirmação que vimos anteriormente: agora os desejos são mais mundanos, humanos e comuns, como ser reconhecido e conquistar garotas. Esse segundo bloco temático se encerra e mergulhamos em faixas ainda mais profundas.

O que podemos chamar de terceiro ato da mixtape se inicia com “Life”, faixa que questiona a vida. O que de fato ela é? O que é certo ou errado? Qual sentido devemos dar a ela? RM elabora sobre como está sempre sozinho nessa busca, e esta ideia se repete em “Adrift”: se estamos à deriva na vida, como é que vamos seguir alguma direção? Parece que ser o próprio Deus trás grandes poderes, mas também grandes responsabilidades. “I Believe” reconcilia o caos na mente de um jovem com tantos conflitos internos. Voltando à ideia apresentada em “God Rap” e fechando a ideia que abre a mixtape em “Voices”, RM — a mixtape e o rapper — reafirmam que é a fé em nossa própria voz que nos move. Apesar do que pensamos e de uma lógica um tanto quanto ilógica da vida, nós podemos sentir para onde devemos ir. Como Kim Namjoon conclui, sabemos que devemos caminhar carregando nossos monstros e também nossos meninos interiores — apaixonados em segredo por algo em que acreditamos e sentimos que é o nosso destino.

Agust D (2016)

Sob o nome de Suga, Min Yoongi se apresenta no grupo idol BTS, e ao adotar Agust D como uma outra persona musical, o artista nos mostra um lado quase oposto ao do cantor de k-pop. De fato, Agust é um nome composto pela palavra Suga ao contrário, e ainda inclui o ‘t’ e o ‘D’ representando D town: a cidade de Daegu, onde o rapper nasceu e cresceu, é o cenário de origem de alguns dos conflitos expressados pelo jovem que amava música e queria ser produtor musical e acabou parando em um grupo bem diferente do que inicialmente esperava. Agust D, muito mais direto, sincero e realista do que RM, nos conta sua trajetória conturbada até a fama, enumera os obstáculos em seu caminho até o sucesso e se abre de forma corajosa sobre todas as suas questões de saúde mental. Sua linguagem vai direto ao ponto, e tem os dois pés na realidade, mesmo que ela não seja nada bonita.

A mixtape de 2016, também disponibilizada primeiramente no SoundCloud — assim como RM —, e só posteriormente incluída no catálogo do Spotify, é um reencontro do artista com o rap, depois de três anos na mídia apenas como Suga, compondo, escrevendo letras e produzindo canções quase exclusivamente para o BTS. Com a possibilidade de um projeto mais pessoal, Yoongi mostra seu lado genial e piromaníaco — sua língua pega fogo, como coquetel molotov atirado sem medo em direções diferentes: a indústria em que hoje se encontra, outros rappers, seus críticos, a fama e até mesmo ele próprio. Ele não tem medo de se queimar, porque mostra, ao longo das faixas, que tem familiaridade com o fogo e também com as cinzas — e não teme mostrar nenhum desses lados.

Tanto na faixa introdutória — um trecho da canção seguinte — quanto em “Agust D”, Yoongi se afirma não só como um cantor de k-pop quanto como rapper. Assim como para RM, as contradições entre se apresentar como parte de uma indústria desprezada pelo rap e ser também rapper, parecem ser uma oposição a ser reconciliada. Os versos com linguagem ofensiva — no sentido de ataque — afirmam sem medo do rótulo de arrogância como Min Yoongi é bom e bem sucedido em ambas as carreiras. A mixtape começa com essa faixa poderosa, e então vamos para “Give It to Me”, um pedido para que tragam até ele tudo que a fama e o sucesso podem oferecer. Não só como uma ostentação, mas também como um desafio e uma aceitação, Agust D recebe tudo o que vem sendo entregue a ele até agora. Afinal, Agust D sabe bem o que passou e porque merece os louros da fama, e até mesmo aceita as coisas ruins dela.

A quarta faixa é um skit no qual ouvimos um diálogo entre o rapper e seu irmão mais velho. Introduzindo as faixas seguintes, no trecho da conversa, Yoongi diz ao irmão que uma das ideias da mixtape que estamos ouvindo é apresentar mais um aspecto seu entre tantos outros. Conhecemos o idol Suga, fomos apresentados ao rapper Agust D nas três primeiras músicas e agora iremos conhecer um pouco de sua história de vida — pelo menos até o ano de 2016, quando a mixtape foi lançada. Na conversa registrada em áudio, Yoongi conta que seu irmão foi uma das poucas pessoas que botaram fé no seu trabalho e esse apoio se mostra mais importante quando conhecemos aquilo que “724148”, a canção seguinte, nos conta sobre os seus primeiros dias na carreira musical. Enquanto conciliava um trabalho de meio período e praticava sua música, outras pessoas com dinheiro tinham muito mais oportunidade do que ele.

Desafiando a lógica de que basta se esforçar para que se tenha sucesso, Agust D questiona se essa meritocracia de fato existe. Não bastando as questões sociais, em “140503 at Dawn” conhecemos um novo obstáculo para o sucesso. Aqui, também de forma bem direta e dando nome às suas questões psicológicas, Yoongi nos revela sua ansiedade social e como lidar com as pessoas é algo difícil para ele, que, afinal, não está sozinho no mundo. A sonoridade da música é um reflexo dos incômodos e inquietações mencionadas e vai nos levando às sensações descritas mesmo que não entendamos a letra. “The Last” continua elaborando pensamentos sobre saúde mental: depressão, TOC, uma possível tentativa de suicídio, conversas com psiquiatras… tudo vem à tona nessa canção em que vemos todas essas dificuldades se misturarem a uma fama crescente que o artista vem conquistando. Por fim, “Tony Montana”, com participação de Yankie, é uma faixa que fala sobre sua ambição. Assim como o personagem da saga O Poderoso Chefão, Yoongi acaba entrando no mundo da fama por dinheiro — porque precisa —, mas acaba querendo sempre mais. Agust D, como o mafioso dos filmes, também mata sem piedade seus inimigos — no caso, com sua letra — no entanto, já demonstra sinais de cansaço: quer que o dinheiro o persiga, mas não necessariamente deseja viver sempre atrás dele. Mais uma contradição dos bastidores da fama se revela com a canção, e então vamos para a última parte da mixtape.

Depois de passar por seu passado e presente, o interlúdio “Dream, Reality” anuncia o que Agust D deseja para seu futuro. A última faixa, “So Far Away”, conta com a voz marcante de Suran nos refrãos, tornando a canção mais melódica e, de certa forma, sonhadora. Assim como RM em “Life” e “Adrift”, a vida é vista como algo meio sem sentido, que seguimos vivendo simplesmente porque estamos vivos. A abordagem aqui não é tão filosófica quanto a da primeira mixtape: estamos também à deriva, sem muitos motivos específicos, e isto é dito de forma bem direta, quase crua. Mas em contraste com a dureza da vida que temos que seguir, vemos ressurgir um tema recorrente nas letras do BTS: a liberdade para não se ter nenhum sonho grande e específico. Mas ainda assim, na ausência de grandes objetivos a não ser seguir em frente, Agust D nos deseja e se deseja — em uma espécie de oração — que possamos seguir em frente com tranquilidade. Para ele, continuar vivendo já é o suficiente. Numa aparente contradição entre não ter sonhos e querer o mundo em suas mãos, enxergamos como Agust D, Suga ou Min Yoongi são sim personas ambiciosas de um mesmo homem que quer só uma coisa: tudo.

Hope World (2018)

A mixtape de j-hope, o terceiro elemento a compor o trio de rappers do grupo anuncia a que veio logo em seu título: Hope World oferece um mundo de esperança aos ouvintes e isso não só tem a ver com o nome artístico designado a Jung Hoseok, mas também com o que ele escolhe nos mostrar. Ao contrário de RM e Suga, que já tinham um histórico como rappers na cena underground coreana, Jung Hoseok foi recrutado para o BTS por seu talento na dança. Com habilidade notável em estilos urbanos variados, seu contato com o mundo do rap vinha principalmente por meio dos movimentos em seu corpo, e essa influência musical acaba se mostrando no modo como as músicas variam em estilos mais dançantes e agitados e flows mais cadenciados. Sua dança — que é o que o torna famoso com o grupo, aparece como uma afirmação de sua identidade e a aceitação de seu talento por parte dos críticos ou o dilema entre ser um astro do k-pop ou um rapper habilidoso não são temas principais, como vimos nas mixtapes dos outros integrantes da rapline.

Ainda que complemente conceitualmente RM e Agust D, Hope World também é visualmente distinta. Quando foi disponibilizada no Spotify, ela chamou atenção também pela arte visual que a acompanhava. Enquanto as outras mixtapes trazem capas em preto e branco, a capa do trabalho de j-hope é uma ilustração colorida e vibrante que faz referências a alguns elementos contidos nas canções principais: avião, símbolo da paz, recortes abstratos. Tudo remete a um mundo de esperança quase onírico,  que é o que o rapper irá nos apresentar com sua música.

j-hope abre a mixtape com a música homônima que nos dá as boas vindas ao mundo positivo e cheio de esperanças em que vive. O músico se apresenta como alguém que sabe quem é e até pode ter seu lado obscuro, mas prefere ser, como seu nome artístico sugere, uma esperança para aqueles que o ouvem, e nos apresenta a este mundo tão confortavelmente simples de se navegar. “P.O.P. (Piece of Peace)” tem uma vibe sonhadora e demonstra o desejo do artista de ser um pedaço de paz, como um pedaço de bolo que — em meio a uma vida de batalhas — enche os estômagos vazios das pessoas. Hoseok demonstra aqui seu entendimento do mundo como um lugar difícil e a vida como cheia de obstáculos. A música que produz vem deste mesmo mundo difícil, mas carrega em seu recheio o desejo de ser um alento para quem a ouve, transportando as pessoas para esse mundo de esperanças quando se prova um pedaço dessa paz que enche os corações.

“Daydream” talvez seja a faixa mais pessoal, em que o artista aborda diretamente as suas questões com a fama: a responsabilidade de ser uma pessoa pública e ter certos comportamentos exigidos para sua conduta acabam sendo obstáculos para que ele viva sua vida pessoal com total liberdade. Embora reconheça sua divisão entre ser o j-hope e o Jung Hoseok, ele admite que sua vida íntima é a mais prejudicada e talvez por isso ele viva sempre sonhando acordado com uma outra vida. Cheio de referências de cultura pop, a música aparentemente alegre mostra um lado um pouco mais reflexivo do artista. Ainda falando sobre sua relação com a ocupação de músico, “Baseline” fala das consequências de seu trabalho duro para ser um rapper de sucesso no BTS. Mas, ao invés de se voltar para os dilemas da fama, j-hope demonstra gratidão, encarando o sucesso como uma consequência de seus esforços para um trabalho impecável.

“Hangsang”, faixa com participação de Supreme Boi, ainda estende a gratidão demonstrada na faixa anterior para os seus amigos e parceiros de trabalho. j-hope sabe que ninguém cria ou se mantém feliz em um mundo de esperanças se estiver sozinho. Então, é natural para ele que todos os frutos do sucesso devam ser desfrutados na boa companhia de quem esteve com ele ao longo da jornada de trabalho árduo: os outros membros do BTS e as pessoas que estão ao seu lado nos estúdios de música e dança. “Airplane” é uma música com tom mais contemplativo e uma sonoridade diferente das anteriores: mais calma, a letra celebra mais uma vez o sucesso do cantor. Consciente de tudo que tem agora que seu grupo se encontra numa espécie de auge — que, em 2018 ainda nem era o pico mais alto da fama do BTS — j-hope simplesmente reconhece tudo isso, aceita e aproveita. Se a ideia do álbum é trazer esperança, podemos olhar para o trabalho do artista e nos inspirar por sua disciplina. Ele nos ajuda a enxergar que podemos nos esforçar para fazer um bom trabalho e ter sucesso no que desejamos. E aí podemos, de consciência tranquila, aproveitar as coisas boas que vêm como consequência.

Depois de toda a exaltação da esperança, “Blue Side”, a última faixa, é um trecho curto de uma canção, lançada posteriormente por completo. No trecho liberado junto às outras faixas da mixtape, tudo que ouvimos é a repetição de “de volta ao lado azul”, enquanto o rapper afirma que irá nos carregar e nos manter dentro de um “sonho azul”. Mais tarde, quando a versão completa foi liberada no Sound Cloud, — no Spotify, onde a mixtape foi diretamente lançada, a faixa não está disponível na íntegra — nos deparamos com uma música introspectiva, cuja letra elaborada acaba mostrando que apesar de gostar de tudo que a fama pode proporcionar, o eu-lírico ainda sente o desejo de voltar para a inocência de dias mais simples, definido como esse tal retorno ao lado azul. De forma leve e confortável, a última canção acaba nos mostrando como é aconchegante o mundo de esperanças, que começa a se formar nesse “lado azul” da vida. j-hope finaliza sua mixtape com um abraço morno e carinhoso, que faz jus ao nome artístico que ele assume: cada faixa nos deixa com o coração mais cheio de esperança.


** A arte em destaque é de autoria da colaboradora Duds Saldanha.

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