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Você nunca está sozinho: a saúde mental nos trabalhos do BTS

Bangtan Sonyeondan, Bangtan Boys ou, simplesmente, BTS. Mesmo quem não é fã do grupo sul-coreano, provavelmente já ouviu falar deles alguma vez — seja nas mídias sociais ou por meio de números expressivos em vendas de discos, em colocações nas paradas musicais, em shows lotados nos diversos estádios do mundo ou em visualizações no YouTube. Tais conquistas, algumas estampadas nos impressionantes 23 títulos que o grupo possui no Guiness World Records, fazem com que o BTS seja considerado um dos maiores grupos musicais da atualidade. Entretanto, não são apenas os números que fazem a fama dos sete integrantes — RM, Jin, Suga, J-Hope, Jimin, V e Jungkook. Eles também são conhecidos pela legião fiel de fãs — ou armys, como foram apelidados pelo próprio grupo.

“Ouvir a música deles me ajudou a seguir em frente e perceber que eu mereço o melhor. E eu percebi que eu deveria me amar. Então, se não fosse por eles, acho que estaria em um lugar muito escuro. Então, obrigada, BTS.”

Esse é um dos diversos depoimentos disponibilizados em Bring the Soul: The Movie, terceiro filme do grupo, lançado em agosto de 2019. Não é raro encontrar falas similares ao depoimento acima, nas quais os fãs narram o quão importante o BTS foi para a melhora de sua saúde mental. Para além das práticas de cultura de fãs e da relação de carinho que o grupo busca manter com o fandom, grande parte do afeto, conforto e da lealdade dos armys vêm por meio das composições do grupo, as quais focam em temáticas pertinentes e sensíveis à juventude contemporânea.

Por que o BTS decidiu focar em trabalhos que abraçam as juventudes? 

Em entrevista à Times no ano de 2019, Bang Si-hyuk — fundador da Big Hit Music, gravadora responsável pela criação e agência do BTS — afirma que, desde que debutaram em 2013, o grupo sul-coreano foi capaz de incorporar o espírito e as demandas das juventudes. Essa não era apenas uma das estratégias de promoção utilizadas pela gravadora, tornando o BTS algo distinto dentro da indústria do k-pop, mas também um desejo dos próprios integrantes do grupo.

“Pessoalmente, sinto que nem sempre é necessário que um artista diga o que pensa. Mas acredito que, na época, o BTS tocou em algo que os jovens de todo o mundo estavam procurando. […] Eles não hesitam em falar sobre a dor sentida pela geração de hoje. Eles respeitam a diversidade e a justiça, os direitos dos jovens e das pessoas marginalizadas. Acho que todos esses fatores trabalharam a seu favor” — Bang Si-hyuk, fundador da Big Hit Music

Suga também falou sobre isso em entrevista à revista Esquire, em 2020. “Comecei a fazer música porque cresci ouvindo letras que falam sobre sonhos, esperanças e questões sociais. Então isso veio naturalmente para mim.” Ao longo dos anos, tal proposta também foi ultrapassando os horizontes musicais do grupo. Desde 2017, eles possuem a campanha Love Yourself (“ame a si mesmo”, em tradução livre) junto à UNICEF, discursam em eventos oficiais da ONU sobre a saúde mental de adolescentes e jovens, além de falarem abertamente sobre sua lutas emocionais nas mídias sociais e também nos álbuns solos lançados — como é o caso de RM (2015) e mono (2018), lançados por RM; Agust D (2016) e D-2 (2020), lançados por Suga por meio do alter ego Agust D; e Hope World (2018), lançado por J-hope.

“Acho que, lentamente, estou me tornando um adulto
Não consigo me lembrar
O que era que eu queria?
Agora, estou com medo
Para onde foram os fragmentos do meu sonho?” — Trecho de “28”, de Agust D

As diversas fases da juventude abordadas pelo BTS

Partindo da estratégia de representar as vozes, as dores e os anseios da juventude, o BTS lança o seu primeiro álbum 2 Cool 4 Skool (2013), e assim dá início à primeira era do grupo, a trilogia escolar — com a sequência de discos O!RUL8,2 (2013), Skool Luv Affair (2014) e Dark & Wild (2014). Na trilogia escolar, todas as composições buscam enaltecer a liberdade adolescente em seguir os seus próprios sonhos, desejos e caminhos ao desafiar as inúmeras imposições sociais e familiares — como é o caso das canções “No More Dream”, “N.O” e “Tomorrow”. Todas essas temáticas são somadas à ferocidade do hip-hop, gênero musical que inspirou o grupo durante os seus dois primeiros anos.

“Tenho um longo caminho a percorrer, mas por que estou correndo no lugar?
Eu grito de frustração, mas o ar vazio ecoa
Espero que amanhã seja diferente de hoje
Eu só estou desejando” — Trecho de “Tomorrow

A partir de 2015, o BTS dá início à trilogia da juventude, por meio dos discos The Most Beautiful Moment In Life pt. 1 (2015), The Most Beautiful Moment In Life pt. 2 (2015) e The Most Beautiful Moment in Life: Young Forever (2016). Ao passo que os integrantes envelhecem, o grupo passa a trabalhar os anseios e as frustrações presentes no processo desse crescimento. Como o próprio nome dos discos já demonstra, a juventude pode ser o momento mais bonito, livre e brilhante da vida — ao mesmo tempo que pode ser o mais turbulento, incerto e breve.

“Nós meio que diminuímos um pouco o ritmo e tentamos expressar as emoções dos jovens que não têm nada além de sonhos. Era um tipo de expressão mais honesta e testemunhamos como estava ressoando com muitas pessoas. […] Estávamos nos mostrando mais vulneráveis, mais delicados, o que era muito diferente. Mas percebemos que era significativo”, comentou RM em entrevista à Rolling Stone em maio de 2021. A trilogia da juventude trouxe canções como “Intro: The Most Beautiful Moment In Life”, “Whalien 52” e “Epilogue: Young Forever”, as quais, até hoje, ressoam de forma intensa no subjetivo dos fãs. Enquanto na primeira era víamos adolescentes raivosos e angustiados, agora o grupo aposta em narrativas e estéticas mais emotivas e esperançosas.

“Para sempre nós somos jovens
Pétalas voando, rodopiando como a chuva
Passeando pelo labirinto da vida
Para sempre nós somos jovens
Mesmo se eu cair e me machucar
Eu continuo correndo em direção aos meus sonhos” — Trecho de “Epilogue: Young Forever”

Em 2016, inspirados no livro Demian (1929), do escritor alemão Hermann Hesse, o BTS inicia a era Wings, a terceira da carreira. Composta pelo álbum de mesmo nome e também pelo disco You Never Walk Alone (2017) a era Wings tem como tema central a tentação e o conflito na juventude, logo, o disco aposta na luxúria e também em emoções mais obscuras. “Eu não sabia que havia esse tanto/ De caminhos que eu não posso ir e caminhos que eu não posso tomar/ Eu nunca me senti assim antes/ Estaria eu me tornando um adulto?”, são os versos cantados em “Lost”.

Junto à soturnidade presente em canções como “Lost” e “Reflection”, a era Wings também é equilibrada por canções que buscam tratar sobre temáticas que construam perspectivas em meio ao caos e à dor de crescer — como é o caso de “2!3!”, “Not Today” e “A Supplementary Story: You Never Walk Alone”. Nesse momento, o BTS aposta em trabalhos com maior equilíbrio e maturidade emocional — sentimentos que, anteriormente, eram explorados de forma extrema.

“Embora eu queira voar
Eu não tenho asas
Mas tuas mãos se tornam minhas asas
Todas as coisas tenebrosas e solitárias
Eu vou tentar esquecê-las com você” — Trecho de “A Supplementary Story: You Never Walk Alone

O amor-próprio como tema central nas composições do BTS

A partir de 2017, há o início da quarta era do BTS: a trilogia Love Yourself. Como o próprio nome já propõe, é nesta era que o grupo tem como tema central o amor-próprio. “Procuramos mostrar o desenvolvimento emocional de um jovem por meio do amor. Tentamos enviar a mensagem de que amar a si mesmo é onde começa o amor verdadeiro”, comenta RM em entrevista à Apple Music em 2018. Em Love Yourself, é perceptível o progresso nas composições do grupo, além de um maior autoconhecimento expresso através das canções.

“Singularity”, “Trivia: Seesaw”, “Epiphany”, “Answer: Love Myself”, “Magic Shop” são inúmeras as músicas que abordam a temática do amor-próprio e de encontrar um melhor destino a si mesmo. Com a depressão sendo considerada uma das principais doenças diagnosticadas do século XXI, a era Love Yourself traz debates e reflexões extremamente necessários à uma geração de jovens que sofrem de inúmeros transtornos emocionais.

“Amar a mim mesmo pode ser mais difícil
Do que amar outra pessoa
Vamos admitir
Os padrões que você construiu são mais rígidos a você mesmo
Os anéis de árvore grossos da sua vida
São parte de você, é quem você é
Agora vamos perdoar a nós mesmos
Nossas vidas são longas, confie em si mesmo quando estiver em um labirinto
Quando o inverno passar, a primavera chegará” — Trecho de “Answer: Love Myself”

Com o grupo cada vez mais popular e alcançando feitos ora inimagináveis, a era Map of the Soul surge para trazer questões existencialistas sobre si mesmos. “Onde estamos? O que estamos fazendo? Quem éramos no passado? E quem nós somos agora?”. Em entrevista à Variety em 2020, foi assim que RM definiu Map of the Soul: 7 (2020), álbum integrante da era junto ao lançamento anterior, Map of the Soul: Persona (2019).

Em Map of the Soul, tanto letra quanto estética são bastante conceituais e reflexivas — e isso não é por acaso. Toda a era foi inspirada na obra de Carl Jung, o fundador da psicologia analítica. Sendo assim, canções como “Intro: Persona”, “Mikrokosmos”, “Interlude: Shadow”, “Black Swan”, “Louder than Bombs”, “ON” e “00:00 (Zero O’Clock)” são carregadas de questões existencialistas sobre o inconsciente e a personalidade dos sete integrantes. Por mais que os artistas estivessem falando sobre si mesmos e o modo como se enxergam no mundo diante da fama mundial, as composições em Map of the Soul também verbalizam emoções que podem ser sentidas por qualquer jovem do século XXI.

“Quem sou eu?
É uma pergunta que tive toda a minha vida
A pergunta para a qual eu provavelmente não vou encontrar uma resposta em toda a minha vida” — Trecho de “Intro: Persona

BTS e a saúde mental na pandemia

Iniciada em 2020, a pandemia mundial da Covid-19 afetou (e segue afetando) a saúde mental de todas as pessoas — e isso não seria diferente com os integrantes do BTS. Devido a isso, em novembro do mesmo ano, o grupo lança o álbum intimista BE, dedicado a abordar os sentimentos e questionamentos dos integrantes diante de um período tão difícil como o que vivemos. Além disso, o disco também surge como uma busca em encontrar conforto — não só para eles, como também ao ouvinte. Todas as oito músicas refletem um álbum profundo, revigorante, simples e, na medida do possível, positivo.

“Não consigo ver o final
Será que existe mesmo uma saída?
Não consigo mover os pés
Feche os olhos por um momento
Segure minha mão aqui
Vamos correr para aquele futuro” — Trecho de “Life Goes On

As dançantes “Dynamite” e “Stay” são um ponto a se destacar quando falamos de saúde mental nas composições do grupo. Para além das canções que abordam críticas sociais e refletem sobre o sentimento humano, até mesmo as músicas que não carregam todos esses questionamentos conseguem trazer conforto aos fãs do grupo. Esse também é o caso de “Butter” e “Permission to Dance”, os dois recentes singles lançados pelo grupo.

Falar sobre desejos e questionamentos efervescentes da adolescência e trazer reflexões mais maduras sobre a vida humana: esses são um dos pontos que explicam o grande sucesso do BTS pelo mundo. A forma como os integrantes conseguem conversar com a juventude ao expressar os seus próprios sentimentos como sete jovens garotos foi uma estratégia que deu muito certo, fazendo o BTS se diferenciar dentro da indústria musical — especialmente no k-pop.

Direta ou indiretamente, ao tratar sobre questões necessárias relacionadas à temática da saúde mental e ao valorizar uma relação de carinho e conforto com os seus fãs, o BTS nos mostra que qualquer tipo de emoção não deve ser escondida. Devemos discutir e expressar os nossos sentimentos ao mundo. Eles, acima de tudo, nos deixam o lembrete mais importante: a gente nunca estará sozinho.


** A arte em destaque é de autoria da editora Ana Luíza. Para ver mais, clique aqui!

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