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Boy Erased: o desconforto necessário que o Brasil não viu

Sabemos que em tempos de intolerância, qualquer manifestação de sensatez é como ar fresco depois de um longo período de sufocamento. Produções da cultura pop são mestres em trazer um raio de esperança, lucidez e diálogo quando tudo parece estar em ruínas. Por isso, quando a Universal Pictures cancelou o lançamento de Boy Erased: Uma Verdade Anulada nos cinemas brasileiros, sob a justificativa de que o filme não gerou uma boa expectativa de bilheteria, considerando os dados de estreia no país de origem, muita gente se perguntou se isso teria a ver com o contexto político-social que vivemos desde o dia 28 de outubro de 2018.

A distribuidora decidiu lançar o filme apenas em DVD por aqui, mas isso não amenizou a discussão. Por que um filme que critica a terapia reorientação sexual — conceito que conhecemos como “cura gay” — não teve nenhuma sessão em cinemas do Brasil? A pressão popular foi tanta que o Governo Federal se manifestou; se é que um tweet do presidente da república (em letras minúsculas mesmo) pode ser considerado como um pronunciamento oficial. Em seu perfil no Twitter, Bolsonaro disse que nada teve a ver com a não veiculação do filme no país.

Mais tarde, a Universal colocou a culpa do cancelamento a Boy Erased em razões econômicas, mas sabemos que a expectativa de resposta do público a um filme conta muito na hora de decidir em quais plataformas ele será lançado, e hoje o Brasil não está preparado para receber um filme que critica a intolerância sexual e de gênero.

Boy Erased é baseado no livro de memórias de Garrard Conley, que no filme é representado por Jared Eamons (Lucas Hedges), jovem que é colocado pelos pais em um centro de terapia de conversão. Filho de um pastor (Russell Crowe) e de uma mãe tradicional, recatada e do lar (Nicole Kidman), o garoto de 19 anos recebe um ultimato após confessar que é homossexual: ou muda ou não fará mais parte da família.

Mas não se engane; os pais de Jared amam profundamente o filho e a violência aqui não é física ou verbal; é psicológica. Certo de que está fazendo os pais sofrerem com a sua “escolha”, Jared aceita de bom grado fazer a terapia e encontrar o caminho de Deus e voltar a ser um jovem “normal”.

Baseado puramente em terrorismo religioso, o centro de conversão tem como lema a frase “fake until you make it” [“finja até conseguir”], repetida diversas vezes pelo terapeuta mental Victor Sykes, interpretado pelo diretor do filme, Joel Edgerton. Na terapia, jovens e adultos são humilhados diariamente e obrigados a exporem em detalhes suas vidas sexuais, consideradas pecaminosas, para obterem o perdão divino. Sem nenhum tipo de fundamento psíquico, Sykes submete os seus “pacientes” a um regime de vigilância constante e de zero contato físico, além de forçá-los a participarem de atividades que vão desde aulas de como parecer masculino até sessões de torturas psicológicas e físicas para os que não apresentam a melhora esperada.

São diversas as artimanhas usadas pelo terapeuta mental para convencer os alunos que eles estão condenados ao sofrimento eterno por ser quem são. A mais utilizada, claro, é a culpa religiosa, mas também vemos relances de uma aversão ao intelectualismo, já que, para Sykes, alguns ambientes e livros podem despertar ideias erradas nos jovens.

O que mais assusta em Boy Erased é o fato de não ser uma obra de ficção. Na adolescência, o autor Garrard Conley passou duas semanas em um centro de conversão nos Estados Unidos a pedido dos pais e lá conheceu pessoas que passaram anos sendo submetidos a todo tipo de assédio psicológico e moral. Alguns encontraram a liberdade apenas por meio da morte.

Ainda há, hoje, diversos centros que prometem a tal da reorientação sexual espalhados pelo mundo. Milhares de pessoas da comunidade LGBTQ+ seguem sendo submetidas a mais esse tipo de violência, muitas vezes induzidas ou forçadas por pessoas próximas, que clamam que suas atitudes são por amor. No Brasil, o assunto “cura gay” já foi abordado diversas vezes e chegou a ser tema de uma liminar de 2017 que dava brechas para psicólogos realizarem o tratamento de reorientação, prática proibida no país desde 1999 pelo Conselho Federal de Psicologia.

É aqui também que temos índices altíssimos de violência contras pessoas LGBTQ+. Segundo levantamento do Grupo Gay da Bahia (GGB), 420 mortes de pessoas LGBT foram registradas em 2018, tanto por suicídio quanto por homicídio. Já relatório realizado este ano pelo ex-coordenador da Diretoria da Promoção dos Direitos LGBT do Ministério dos Direitos Humanos, Júlio Pinheiro Cardia, aponta que a cada 16 horas, uma pessoa é vítima fatal de homofobia no país.

Com tudo isso em jogo e com um clima de intolerância cada vez mais forte, é de se angustiar ao perceber que um filme como Boy Erased: Uma Verdade Anulada não chegou ao acesso popular por aqui. Certamente causaria alvoroço e desconforto em muitas pessoas, que graças ao clima político estão deixando seus preconceitos saírem das sombras. Mas o filme traria à tona discussões importantes e ajudaria a abrir os olhos de quem continua achando que tudo não passa de uma simples escolha.

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