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A invisibilidade lésbica no cinema

Quando falamos sobre filmes centrados em romances ou personagens lésbicas, quantos exemplos vêm à sua mente? De cabeça, Carol, Azul é a Cor Mais Quente, Amor por Direito e Minhas Mães e Meu Pai estão entre os mais populares dos últimos anos. Ainda que a quantidade de filmes com temática lésbica seja bem maior do que esses títulos, infelizmente não são muitos que recebem atenção suficiente a ponto de sair do nicho LGBT+ e alcançar o grande público. Hoje temos mais filmes sobre relacionamentos entre mulheres do que tivemos em muito tempo — atualmente, o público lésbico é, ainda que minimamente, visto como um nicho de mercado —, mas nós sempre existimos dentro do cinema, mesmo que em filmes de baixo orçamento, muitos bem ruins.

Algumas atrizes muito conhecidas hoje interpretaram personagens importantes na história do cinema lésbico — a  diferença é que, na época, os filmes não eram tão reconhecidos e bem produzidos quanto mais recentemente. Há quem pense, inclusive, que essa é uma “categoria” recente, embora filmes com essa temática sejam feitos desde que o cinema começou a existir. Na década de 1930, Senhoritas de Uniforme tornou-se o primeiro filme com temática lésbica, mas só quase sessenta anos depois o boom de produções voltadas para esse público teve início, quando (quase) anualmente filmes pequenos eram lançados dentro do subgênero. A maior parte desses filmes ainda é difícil de encontrar, no entanto, seja em DVD ou em catálogos de streaming, o que mostra como nossos filmes nunca receberam a atenção que merecem, invisibilizando a existência lésbica em mais uma categoria da arte. Mas nós sempre estivemos aqui.

Muitos filmes com premissas lésbicas foram apagados ou vendidos como histórias de amizade para que tivessem um lançamento maior e atingissem um público mais amplo, muitos dos quais, não por acaso, haviam sido, de fato, baseados em romances lésbicos que acabaram cortados da história ou ignorados nas salas de edição. Além disso, muitos dos filmes que não eram baseados nesses relacionamentos poderiam explorar uma relação mais interessante se as personagens originais, ou uma delas, se interessasse por outra mulher.

Entre 1930 e 1961, o Código Hays, criado pela American Film Industry (AFI), entrou em vigor com o objetivo de censurar e proibir qualquer tipo de representação de homossexualidade feminina ou masculina no cinema, além de outros assuntos “polêmicos”, o que resultou na camuflagem ou reescrita de várias histórias. Como forma de driblar o sistema, Hollywood reescreveu roteiros originais e também histórias conhecidas para garantir que qualquer material lésbico fosse excluído da trama — como Infâmia, filme de 1936 que se tornou a versão heterossexual da peça The Children’s Hour. Nessa época, quando uma história que tinha um personagem homossexual era adaptada para o cinema, era necessário mudar seu gênero ou orientação sexual. A partir da década de 1960, graças a diversos movimentos políticos, o código deixou de existir, embora a homofobia no cinema, e fora, dele continuasse.

Nas décadas seguintes, grande parte dos já escassos personagens homossexuais nos filmes eram sempre retratados como perigosos, violentos ou suicidas. Na década de 1980, paramos de ser vistos como doença para sermos vistos como piada: personagens gays, lésbicas ou bissexuais eram definidos somente pela sua sexualidade e não tinha nenhum tipo de desenvolvimento relevante. Somente nos últimos vinte anos é que, aos poucos, passamos a ser vistos como seres humanos, como pessoas que têm camadas e muita história para contar — e ainda assim, poucas delas realmente saem do papel. Existem filmes, no entanto, que apesar de serem considerados heterossexuais, têm uma mensagem por trás que talvez te faça aproveitar um pouco mais a história e questionar a sexualidade de suas protagonistas.

Influenciados pelo Código Hays

invisibilidade lésbica

Independentemente de ser um filme com subtexto lésbico, Quando Duas Mulheres Pecam é um dos filmes mais bonitos e tristes do mundo. O clássico conta a história da atriz Elisabet Vogler (Liv Ullmann), que depois de um colapso nervoso, aceita a recomendação de ir para a casa de praia de seu psicólogo acompanhada de uma enfermeira chamada Alma (Bibi Andersson) para processar os acontecimentos e descansar. Elisabet fica muda grande parte do tempo, fazendo com que Alma acabe se abrindo intimamente sobre vários aspectos da sua vida e, consequentemente, se sentindo mais e mais íntima de sua paciente. O filme é um belo jogo de gato e rato onde você não sabe até onde as personagens se odeiam ou se amam — mesmo sendo óbvio a todos o quanto Alma é apaixonada por Elisabet — ou se ambas, na verdade, são a mesma pessoa. Independentemente da conclusão, um ponto é óbvio: a intimidade que é criada, apesar das consequências, se torna muito mais do que um relacionamento entre amigas ou enfermeira e paciente, e algo um tanto quanto obsessivo é iniciado por ambas as partes.

Rebecca, A Mulher Inesquecível, outro exemplo interessante, dirigido por Alfred Hitchcock, não é um filme propriamente lésbico, mas sua personagem principal, a governanta Mrs. Danvers (Judith Anderson), durante todo o filme, demonstra de várias formas a sua admiração, para não dizer amor, por Rebecca, a esposa falecida de seu chefe. Antes mesmo de Rebecca ser lançado, o chefe do Código de Produção de Cinema mandou uma mensagem ao produtor do filme com a ameaça de que qualquer sugestão de relacionamento entre as personagens encerraria suas chances de lançamento. O que ajudou o filme, no final das contas, foi o fato de que sua personagem principal nunca aparece, porque já está morta, de modo que a possibilidade de haver qualquer contato físico e/ou reciprocidade entre as duas já estava vetada muito antes de qualquer proibição. Entretanto, mesmo com todas as ameaças e códigos, Rebecca continua a ser um dos primeiros filmes a ter uma personagem lésbica em um dos papéis principais, além de ser um dos primeiros filmes com subtexto lésbico a fazer sucesso mundial.

Romances literários apagados no cinema

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Um dos filmes mais óbvios quando falamos de invisibilidade lésbica no cinema é Tomates Verdes Fritos. O filme é a adaptação de um livro escrito por Fannie Flagg e publicado 1987, que narra a história de um romance sobre duas garotas, Igdie Threadgoode (Mary Stuart Masterson) e Ruth Jamison (Mary-Louise Parker), que se conhecem na adolescência e como uma muda a vida da outra. No filme, ambas são retratadas como amigas muito íntimas e têm leves momentos românticos como piqueniques e nados desnudos no meio da madrugada. Eventualmente, Ruth se casa, mas volta à cidade fugindo de seu marido para ficar com Igdie. Em um momento do filme, Ruth, que está grávida, diz: “voltei para cá porque ela é a melhor amiga que já tive e a amo”. E, juntas, elas criam o filho de Ruth enquanto cuidam de sua própria loja de tortas. Existem outros momentos que indicam ainda mais o romance-sem-romance-de-fato de ambas, como a cena da briga de tortas, que transmite uma atmosfera bem sexual; e como Ruth se veste à maneira de uma mulher sulista, enquanto Igdie se veste com roupas masculinas ao estilo tomboy, novamente colocando um modelo heteronormativo em relações lésbicas.

Já em A Cor Púrpura, filme de 1985 dirigido por Steven Spielberg e indicado a onze Oscars, e baseado no romance homônimo de Alice Walker, o relacionamento entre Shug Avery (Margaret Avery) e Celie (Whoopi Goldberg) era uma das partes centrais da trama, mas chegou às telas resumido a um simples beijo e nada mais. Anos depois, o próprio Spielberg disse que retirou a história entre elas porque sabia que não conseguiria uma classificação etária baixa, mas acabou sendo muito criticado por isso, como deveria. Infelizmente, essas críticas não mudaram o resultado do filme na bilheteria, que deixou de ter potencial para dar visibilidade a um casal de mulheres lésbicas e negras — um grupo ainda mais invisibilizado — vivendo uma história de amor.

Atração disfarçada de poder

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Em Acima das Nuvens, Kristen Stewart e Juliette Binoche interpretam, respectivamente, Val e Maria. Maria é uma atriz que resolve se isolar em uma montanha para treinar o papel que a tornou famosa vinte anos antes, levando sua assistente consigo. Na trama fictícia da história que Maria está ensaiando, ela interpreta uma mulher mais velha apaixonada por uma mulher bem mais nova. Porém, se na primeira filmagem Maria interpretou a jovem que seduz a mulher mais velha, nesse remake ela é a mulher a ser seduzida — o que cai como uma luva no relacionamento entre Val e Maria, até então estritamente profissional, mas que, com os ensaios, termina por despertar sensações e sentimentos em ambas. Somado ao isolamento, é dado início a uma intimidade que cada vez mais se relaciona com o texto que estão trabalhando. Apesar da personagem de Maria dizer que não é homossexual e de Val ter um namorado fotógrafo (que nada acrescenta à trama), é impossível não perceber a intimidade que cresce entre elas, também marcada por banhos no rio de madrugada e cigarros compartilhados enquanto, juntas, tentam se esquentar do frio, além da existência de uma palpável tensão que parte de ambas as partes. O filme, inclusive, lembra muito Quando Duas Mulheres Pecam, e assim como ele, não assume nenhuma posição nem levanta questionamentos sobre o que realmente se passa na cabeça e no coração dessas mulheres.

Outro filme que também retrata uma amizade que eventualmente se torna algo mais é Garota Infernal. Jennifer (Megan Fox) é uma adolescente que acaba morta por uma brincadeira cruel de alguns garotos idiotas. No entanto, o que eles não esperavam é que Jennifer voltasse à vida e, como vingança, resolvesse matar todos os homens que a fizeram sofrer. Esse novo lado de Jennifer a faz se comportar de maneira estranha, e abusar de seu poder e beleza sobre as pessoas, principalmente sobre sua melhor amiga, Anita (Amanda Seyfried). Garota Infernal não é um filme lésbico, mas tem um queerbeating tão forte que é impossível não pensar se o único motivo para Anita aturar tudo que sua melhor amiga a faz passar, e não abrir mão dessa amizade claramente tóxica, é a possível paixão que sente por ela. Sendo proposital ou não, o público bi/lésbico sempre será grato pela cena de Megan Fox seduzindo Amanda Seyfried.

Inocência ou primeiro amor?

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Em Agora e Sempre, assistimos o reencontro de quatro amigas de infância que resolvem relembrar um verão em especial. Em todos os fatores do filme, que é muito bonito, o mais relevante para nós é Roberta, interpretada na infância por Christina Ricci e na vida adulta por Rosie O’Donnell. Roberta foi escrita como uma personagem lésbica, que se vestia de uma forma mais “masculina” — inclusive enfaixando os seios em crescimento —, e preferia jogar baseball e brincar com os garotos a fazer “coisas de menina”. Na trama, arranjam-lhe um namorado para cortar qualquer especulação da sua possível orientação sexual. Em uma cena em particular, Roberta, agora uma ginecologista competente, faz o parto de uma de suas amigas, mas a audiência inicial que assistiu à cena ficou enojada por ser uma lésbica olhando a vagina de outra mulher. A produtora New Line Cinema, que antes estava bem com o fato de a personagem ser lésbica, decidiu mudar o filme para não ser uma “distração” para a audiência, mais uma vez excluindo o público de outra história que poderia ter ajudado um grande número de pessoas que estão passando por descobertas na (pré-)adolescência.

Almas Gêmeas, por sua vez, conta uma história bem mais pesada e explícita. Baseada em fatos reais passados na década de 1950, na Nova Zelândia, a trama gira em torno da amizade de duas amigas, Pauline (Melanie Lynksey) e Juliet Hulme (Kate Winslet), que se conheceram no colégio e logo se tornaram inseparáveis. Juntas, as meninas criam um mundo onde podem finalmente estar com pessoas do mesmo nível intelectual que elas, e as coisas funcionam do jeito que só meninas de treze anos conseguem imaginar. Tal intimidade leva a uma amizade um tanto quanto doentia, com muitos atos de agressividade para ficarem juntas todo o tempo possível e demonstrações de amor que vão além da amizade, como beijos e, inclusive, iniciações sexuais. A história é um tanto quanto confusa, porque Juliet e Pauline são amigas, mas claramente vivem uma história de amor e uma obsessão por ficarem juntas, eventualmente matando a mãe de uma delas que se mostrava contra a intimidade que desenvolveram. Não podemos chamar de um filme lésbico porque, como foi dado em entrevistas, elas não conheciam esses termos — inclusive, anos depois questionando a tal relação sexual, Pauline respondeu inocentemente: “como poderíamos ter tido relações sexuais se nenhuma de nós tem um pênis?” — e eram novas e ingênuas demais para rotular o tipo de amor que sentiam uma pela outra. À parte dessa fala, seria possível assumir que o filme tem, sim, um lado que vai muito além do que é considerado amizade, mas para não ficar associado à categoria de filme lésbico/bissexual, foi preferível retratar a história como uma amizade tóxica e doentia entre duas garotas.

Mais que amigas: friends

Entre os vários filmes que podemos usar como exemplo para falar sobre invisibilidade lésbica estão diversas histórias centradas em garotas adolescentes: Teenagers: as Apimentadas, Aos Treze e Garota Fantástica são somente a pontinha do iceberg dentre tantas possibilidades. Todos eles têm a mesma premissa: protagonista com obstáculo para vencer, sendo este um jogo/campeonato ou somente as responsabilidades da vida adolescente, com uma melhor amiga ao lado que a ajuda a passar por todos os problemas, escuta e dá bastante suporte, e de bônus um romance com algum garoto que na verdade nada acrescenta à trama. Torrance (Kirsten Dunst) e Missi (Eliza Dushku), em As Apimentadas, são muito amigas, e o romance com o irmão de Missy, Cliff (Jesse Bradford), foi somente uma forma de ambas tornarem-se mais próximas, já que claramente combinavam muito mais juntas do que Torrance e Cliff. O mesmo acontece em Garota Fantástica: o namorado de Bliss (Ellen Page) aparece no início do filme de forma completamente desnecessária, voltando somente para terminarem o relacionamento, enquanto sua melhor amiga, Pash (Alia Shawkat), é quem está ao seu lado o tempo todo, mesmo quando Bliss precisa de ajuda para ir atrás do seu sonho e é descoberta pelos pais. Ainda que a amizade das duas não evoluísse para algo mais, o que seria muito mais interessante do que o romance com o cara de uma banda qualquer, poderíamos ter visto uma personagem lésbica em uma produção voltada para o público adolescente. Algumas atrizes que participaram do filme, inclusive, deram entrevistas falando que desejavam que suas personagens demonstrassem interesse por outras mulheres na trama, mas foram ignoradas.

Por fim, em Aos Treze, as personagens de Evan Rachel Wood e Nikki Reed, Tracy e Evie, respectivamente, são duas garotas que estão no auge da fase rebelde da adolescência, e com isso vem a curiosidade sobre o corpo e a sexualidade. Por mais que a história retrate uma amizade tóxica, seria interessante ver uma relação entre duas amigas que sentem uma atração mútua crescendo para algo que fugisse da inveja ou da forma que o olhar heterossexual interpreta uma relação intensa entre duas meninas adolescentes.

A variedade de campos que poderiam ser explorados nas relações lésbicas, e também bissexuais, é enorme. Hoje, mais do que nunca, sabemos que histórias que fogem ao padrão precisam ser contadas, e essa lista é somente um exemplo de como existem tantas formas de aprofundar uma relação lésbica ou somente o amor entre duas mulheres saindo da forma básica de romance que todas conhecemos. Principalmente de que todo relacionamento que não seja heterossexual é tóxico ou com personagens que parecem ser problemáticos, quando pode ser somente uma bela história de amor, porque nós também merecemos um final feliz.

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4 comentários

  1. Não, o pior do As Apimentadas é que o cara é irmão GÊMEO da Faith… É como se ela tivesse ficado com a versão masculina dela. A mesma coisa rola em Ela É O Cara, a menina se apaixona pela menina disfarçada de homem e no final fica com quem? O gêmeo dela. Kkkkk

  2. Uma coisa que sempre tive curiosidade em saber. Se alguém me pudesse ajudar era interessante. Eu gostava de saber porque é que os filmes (principalmente) com temática lésbica são a maior parte psicadélicos, dramáticos, com fim trágico, ou com histórias de “shit”?? É a ideia sobre as lésbicas que está mal concebida? Ou são as próprias lésbicas que puxam a esse lado dramático, trágico e psicadélico?

  3. Vim parar neste site através do post de vocês sobre a representatividade em Sailor Moon, que é incrível e me fez querer re-assistir, e agora vejo esse aqui que esta repleto de verdades. Eu sou bi e vários desses filmes eram meus favoritos antigamente e durante muito tempo eu não sabia o motivo. No começo da semana fui comentar com uma amiga sobre isso e a resposta foi jogada na minha cara, esse post aqui só reforçou toda a ideia. É engraçado, e talvez um pouco trágico, pensar em como eu surtava quando eu via a Jennifer e a Anita na cena em que elas se beijavam (além da queda que euzinha tinha pela Megan kk) e como isso foi representatividade pra mim.
    Não acho que tenhamos filmes sobre essa temática o suficiente hoje em dia, porém, ao pensar em todos os não exemplos que eu tive, vejo que estamos avançando cada vez mais.