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Entre Chuva Negra e Chernobyl: a importância do não esquecimento de fatos históricos

Recentemente, voltamos a debater sobre o horror da radioatividade com a minissérie Chernobyl, da HBO. A série conta os acontecimentos reais do desastre de Chernobil — acidente ocorrido em 1986 na Usina Nuclear de Chernobil, localizada na antiga Ucrânia Soviética, mais especificamente na cidade de Pripyat — e nos faz refletir sobre um assunto que não deveria ser nunca esquecido, mas que infelizmente foi novidade para muitos que assistiram à série: os efeitos da radiação. Apesar de a energia nuclear ou termonuclear ser uma das fontes de energia mais eficientes e limpas descobertas até hoje (não gera gases estufa, não requer muito espaço, produção de poucos resíduos, etc), ela é também, provavelmente, a mais perigosa, o que a série mostra com perfeição.

Em casos de acidentes, nos deparamos com consequências como a contaminação ambiental, altíssimas taxas de mortalidade, mortes horrendas em que pessoas praticamente se decompõe vivas, doenças e problemas de saúde causados pela radioatividade (câncer e outras mutações genéticas capazes de atingir várias gerações, por exemplo), alimentos e água contaminados, possibilidade de cidades, estados e até mesmo países inteiros se tornarem inabitáveis por centenas de anos, transporte de radioatividade por milhares de quilômetros a partir de fenômenos naturais como vento e chuvas, etc.

Chernobyl, em seus angustiantes cinco episódios, consegue nos fazer entender todo o horror que a radiação pode trazer, não somente por seus efeitos imediatos, mas também por aqueles que surgem apenas a longo prazo, que afetarão as gerações futuras durante séculos, e podem levar até mesmo à extinção humana. Esse tipo de relato, seja em forma de filme, série ou livro, é de extrema importância para o não esquecimento de acontecimentos tão marcantes da história humana, levando informação de forma clara e impactante. Esse conhecimento, ou a falta dele, pode ser aquilo que evitará que no futuro cometamos os mesmos erros.

chuva negra

Escrito por Masuji Ibuse e publicado no Brasil pela Estação Liberdade, Chuva Negra é outra obra que, da mesma forma, se mostra essencial para preservar a memória histórica. Em um momento em que governos cada vez mais autoritários e militarizados se encontram no poder em diferentes países e conflitos internacionais se acirram, é necessário relembrar que a radiação não não é usada apenas como fonte de energia: ela também é usada como arma. Uma arma com o poder de acabar com a vida na Terra. Não podemos esquecer de Hiroshima e Nagasaki, não só por serem um exemplo dos horrores da guerra, mas porque precisamos estar conscientes das consequências geradas por uma bomba atômica. Chuva Negra é uma história que está conectada a Chernobyl, mesmo passando-se em outro lugar, em outra época — e assim como a história contada pela série, não pode ser esquecida.

Considerado um clássico da literatura japonesa e publicado pela primeira vez em 1965, vinte anos após os bombardeio, Chuva Negra continua relevante e atual. A história se passa parcialmente em 1945, quando as bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki são lançadas. É um livro incrível e assustador, que nos mostra o terror da radiação e da guerra e, mais importante do que isso, chama a atenção para a realidade dessa monstruosidade vista de dentro, por civis que foram vítimas da destruição de Hiroshima.

“Avistamos a uma certa distancia o corpo de uma mulher que jazia morta no meio do caminho, no topo do talude. De repente, Yasuko, que caminhava à nossa frente, retornou correndo e gritando: — Tio! Tio! — e debulhou-se em lágrimas. Quando me aproximei, vi uma menininha de cerca de três anos, que abrira o vestido do cadáver no alto e estava brincando com seus seios.”

Na trama, acompanhamos a pequena família composta por Shigematsu, Shizuma, e sua sobrinha, Yasuko. O livro alterna entre o passado (o momento do lançamento das bombas), e o presente da família, cinco anos depois. Temos acesso ao relato de diferentes personagens, todos escritos na forma de diários, desde o dia do ataque até a rendição do Japão.

Depois de terem sobrevivido ao bombardeio, Shigematsu e Shizuma, que sofrem com os sintomas de radioatividade, tentam encontrar um pretendente para se casar com Yasuko. No entanto, todos os interessados fogem assim que ouvem os boatos de que Yasuko havia estado em Hiroshima e que estaria infectada. Para provar a um possível pretendente que Yasuko não estava contaminada, Shigematsu começa a copiar o diário da sobrinha da época da bomba, assim como o seu, demonstrando que ela não estava em Hiroshima no dia da explosão. Através desses diários, entramos em contato com a gigantesca destruição causada pela bomba atômica, o desconhecimento que havia na época sobre o que ela era e quais eram seus efeitos, e as horríveis e reais descrições dos mortos carbonizados pela explosão, dos feridos afetados pela “doença da radiação”, e daqueles que anos depois morreram devido os efeitos da radioatividade.

O livro de Masuji Ibuse é extremamente forte. Nele encontramos várias descrições dos efeitos da radiação, e das mortes ocorridas durante e depois da guerra. Vemos tudo pelo ponto de vista de uma família simples, que precisa atravessar cidades e estradas destruídas e cheias de corpos, não só para encontrarem um lugar seguro, mas para cumprir seus deveres, já que, mesmo em meio a tanta morte, destruição e escassez de alimentos, eles precisavam continuar trabalhando em prol do exército e da nação. Vemos os personagens consumindo alimentos e andando por lugares contaminados de radiação sem nem ao menos saberem disso; pessoas afetadas sendo tratadas como que para doenças comuns, quando seus sintomas não são de uma doença qualquer; médicos que apenas esperam pela morte de seus pacientes, pois já não sabem mais o que fazer e nem o que está afetando a população daquela forma. Observamos, através dos olhos de diferentes pessoas, seus entes queridos definhando aos poucos devido à contaminação da bomba, rezando para que se recuperem, acreditando se tratar de algo curável, enquanto nós, com nossos olhares do futuro, já sabemos muito bem que não há cura.

“Hiroshima é uma cidade queimada, uma cidade de cinzas, uma cidade de morte, uma cidade de destruição, as pilhas de cadáveres são um protesto mudo contra a desumanidade da guerra.”

Masuji Ibuse ganhou dois prêmios literários japoneses importantíssimos por Chuva Negra: o Noma Prize e o Order of Culture. Apesar de não estar em Hiroshima durante o bombardeio, ele utilizou diários de sobreviventes das bombas para escrever seu livro. E saber disso torna a história muito mais visceral.

O final de Chuva Negra é agridoce, o que nos deixa a sensação amarga na boca de que todas aquelas mortes não tiveram nenhum significado, de que aquele horror ainda não acabou. Como se o autor já soubesse que mesmo hoje, em 2020, continuaríamos vivendo sobre a ameaça da radiação, nas mais diferentes formas. Que continuaríamos, enquanto países, ameaçando uns aos outros com armas nucleares.

Obras como Chernobyl e Chuva Negra são importantes porque não podemos esquecer essas histórias, para não correr o risco de repetirmos os mesmos erros do passado. Por mais que essa seja uma frase clichê, ela continua necessária. Depois da terrível contaminação da radioatividade de Hiroshima e Nagasaki, em 1945, tivemos o caso de Three Mile Island (Pensilvânia), em 1979, Chernobil, em 1986, Tomsk-7 (Rússia), em 1993, a usina nuclear de Tricastin, no sul da França, em 2008, e muitos outros. Sabe-se lá quantos mais existirão até aprendermos a lição. E se teremos tempo para aprendê-la.


** A arte em destaque é de autoria da editora Paloma.

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