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A hora da mudança chegou: Mulheres em Hollywood

Nos últimos anos, principalmente após o início do movimento #MeToo e Times’s Up, a questão da desigualdade de gênero na indústria cinematográfica ganhou força e destaque em noticiários, revistas, sites especializados e, inclusive, em premiações, como o Oscar e o Emmy. Nesse cenário, o documentário Mulheres em Hollywood: É Hora da Mudança, lançado em agosto de 2019, denuncia a existência de menos oportunidades para mulheres e para artistas negras e negros nas produções cinematográficas e televisivas, além de falar como a representação da mulher é problemática, tanto em filmes como animações destinadas às crianças, visto que, quase sempre, são personagens hipersexualizadas e fetichizadas.

Dirigido por Tom Donahue, o longa conta com a atriz e ativista Geena Davis como produtora executiva e figura principal do documentário. Conhecida principalmente pelos filmes Thelma & Louise (1991) e Uma Equipe Muito Especial (1992), Davis é criadora de um instituto, o Instituto Geena Davis Sobre Gênero na Mídia, que levanta dados relacionados às diferenças entre homens e mulheres nos diversos setores profissionais em Hollywood. Dessa forma, consequentemente, a maioria dos dados citados na produção são vindos de pesquisas feitas pelo Instituto.

A produção apresenta, principalmente no início, relatos de atrizes e produtoras influentes, como Meryl Streep, Zoe Saldana, Sandra Oh, Chloë Moretz, Shonda Rhimes, Reese Witherspoon, Natalie Portman e Patty Jenkins, a respeito de suas experiências com o machismo e a desigualdade de gênero em produções hollywoodianas. Dessa forma, para explicitar o que é dito pelas entrevistadas, são introduzidas cenas de filmes que evidenciam o que é falado. Por exemplo, no momento em que a atriz Rose McGowan diz não gostar de assistir os filmes dos quais participou, uma vez que os planos de “bunda” são valorizados ao invés de sua atuação, as cenas dos filmes Pânico (1996) e Um Crime Entre Amigas (1999) aparecem para enfatizar a prevalência do machismo e da misoginia na indústria.

Ao longo do documentário, as entrevistadas deixam claro a importância de uma boa representação feminina nas produções, já que, salvo exceções, a maioria das mulheres presente nas telas, além de sexualizadas, representam papéis de gênero tradicionais e desatualizados, com padrões irreais de beleza ou, simplesmente, são usadas como motivação da história do protagonista masculino. Por sua vez, essa representação da mulher no cinema hollywoodiano é entendida como um reflexo da falta de mulheres contratadas para, por exemplo, protagonizar, roteirizar, dirigir, operar câmeras e produzir projetos. Mas, além da ausência de mulheres nos sets de filmagem, há poucas no mundo dos negócios do entretenimento. Nesse contexto, Geena Davis reflete ironicamente que toda vez que um longa protagonizado e/ou dirigido por uma mulher é um sucesso de bilheteria, a frase agora tudo vai mudar é usada repetidamente pela imprensa, como aconteceu com Thelma & Louise (1991), Frozen (2013) e Estrelas Além do Tempo (2016). Porém, nenhuma mudança sistemática foi observada depois desses lançamentos. Ou seja, o sucesso de filmes que inspiram mulheres e meninas a serem o que desejam ser seguiram sendo vistos como uma jogada de sorte.

No entanto, incontestavelmente, estamos vivendo um momento de otimismo em relação a forma como a indústria do entretenimento, historicamente dominada por homens, enxerga as produções feitas e protagonizadas por mulheres. Fato esse, principalmente, impulsionado pelo sucesso do filme Mulher-Maravilha (2017). Dirigido por Patty Jenkins que, ao assumir o cargo, se tornou a primeira diretora a comandar um filme com orçamento superior a 100 milhões de dólares. O longa é o primeiro filme a ter uma super-heroína como protagonista, o que desconstrói a imagem da mulher que precisa ser salva por um homem, como tradicionalmente é esperado. Isso, por si só, já seria motivo de comemoração, visto que abriu espaço para que personagens femininas saiam do estereótipo de princesas mas, também, impulsionou que outros filmes com protagonistas e diretoras fossem feitos, como Capitã Marvel (2019) e Aves de Rapina: Arlequina e sua Emancipação Fantabulosa (2020).

Mulheres em Hollywood: É Hora da Mudança tem uma abordagem rápida, por vezes superficial, ao tentar falar de todos os aspectos envoltos em uma temática tão ampla como a desigualdade de gênero na indústria do entretenimento hollywoodiano. No entanto, ao se concentrar em tratar sobre casos jurídicos envolvendo a temática, Donahue torna o documentário inspirador, principalmente ao contar a história do grupo conhecido como Original Six.

Composto, em 1979, por seis mulheres membros do Sindicato dos Diretores dos Estados Unidos, o grupo tinha como objetivo investigar as oportunidades de trabalho e as práticas de contratação de estúdios de cinema. Depois de quase um ano de pesquisa, chegaram ao resultado impactante de que menos de 1% de todos os trabalhos realizados entre 1949 e 1979 foram destinados às mulheres. Essa verificação acabou em um processo contra estúdios, argumentando discriminação de gênero, mas a ação não foi para a frente, tendo sido arquivada. Em 2015, no entanto, a diretora Maria Giese entrou com uma ação denunciando, assim com as Original Six, a discriminação de gênero em Hollywood. Para contar esta história em detalhes, o documentário entrevista Maria Giese e cinco das seis pioneiras, Lynne Littman, Susan Bay, Nell Cox, Victoria Hochberg e Joelle Dobrow.

Por fim, a produção faz uma chamada para a ação voltada aos executivos dos estúdios, para que eles percebam como a indústria do entretenimento é desigual para com minorias (mulheres, negros, latinos, indígenas, asiáticos e quem não se encaixa nas normas de gênero). Para isso, o documentário mostra, como um exemplo a ser seguido, o compromisso que John Landgraf, diretor executivo da FX Network, assumiu com a realização de contratações mais diversas e inclusivas. Para se ter uma ideia, a FX tinha, entre 2014 e 2015, 89% de suas produções com homens na direção, mas com a adoção do compromisso, esse número caiu para 49% em 2016. Tal ação resultou em séries reconhecidas, como The People v. O. J. Simpson: American Crime Story (2016), Atlanta (2016) e Feud (2017), por exemplo.

“O progresso acontecerá quando os homens se posicionarem. É a cavalaria do século XXI.” 

Mulheres em Hollywood: É Hora da Mudança é um bom documentário, mesmo que, por vezes, as histórias das cineastas, atrizes e profissionais da indústria sejam usadas de maneira superficial. Apesar disso, a produção nos leva a pensar se os filmes que assistimos mil vezes quando éramos crianças, por exemplo, têm uma representação de qualidade nas personagens femininas. É inevitável, contudo, não sentir uma leve decepção ao constatar que, em um filme que denuncia a falta protagonismo das mulheres no cinema, seja um homem a receber o crédito como diretor, mesmo existindo excelentes diretoras e cineastas, como Lana Wilson, diretora do recente Miss Americana (2020), e Ava DuVernay, diretora e roteirista de A 13ª emenda (2016). Assim, Mulheres em Hollywood: É Hora da Mudança pode desde decepcionar até encorajar a quem o assistir.

Rafaela Freitas é aspirante à comunicadora, noveleira assumida, apaixonada por cinema e cultura pop. Tem uma quedinha pelos clássicos da Sessão da Tarde e por produções com figurinos impecáveis. E, nas horas vagas, gosta de planejar viagens e ler romances clichês.


** A arte em destaque é de autoria da editora Ana Luíza. Para ver mais, clique aqui!

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