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De Frente com Valkirias: Maria Angela de Jesus

Talvez não saiba quem é Maria Angela de Jesus, mas com certeza já assistiu algumas das séries que a diretora de produções originais da Netflix no Brasil lançou por aqui. A executiva é responsável pela área de conteúdo nacional da gigante do streaming e, ao longo de sua carreira, passou por outras importantes empresas para o cenário pop internacional. Em entrevista para o Valkirias, ela conta um pouco a respeito de seu trabalho na Netflix.

Recentemente, a Netflix fez um grande evento autônomo, o Tudum. A maior parte do público que compareceu ao festival eram jovens adultos e adolescentes. Isso, na minha opinião, diz bastante sobre o público do streaming que adora séries com temáticas jovens e que tratam de assuntos como inclusão e diversidade, ainda de que forma honesta e madura, como é Sex Education. Essas narrativas incluem, claro, a vida de meninas, o mundo em que elas crescem e a jornada para encontrarem suas vozes. E contar isso, de forma certa, é uma responsabilidade. Como você vê o processo de alcançar essa geração de meninas, e como vê que elas estão reagindo a representatividade apresentada pela Netflix em suas obras?

Maria Angela de Jesus: No começo deste ano, nós fizemos uma pesquisa com os jovens brasileiros e ficou claro que representatividade importa demais para eles. Eles querem se enxergar na tela e querem ver suas realidades e experiências refletidas sem romantização. Um dos dados que chamou a nossa atenção foi o de que 7 em cada 10 dos jovens adultos brasileiros disseram que buscam se ver nas telas, e que isso importa na hora de escolher o que assistir. Buscamos em nossas produções entregar isso para os nossos assinantes, cada vez mais, e percebemos que está gerando um resultado, já que 60% dos jovens que participaram da pesquisa sentem que se encontram mais refletidos na tela agora do que cinco anos atrás. Além disso, os jovens brasileiros afirmaram que buscam nas séries conversas sobre amizade, relacionamentos e sobre o futuro. As meninas e mulheres estão ganhando cada vez mais protagonismo e isso se reflete também nas telas. A percepção sobre a luta pelos direitos das mulheres está crescendo e, como isso faz parte da realidade dos jovens, também faz parte da realidade das personagens. Em Sex Education, uma das personagens perde a coragem de andar de ônibus depois de ser assediada e, após muitas tentativas, recebe o apoio de outras garotas da escola. Vimos que várias jovens, nas redes sociais, se identificaram com essa cena forte, mostrando que ao ter essas realidades refletidas nas telas criamos um grande impacto nessa nova geração.

Pode-se dizer que alguns jovens têm mais conflitos na vida, por questões sociais, enquanto outros nascem mais privilegiados. Mesmo assim, todos eles carregam questionamentos em comum. Séries como Sintonia abordam a questão social e racial, ao mesmo tempo que exploram assuntos mais comuns da adolescência: romance, música. Além de ter uma forte presença feminina na série, claro, que são empáticas e identificáveis. Como é o processo de abordar um mundo e situações específicas, mas ao mesmo tempo deixar isso universal, para que todas as meninas que consumirem a série aproveitem e tirem uma mensagem dali?

M.A.J: Entendemos que as histórias locais geram uma grande identificação não só com o público local, mas também global. Existem questões que extrapolam o país e a região, pois são conflitos comuns tanto no Brasil, quanto na Alemanha e no Japão. Nós percebemos que o conteúdo brasileiro realmente gera identificação com o público daqui. Por exemplo, 50% dos nossos membros no país já assistiram pelo menos um filme ou série produzido pela Netflix localmente. Mas o conteúdo produzido aqui também gera identificação para o público de outros países. Por exemplo, Modo Avião foi o filme de língua não-inglesa mais popular da Netflix, sendo que dois terços dessa audiência veio de fora do Brasil, de países como Estados Unidos, México, França e Alemanha. A Ana, personagem principal, é uma menina que poderia viver em qualquer país, afinal os problemas sobre o uso desmedido das redes sociais e a necessidade de um detox digital forçado são questões universais.

As mulheres do Brasil são plurais e cada região do país tem cultura e costumes diferentes. Essa é uma das belezas do país, inclusive. Por enquanto, a maioria das personagens das séries da Netflix estão situadas no sudeste, Rio, São Paulo, etc. Existem planos para explorar mulheres de outras regiões do país? E vocês procuram diretoras, roteiristas e mulheres para trabalhos atrás da câmera em outras regiões? Até mesmo para acertar na hora de explorar outras culturas…

M.A.J: Na Netflix, nós queremos buscar as melhores histórias para serem contadas e, para isso, queremos ter conosco os melhores profissionais, tanto na frente quanto atrás das câmeras, mostrando essa pluralidade brasileira como deve ser representada. Assim, sempre buscamos trabalhar com os criadores e talentos mais excitantes do Brasil, e queremos representar um Brasil verdadeiro em nossas produções. Dois exemplos recentes são a Hermila Guedes, de Cabrobó, no Nordeste, e uma das estrelas principais de Irmandade, e a humorista Bruna Louise, do nosso especial de comédia, Lugar de Mulher, que é de Curitiba.

Se aos passos de formigas as mulheres cis vão conquistando seu espaço no mercado de trabalho e do audiovisual, mulheres transgêneros acabam ficando para trás e são negadas de oportunidades. Existe algum projeto de inclusão para mulheres trans, e como vocês pretendem abordar essa questão na frente das telas, nos roteiros das produções nacionais?

M.A.J: Uma das nossas primeiras produções originais no Brasil é Laerte-se, documentário sobre a Laerte, uma das maiores cartunistas do Brasil — e do mundo — e mulher trans. A diversidade é parte vital da nossa cultura e levamos isso muito a sério na Netflix. Em Orange is The New Black, nós trabalhamos com Laverne Cox e em 2014 ela se tornou a primeira pessoa abertamente trans a ser indicada ao Primetime Emmy Award pelo seu trabalho na série. Sense8, por exemplo, tem não só uma mulher trans entre as personagens principais, que também é interpretada por uma mulher trans, como foi criada e dirigida pelas irmãs Lilly e Lana Wachowski, duas mulheres trans. Ainda temos outros exemplos mais recentemente, como You e The Politician e muitos outros que devem vir por aí em outros países. No Brasil, temos Wallace Ruy, que integra o elenco de dois shows nossos, Onisciente e Reality Z. Nós acreditamos que mais pessoas deveriam ser capazes de ver sua realidade nas telas e estamos buscando criar mais espaço para histórias que incluam essas diferentes perspectivas.

Ao mesmo tempo que existem muitas obras jovens no catálogo nacional, também existem produções mais maduras e políticas, todas elas com figuras femininas no centro. Como é o caso de Coisa Mais Linda e até mesmo O Mecanismo. Buscar referências para essas obras deve ser diferente. Você acha que existe uma pressão maior para acertar na representação de adolescentes, ou é sempre o mesmo processo?

M.A.J: A nossa preocupação é levar para as pessoas personagens dos mais diversos perfis com os quais elas possam se identificar, independentemente de idade, gênero, origem, etc. Nós queremos que todo mundo possa se reconhecer na tela. Por isso, a nossa preocupação e o trabalho que fazemos é o mesmo, livremente da audiência que a produção irá alcançar. Procuramos bons personagens para entregarem boas histórias a todos, sejam jovens ou pessoas mais maduras. Além disso, trabalhamos com os criadores e talentos mais prolíficos em contar histórias para um determinado público, que possam trazer autenticidade para a série ou o filme, como por exemplo, com Sintonia e o KondZilla, que trouxe uma linguagem genuína e mostrou situações com as quais os jovens brasileiros puderam se identificar.

Modo Avião se tornou o filme de língua não-inglesa mais assistido fora do país. E Petra Costa concorreu ao Oscar de melhor documentário por Democracia em Vertigem! Dois feitos incríveis, de obras conduzidas e feitas por mulheres. Vocês têm planos para assinar com mais diretoras brasileiras, que trazem esse olhar novo e refrescante para certos assuntos? Se você puder, me dê um exemplo de um talento com quem seria legal de trabalhar.

M.A.J: Na Netflix, temos a diversidade como um dos pilares da nossa cultura corporativa — estimulamos a diversidade no escritório, nos sets de produção, nas equipes de criação. Temos três executivas mulheres capitaneando o nosso time de conteúdo: eu mesma, com originais internacionais; Daniela Vieira, com conteúdo infantil; e Elisa Chalfon, com conteúdo Unscripted. E temos ainda à frente da Produção, Claudia Augustinis, e um time local de pós-produção, capitaneado por Alessandra Casolari. Trabalhamos com diversas protagonistas femininas na frente das câmeras, como a Rita (Bruna Mascarenhas), de Sintonia, Cristina (Naruna Costa), de Irmandade, a Malu (Maria Casadevall) e Adélia (Pathy Dejesus), de Coisa Mais Linda, a Michele (Bianca Comparato) e a Joana (Vaneza Oliveira) em 3%; além de trabalhar com produtoras, roteiristas e diretoras, como Heather Roth e Julia Rezende (Coisa Mais Linda), Carolina Munhoz (O Escolhido), Daina Giannecchini e Dani Libardi (3%), Julia Jordão e Bel Valiante (Onisciente) para citar algumas das séries já lançadas, e Juliana Rojas (Boca a Boca), Ilana Casoy (Bom Dia, Verônica) e Thalita Rebouças (Um Pai no Meio do Caminho), de produções a serem lançadas. Modo Avião, além de ser estrelado por uma mulher, possui também algumas mulheres por trás das câmeras: as produtoras Samanta Moraes e Cecília Grosso, e a roteirista Alice Name-Bomtempo.

Uma das primeiras séries originais da Netflix foi Orange is the New Black, que tinha um elenco diverso de mulheres e tratava de assuntos complicados. Desde então, muitas séries surgiram nessa mesma linha. As produções originais tem que ter nacionalidade forte, claro, mas acredito que essas produções sejam fonte de inspiração e qualidade, principalmente quando se trata de representação feminina nas telas. Quais sãos os elementos que você pega e se inspira para criar esse tipo de narrativa no Brasil?

M.A.J: Na Netflix, a gente quer fazer uma única coisa e fazer muito bem: entretenimento. Nós queremos oferecer para os nossos assinantes o melhor conteúdo e as melhores histórias, e fazemos apostas ousadas em nome dos nossos assinantes, porque queremos que eles possam sempre ter algo para conversar e debater. Hoje, existe um grande interesse pelo feminismo, o que gerou uma série de livros, podcasts, blogs, e também filmes, séries, documentários etc., que tratam  do assunto. Nós nos inspiramos nesse movimento real para representar nas telas as mais diversas mulheres que assistem à Netflix.

Você é uma mulher negra que ocupa um cargo importante na indústria de entretenimento brasileira. Você pode falar um pouco sobre a jornada profissional e, claro, como suas vivências influenciam no dia a dia do seu trabalho?

M.A.J: Desde pequena minha mãe me ensinou algo que sempre me norteou: eu posso sempre conquistar mais. Ela sempre acreditou em mim e isso me ajudou a me tornar quem eu sou, chegar onde estou e continua sendo uma inspiração para eu seguir em frente. Eu estudei em escola pública e fui a primeira da minha família a entrar para a universidade, passei por situações difíceis ao longo da minha carreira, mas sempre busquei aprimorar os meus conhecimentos e estudei muito. E essa experiência enquanto mulher negra, executiva em cargo de liderança e profissional com muitos anos de experiência no mercado permite que eu tenha uma perspectiva que talvez outras pessoas em cargos de liderança não consigam enxergar, o que faz muita diferença no dia a dia de trabalho e na luta por representatividade nas telas, atrás das câmeras e no próprio escritório. Considerando isso, eu me conscientizei sobre a importância de falar mais desta questão, participar de palestras e painéis que discutam a diversidade e a inclusão, porque, além de trazer o assunto para a pauta e buscar alternativas para endereçar esses pontos no mercado, existe a representatividade. Ao me expor dessa forma, outras pessoas conseguem se enxergar em mim e ver que existem caminhos e alternativas para se conquistar um lugar de liderança no mercado de trabalho.

Você ficou anos na HBO onde a conversa sobre diversidade e mulheres na tela sempre foi um ponto crucial nas produções. Ano passado, fui em um evento da Amazon onde esse mesmo aspecto foi discutido. E a Netflix, claro, sempre deixou claro a necessidade de explorar narrativas diversas era essencial. Isso é algo que não pode ser parado. O que você acha que a Netflix tem a oferecer de diferente nesse aspecto?

M.A.J: A Netflix é um serviço com um público muito amplo — temos mais de 167 milhões de assinantes pelo mundo e mais de 10 milhões no Brasil, e desde nossa fundação estamos empenhados em oferecer aos nossos assinantes o controle completo de sua experiência com a Netflix — eles podem assistir quando, como, onde e em que língua quiserem. É impossível que todas as pessoas queiram e procurem pelo mesmo tipo de conteúdo. Cada um dos nossos assinantes têm suas preferências e, por isso, investimos em uma programação de conteúdo tão diversa, para que toda e qualquer pessoa possa encontrar algo para assistir e se apaixonar na Netflix.

Mulheres mais velhas quase sempre são excluídas da narrativa, mas a Netflix tem séries como Grace and Frankie nos Estados Unidos, por exemplo. Existem planos para abordar a vida de mulheres mais velhas no Brasil em uma produção como essa? Afinal, as vivências de geração para geração nesse país variam demais.

M.A.J: Estamos sempre em busca das melhores histórias para contar aos nossos assinantes independente de gênero, formato, etc. Todos os originais brasileiros que lançamos até hoje possuem mulheres como protagonistas e nós estamos abertos a projetos que abordem a diversidade em todos os seus aspectos, incluindo histórias de mulheres mais velhas, por que não?!

Infelizmente, o tratamento de personagens femininas em obras de gênero nem sempre saem perfeitas, mas recentemente a Netflix lançou O Escolhido, que tinha não só uma mulher responsável pelos roteiros como também uma protagonista mulher. Essa é uma obra de terror, assim como 3% trata da ficção científica e também tem mulheres na frente e atrás das câmeras. E tem muitas outras séries de gênero nacionais chegando na plataforma. Existe uma preocupação maior em trabalhar essas personagens melhor dentro do mundo distópicos em que elas vivem? Como, por exemplo, tratar para que a violência (sexual ou não) não seja usada de forma banal, ou só para chocar.

M.A.J: A ficção científica é um gênero que foi essencialmente masculino por muitos anos, tanto considerando autores, como os próprios personagens principais. Hoje, nós vemos um crescimento no número de autoras e também de personagens femininas liderando essas histórias sobre realidades distópicas. Agora, a preocupação em relação a essa representação não trazer referências importantes de forma banal ou apenas para chocar o público é uma realidade para nós em todas as produções que fazemos, seja qual for o gênero, o formato, ou o personagem principal. Tratamos de diversos temas relevantes para o público em nossos filmes e séries e buscamos fazer isso com todo o respeito e toda a responsabilidade.

Séries como Samantha! e Ninguém está Olhando foram recentemente canceladas pela plataforma. Você pode falar um pouco sobre o que vocês estão procurando a partir de agora para compor o catálogo nacional?

M.A.J: Nosso objetivo principal é levar para o nosso público as melhores histórias, independente do gênero e formato. Mas nem sempre o custo de produção está de acordo com a audiência que uma série alcança e ela acaba não sendo renovada. Nós sempre trabalhamos e continuaremos trabalhando da mesma maneira: procurando, encontrando, produzindo e entregando as melhores histórias que pudermos para contar e que sejam capazes de criar um forte engajamento entre os nossos assinantes.


** A arte em destaque é de autoria da editora Ana Luíza. Para ver mais, clique aqui!

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