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A construção do amor e relacionamentos tóxicos em Buffy, the Vampire Slayer

Quando Buffy Summers (Sarah Michelle Gellar) é convocada para assumir seu posto como slayer, ela é obrigada pelo conselho a abandonar sua vida social, sua família e seus amigos. Seu principal objetivo é viver isolada e dedicar 100% do seu tempo a lutar contra vampiros e qualquer outro demônio que apareça no seu caminho. Mas não é bem assim que as coisas se desenrolam na série. Depois que Buffy muda para Sunnydale e Rupert Giles (Anthony Stewart Head) começa a ser o responsável por treiná-la, a protagonista cultiva relações sociais e cria um grupo que não só está disposto a ajudá-la nas difíceis missões de salvar o mundo, como também genuinamente se importam com ela. Aos poucos, Willow (Alyson Hannigan), Xander (Nicholas Brendon) e até mesmo o próprio Giles se tornam uma espécie de conforto e escape para a crueldade do mundo dos demônios e, por isso, é possível dizer que o poder da amizade e do amor salvou Buffy mais de uma vez. O que nem sempre é o caso quando se trata dos seus relacionamentos amorosos. 

Quando vi Buffy pela primeira vez, tinha apenas 16 anos. É mais do que justo dizer que a série mudou a minha vida por vários motivos, sendo o principal deles o fato de que comecei a abordar o mundo da cultura pop de uma forma diferente: com um olhar mais aguçado e ao mesmo tempo crítico para a representatividade feminina nas telas. Mesmo assim, perdi vários detalhes importantes que poderiam ter sido melhor explorados por alguém que vê a série com uma perspectiva mais madura. Durante um rewatch durante a quarentena do coronavírus e aos meus 24 anos, isso ficou ainda mais claro para mim. A obsessão aumentou consideravelmente na medida em que comecei a reparar em detalhes quase escondidos na trama, mas que acrescentavam uma discussão ainda maior e mais profunda para temas que já foram muitos estudados quando o assunto em pauta é Buffy e seu legado para as séries de TV no geral.

É justo dizer também que não sou a única que propaga uma obsessão longínqua com a série; existem milhares de estudos, livros, artigos e pessoas que dedicaram e dedicam sua vida acadêmica para entender Buffy e seus segredos. Apesar da obra ser uma das minhas favoritas de todos os tempos, não posso dizer que sou a maior especialista quando se trata do assunto. O fato de que existe muita gente interessada nas particularidades de Buffy, no entanto, rendeu um bom material para que eu mesma pudesse entender mais sobre o que estava vendo, a simbologia por trás dos capítulos e porque aquilo mexia tanto comigo. Principalmente quando se trata dos relacionamentos amorosos construídos no seriado, das dinâmicas tóxicas e o poder da amizade explorada entre os personagens ao longo das sete temporadas — elementos que sempre andaram de mãos dadas.

Atenção: este texto contém spoilers!

Durante os sete anos em que ficou no ar, Buffy teve um total de três relacionamentos amorosos que foram definitivos e importantes para sua vida: Angel (David Boreanaz), Spike (James Marsters) e Riley (Marc Blucas). Cada um deles chegou em momentos completamente distintos e foram trabalhados em cima desse mesmo fator, sendo que suas principais características, os conflitos e os pontos positivos, emergiram desse mesmo ponto. O que todos eles têm em comum, no entanto, é a forma como as coisas se desenrolaram ao decorrer da relação. Um dos temas recorrentes na série criada por Joss Whedon é o jeito como o amor prospera (ou não) em um mundo violento — sendo que Buffy não só conhece esse universo ao pé da letra, como também é a escolhida, a pessoa responsável por melhorá-lo. A violência extrema que ela tem que enfrentar todos os dias é um tema frequente na narrativa, algo que é pautado por diversos fatores ao longo dos anos mas principalmente na forma como ela vê o amor, sexo e até mesmo um pouco das suas amizades.

“Quando eu te beijo, quero morrer” 

O primeiro relacionamento de Buffy é com Angel (ou Angelus, se você preferir) e começa a ser desenvolvido logo no começo da série. Durante suas primeiras interações amorosas, é estabelecido que eles são star-crossed lovers. Ou seja, o amor que existe entre eles é tão intenso e profundo que é capaz de superar a barreira do tempo (já que ele é um vampiro com mais de 200 anos de idade e ela, na época, uma adolescente de 16 anos) e eles são, no final, alma gêmeas. Esse conceito é, inclusive, reforçado pelo próprio Whedon, que disse durante uma entrevista para o Entertainment Weekly (que comemorou os 20 anos da produção), que nunca iria contar uma história de amor igual a essa na sua vida.

Angel é, claro, um vampiro. Mas por causa de uma maldição, ele foi condenado a viver com uma alma humana presa no corpo de um monstro demoníaco, que não possui remorso ou empatia. Isso quer dizer que ele não só era incapaz de matar por causa do seu senso moral, como também vivia com o peso das suas ações no passado, algo que o transformou em alguém que vive isolado. É sua promessa de tentar ajudar Buffy na sua missão como slayer que o salva, e também os aproxima. Ao longo da primeira e da segunda temporada, o romance deles evolui, atingindo seu ápice quando eles fazem sexo pela primeira vez. O que acontece depois é terrível. A maldição de Angel ditava que um momento de pura felicidade causaria com que ele perdesse sua alma e voltasse a ser o monstro que era quando foi transformado em um vampiro. Dormir com Buffy, no caso, serviu como esse momento e, então, no final do segundo ano da série, ele se transforma no alter ego Angelus, que é cruel e tem uma obsessão absurda com a protagonista: ela é sua presa e nada mais. Isso acontece porque, segundo ele mesmo, Buffy o fez se sentir humano, algo que o monstro dentro dele despreza completamente.

Buffy-especial do amor

Aqui, podemos analisar a história por duas perspectivas diferentes: o fato de que Buffy cedeu ao seu desejo físico e foi punida por isso, como acontece com muitas personagens femininas que são sinceras em relação ao seu apetite sexual, ou pelo lado da metáfora. Não precisa ser nenhum gênio para perceber que o seriado usa de situações sobrenaturais para falar sobre a dor do crescimento, a transição entre a vida jovem para a adulta. Nesse caso, não é muito diferente. Ao mostrar Angel com um comportamento mudado, abusivo e violento após eles fazerem sexo, o roteiro da produção faz um paralelo com a forma que muitos adolescentes lidam com sexo e a perda da virgindade, como a responsabilidade e o ato sexual pesa mais para alguns do que para outros. Acho que é justo dizer que, por mais problemático que seja a punição para uma garota jovem que resolveu fazer sexo, a análise funciona muito bem na narrativa e também serve para expor um problema ainda maior na relação entre os dois.

Mais de uma vez, Spike aparece dizendo que o amor é difícil e exaustivo e que se ele não tem essas características, não é amor. Apesar dessa ser a fala de um personagem, a narrativa reforça isso ao colocar cada vez mais empecilhos no relacionamento entre Angel e Buffy — que não são bons um para o outro, mas não conseguem ficar separados. O próprio Angel diz que quando ele beija Buffy, tem vontade de morrer.

No final, Angel consegue resgatar sua alma (não sem antes causar algum terror em Sunnydale), mas Buffy é obrigada a mandá-lo para o inferno mesmo assim. Quando ele retorna, a série continua trabalhando no relacionamento entre os dois, mais ou menos na mesma dinâmica will they, won’t they. Mas a verdade é que não existe muitas opções para eles e Angel sabe disso melhor do que ninguém. Ele não vê alternativa a não ser terminar o relacionamento e tentar seguir em frente, porque não existe a possibilidade de ter um amor completo e saudável com Buffy se eles não podem nem sequer fazer sexo. É claro que existem relações entre pessoas que não sentem a necessidade do ato sexual em si, mas como esse não era o caso e os dois tinham desejo um pelo outro, não ser capaz de concretizar era só mais um problema em uma longa lista. Sexo não é tudo em uma dinâmica romântica, mas em Buffy os dois aspectos andam sempre juntos, de uma forma ou outra.

Quando eles terminam e Buffy segue para a quarta temporada e sua vida na faculdade, o padrão que ela estabeleceu anteriormente com Angel é claramente vista em seus outros relacionamentos. Seu primeiro parceiro sexual depois do amor da sua vida é Parker (Adam Kaufman) que, muito como Angel, muda seu comportamento depois que eles fazem sexo pela primeira (e única) vez. Mas em vez se tornar um assassino, ele apenas começa a afastá-la e tratá-la mal, como um homem humano que possui um comportamento tóxico e manipulativo. Mesmo assim, é de se pensar porque ela foi atraída justamente por ele. É mais ou menos nessa época também que ela conhece Riley, um dos seus relacionamentos sérios. Ele chega especificamente na época em que Buffy procura alguém normal, que não está envolvido com o mundo dos vampiros e entende seu trabalho como slayer. O único problema é que ele faz parte de um projeto do governo chamado A Iniciativa, onde atua como soldado procurando demônios e vampiros para matá-los.

Desde o começo o relacionamento deles é baseado nos problemas de comunicações e pelo fato de Buffy sentir necessidade de esconder aspectos do seu passado — como seu relacionamento com Angel —, por medo de ser julgada por Riley. Algo que, devo acrescentar, não é um sentimento que chega sem fundamento. O vampirismo em Buffy pode ser usado como uma metáfora para a masculinidade tóxica, como a mudança de comportamento de Angel depois do sexo, mas o comportamento de Riley (um humano) não se distancia muito do que é esperado de um homem. Quando ele descobre que Buffy é a escolhida, pequenos momentos nos episódios indicam que, apesar dele se dizer confortável com a posição da parceira, tem sérios problemas com o fato de que ela não só tem um trabalho mais importante do que o seu, como também carrega uma força física muito mais potente do que a sua.

Grande parte da graça de Buffy é que a protagonista não era apenas uma donzela em perigo e sim a pessoa que enfrentava os monstros, subvertendo os tropos do terror. Isso é justamente o que mais incomodava Riley que, quando sai da Iniciativa e perde seu propósito, começa a ficar cada vez mais frustrado com Buffy e o aumento do seu poder como slayer, ao mesmo tempo que começa a entrar em uma espiral de loucura porque ela “não precisa dele” — algo completamente associado com a concepção de que o homem é a figura de poder, provedor e protetor. Para tentar preencher esse buraco — e após descobrir sobre o relacionamento entre Buffy e Angel —, ele passa a procurar vampiras que se alimentem dele, como uma maneira de compensar sua insegurança no relacionamento. Apesar de Riley ser então, considerado o “cara mais legal” da vida da protagonista, a verdade é que ele não só a traiu, como também disseminou comportamentos tóxicos e problemáticos. Sem contar a própria psique de Buffy, que indicava sempre sentimentos muito mais complexos e autodestrutivos do que ela deixava transparecer. Como Spike mesmo aponta, “toda slayer tem um desejo inconsciente de morte”. 

Logo quando Riley está se preparando para ir embora, ele e Spike conversam sobre os sentimentos que o vampiro nutre pela slayer, e ele admite que não acha que tem uma chance com ela. Mas que, mesmo assim, Riley não é o cara definitivo para a Buffy. “A garota gosta de um pouco de monstro nos seus homens, e isso não está na sua natureza.” Então, a conclusão final é que, assim como a perda da sua virgindade e consequências foi uma metáfora para as dores de um relacionamento adolescente que muda depois do sexo, o fato de que Riley estava pagando vampiras para mordê-lo serviu como uma metáfora para traição. O que nos leva ao último relacionamento amoroso de Buffy.

Buffy-especial do amor

“Toda noite eu te salvo” 

Quando Angel já está conduzindo seu próprio spin-off e Riley já não é uma figura proeminente na vida da slayer, outras questões mais importantes entram em jogo. É mais ou menos nessa época que os sentimentos de Spike em relação a Buffy começam a ser explorados pela narrativa, sendo que a série entra na sua era mais sombria e complexa até então. Consequentemente, a relação entre eles se torna um dos aspectos que reforça essa característica. No artigo “Every Night I Save You: Buffy, Spike, Sex and Redemption”, escrito por Rhonda V. Wilcox, a autora defende justamente o que aponta no título: o relacionamento entre eles é baseado em amor, morte, sexo, redenção e problemáticas. Segundo ela, a dinâmica seria aprovada pelo poeta John Donne, que sempre explorou os limites da existência e da própria morte.

A visão distorcida de amor que Spike sente por Buffy já era claro para o personagem de Marsters desde o final da quarta temporada. Ele entra na quinta tentando mudar seu comportamento perante a protagonista, agindo de forma que ela talvez vá passar a respeitá-lo, e no seu momento de maior esperança, amá-lo. No episódio “Fool For Love”, é a primeira vez que o público vê um pouco mais sobre o seu passado antes de se tornar um vampiro, onde era apenas William, the bloody (uma referência a quanto suas poesias eram ruins). Longe do visual ala Sid Vicious dos Sex Pistols que carrega durante a série, ele usava roupas básicas e passava grande parte do seu tempo escrevendo poesia ruim. Até ele conhecer Drusilla (Juliet Landau), virar vampiro e criar uma obsessão com a história das slayers — tendo, inclusive, matando duas delas (uma em 1990 na China, outra em 1977, em Nova York).

É importante mencionar que o relacionamento de Buffy com Spike anda lado a lado com o da sua irmã, Dawn (Michelle Trachtenberg), apresentada na quinta temporada. Dawn é uma espécie de chave que será usada para abrir um buraco no mundo e várias dimensões infernais. Ela foi transformada em humana (e inocente) para que Buffy pudesse cuidar e protegê-la da deusa da dimensão infernal que ficou conhecida como Glory e, ocasionalmente, Ben. A protagonista acata sua missão sem pensar duas vezes e ao longo dos episódios (inclusive “The Body”, quando Joyce Summers morre e ela tem que enfrentar a morte como algo natural e não sobrenatural pela primeira vez) desenvolve um genuíno amor por Dawn, fazendo com que elas realmente se tornem irmãs. Com medo de estar perdendo sua capacidade de amar (em todos os sentidos), ela procura ajuda do espírito da primeira slayer, que anuncia: “a morte é o seu presente”. O sentido dessa frase só seria explorado com mais profundidade no capítulo “The Gift”, onde ela se sacrifica para salvar Dawn, como também o mundo. Assim, não só a série reforça o poder do amor fraternal que nasceu entre as duas, como também dá significado a mensagem que Buffy recebeu anteriormente.

“A coisa mais difícil do mundo é viver nele. Seja corajosa. Viva.”

Mas outro significado também pode ser explorado na mensagem já que, depois do sacrifício final da protagonista, a série muda completamente o rumo de Buffy, Spike e a complexidade da relação entre eles.

O relacionamento entre Buffy e Spike só começa a desenvolver seu lado mais tóxico na sexta temporada. Após o sacrifício que a protagonista comete no final da quinta, seus amigos temem que ela tenha tomado o mesmo rumo de Angel no terceiro ano e esteja sofrendo em uma dimensão infernal. O único problema é que, ao trazê-la de volta para a realidade deles, Buffy não só tem que socar seu corpo para fora do caixão, como também é tirada da sua chance de ter paz no paraíso (ou seja lá qual for o conceito de paraíso que se aplica nesse caso; a conotação religiosa de Buffy, que está presente até no nome dos personagens, é algo que pode ser explorado por um único texto). Quando ela ressuscita e não consegue lidar com os seus sentimentos, a única pessoa com quem consegue se abrir é o próprio Spike justamente porque, assim como ela, ele também morreu. Assim como ela, ele também teve que socar seu corpo para fora de uma caixão, quando se tornou um vampiro.

Spike é uma criatura da noite, que vive no limite entre a vida e a morte. Isso, somando ao fato de que ele não tentou resgatá-la da sua morte como seus amigos e apenas realizou seu desejo de cuidar de Dawn (com quem ele desenvolve uma relação preciosa ao longo da série), faz com que ela só consiga se abrir com ele, algo que a própria Buffy admite para Tara (Amber Benson). Aos poucos, os dois desenvolvem uma dinâmica tóxica, onde nenhum dos dois é bom para o outro. No episódio musical “Once More, With Feeling”, onde um demônio faz com que todos eles comecem a explorar seus sentimentos por meio da música, ele canta que morreu há anos atrás, mas que Buffy o faz sentir como se não fosse o caso. “Se meu coração pudesse bater, quebraria meu peito.” Depois, quando seus amigos descobrem que ela foi expulsa do paraíso, canta que a vida é apenas isso… viver. De certa forma, Spike parece ser o único capaz de dizer a verdade para ela, ser honesto mesmo que ela tenha voltado do mundo dos mortos. Ele representa a morte, que foi o seu presente. E agora, só uma pessoa morta faz com que ela se sinta viva. O ciclo se fecha.

“Eu quero que você saiba que eu salvei você — não quando era importante, claro, mas depois disso. Toda noite depois disso, eu via todo de novo. Eu fazia algo diferente, me movia mais rápido, fui mais esperto. Milhares de vezes, de jeitos diferentes. Toda noite eu salvo você.”  

Por causa do seu comportamento autodestrutivo, Buffy esconde seu relacionamento com Spike, o manipula e o usa só para sexo. Já ele, um monstro sem alma, não consegue lutar contra os seus instintos. Em “Seeing Red”, essa dinâmica tem um estopim que não é só um dos aspectos mais controversos da série, como também mostra um arco absurdo, triste e criado de forma desnecessária. Apesar de gostar da sexta temporada (algo que não é uma opinião comum entre o resto dos fãs da série), muito por ser uma obra-prima crua e honesta, acho que esse é o pior episódio da produção inteira, de longe. Por mais de um motivo, que serão destrinchados ao longo deste texto.

Na ocasião, Buffy tenta terminar as coisas com Spike e ele responde com violência e tenta violá-la. Ele para antes de concretizar o ato, mas é impossível tirar a cena da cabeça. O próprio James Marsters disse que nunca mais faria uma cena como aquela, e Joss Whedon disse que o efeito com certeza não foi o que ele esperava.

Essa ação pode ser vista de duas formas: o homem que, quando negado a ter algo, faz de tudo para pegar o que considera ser seu. Ou apenas como uma forma de avançar a trama e colocar Spike no seu próximo caminho natural: procurar restaurar sua alma para ser digno de Buffy. Não acredito que seja o primeiro caso porque, mesmo que Spike seja um monstro sem alma, durante a sexta temporada ele desenvolve pequenos gestos que provam um pouco da sua humanidade (como não se alimentar mais de humanos, por exemplo, ou até mesmo procurar proteger Dawn). No final da quinta temporada, inclusive, os dois demônios de Dawn se impressionam com o fato de que ele não tem uma alma, mas mesmo assim é capaz de estar do lado certo da luta, se importar. O que sobra então, é o fato de que a redenção que vem a seguir foi impulsionada pelo sofrimento feminino e não existe nenhuma trama mais datada, misógina e problemática do que essa. Angel, Anya (Emma Caulfield) e outros personagens recorrentes da série fazem coisas maldosas e imperdoáveis ao longo da narrativa, mas sempre acabam achando redenção. Para Spike não poderia ser diferente, claro, mas usar uma narrativa que envolve estupro como escolha para o fazê-lo é uma das maiores decepções que tive com a série — e algo que nunca consegui perdoar, até mesmo hoje.

Buffy-especial do amor

Como toda ação tem uma consequência permanente em Buffy, ao contrário de outras séries da mesma época, o que acontece entre ela e Spike é algo que não só é explorado pela sétima e última temporada, como também nas temporadas que são conduzidas por meio de quadrinhos. Quando Spike percebe o que aconteceu e o que ele tentou fazer com Buffy, ele vai embora de Sunnydale para procurar restaurar sua alma (voluntariamente, ao contrário de Angel), com objetivo de reparar todos os erros que foram cometidos entre eles até então. Assim, não só ele tenta reparar todas as suas ações, como também abraça sua dor e a culpa, procurando-a sempre. Algo que, mais uma vez, Angel sempre evitou fazer.

“Eles puserem a faísca de volta em mim, e agora tudo queima.” 

Mas é tarde demais, mesmo que o sétimo ano seja sobre redenção e tentar entender a conexão que resta entre Buffy e Spike depois de tanta tragédia. Momentos antes de Spike salvar o mundo e fazer um sacrifício para isso, Buffy pega sua mão e diz que o ama. “Não ama não, mas obrigado por dizer isso”, é sua resposta. Mas segundo o próprio Whedon, naquele momento ela o amou. E ele a amou de volta. Os dois então, seguem caminhos diferentes (até, pelo menos, se reunirem nas aventuras seriadas das HQs, mas nem todo mundo acompanha essa fase).

Apesar dos relacionamentos de Buffy serem sempre o foco na série e os mais debatidos entre os fãs da saga, Willow também teve sua dose de relações complicadas e a construção do jeito como ela vê o amor é feita de forma quase tão interessante quanto a da própria Buffy. Para mim, a trajetória da bruxa nesse aspecto sempre foi muito sobre a forma como ela via a si mesma: apesar de ter um grande desenvolvimento na sua personalidade desde a primeira temporada, se tornando uma bruxa poderosa e dona de si, Willow sempre viveu um pouco à sombra da figura que era quando Buffy chegou em Sunnydale, e o medo e a insegurança são elementos presentes de forma sempre sutil nas dinâmicas que ela constrói. Isso fica claro quando ela se envolve com Oz (Seth Green) e mais tarde com Tara. No livro Sexual Rhetoric in the Works of Joss Whedon: New Essays, a autora Erin B. Waggoner vai além, defendendo a teoria de que todos os relacionamentos de Willow começaram (e terminaram) com a presença de uma arma — e se pararmos para analisar a narrativa, o padrão é claro.

A relação de Willow e Oz começa a se desenvolver lentamente a partir da segunda temporada, quando ele começa a cortejá-la de forma quase lenta, deixando sempre com que ela se deixasse acostumar com a ideia de ter ele por perto. Na segunda parte do episódio “What’s My Line”, ele é baleado na intenção de proteger Willow e a partir desse ponto, ela toma a linha de frente no recém relacionamento criado entre eles. Ela sempre está presente durante as suas transformações para lobisomem na lua cheia e a relação se estende até a faculdade, quando Oz parece não saber mais controlar seus instintos animais e deixa a cidade e, consequentemente, seu relacionamento com Willow.

Algo parecido acontece com Tara, em “New Moon Rising”. Nessa altura do campeonato, Willow já está envolvida em certo nível com a personagem, que ela conheceu durante o episódio “Hush”, que é cheio de subtextos amorosos e sexuais. No episódio em questão, Oz volta para Sunnydale após ter controlado o lobo dentro dele e quer reatar seu romance com Willow, mas é tarde demais. O roteiro escolhe fazer com que Oz perca o controle ao perceber que Tara e Willow estão envolvidas de forma romântica, e coloca os dois interesses amorosos dela em conflito direto, sendo que Oz acaba sendo baleado na frente de Tara e, como Waggoner aponta, transferindo oficialmente o “bastão” de companheiro de Willow dele para a menina. Assim, a bruxa oficializa o relacionamento das duas e a assume como sua namorada.

Tara: Você devia estar com a pessoa que você ama.
Willow: Eu estou. 

O relacionamento entre Tara e Willow não só foi um dos mais importantes de Buffy, como também da televisão em geral. Afinal, esse era um relacionamento LGBTQ+ no horário nobre da TV norte-americana de uma das maiores emissoras adolescentes da época, entre duas mulheres poderosas, unidas pela magia e por uma conexão cósmica e intensa. As duas foram muito queridas pelos fãs e a forma como Willow descobre seus sentimentos por outra mulher é tratada de forma honesta e sensível, como deveria ser em qualquer obra. É bem verdade que elas não aparecem se beijando tanto quanto Buffy faz com os seus namorados, por exemplo, mas seguimos. No final da sexta temporada, acontece algo que não só iria moldar os próximos passos de Willow, como também o legado que esse relacionamento deixaria para a forma como relações homoafetivas viriam a ser abordadas na TV.

Buffy-especial do amor

A sexta temporada da série introduziu vilões que não eram grandes demônios ou vampiros sem alma, mas três homens que eram a personificação da masculinidade tóxica. Durante os episódios, a protagonista lida com eles de um jeito direto, algo que deixa Warren (Adam Busch) revoltado e em busca de vingança. No episódio “Seeing Red”, ele chega na casa de Buffy para matá-la, mas sua bala acabando pegando em Tara, e desencadeando eventos que iria definir o resto da temporada.

A bala que mata Tara no final da sexta temporada é chocante e, de certa forma, um retrocesso na forma como a série tinha abordado o relacionamento entre as duas até então, deixando uma marca terrível em relacionamentos LGBTQ+ que viriam a ser explorados no futuro da TV. Assim como a tentativa de estupro de Spike em Buffy, a morte de Tara serve apenas para avançar a trama, impulsionando algo em Willow, que abraça os poderes das trevas na bruxaria após o que acontece, e até mesmo na própria Buffy. Um exemplo claro, e que bebeu diretamente da fonte do final trágico entre Tara e Willow, é o relacionamento entre Clarke Griffin (Eliza Taylor) e Lexa (Alycia Debnam-Carey), de The 100, e o seu desfecho. Após as duas transarem pela primeira vez, Lexa também leva um tiro e acaba morrendo, algo que impulsiona Clarke a seguir com a trama da série, ao mesmo tempo que a isola no seu posto de protagonista solitária de “personagens femininas fortes”, status geralmente validado por trauma.

Entre o final do relacionamento entre Tara e Willow, mais o fato de que é nesse episódio que Spike finalmente sai a procura de resgatar sua alma, “Seeing Red” é um dos capítulos definitivos quando se trata de definir os tropos românticos — e principalmente os problemas tóxicos de cada um deles —, da série. O problema envolvendo armas e Willow é visto ainda de forma breve na sétima temporada quando o novo interesse amoroso da personagem, Kennedy (Lyari Limon), se vê ameaçada por sua própria parceira, que aponta uma arma para ela. “Quando ela consegue tirar o objeto de Willow, no entanto, é como se tivesse quebrado um ciclo”, aponta Waggoner.

Não é uma surpresa que, quando Willow está no auge do seu poder e prestes a destruir o mundo na sexta temporada, quem a salva desse destino é Xander. Como apontado anteriormente, o amor romântico em Buffy quase sempre resgata o pior lado da protagonista, ou machuca seus sentimentos, mas a amizade sempre foi uma constante importante e a relação que ela tinha com os scoobies, algo que a deixou sempre com os pés no chão, sã. Quando Willow precisa do mesmo tratamento, é o que ela recebe. Momentos antes de acabar com a realidade, Xander vai atrás dela e diz que se o mundo vai acabar, ele quer estar com ela. Aos poucos, ele vai lembrando quem ela é, da relação que eles cultivaram durante a maior parte da vida deles e como ele a ama, independente da fase que ela está enfrentando. Mais uma vez, é o poder do amor que salva o mundo. Mas não o amor romântico, mas sim de amizade.

É possível dizer que o desenvolvimento de Xander na série não é dos melhores. Na medida em que Buffy, Willow e Spike foram criando novas nuances com o passar dos anos, ele não desenvolveu muito sua personalidade ou suas motivações. Ele sempre foi a parte humana do grupo, com arcos sempre à margem, quase importantes ou quase profundos. Isso não quer dizer que ele não tenha tido seus momentos, ou que seja menos amado pelos personagens da série. Como apontado antes, é ele que ajuda Willow a lidar com seus sentimentos pela perda de Tara; assim como é ele que revive Buffy no final da primeira temporada; que dá um discurso revelador para Buffy no episódio “Into the Woods”, quando Riley a deixa e vai embora de Sunnydale; e, por fim, que também ajuda Dawn a superar o fato de que ela não é uma slayer em potencial assim como o resto das meninas que Buffy ajuda a treinar na sétima temporada.

“Sete anos, Dawn, trabalhando com a Slayer e vendo meus amigos ficarem cada vez mais poderosos. Uma bruxa, um demônio… eu poderia colocar Oz no meu kit de barbear em um dia normal, mas durante a lua cheia ele tinha poderes de lobisomem no qual jamais poderia vencer. Eles são todos poderosos. E eu sou o cara que conserta as janelas (…) eles nunca vão saber como é ser alguém que não é o escolhido, viver tão perto do holofote e nunca ficar no centro dele. Mas eu sei, e eu vejo mais do que todo mundo percebe porque ninguém está reparando em mim. E eu vejo você não como alguém especial, mas extraordinária.”

São nesses momentos que é possível entender que o poder especial de Xander era, no final do dia, ver as pessoas pelo o que elas eram. E mesmo que grande parte do seu desenvolvimento na categoria do amor tenha sido em relação a Willow, Buffy e até mesmo com Dawn, sua dinâmica com Anya também é algo que merece ser estudado na trajetória da série. Quando Anya entra na trama, ainda na terceira temporada, ela é apresentada como um demônio de vingança, cuja principal função é dar castigos para homens que foram infiéis com suas parceiras. É assim que ela conhece Xander, que na época estava com Cordelia (Charisma Carpenter) e tinha acabado traí-la. Quando ela perde seus poderes e é obrigada a retomar sua vida como uma menina humana que ainda está no ensino médio, começa a tentar entender os costumes dos humanos e como lidar com os mesmos, além de entrar em um relacionamento conturbado com o próprio Xander.

Porque ela foi um demônio durante muito mais de mil anos e não conhece basicamente nenhuma etiqueta social, ela é muito mais aberta e sincera quando se trata de sexo, ao contrário das outras personagens femininas de Buffy. Quando ela começa a se relacionar com Xander, deixa claro o que ela quer e quando sente algo mais, não tem medo de falar e indagar a posição do seu parceiro em tudo isso. É por causa disso que Anya é considerada uma figura positiva quando se trata de sexo e amor nas séries de TV. Mas o resultado não é bom para nenhum dos dois, e em certo momento da narrativa, Xander escolhe deixá-la no dia do casamento deles, algo que a transforma mais uma vez em um demônio de vingança. Ou seja, ela se deixou ser definida por algo que aconteceu na esfera romântica da sua vida — e as consequências por causa disso foram graves. Ela não consegue se definir além disso, e tão pouco a narrativa da série tenta (muito como aconteceu com a personagem de Amy Acker, Fred, no spin-off Angel).

Quando Xander e Anya começam a namorar, ela conta que não o acha tão insuportável quando o resto dos machos alfas da cidade. Mas isso não é bem verdade. Apesar de no primeiro momento parecer que Xander não tem problemas em ser acompanhado por mulheres poderosas (como Riley tem, por exemplo), grande parte do comportamento inseguro do personagem vem exatamente desse fato. Isso, junto a todas as questões de identidades apresentadas por Anya ao longo da série, fez com que o casal sempre fosse uma receita para o desastre. E quando a personagem morre no último capítulo da produção, “The Chosen One”, é impossível não ficar com uma sensação amarga no âmago.

Na narrativa de Joss Whedon, os vampiros representam uma metáfora para os aspectos mais terríveis dos humanos. Masculinidade tóxica e violência são apenas alguns deles. O fato de que eles são criaturas desprovidas de almas e, consequentemente, de sentimentos como remorso ou vergonha, faz com que eles apelem para o seu lado mais selvagem quando se trata de desejos e vontades. É por isso que, quando a Willow vampira de uma realidade alternativa vai parar na Sunnydale regular, ela demonstra a complexidade da sua sexualidade e não tem vergonha de abordá-la, enquanto a versão vampira de Xander se alimenta de Cordelia sem pensar duas vezes, apaziguando seus desejos (já que nas primeiras temporadas eles carregam uma relação de amor e ódio, comandada principalmente pela atração física mútua). Angel sem alma também não parece esconder sua obsessão por Buffy e até mesmo Spike, que é quem chega mais perto de ser capaz de mudar mesmo sendo um “monstro”, tem uma visão completamente distorcida do certo e do errado. A conclusão é que o relacionamento que Buffy carrega com seus amigos ressalta seu lado emocional, enquanto a dinâmica com Spike, Angel e até mesmo com outra slayer, Faith (Eliza Dushku), exploram algo mais instintivo, que está presente na sua personalidade por causa do trabalho como slayer e as consequências do mesmo.

Indiscutível o fato de que parte da razão pelo qual Buffy se tornou um fenômeno tão grande aconteceu devido às relações que foram construídas durante as sete temporadas, e vivem até hoje por obras do multiverso compartilhado, sejam elas românticas ou não. Ao chegar no final dessa análise, depois de ter lido tantos artigos e estudos sobre a série, minha opinião sobre a produção em si não sofreu mudanças drásticas: os relacionamentos da obra são complexos e cheio de simbologias, sendo que a maioria das narrativas são usadas para fazer metáforas sobre a transição de fases da vida adulta de uma pessoa. Às vezes esses fatores são explorados do jeito certo, outra vezes as decisões são tão erradas que é impossível não sentir aversão. Com um reboot da franquia anunciado pela Fox, fica a questão de como eles irão abordar esse aspecto na repaginação. Não estamos mais no final da década de 1990 e os erros que foram relevados naquela época, hoje, com certeza, não serão. De qualquer forma, espero ansiosa para saber onde o buffyverse vai me levar a seguir e, enquanto isso, guardo e lembro com amor de todos os personagens (com algumas ressalvas).


** A arte em destaque é de autoria da editora Ana Luíza. Para ver mais, clique aqui!

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2 comentários

  1. Que texto absurdo de bom. Como Buffy é incrível! Eu ando revendo Buffy porque comecei uma série de vídeos sobre a série no meu canal e seu texto me deu ainda mais vontade de destrinchar tudo. Incrível, parabéns

  2. Que texto maravilhoso. Eu AMO Buffy desde a minha adolescencia, acompanhei na tv e cara, é de longe minha série favorita, eu amo todas as referencias que ela me trás até os dias de hoje,e hoje tenho 32 anos. Estou maratonando e achei o texto pelo google enquanto procurava algumas frases. Muito obrigada por isso. Maravilhoso demais sim!