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O amor segundo Alice Oseman

No último mês, o mundo inteiro se apaixonou por Heartstopper, a história de dois meninos que se encontram e se apaixonam de forma leve e cativante. Alice Oseman, responsável pelo universo dos quadrinhos que se transformou em seriado na Netflix, cria histórias que nos acolhe além de explorar diferentes sentimentos que são cruciais para o desenvolvimento da nossa identidade na juventude.

Enquanto Heartstopper explora o amor romântico, as outras histórias de Alice focam em outros vieses do amor. Em livros como Sem Amor e Rádio Silêncio, publicados no Brasil pelo selo Rocco Jovens Leitores, somos cercados de diferentes cenários do mesmo amor que aquece o coração e nos mostra que esse sentimento vem de diferentes lugares, mas possui o mesmo objetivo.

Em Rádio Silêncio, Frances e Aled desenvolvem um relacionamento platônico ao longo das aventuras que passam no decorrer da narrativa. A amizade entre os dois parece improvável, uma vez que eles sempre foram vizinhos e não trocavam muitas palavras, principalmente pelo melhor amigo de Aled ser Daniel, que parece odiar Frances. Os dois são do tipo de pessoas que se camuflam entre as demais para não chamar a atenção e só mostram suas verdadeiras personalidades ou com quem estão confortáveis ou em lugares que consideram seguros, e é por isso que eles se tornam um grande par. Tanto Aled quanto Frances se encontram e se permitem ser sem o julgamento e olhares que o resto das pessoas dá a eles.

Aled, que descobrimos no final do livro ser demissexual, está em um relacionamento com Daniel, que é gay, e há uma tensão sobre a natureza dessa relação. Ser uma pessoa no espectro assexual e/ou arromântico gera muitos desconfortos e questionamentos que pessoas que não fazem parte desse espectro não conseguem entender. É muito fácil aceitarmos o que está a todo momento sendo reproduzido e representado na mídia, dando a sensação de que aquilo que não está sendo mostrado é falso, não existe ou é algo ruim, visto que muitas vezes, são espectros mostrados como algo a serem negados ou excluídos.

Aled não consegue explicar para Daniel o motivo de não se sentir confortável com algumas coisas, já que isso não é algo bem visto por pessoas alossexuais; no entanto, podemos perceber que Aled consegue se mostrar mais à vontade com Frances em certos aspectos porque ele sente que ela o entende. Frances é bissexual e em algumas passagens do livro a observamos não ligar muito para romances ou sem entender algumas conotações relacionadas à isso — em uma cena, ela acha esquisito a mãe enfatizar tanto a sua amizade com Aled e falar de garotos.

É bonito acompanhar o desenvolvimento do relacionamento dos dois, em que abrem mão de seus isolamentos para compartilharem o silêncio e dores um com o outro. Também é possível capturar em diversas cenas provas de que Aled ama Frances e Frances ama Aled, um amor sem complicações, um amor puro, e que eles querem que um esteja na vida do outro, fazendo de tudo para que possam continuar presentes de alguma forma, se protegendo.

Por muitas vezes, o amor platônico é traduzido como um sentimento não correspondido, no entanto essa definição não se aplica para os relacionamentos platônicos de verdade. Em sua definição filosófica, o platônico significa ideal e sem interesses materiais. Para a comunidade assexual e arromântica, os relacionamentos platônicos são aqueles que todos os envolvidos correspondem aos compromissos e sentimentos (este último mesmo que em níveis e formas diferentes), porém ele é diferente do relacionamento heteronormativo que espera algo sexual e/ou romântico como prova de compromisso.

O platônico não é menos ou menor que o amor romântico: ele fortalece conexões entre pessoas que não se sentem confortáveis ou assistidas pela noção heteronormativa de amor que há a constante necessidade e pressão pelo sexual, romance e/ou toques. Há também a percepção de que o platônico é sinônimo de amizade, o que apenas invisibiliza e apaga as experiências de pessoas no espectro assexual e arromântico e aos compromissos e sentimentos ali existentes — mas isso não quer dizer que essas pessoas não podem estar em um relacionamento romântico e/ou sexual, uma coisa não apaga a outra.

As diferentes formas de amor e relacionamentos é a temática de Sem Amor, o romance mais recente de Alice Oseman. Nele, Georgia é apaixonada por romances e clichês e deseja viver todas essas experiências, porém ela não se sente confortável em fazê-las. Ela vai para a faculdade com seus melhores amigos, Pip e Jason, e lá eles passam por experiências que os fazem sentir impossíveis de serem amados.

Convencida de que nunca irá amar e ser amada, Georgia não percebe que está rodeada de amores. Em uma cena de Sem Amor, ela arquiteta um plano para reconquistar sua melhor amiga, Pip, que é digno das melhores comédias românticas e parece saído direto de um filme da Sessão da Tarde: Georgia declara o seu amor por Pip, uma pessoa que ela não imagina viver sem. Do outro lado está Rooney, a nova colega de quarto de Georgia, que vive um estilo de vida bem diferente e, mesmo assim, elas encontram uma na outra a aceitação de serem como quiserem, sem julgamentos.

No meio disso está Jason. Ele gosta romanticamente de Georgia e ela acredita que se se esforçar bastante conseguirá amá-lo também, porém o amor não funciona dessa forma. Não amar alguém romanticamente não significa que essa pessoa não a ama de verdade. Nesse sentido, tanto Jason quanto Georgia precisam se desvincular das regras criadas por ninguém, mas disseminadas pela sociedade.

O amor que Georgia, Pip, Rooney e Jason sentem pelo outro é real, só existe de diferentes formas e expressões. Essa é a beleza das narrativas de Alice Oseman. O amor não existe de uma maneira apenas e devemos celebrar e ter acesso a essas representatividades em todas as mídias para que possamos entender que todos os nossos sentimentos são válidos.


** A arte em destaque é de autoria da editora Ana Luíza. Para ver mais, clique aqui!

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