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Dizem que o amor é AmarElo: o segredo do amor na letra de Principia, de Emicida

Talvez um dos temas mais comuns da literatura e das letras musicais populares seja o amor. O sofrimento ou o êxtase romântico são temas de fácil identificação e talvez por isso sejam tão populares. Prosa, poesia e letras de canções muitas vezes versam sobre o desenvolvimento, o fim ou a não-correspondência do interesse romântico, mas poucas obras se debruçam sobre outras formas de amor. Talvez, pontualmente, existam produtos culturais que falam sobre amizades, relações entre pais e filhos, famílias biológicas ou de consideração, mas normalmente cada produção se volta para um ou dois tipos de relacionamento e esmiuçam somente a maneira como aqueles laços se fazem entre as pessoas.

A quantidade de arte sobre o amor romântico é desproporcional em relação aos outros tipos de afetos por consequência e reflexo do quanto a sociedade capitalista costuma valorizar o amor romântico como caminho para uma relação conjugal que vem a formar o núcleo familiar ideal para que o sistema continua se reproduzindo. A família tradicional, formada por pai e mãe — um casal hétero, capaz de gerar e cuidar de novos trabalhadores — e filhos, se autorregula por meio da perpetuação deste modelo familiar. Não por acaso, valorizar tanto o amor romântico é um incentivo para seguirmos na busca pela repetição desse padrão e, tendo nos encaixado nele, nos tornamos reprodutores dos valores desejados pelo capital.

Ainda assim, o amor romântico pode ser algo bonito e desligado dessa lógica, e as famílias podem carregar afeto essencial para o desenvolvimento das melhores qualidades de um ser humano. Se na atualidade as conexões benéficas acontecem, na maioria das vezes, sem que percebamos, apesar da lógica vigente para os relacionamentos, o amor pode ser conscientemente construído para o bem estar das pessoas. Mas esse tipo de relação que faça bem não precisa acontecer somente com quem podemos viver um romance ou chamar de família por compartilharmos de genética semelhante.

Quando vivemos uma vida voltada para a produção infinita por meio do trabalho, somos impedidos — ou, no mínimo limitados — de criar aquilo que de fato importa e nos abastece para além da sobrevivência: os afetos. A sociedade liberal impõe moldes de trabalho cada vez mais extenuantes, que tornam as conexões humanas cada vez mais escassas e distantes, roubando a capacidade de perspectiva de que somos todos um e que parte de nossa felicidade está também no outro. Mas diante de nossas vidas sempre tão corridas e caóticas, como abrir espaço para algo tão grande e tão importante, que tem andado comprimido nas frestas das nossas vivências modernas?

Talvez um dos desafios contemporâneos seja conseguir amar sem servir a um sistema que ciclicamente nos oprime, sem alimentá-lo para que nos oprima e oprima aos próximos. A chave pode ser buscar justamente a libertação dessas opressões que querem moldar nossos afetos e transgressão. Talvez o segredo de tudo seja deixar que o sentimento nos sirva como fonte de conforto e apoio diante de um mundo que, mesmo que não fosse tão desigual e injusto, teria ainda assim seus desafios. O amor não é a finalidade, mas sim um meio de quebrar as injustiças e isso pode se fazer por meio da própria liberdade de amar quem quer que seja e o que quer que esteja próximo a nós.

O amor é um sentimento que pode mover todas as relações e tem a capacidade de transformar e dar sentido a tudo o que vivemos no nosso limitado tempo de passagem pelo planeta Terra. Não é fácil se propor a agir com intenções amorosas em relação a todas as nossas conexões. Mas talvez, além de ser bom para o outro, amar seja o segredo para nossa própria felicidade.

O amor é o segredo de tudo

Talvez possa parecer desimportante falar de amor quando há tanto para ser feito e movido no mundo, que vive carente. Mas o amor é justamente a demanda mais urgente, porque é ele que determina nosso modo de agir, e é o único meio através do qual podemos agir fora da lógica de produção e reprodução do capital.

Falar de amor, como fala bell hooks, é acreditar no ato revolucionário de amar, e deixar esse afeto no centro das nossas escolhas de vida, como forma de determinar nossa ética diante dos desafios cotidianos. Para a pensadora, saber o que é amor e o que ele representa para nós é definir o que irá guiar nossos passos, e como agiremos. O amor, para a autora, “é o que o amor faz”, e não deve se limitar ao romance para que seja a força motriz de mudanças.

Dizem que o amor é amarelo

Amarelo

Poucas obras tentam elaborar sobre um amor maior e mais universal, ou sobre a própria definição do que é esse tal amor que não é romântico, esse afeto que é laço. “Principia”, canção de abertura do álbum AmarElo, se propõe a entrar nessa discussão e definir o que é esse amor maior do que o conjugal e romântico, que se estende a todas as pessoas e criaturas. Ao longo do álbum do rapper Emicida, outras músicas de propõem a discutir como criar e fortalecer esses elos e justificar essa necessidade. Mas é especialmente esta que carrega a mensagem mais poderosa.

“Principia” é uma canção lançada em 2019, nos primeiros anos de um governo que se estabeleceu no país com uma proposta absolutamente contrária ao amor. Como os próprios versos do rapper descrevem, “crer que o ódio é solução é ser sommelier de anzol”. Fisgados por uma retórica cheia de desamor, o país se via, naquele instante como “barco a deriva sem farol/ sem sinal de aurora boreal”, sem fazer ideia de que as coisas ainda poderiam se tornar piores. No começo do ano seguinte, todo o mundo foi tomado de surpresa por uma pandemia que, inicialmente, nos levou a um isolamento físico literal e, apartados em nossos lares, nos percebemos perdendo a conexão humana — ou escancarando o elo que já nos parecia perdido.

A letra de “Principia” vem embalada por uma variedade de instrumentos e batidas que encontram um caminho para existir e resistir nas frestas do que foi negado ao povo — muito antes da pandemia, mas mais violentamente durante o período. Este é um poder importante da música: fazer perceber que mesmo em meio a um cenário desolador, enquanto houver amor, é possível mudar o curso da vida.

Todo mundo é um

Amarelo

O eu-lírico começa descrevendo sua busca por serenidade e clareza em meio a um mundo não muito receptivo, que torna difícil enxergar saídas. Mas é justamente a ilusão de separação que faz perder de vista aquilo que importa, e essa falta de perspectiva de conexão leva ao desespero. O trajeto do eu-lírico culmina, no fim da primeira estrofe, na conclusão que após um giro pelo mundo se percebe que existe uma unidade que conecta todas as pessoas. Essa parece ser a única certeza na incerteza.

Sendo assim, o amor se torna uma ponte muito simples de ser construída, desde que possamos nos lembrar que  não há separação entre nós e os outros. Mas existe um trabalho constante e árduo, para, tijolo a tijolo, refazer as pontes e entender que a existência do outro é necessária, mas nem sempre é fácil. Todos passamos por nossas questões e temos nossas dificuldades, mas quando ouvimos os outros e oferecemos um abraço quente, a união que prevalece é transformadora.

Tudo em AmarElo

O amor aqui é esse elo, que faz perceber que tudo que nós temos somos uns aos outros. O refrão catártico repete que “tudo que nós tem é nós” e essa ideia se repete no discurso do Pastor Henrique Vieira, que fecha a canção com um monólogo emocionado e emocionante sobre o amor como elo que não só nos liga, mas também é a única coisa que nos faz superar a limitação do nosso imprevisível e limitado tempo na terra. O afeto é a única coisa que dá rumo à vida e “confunde os poderosos”.

O amor — esse amor universal — que vai além do romântico é este que busca igualdade e enxerga, aquece e dá vida a todos. Como é que se faz para mantermos esse “amor que faz” em prática? Emicida e Henrique Vieira também dão alguns caminhos. O primeiro deles, é ter olhar de girassol, sempre buscando o sol, e usar nossas vozes para cortar a escuridão da noite como um rouxinol.

Para seguir pondo o amor no hall, como os versos sugerem, é preciso lembrar que o amor é uma decisão grande, muito mais que um sentimento, uma atitude, que cabe nas menores coisas: estar perto das filhas, abraçar a mãe, perdoar o filho, para assim, aos poucos, deixar que germinem transformações ainda maiores. É com uma pequena semente que se liberta a terra, que se repara aquilo que foi ferido. É preciso refazer os elos, e “Principia” nos inspira a começar e pintar tudo em AmarElo.


** A arte em destaque é de autoria da editora Ana Luíza. Para ver mais, clique aqui!

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