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Maldivas é um drink exclusivo assinado por Natália Klein

Não é só para atores que a Netflix tem oferecido oportunidades de destaque além da Rede Globo. Sem lugar definido no conglomerado além dos humorísticos em um canal secundário, no streaming Natália Klein mostra que tem muito mais a oferecer do que apenas “comédias Multishow”. Maldivas, sua nova criação em que a mesma assina todo o roteiro, contém seu humor caracterizadamente ácido, mas também mostra um lado dramático e perspicaz que faz da série uma obra com estilo inédito em sua carreira até aqui.

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Criadora da sitcom Adorável Psicose (2010–2014) e da série de besteirol investigativo Fred & Lucy (2014), em Maldivas, Klein apresenta uma história que une o tema de suas principais obras adicionando uma narrativa dramática ao humor que enriquece a trama e tira o melhor de personagens e atores. No condomínio Maldivas, na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, uma narradora (recurso já usado em Adorável Psicose) apresenta quatro moradoras que são supostamente amigas, as comparando com drinks: Milene (Manu Gavassi), uma nova rica que é sustentada pelo marido e síndica; Rayssa (Sheron Menezzes), uma ex-cantora de axé que vive do pós-fama aproveitando o sucesso que seu casamento com seu companheiro de grupo gerou; Kat (Carol Castro), esposa de um condenado por lavagem de dinheiro em prisão domiciliar; e Patrícia Duque (Vanessa Gerbelli) uma mulher misteriosa que vive sozinha em seu apartamento. Quem narra a série e apresenta o grupo é Verônica (Natália Klein), uma “outsider” que não faz parte do grupo, é desprezada pelas três primeiras, mas muito amiga de Patrícia.

Em paralelo, em Goiás, a neta de uma rica fazendeira, Liz (Bruna Marquezine), está para se casar. Tentando concluir a busca por sua mãe desaparecida que consumiu a maior parte de sua vida antes do evento, a moça parte para o Rio, onde uma foto da mulher foi postada nas redes sociais, com localização no Maldivas. No condomínio carioca, Milene perde a votação de síndica para Patrícia, e na mesma noite em que Liz chega ao prédio para finalmente reencontrar sua mãe é também o momento em que o apartamento de Patrícia pega fogo com ela lá dentro.

O primeiro episódio da série traz referências a outras obras sobre mulheres que já fazem parte do imaginário popular. A apresentação das três amigas do condomínio remete a cena de introdução de Regina George (Rachel McAdams) e suas seguidoras em Meninas Malvadas (2004), enquanto a história de mulheres casadas onde cada uma guarda segredos que vem a tona com a morte de uma delas lembra constantemente Desperate Housewives (2004–2012). Natália usa essas referências para se aproximar de seu público e mostrar que, apesar de parecer com essas outras obras, Maldivas tem seu próprio universo, tratando de assuntos específicos que fazem parte do dia a dia carioca de classe alta. Assim, a série se coloca no mesmo patamar dos conteúdos em que se inspira.

Uma dessas inspirações parece ser o filme de terror de Anita Rocha da Silveira, o já com status de cult, Mate-me Por Favor (2015). No filme, um serial killer começa a assombrar condôminos da Barra da Tijuca e instaura um clima de histeria entre os adolescentes isolados e solitários do local. Em Maldivas, os grandes terrenos baldios que Anita usa em seu filme para dar o sentimento de confinamento ao bairro, são trocados pelas grades e portões do complexo do condomínio. Assim como os adolescentes de Mate-me Por Favor, a amizade entre essas mulheres só existe exclusivamente pelo isolamento e confinamento em que elas se colocam dentro do local onde moram. Não há nada que as ligue entre si ou que justifique serem amigas, a não ser o CEP onde residem. É como uma amizade de escola: superficial, cheia de aparências e traições. É apenas quando os segredos começam a vir à tona que essas amizades parecem querer se aprofundar. É esperado que na segunda temporada o motivo dessas mulheres continuarem amigas mesmo apunhalando umas às outras pelas costas seja mais explorado.

Como herdeira natural de Fernanda Young, com Maldivas, Natália Klein mostra de forma direta seu estilo próprio, que referencia e lembra o de Young, mas que é marcado demais em si para gerar extensas comparações. Maldivas, a série, vem para finalmente consolidar a carreira de Klein no rol de criadora referência na teledramaturgia brasileira. O texto com diálogos carregados de ironia e sarcasmo, marca perfeitamente o tom de dramédia na trama. Apesar de derrapar em alguns detalhes técnicos de investigação e perícia, a série faz isso por optar em deixar de lado a verossimilhança e investir no visual em cena e em tela, o que não prejudica a temporada no geral. No início, a direção de José Alvarenga é um pouco engessada, principalmente entre as atrizes mais jovens (Manu Gavassi e Bruna Marquezine), mas no decorrer dos episódios as personagens aparecem e o piloto fica para trás de forma satisfatória.

E, apesar da falta de representatividade LGBTQIA+ — apenas um personagem secundário, quando uma das amigas poderia ser casada com outra mulher sem alterar nada no enredo; a personagem de Carol Castro, por exemplo —, e uma resolução final do passado de Liz um tanto batida em histórias criminais, a primeira temporada conclui sem pontas soltas e sem o famoso gancho que esse tipo de trama sempre utiliza, mesmo plantando informações durante os episódios que serão resolvidas em arcos futuros. Natália Klein não subestima nem frustra seu público com recursos fracos para que ele volte a assistir a segunda temporada, mas sabe o envolver com seu texto rápido e sagaz e a certeza de que uma segunda temporada será tão boa quanto a primeira.

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