Categorias: TV

Mrs. America e todas as histórias do feminismo que não podemos esquecer

Desde que me conheço por gente me considero feminista e dediquei boa parte da minha vida aos estudos sobre o movimento e seus recortes, além de consumir absolutamente tudo com o olhar voltado para esse viés. Recentemente, no entanto, tenho visto a necessidade de reavaliar minha presença dentro do feminismo e entender quais são seus próximos passos, e percebo que não sou a única. A minissérie Mrs. America, estrelada por Cate Blanchett, me lembrou exatamente desse aspecto.

Se você não conhece Phyllis Schlafly (1924-2016), a figura que protagoniza a produção, uma apresentação parece uma boa ideia: dona de casa estadunidense e membro ativo do partido conservador, que também se tornou advogada e escritora, Schlafly ficou conhecida por ser uma das vozes mais potentes contra o ERA (Equal Rights Amendment ou Emenda da Igualdade de Direitos), uma proposta destinada à Constituição dos Estados Unidos para garantir a igualdade de gêneros na década de 1970. Sua plataforma política foi montada em cima de diversos tipos de preconceito: ela era antifeminista, homofóbica e contra o aborto. Assim como todo “cidadão do bem”, Phyllis também defendia a família tradicional americana (que não é muito diferente da brasileira, mesmo tantos anos depois) e usava do argumento de que o maior e principal papel das mulheres na sociedade era ficar em casa e cuidar da família. Ao mesmo tempo que defendia suas crenças com unhas e dentes — e muitas alianças políticas poderosas —, viajava pelos EUA desfrutando os direitos básicos que ela negava oferecer para outras mulheres. Mãe de seis filhos e esposa dedicada, Phyllis Schlafly também era candidata ao congresso e uma das amigas íntimas de Ronald Reagan. Seus discursos eram revoltantes e, durante muitos debates, é possível perceber que nem todos os fatos eram corretos ou verossímeis. Mesmo assim, seu “carisma” foi o suficiente para fazer com que ela ganhasse voz. Ainda que pífia.

Talvez você não conheça ou tenha ouvido falar de Phyllis Schlafly. Honestamente, nem eu sabia muito sobre ela e só fui me aprofundar em alguns aspectos para poder escrever esse texto. E quanto mais me adentrava na série e nos seus pensamentos, mais era difícil entender o objetivo dela. Em Mrs. America, é Blanchett quem encarna essa mulher e ela não só se aprofunda na política que a motivava, mas também explora seu ambiente familiar, suas relações pessoais e o contexto onde cresceu e se estabeleceu como adulta.

Logo no primeiro capítulo da série, intitulado apenas “Phyllis”, fiquei incomodada com a escolha da protagonista. Apesar de cada um dos episódios de Mrs. America serem focados em uma figura política ou ativista real que ficou famosa naquela época, Blanchett é a figura central. Então por que, afinal, escolher uma mulher que foi uma peça fundamental na hora de atrasar os direitos que foram negados durante tantos séculos? “Somos todas mulheres de contradições. Minha mãe me perguntou como eu podia interpretar alguém assim. E respondi: precisamente porque me fez essa pergunta. Quero saber quem ela é”, respondeu Blanchett sobre essa mesma pergunta que, devo acrescentar, não estava apenas na minha mente.

Criada por Dahvi Waller, Mrs. America faz um pequeno esforço no começo para pintar Schlafly como uma figura quase empática. Ela ama seus filhos e seu marido. Aproveitando da facilidade com que fala em público e das veias políticas que criou para si, ela começa a perceber que existe um espectro de medo que ronda as mulheres conservadoras ao seu redor. Segundo elas, o ERA é apenas uma forma de acabar com os seus direitos como donas de casa, esposas e mãe. Então ela pega a missão de liderá-las para si, guiando e mostrando que existem formas de lutar contra o progresso.

Era extremamente fácil que a série caísse no conto do “girl power” e exaltar Phyllis por ser uma mulher com poder político e social mesmo que, de muitas formas, ela tenha sido uma figura essencial para atrasar movimentos que queriam revolução para mulheres, pessoas não-brancas e até mesmo para a comunidade LGBTQ+. Uma mulher no poder sem recorte de classe e raça é, sim, prejudicial, e até certo ponto a produção entende isso muito bem. Ao focar cada episódio em uma mulher diferente, Mrs. America ganha uma visão que é plural, profunda e pertinente. Phyllis é o centro da narrativa, mas sua visão é constantemente refutada pela presença de mulheres poderosas e importantes para o ERA — e que também foram fundamentais para a política na época.

Apesar do primeiro episódio ser o estopim para a narrativa e ser focado na vida pessoal de Phyllis, Mrs. America ainda explora um pouco de Schlafly e suas contradições. Um dos filhos da protagonista, por exemplo, é um homem gay. O roteiro escolhe mostrar aos poucos a forma como ela descobre isso e, quando ela o confronta em relação a sua orientação sexual, faz uma analogia medíocre comparando o vício em cigarro com o fato de que o filho sente atração sexual por homens. Como se isso fosse apenas um hábito nojento do qual ele tivesse que se livrar. Ela vê a homossexualidade como uma falha de caráter, assim como o fato de que sua filha tem medo de nadar. Na cena em questão, ela força a menina a entrar na água porque desistir e aceitar o medo, ou trabalhá-lo, é algo que está fora de questão. Phyllis é cruel e preconceituosa, mas ao mesmo tempo sofre dos mesmos problemas que as outras protagonistas: ela é subestimada por seus colegas homens e até mesmo sofre assédio e abuso sexual. No capítulo focado em Jill Ruckelshaus (Elizabeth Banks), uma comissária e ativista pelos direitos humanos e assistente especial da Casa Branca, conservadora e republicana, as duas sentam em um bar para conversar e acabam chegando no caso de várias secretárias e assistentes que tinham denunciado. Na hora, Phyllis simplesmente fala que, se isso aconteceu com elas, fizeram alguma coisa para merecer. Mais tarde no mesmo dia, ela se encontra em uma reunião com Phil Crane (James Marsden) e vários outros políticos que fazem piadas com a sua aparência, seu propósito na reunião e a excluem sem nem mesmo pensar duas vezes.

Sua dinâmica com o marido, Fred (John Slattery), também merece ser mencionada. Advogado que comanda um pequeno escritório, existe um ressentimento na forma como ele vê a esposa. Apesar de ser algo que passa de forma quase despercebida, ele se incomoda com o fato de que a maioria das atenções estão sempre nela e que, mesmo Phyllis alegando que o lugar da mulher é em casa cuidando dos filhos, ela mesma passa a negligenciar as tarefas que supostamente eram para ser suas. Isso fica completamente claro durante o episódio intitulado de “Phyllis & Fred & Brenda & Marc”. Durante os 50 minutos da exibição, a trama foca nesses dois casais, bem diferentes entre si: um conservador, um liberal. Eles são convidados para participar de um talk show para discutir o ERA e o papel da mulher (e do homem como aliado) no mesmo, sendo que a ala feminista de Mrs. America escolhe mandar Brenda Feigen (Ari Graynor) e Marc (Adam Brody) justamente para refutar o argumento de Phyllis que feministas são mulheres “mal amadas” — uma técnica não muito boa, mas chegaremos lá.

Durante a conversa, Phyllis adota as mesmas políticas de sempre e espalha desinformação e mentiras, todas desmentidas por Brenda. Quando eles entram no assunto feminismo e casamento, Fred levanta sua voz para dizer que sua mulher é, claro, submissa. Algo que acaba não caindo muito bem para a própria Phyllis, que sai revoltada com tamanha calúnia. Mais uma vez, a narrativa de Mrs. America estuda suas controvérsias de perto. Ela defende que as mulheres têm que obedecer o marido, mas parece não querer a mesma regra para si.

É comum ouvir as pessoas falarem que Schlafly foi uma feminista, já que ela era de certa forma “liberta” das convenções aplicadas para as mulheres na época. Mas a verdade é que isso não poderia estar mais longe da verdade. Phyllis era uma mulher que tinha veias independentes e pensamento próprio, mas também era cheia de controvérsias, e sua mentalidade errática era um fator que a impedia de ser qualquer coisa, menos feminista. Entrelaçar sua carreira na política com o feminismo é o puro creme do feminismo liberal. E, sejamos honestos, ninguém quer isso.

Brenda e Marc saem como vencedores do debate, mas a ironia do relacionamento dos dois não poderia passar mais despercebida. Apesar do episódio brincar com a dinâmica entre Phyllis e Fred, a grande temática da narrativa aqui é Brenda e a complexidade da sua sexualidade. Ao se envolver com uma mulher pela primeira vez, ela sente que descobriu um novo mundo, algo diferente e libertador. Mas, mesmo em 1970 (ou hoje), ser uma mulher lésbica (ou bissexual) não era algo aceitável. Ainda que ela viesse de um ambiente completamente progressista e seu marido fosse, de muitas formas, um aliado na luta feminista, havia essa barreira para que mulheres do mundo inteiro pudessem falar abertamente sobre sua orientação sexual. De certa forma, Brenda e Marc se mostram um casal diferente de Phyllis e Fred, mas não sem as suas complicações.

Esse mesmo estudo de personagem, que tenta chegar na essência de Phyllis, Brenda, Jill, e outras, acontece pelo ponto de vista de outras figuras importantes da série. No episódio de Betty Friedan (1921-2006), a autora de A Mística Feminina é colocada em um embate direto com Schlafly. Todo o episódio de Friedan (vivida por Tracey Ullman) é centrada na sua solidão como mulher. Uma mulher mais velha, que aos poucos perde espaço no movimento de que se tornou pioneira. Uma mulher que, apesar de ser feminista ferrenha, não consegue entender o problema de ignorar a participação das mulheres lésbicas no mesmo.

A jornada de Betty dentro de Mrs. America fala sobre seu amor por homens. Parece ridículo falar sobre isso em uma série que explora o feminismo, mas esse fator parece ser algo definitivo na vida da personagem. E algo que, mais tarde, ela mesma admite. De qualquer forma, seu livro é escrito por causa de sentimentos que nasceram no âmbito e na convivência do seu casamento. Em A Mística Feminina, publicado pela primeira vez em 1963, ela escreve que nenhuma mulher tem um orgasmo limpando o chão da cozinha”. Sua grande questão era com a vida doméstica e o papel designado para a mulher na mesma.

No livro, ela argumenta que as mulheres não apenas sofriam discriminação baseada em gênero, como também são vítimas de um sistema onde elas são obrigadas a tirar prazer e satisfação de suas vidas como mães e esposas. “Mas isso é tudo?”, ela se questiona. Para Friedan a resposta era clara: não. Ao longo da sua participação no movimento feminista ela criou o NOW (National Organization for Women) e serviu de inspiração para milhares de pessoas que tinham os mesmos questionamentos que ela. Mais tarde, Friedan também criou o National Women’s Political Caucus, que tinha como objetivo discutir assuntos como discriminação na gravidez (já que ela mesma foi demitida quando engravidou de sua filha). Apesar da sua participação ser inegável, o seu feminismo era essencialmente branco, heterossexual e de classe média, algo que refletia muito na forma como ela via suas colegas e o que, eventualmente, fez com que ela fosse aos poucos deixada para trás. Mrs. America sabe muito bem explorar seus defeitos, seus preconceitos e, principalmente, a sua solidão. Antes como uma mulher que se sentia profundamente insatisfeita dentro de casa, com o seu casamento e o que lhe foi dito que se seria sua vida; e mais tarde como alguém que não soube abrir seus leques, expandir os seus horizontes para além das suas dificuldades e problemas. Mesmo assim, sua influência ainda é sentida no feminismo e Mrs. America não pretende negar isso. 

Shirley Chisholm: a primeira mulher negra no congresso 

Como apontado antes no texto, a segunda onda do feminismo foi principalmente branca. E mais de 50 anos depois do seu início, ainda é possível ver resquícios dessa política no movimento. Mrs. America, no entanto, não tenta refutar esse fato e escolhe contar essa história pela perspectiva de uma mulher em especial: Shirley Chisholm (1924-2005), interpretada pela maravilhosa Uzo Aduba de Orange is the New Black. Chisholm foi a primeira mulher negra a integrar o Congresso estadunidense e, em 1972, concorreu à presidência dos Estados Unidos. Mas sua corrida para chegar até a Casa Branca não veio sem milhares de problemas e o episódio que leva seu nome tenta explorar exatamente esse aspecto.

No total, foram mais de três ameaças de morte e mesmo que ela recebesse bilhetes com os piores tipos de ofensa, teve que lutar para que sua corrida fosse considerada algo sério pelos colegas. E não estou falando apenas dos colegas homens, mas das próprias mulheres que compartilhavam a luta feminista com ela. É frustrante ver como as coisas se desenrolaram para Chisholm, mas a atuação de Aduba é uma mistura incrível de força e vulnerabilidade de uma mulher que estava sempre disposta a fazer a coisa certa.

“Por que eu sou a única aqui nessa convenção que acredita que vale a pena lutar para ver uma mulher negra presidente?” 

A falta de mulheres não-brancas no movimento é algo claro e frustrante não só para o público, mas também para as mulheres que estavam envolvidas nas pautas diárias que eram levantadas perante a revolução. Como consequência, essas mulheres procuravam abrigo entre si, criando pequenos nichos paralelos ao movimento mainstream. Movimentos que reuniam lésbicas, negras, latinas e mulheres que, no geral, estavam fora do âmbito social branco e hétero que existia na época (e ainda existe hoje). Um dos momentos mais interessantes da série, por exemplo, é a discussão entre Gloria Steinem (Rose Byrne) e Margaret Sloan-Hunter (Bria Samoné). As duas trabalharam juntas na revista Ms. e, durante determinada cena, Sloan-Hunter quer fazer um artigo sobre pessoas negras que são contratadas apenas como um “acessório” dentro de empresas — que apenas as veem como uma carta de inclusão e exploram todo o seu potencial e sua voz como profissional. Na hora, Steinem não parece entender muito bem o que ela quer dizer por completo e, mais tarde, as duas acabam tomando caminhos separados porque existe, com certeza, um abismo entre o movimento das duas.

Mrs. America

A atuação de Byrne como Steinem também é um dos aspectos mais interessantes de Mrs. America. Não só porque a caracterização da personagem é praticamente perfeita, mas também porque ela é a anti-Schlafly (representando tudo aquilo que a conservadora não é). Como líder e fundadora da revista Ms., Gloria deu voz a milhares de mulheres quando não existia possibilidade para isso. Aos poucos, ela cresce dentro do movimento e se torna uma figura proeminente; ela está disposta a ouvir e chegar em um consenso, mesmo que tenha seus defeitos. Apesar de às vezes ser ofuscada pelas outras atrizes, sua constante presença é um quase um alívio, uma forma de segurança. É uma pena que recentemente a própria Steinem tenha vindo a público chamando Mrs. America de uma visão “inadequada dos fatos que pintou o feminismo como uma briga de gatos”. Entendo seu ponto de vista e de onde ele vem (afinal, Gloria viveu esses momentos), mas não consigo pensar de que forma era melhor retratar o feminismo na tela. Como algo utópico onde todas as vertentes estavam em perfeita harmonia? Isso não era real na época, e não é real agora.

“Você não se importa de não ser mais chamada de radical?” 

Bella Abzug (1920-1998) foi uma advogada e ativista feminista que, durante muitos anos, se tornou uma das figuras centrais na luta para ratificar o ERA. Sua trajetória é também explorada em Mrs. America, onde é vivida por Margo Martindale, sendo mostrada como alguém que ocupava o espaço de uma espécie de “mãe” para o movimento feminista. Na época que a narrativa tem seu pontapé inicial, ela já é uma mulher mais velha e com mais experiência na luta. Consequentemente, suas visões são bem diferentes das de Steinem, por exemplo. Ou até mesmo da própria Chisholm (as duas têm uma discussão séria, em que Bella argumenta que Shirley devia largar mão de concorrer a presidência para apoiar um candidato com “mais chances”).

Descrita geralmente como “barulhenta” (sinônimo de mulheres que se expressam com clareza), grande parte da sua jornada em Mrs. America é mostrada com o objetivo de deixar claro que ela não tinha dificuldades de fazer cortes necessários para avançar, nem que apenas um pouco, sua luta. Ou seja, ao longo dos episódios o público a vê fazendo compromissos: ela ri das piadas dos seus colegas políticos, procura sempre uma forma de fazer alianças com o próximo big shot que vai estar na Casa Branca, não tem medo de fazer cortes que significam prejudicar movimentos como o das mulheres lésbicas ou das mulheres não-brancas, como foi no caso de Shirley. E tudo isso acontece porque ela acredita, com toda as suas forças, que isso é o melhor para o movimento em si. O que nem sempre é verdade. O feminismo é, acima de tudo, coletivo. Isso inclui todos os tipos de mulheres e apesar de Bella dizer que está ao lado delas, não pensa duas pensas antes de sacrificá-las para o “bem maior”.

A forma como faz essas pequenas mudanças para se adequar a agenda de homens (que na maioria das vezes se dizem aliados do feminismo) é algo que vai sendo apontado aos poucos pela série. Durante uma conversa com Steinem, a jornalista diz que está “cansada de diminuir nossos sonhos para se adequar pessoas que estão no meio”. Sua visão é mais idealista e menos moldada pelo tempo (como é a de Bella) e ao colocarmos ênfase no nosso do qual ela fala, é possível perceber que seu discurso é muito mais coletivo e inclusivo. Na mesma ocasião, Gloria também diz que Bella foi o principal motivo para ela se encontrar no feminismo, sendo sua falta de medo um dos aspectos chaves para isso, algo que não existe mais nela. Mais tarde, em uma conversa com Friedan, Bella pergunta se ela não se incomoda com o fato de ser não ser considerada mais uma pessoa com ideológicos radicais, revolucionários. Ao que Betty responde: “nosso movimento é mainstream agora. Isso é uma coisa boa.” 

A trajetória de Bella na série é justamente sobre tentar recuperar um pouco de perspectiva sobre o movimento do qual faz parte. E apesar dos cortes que ela faz serem raivosos, não é difícil entender de onde ela está vindo: de uma vida inteira de luta e pouquíssimas conquistas concretas para mostrar. Acredito que grande parte de suas ações eram movidas pelo desespero de ter alguma coisa em favor do movimento, algo que Mrs. America mostra ser algo bem difícil de alcançar. Mesmo assim, ela tem a sua pequena redenção e não só volta atrás na sua decisão de cortar a parte do ERA que fala sobre o direito e a proteção das mulheres queer, como também acaba sofrendo as consequências por isso, sendo demitida do seu cargo como representante do direito das mulheres na Casa Branca — algo que também impulsiona todas as suas funcionárias a se demitirem em apoio a sua causa.

Uma potência chamada Sarah Paulson 

É justo dizer que cada uma das protagonistas da série têm sua chance de brilhar no episódio que leva o seu nome, mas mesmo que Mrs. America seja ligada aos acontecimentos reais que se estenderam durante a década de 1970, existe uma boa quantidade de cenas e diálogos que foram inventados com o propósito de avançar a narrativa e, consequentemente, personagens que foram criados com o mesmo propósito. Uma dessas figuras fictícias é Alice McCray, vivida por Sarah Paulson. Na história, McCray é uma das amigas mais íntimas de Schlafly e justamente a pessoa que chama sua atenção para o ERA já que, antes, ela não era nem de perto tão ativa em assuntos relacionados aos direitos das mulheres.

Alice é, assim como Phyllis, uma dona de casa. Foi rainha do baile no ensino médio, casou com o mesmo cara que beijou pela primeira vez e dedica sua vida a cuidar dos seus filhos e, mais tarde, dos netos. Ela foi ensinada que mulheres nasceram para servir ao lar e acatou essa mensagem sem muitos questionamentos. É por isso que o ERA foi algo tão insuportável para ela. Com a combinação de desinformação e o medo de perder o pouco de direito que tinha dentro da sua própria casa (já que absolutamente todo o poder estava concentrado nas mãos do seu marido, Buck), McCray se apoia em Schlafly para acabar com esse movimento. As duas carregam, ao longo da série, uma das relações mais complicadas e difíceis de entender.

Os primeiros sete episódios de Mrs. America decorrem sem dar muita atenção para Alice. Ela assiste os discursos carregados de ódio de Schlafly e ocasionalmente a câmera foca em sua reação desconfortável ao que sua melhor amiga está falando. As falas não são muito diferente do que estamos acostumados a ouvir: feministas são mulheres feias, gordas e mal amadas que nunca conseguiram um homem para si. Apesar de Alice demonstrar ser uma mulher sem muitas ambições na vida e completamente dedicada ao marido, ela apresenta que não necessariamente concorda com o que sua amiga está falando. Ao mesmo tempo, não consegue levantar e contradizer Phyllis que, aos poucos, começa a usar a causa do STOP ERA como um catalisador político para a sua própria carreira. Se para Alice aquilo era sobre tentar manter algum fiapo de poder dentro do âmbito social, para Phyllis era sobre dar um passo para dentro da Casa Branca e aumentar seu ciclo político. De qualquer forma, Mrs. America se desenrola até novembro de 1977 durante o The National Women’s Conference, em Houston. Na ocasião, mulheres de todos os cantos dos Estados Unidos se reuniram para colocar em pauta assuntos como aborto, emprego, estupro, proteção às mulheres lésbicas e negras, entre outros. E é nesse episódio, intitulado apenas de “Houston”, que Paulson brilha.

O capítulo começa com ela animada para fazer seu papel na convenção, mas todas as dúvidas que foram plantadas na sua cabeça ao longo dos capítulos anteriores parecem ganhar uma espécie de base. As mulheres progressistas, as femininas mal amadas, estão ali ao seu lado durante o evento e, para a surpresa da personagem, elas não são monstros frios e distantes, mas pessoas normais que têm medos e receios, pontos fortes, família, amizade, sonhos. Alice começa a perceber isso e vacila na sua missão de porta voz para o grupo de mulheres conservadoras. Durante uma conversa com alguém que conhece no bar, Alice está frustada e toma um calmante no qual a outra se refere a “pílula cristã” e acaba entrando em uma viagem meio alucinógena, no qual o público acompanha em primeira mão. É com esse pano de fundo que ela faz conexões inesperadas e acaba conhecendo Gloria Steinem, a quem mais tarde ela nega para Schlafly ter encontrado.

Mrs. America

Nesse episódio, é fundamental perceber que Schlafly não está por perto. Ao contrário das suas companheiras, ela ficou para trás e montou uma espécie de mini-convenção reunindo várias mulheres conservadoras. O fato de que ela resolveu se abster do evento abriu a oportunidade para que Alice visse o mundo por novos olhos. Olhos mais tolerantes e diferentes, longe da intolerância de Phyllis. Sua mudança, no entanto, não é completamente brusca. No nono episódio, “Reagan”, McCray começa a se afastar cada vez mais e mais da causa perpetuada por sua ex-melhor amiga, cada vez mais consciente da sua ambição descontrolada e das decisões esquisitas que está disposta a tomar para conseguir o que quer. Tudo isso chega no estopim quando Schlafly faz um jantar especial para celebrar sua carreira na política e os efeitos do STOP ERA e Pamela (Kayli Carter), que esteve trabalhando lado a lado com elas desde o início, sete anos no total, é proibida de ir porque seu marido não deixa.

Assim como Alice, Pamela é uma personagem criada especialmente para a narrativa de Mrs. America. Ela também é uma dona de casa, mas, ao contrário de McCray, não conta com o apoio do marido — um babaca abusivo. Não só ele é violento e a trata mal, mas também a vê apenas como uma forma de ter janta na mesa todas as noites e garantir com que sua linhagem seja passada para frente. Sendo assim, ela não tem direito a basicamente nada, nem sequer pensar por si.  Quando o marido dela resolve não deixar com que ela participe do jantar de Phyllis; essa por sua vez responde para Pamela não confrontá-lo. Afinal, ele é o dono da casa, o “provedor”. E esse é, no final, o que leva a ruína final de Phyllis e Alice.

É interessante perceber o que afinal levou Alice a se distanciar completamente do movimento conservador criado por Phyllis e suas companheiras. Não foi a convenção em Houston, ou as várias feministas que ela conheceu na ocasião, mas o fato de que uma das suas amigas mais queridas estava sendo negada de ser, basicamente, tratada como um ser humano. Por um momento ali, ela finalmente entendeu uma ponta do que é a luta feminista (ainda que de forma rasa) e se permitiu lutar por algo que fosse além do seu privilégio.

Nada na jornada de Alice teria sido possível e teria tamanha profundidade se a atuação de Paulson não fosse completamente pontual, crua e verdadeira. Mrs. America não consegue humanizar Phyllis Schlafly por nem um segundo, mas consegue fazer isso de forma brilhante com Alice. Ela deve ser responsabilizada pelo papel que desempenhou no movimento contra os direitos civis, claro, mas com a performance da atriz no papel é possível entender de onde ela estava vindo. Na última cena que ela compartilha com Phyllis, Schlafly diz: “achava que você se sentia empoderada quando estava comigo.” Dessa única fala, duas coisas são bem pertinentes: o fato de que ela usa a palavra empoderar, e como Alice fala que não, ela não costumava se sentir empoderada, apenas como medo. E se existe um sentimento que compartilhado por todas as mulheres, é exatamente esse.

Alice não sofre uma mudança completamente radical. Ela nunca se tornou alguém presente no movimento feminista, por exemplo. Ela continuou sendo uma mulher que vem de um lar “cristão e tradicional”, mas, ao mesmo tempo, conseguiu aceitar pequenas mudanças em sua rotina. Arranjou um trabalho, conseguiu um pouco de independência financeira. É uma mudança muito mais crível do que se fosse algo mais brusco. Existe humanidade nas suas decisões e a narrativa em todos os momentos reconhece seus privilégios como uma mulher branca de classe média. Mas como apontado anteriormente, nada disso teria sido possível sem a atuação pontual de Paulson, que é realmente uma obra de arte. A jornada de Alice, entre altos e baixos, é quase delineada por uma ironia sutil, que também está presente em outros aspectos da série.

Schlafly se tornou uma espécie de consultora para Ronald Reagan durante sua carreira na política. Quando ele ainda era governador da Califórnia e estava concorrendo pelo posto na Casa Branca, pediu para que Phyllis disponibilizasse toda a sua plataforma em favor da sua campanha, apoiando-o e, eventualmente, ganhando um cargo ao seu lado em Washington. Quando foi eleito, no entanto, percebeu que não tinha ido tão bem com as mulheres no geral e, por causa disso, não podia cumprir sua promessa e dar o cargo para Schlafly. Ele tinha que fazer emendas com as mulheres que lutavam a favor do ERA e por isso colocou Jeane Kirkpatrick no cargo que antes era designado para ela. Kirkpatrick era a favor da ratificação do ERA, mas ficou conhecida por sua campanha anticomunista na administração de Reagan (a ironia da “feminista anticomunista” não passou despercebida para absolutamente ninguém).

Outra ironia (nem um pouco) sutil da narrativa é que, logo após receber a notícia de que não iria trabalhar na Casa Branca, Phyllis acaba sentada na sua mesa de jantar, cortando vegetais para preparar a comida para sua família. Para quem lutou tanto para que as mulheres ficassem dentro de casa, nada mais justo de que esse tenha sido o seu destino. O que não é completamente verdade, já que depois ela continuou a espalhar sua palavra preconceituosa por meio de livros conservadores (inclusive, seu último trabalho antes de morrer foi defendendo a eleição de Donald Trump). Mas, naquele pequeno e último momento, é satisfatório ver ela exatamente onde ela lutou para permanecer.

Os momentos finais de Mrs. America são compostos por imagens das mulheres que comandaram a narrativa dos nove episódios e a luta para aprovar o ERA nos cinquenta estados norte-americanos, algo que se estendeu até os dias atuais. O último estado a passar a medida foi Virgínia, em 15 de janeiro de 2020. Mas por quê, afinal, nós, mulheres brasileiras, nos interessaríamos por ver uma série que fala sobre um feminismo que está tão enraizado na cultura estadunidense? No meu caso, o seriado me lembrou de várias coisas importantes. Me lembrou porque entrei no movimento feminista e porque me afastei dos últimos anos para cá.

Já vi muitas pessoas falando que Mrs. America é uma ode ao feminismo, mas não concordo. A produção, na verdade, mostra ele como é. Apesar dos defeitos e do tempo absurdo que a obra passa tentando humanizar Schlafly, ela também mostra os bastidores do movimento e como as maquinações são feitas. Uma coisa que sempre me incomodou na cultura pop é que uma revolução raramente é explorada por completo. Geralmente, o momento que catalisa as mudanças é algo bem retratado, mas nunca a forma como as coisas realmente acontecem depois do início de tudo, quando as coisas mudam. Revoluções não são feitas de um dia para o outro, e nada mais pertinente do que uma série como Mrs. America para mostrar exatamente isso.

Mrs. America me lembrou de que o feminismo também é, de certa forma, excludente. O feminismo é branco, e durante muito tempo excluiu mulheres lésbicas (como a própria Betty Friedan fez) e mulheres negras, sem falar em mulheres transgênero, que são constantemente marginalizadas dentro e fora do movimento. Ao resolver mostrar essa falha como algo que existe, e não simplesmente ignorá-la, como muitas obras que exploram o feminismo tentam fazer, a série ganha pontos e triunfa. E é sempre bom lembrar que:

“Não sou livre enquanto outra mulher for prisioneira, mesmo que as correntes dela sejam diferentes das minhas.” 

Com um elenco enorme e cheios dos melhores talentos da TV (e até mesmo do cinema), Mrs. America é uma série impecável na parte técnica. A fotografia é parte essencial da narrativa, facilitando a imersão naquela época, e ao ver a abertura — a Sinfonia Nº 5 de Beethoven misturada com o melhor do estilo disco — é possível perceber a mistura de revolução e conservadorismo que está presente em cada um dos momentos. É uma obra sobre tentar entender o que mudou daquela época para cá e descobrir as limitações que o feminismo ainda apresenta, tentando moldá-lo para os tempos atuais, de forma mais inclusiva e satisfatória. Mas mais do que isso, para mim, é sobre todas as histórias que o feminismo nunca pode esquecer: é sobre as histórias de Shirley Chisholm, Gloria Steinem, Betty Friedan e os papéis que elas desempenharam (ou não) na revolução. É um aviso para nunca esquecermos figuras como Phyllis Schlafly, que parecem estar presentes em cada esquina como uma ideia mais absurda e prejudicial do que a outra e ganham cada vez mais espaço na mídia. Ao mesmo tempo que é sobre Alice McCray, uma mulher criada para representar o comum e aqueles que não estão no centro de tudo, mas que se sentia como o nada.

Não sei quais são os planos para a série, ou se uma segunda temporada é considerada pela FX, mas seria interessante ver a narrativa mudar e se adaptar de maneira a explorar outras ativistas importantes como bell hooksAngela Davis, se afastando cada vez mais do âmbito conservador, tão impregnado na realidade brasileira quanto na norte-americana.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

1 comentário