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O que aprendemos com o filme Paternidade?

Com a aproximação do Dia dos Pais as reflexões sobre paternidade, tanto na ausência quanto na presença, tomam conta da publicidade, das plataformas de conteúdo e das discussões sociais. Ainda que seja um tema sensível naturalmente, a situação da pandemia ampliou a complexidade, em especial quando se leva em conta os altos índices de adoecimento, internações e falecimentos em todo o país.

Atenção: este texto contém spoilers!

Em meio a um cenário caótico e sem grandes esperanças, a Netflix produziu e distribuiu o filme Paternidade, com estreia na plataforma no dia 19 de junho de 2021. Apesar da distância com o feriado, o que parece uma estratégia inteligente para divulgação posterior, a obra apresenta um enredo repleto de lições e reflexões sobre paternidade, principalmente a paternidade de homens negros e a influência na formação de mulheres negras.

A princípio, o filme apresenta Matt Logelin (Kevin Hart) e a esposa Liz (Deborah Ayorinde) nos últimos dias da gestação da primeira filha do casal. Logo em seguida ao nascimento de Maddy (Melody Hurd), a esposa do protagonista sofre de uma grave embolia pulmonar e falece ainda no hospital. Diante do choque, Matt vê-se apoiado pela sua família e a de Liz, mas com a missão de criar a filha sem nenhuma experiência anterior com a paternidade.

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E é assim que, ao longo da produção, vemos o protagonista lidar com incontáveis dificuldades. Por um lado, a pressão familiar para que ele abandone a vida em Los Angeles e retorne para a cidade natal, onde ambas famílias poderão dar o suporte necessário na formação de Maddy e, por outro, a dificuldade de equilibrar a profissão que exige constante atenção enquanto atende às necessidades básicas da filha sem entender ao certo como lidar com a realidade de criar uma pessoa.

Mais ainda, encontramos em Matt a figura de um homem extremamente amoroso, dedicado em todas as áreas que se compromete a participar e presente apesar da agenda cheia. Ainda assim o vemos como um protagonista em conflito, que lida com o luto devido a perda da esposa na medida em que a vida continua acontecendo, sem dar-lhe uma pausa para processar a reviravolta que o aconteceu.  Desse modo, a primeira parte do filme mostra os esforços que ele realiza para criar Maddy enquanto bebê. Nesse contexto, os desafios de entender o que significa cada choro, como lidar com a troca de fraldas, como adaptar o ambiente em casa para as necessidades da criança e afins. Curiosamente, essa etapa da história apresenta uma cena interessante, onde Matt busca um grupo de pais, aqui lê-se no inglês “parents”, abarcando pais e mães, para conseguir fazer com que um dos choros incessantes de sua filha pare.

Contudo, ao chegar na reunião, o protagonista encontra um conjunto de mulheres discutindo sobre a rotina tranquilamente, sem nenhum homem além dele na sala. Primeiramente, Matt lida com a negação das participantes em aceitá-lo como membro, ainda que a identificação da reunião diga “pais”, ou seja, pais e mães, e não somente mães. Como consequência, vê-se uma discussão sobre o lugar do pai no processo do desenvolvimento infantil. Basicamente, entende-se que somente mães devam ocupar essas reuniões e espaços, demonstrando interesse e assumindo a responsabilidade do cuidado filial. O diálogo que o protagonista tem com as personagens desperta a reflexão mais ampla não somente dos direitos, mas também dos deveres dos pais nesses mesmos aspectos.

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Ademais, é interessante observar como o filme aborda a presença da paternidade em espaços majoritariamente maternos, que no geral surgem por meio de uma imposição social, e não uma escolha. Ainda que no filme a ação surja em decorrência de uma tragédia, com o falecimento da esposa de Matt, perceber o movimento do protagonista em ocupar a função dupla e reivindicar as responsabilidades e dificuldades como parte do processo cria uma importante reflexão sobre como socializamos a paternidade.

Na sequência, a segunda parte do filme apresenta Maddy com um pouco mais de idade, mas ainda na fase da infância. Nesse momento, conhecemos sua personalidade, interesses, gostos e, acima de tudo, a relação com seu pai. Desde preparar o café dele pela manhã até acordá-lo e ter certeza de que a casa está organizada, estabelece-se uma relação de coexistência entre ambos, marcada principalmente pela amizade e companheirismo. Percebemos, durante essas cenas, como Matt vestiu a camisa da paternidade ao contrário das expectativas familiares. Além de incluir Maddy no jogo de pôquer com os amigos, onde apostam-se biscoitos e joga-se amigavelmente, o protagonista vai além para permitir que a filha faça as próprias escolhas, participe de todas as etapas e esteja por dentro de qualquer acontecimento relevante na vida familiar.

A partir desse momento em Paternidade, outros debates surgem, como o retorno dos relacionamentos amorosos à vida de Matt, a dificuldade de compreender a filha em seu desenvolvimento, o sentimento de culpa por não cumprir o papel de um pai perfeito e até mesmo a vergonha em apoiar-se na própria família para lidar com a situação. Em contrapartida, há uma boa dose de cenas cômicas e de aquecer o coração, onde o protagonista divide parte do seu universo com a filha, mas também participa do dela ao deixá-la escolher roupas masculinas porque acha mais confortável ou atender aos desejos infantis apesar da rotina atarefada.

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Dentre os pontos interessantes abordados no filme encontra-se o incentivo da autonomia por parte de Matt em relação à Maddy. Em outras palavras, Matt apoia as dúvidas, vontades e interesses da filha, defendendo-a em seus debates e incentivando-a a pensar mais profundamente sobre seus sentimentos. Sobretudo, observar como ambos colocam a comunicação como base para a relação faz com que reflitamos sobre a maneira com que vemos as crianças. Comumente, observa-se familiares e profissionais entenderem a infância como um período de incapacidade, ao invés de potencialidade. Por meio da dinâmica entre Matt e Maddy vemos uma coexistência em desenvolvimento, com momentos saudáveis e momentos dramáticos, mas em constante atividade e transformação. Desse modo, percebe-se a construção de Maddy enquanto uma mulher negra dentro de um lar onde questionamentos e a independência são incentivados a cada passo.

Além disso, por meio do relacionamento de Maddy com a namorada de seu pai ocorre uma quebra da narrativa de que mulheres que se relacionam com homens divorciados ou com filhos devem ocupar o lugar da mãe, assumindo o posto de mulher da casa automaticamente. Em primeiro lugar, Matt permanece por algum tempo tentando equilibrar a vida e o relacionamento amoroso, mas, eventualmente, condições exteriores exigem uma mudança e amadurecimento. Contudo, em nenhum momento o vemos exigindo que sua namorada ocupe esse espaço ou vá além do relacionamento de ambos para agir como mãe de Maddy.

Percebe-se uma construção gradativa, ainda que levemente dramática e compatível com a situação familiar, do relacionamento de Maddy e a namorada de Matt. Em especial, a compreensão de ambas enquanto mulheres negras em uma relação com Matt transforma o desenvolvimento delas em algo bonito de se ver. Ainda que não haja um diálogo sobre a namorada ocupando o lugar de Liz, a alteração no ritmo da família, as adaptações e amadurecimentos desse processo mostram as qualidades da educação familiar promovida por Matt, bem como da relação dele com sua filha. Ademais, permite uma aproximação natural entre os personagens, na medida em que todos se estabelecem na nova configuração.

Ainda que hajam muitas cenas simbólicas nessa etapa do filme, uma das minhas favoritas com certeza envolve o momento em que Matt tenta arrumar o cabelo de Maddy para a escola. Em especial, essa cena aborda um ponto da parentalidade negra, e também da parentalidade interracial, onde há a presença de um pai branco e uma filha negra. Antes de mais nada, houve uma intensa identificação da minha parte, como alguém que sofreu na mão do pai para conseguir ir para a escola com um simples coque. Mais ainda, a cena dialoga sobre os esforços de Matt para atender as necessidades de Maddy, até mesmo a estética. Porém, também refere-se ao espaço que ele ocupa na ausência da mãe da personagem, pois comumente esses cuidados estão socialmente designados às mulheres. Com muita semelhança ao curta Hair Love, de Matthew A. Cherry, vencedor do Oscar de Melhor Curta em 2020, os poucos minutos dessa situação mostram características culturais, sociais e familiares que vão além dos personagens e alcançam toda uma comunidade.

Mesmo que Matt e Maddy não representem a totalidade da parentalidade e filiação na negritude, das famílias negras que existem no mundo, ambos são uma importante parcela. No geral, as pequenas cenas, os detalhes e momentos que compõem a relação de ambos dialogam com a experiência de outras famílias. Como sempre, precisa-se reforçar nas produções culturais que envolvem outras etnias e culturas que não existe somente uma forma de ser negro, pois trata-se de uma identidade múltipla, diversa e extremamente ampla.

Entretanto, no que refere-se à construção narrativa de Paternidade, o filme vai além das expectativas por fazer o que alguns críticos chamaram de “o mínimo”, mas para o público representado significa muito, principalmente diante da pobreza e escassez de representatividade nesse aspecto. Sobretudo, a fuga de estereótipos, as discussões emocionais e psicológicas, as referências culturais e o equilíbrio entre a emoção e a diversão fazem desse filme uma excelente escolha, transformando um assunto raramente abordado em parte da realidade. Apesar de não ser um filme perfeito, pois há seus excessos e faltas, a obra nos permite refletir sobre uma outra faceta da paternidade com a medida certa entre comédia e drama. Seja em um sábado de filme e pipoca com a família ou até mesmo para um debate aprofundado, a atuação de Kevin Hart apresenta histórias de pessoas reais por meio da ficção, criando não somente o reconhecimento urgente das questões ímpares à negritude e aos pais negros como também a identificação por meio da sensibilidade com o tema da morte, do luto e da perda.

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